The Forest City
69 Capítulo 69 - Cansada
Notas iniciais
Enganada estava Selene, achando que chegaria em casa e poderia dormir.
Iria e Yukina estavam na sala, zapeando pelos canais de TV enquanto esperavam por algo.
Ou por alguém.
Ou por mim.
Revirei os olhos e bufei.
— Selene! — Yukina chamou quando fiz menção de subir as escadas e ignorá-las.
Me virei e arqueei a sobrancelha.
Ela jogou o controle no sofá e levantou as mãos ao alto, em gesto de desistência.
— O que aconteceu?! — ela perguntou, com a voz fina.
— Estou cansada — suspiro — preciso ficar um tempo sozinha.
— Sabe do que Yukina está falando — Iria revirou os olhos — não banque a desentendida.
— E desde quando você se interessa pela minha vida particular? — zombei.
— Desde quando te devo MINHA vida — ela rebateu, rosnando — infelizmente.
Relaxei os ombros e suspirei.
— Não vou mais correr atrás dele — confessei — cansa, e é humilhante.
Deixei de lado a parte em que eu, todos os dias, abria a janela para ver se Selene-deusa entrava no meu quarto.
“Esperança é a ultima que morre”, pensava eu.
Mas tudo o que eu via era a luz prateada da lua banhando o cômodo.
E eu me sentia solitária.
Vazia.
Ao menos quando eu era “humana”, nunca tinha me sentido vazia ou sozinha.
Já tinha pensado sobre Daniel e eu.
Foi egoísmo forçá-lo a ficar na forma humana só pra eu poder estar por perto.
E seria um egoísmo maior ralar tanto para que ele voltasse para mim.
— Eu sou uma droga de uma egoísta — fechei os olhos, com desgosto — deixe que ele tenha vida própria.
Iria revirou os olhos e disparou a falar sobre honra: desistentes não a possuem.
Ignorei a lobisomem e sorri de forma triste para Yukina, que me encarava com pesar e compreensão no olhar.
— Por que não pousam aqui? — perguntei, interrompendo a súbita inspiração de Iria para sermões.
— Pensei que não fosse convidar logo — ela bufou.
As duas sorriram e se levantaram do sofá, correndo atrás de mim rumo ao quarto.
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“Tem certeza disso?”, ouvi a voz de Yukina perguntar na minha mente.
Ela sabia que eu não estava conseguindo dormir, tanto quanto eu sabia que ela sofria de insônia.
Seus olhos verdes e gatunos brilhavam na escuridão do quarto.
“Tenho”, respondi, mentalmente também.
“Mas você está sofrendo”, ela insistiu.
Revirei os olhos.
“Pare de ler minha aura, já sabe como ela é toda fodida”.
“Eu quero que seja feliz”, Yukina ignorou meu comentário anterior.
Suspirei e encarei a japonesa baixinha.
“Eu quero que ele seja feliz, comigo de preferência, mas se for pra forçar tanto […]”, respirei fundo.
“[...] então prefiro que ele saia da minha vida, ou o contrário”.
Os olhos de Yukina piscaram, surpresos.
— O que está sugerindo com isso? — ela disse, em voz alta.
Yukina se sentou, indignada.
— Eu vou passar um tempo com a minha mãe — respondi de olhos fechados e com a voz baixa.
A expressão de incredulidade e mágoa de Yukina me pegou desprevenida.
— Mas isso é um absurdo, não pode fazer isso comigo — ela disse, severa, mas com os lábios tremendo.
— Vai ser só um tempo — disse eu em tom de promessa.
— Se é pra se distanciar disso tudo, eu vou com você — ela tentou — vamos pra Cidade Floresta e eu te mostro tudo!
Fechei os olhos e suspirei.
— Vou pensar — forjei um sorriso para ela.
Yukina fungou e se deitou.
Dessa vez, virada de costas para mim.
E eu sinto que estou só perdendo tudo.
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Acordei e não vi sinal de Yukina ou Iria pela casa.
Meu quarto estava perfeitamente arrumado, o que me causava sensação de melancolia das mais profundas.
Desci as escadas a passos lentos e arrastados.
— Papai — chamei.
Esfreguei os olhos e prendi o cabelo num coque mal-feito.
— Pai — tornei a chamar.
— Estou aqui! — ele grita da cozinha.
— Yukina e Iria… — comecei, mas ele me cortou.
— Se foram logo que amanheceu — disse — a japonesa recebeu uma ligação urgente e saiu às pressas.
Assenti e mordi o lábio inferior.
Ligação urgente era uma ova.
Ela estava com raiva de mim, e realmente tinha motivos para isso.
— Pai — chamei mais uma vez.
— Sim, querida? — ele me olhou por cima da pilha de roupa lavada.
Senti vontade de rir.
Meu pai era um demônio que fazia serviços domésticos?
Oh, sim!
“Patético, Selene, não o subestime”, a voz tornou a zombar.
A ignorei.
— Vou passar um tempo com Solara — anunciei — algumas semanas… Eu não sei.
Ele assentiu, compreensivo.
Não faláramos uma palavra sobre a outra vida que levávamos, mas ambos estávamos cientes de que ela existia.
— Tome cuidado, minha princesa — ele largou as roupas e me deu um beijo na testa.
Sorri e o abracei.
Saí da casa, sem me preocupar em carregar pertences.
Tudo o que eu precisava — teoricamente — estava no meu dedo anelar, como uma aliança com a morte.
Meu olho latejava e piorava com a luz do dia que teimava em exibir o sol escaldante no céu, mas ignorei.
Procurei algum lugar isolado na floresta, tendo o cuidado de não ir longe demais para não me perder.
Sabia muito bem que embora “conhecesse” a mata toda, na verdade o que eu sabia sobre ela era o que a barreira ilusória para humanos permitia que eu soubesse.
Bom, pelo menos fora o que Yukina me dissera certa vez.
Respirei fundo e tentei chamar Solara por telepatia ou seja lá o que desse certo.
Desde que ela aparecesse, já estava tudo bem.
Eu precisava ir para o Reino dos Elfos, mas precisava dela para me levar até lá, uma vez que eu não fazia ideia de qual era o caminho.
Se é que existia tal caminho.
— Suas tentativas são engraçadas — a voz tilintante soou atrás de mim.
Revirei os olhos.
— Mas deram certo — me defendi.
— Eu estava por perto — ela deu de ombros — o que quer?
— Quero ver Adalind — fui direto ao ponto.
Solara franziu o cenho, surpresa.
— Por que quer ver mamãe? — questionou, desconfiada.
— Preciso ficar longe daqui por um tempo, quero saber se ela me deixaria ficar lá — expliquei.
— Não precisa da permissão dela pra ir ao nosso reino, você é a princesa de lá — Solara bufou.
Abri a boca para protestar, mas minha suposta irmã gêmea agarrou minha mão e abriu um sorriso travesso.
— Vem! — riu e uma explosão de tons de amarelo invadiu meus olhos.
Pisquei várias vezes para afastar a sensação de vertigem e minha aversão àquela cor horrorosa.
— Arh! — tateei em busca de Solara — nunca mais faça isso!
— Então aprenda como vir sozinha — ela se desvencilhou de mim — venha, ela já deve saber que está aqui.
Franzi o cenho e a segui.
Tentei não dar muita atenção à paisagem maravilhosa que me cercava.
Eu teria tempo para aproveitá-la depois.
Mas era impossível não notar os pilares antigos e as ruínas que aos meus olhos eram perfeitas ao nosso redor.
Passamos por um lago grande. Ele refletia perfeitamente o azul do céu, mas nenhuma criatura viva circundava por lá.
Senti um dejà vu e apertei o passo, ignorando o arrepio na espinha.
— Foi ali que nascemos — Solara explicou, notando meu desconforto.
— Num lago? — tentei soar indignada.
Mas eu sabia que ela falava a verdade.
O lago congelado.
A mulher de cabelos quase brancos sangrando no gelo.
O demônio de olhos vermelhos abrindo sua barriga e tirando de lá duas crianças idênticas.
Ele me escolhendo.
— Selene! — Solara acenou frente ao meu rosto, tentando me tirar das lembranças — chegamos.
Encarei o castelo, não deixando de notar que ficava não muito longe do tal lago.
Já estava escurecendo naquele mundo.
Bufei.
— Não quero que ela pense que estou aqui para irmos às compras, nem nada — resmunguei.
— Eu sei que não — uma voz gélida soou atrás de mim — de qualquer forma, eu recusaria a oferta.
Me virei e abri um sorriso falso para a mulher com heterocromia, a dona da voz.
— Olá, Adalind — cumprimentei.
— Vejo que continua… humana — ela disse, com desdém na ultima palavra.
— Você devia ver as vantagens nisso — pisquei, provocando-a.
Adalind se calou e adentrou os portões do castelo.
Ela estava completamente diferente de quando procurara meu pai.
Resolvi me calar e não dizer nada em relação àquilo.
Do que ela queria me proteger, afinal?
Da sua voz fria e perfuradora?
Revirei os olhos para mim mesma.
“Devia deixar de ser egocentrista”, a voz disse na minha mente.
“Cale a boca”, resmunguei.
— Procure não ir muito longe do castelo, caso queira permanecer viva — Adalind avisou, enquanto subíamos alguns lances de escada.
Pensei em dizer à ela que no mundo dos humanos eles vendiam elevadores.
Mas me contive.
— Algumas rebeliões ainda não se aquietaram, e algumas outras raças vieram causar conflitos aqui — explicou — portanto, não vá muito longe.
— Ok mãezona — abri a porta do quarto.
Era o mesmo que eu havia ficado na vez anterior.
Os mesmos móveis estavam ali, inclusive as mesmas empregadas.
Sorri para ambas, e elas retribuíram de forma tímida.
— Saiam — Adalind ordenou.
Obviamente, elas obedeceram.
Adalind esperou alguns minutos para trancar a porta do quarto. Cruzou os braços sobre o peito e me encarou.
— O que está fazendo aqui? — perguntou.
— Pensei que eu seria bem-vinda — respondi ironicamente.
— O que está fazendo aqui, Selene? — ela repetiu a pergunta, agora um pouco nervosa.
Suspiro e me jogo sentada na cama fofa e convidativa.
— Quero dar um tempo do mundo dos humanos — respondi.
— Você está fugindo — ela concluiu, com um sorriso zombeteiro — Selene Reed está fugindo.
Revirei os olhos.
— Não se chama “fugir” — retruquei — e sim “esfriar a cabeça”.
— O seu pai te deu uma vida — ela adota uma expressão séria — não a desperdice.
— Nada está sendo desperdiçado, estou curtindo a faculdade, sabe como é, as farras, baladas e bebedeiras… — menti.
— Eu me refiro ao seu namoro destinado ao fracasso — ela me cortou.
A encarei inexpressiva.
— Não há mais tempo a perder com isso — finalizei.
Ela soltou o ar que nenhuma de nós notou que segurava e assentiu.
— Não se preocupe, voltarei amanhã — disse eu.
Tirei meus sapatos e me deitei na cama.
Adormeci fácil, apesar do "fuso horário". Eu estava mais do que cansada.
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