The Forest City
46 Capítulo 46 - Beijada
Acordei com meu pai resmungando e torcendo o nariz para a baderna do meu quarto.
Yukina se sobressaltou e se colocou de pé assim que notou a presença do mesmo.
– Bom dia, senhor Red — ela disse numa voz arrastada e um sorriso sonolento.
– Bom dia — ele respondeu, piscando confuso — o que aconteceu aqui?
Me sentei lentamente, sentindo dores no corpo. Nem eu me lembrava do que acontecera.
– Noite de formatura merece uma certa bagunça, não seja careta — Yukina torceu o nariz, fez um biquinho manhoso e cruzou os braços.
Meu pai franziu o cenho, deu de ombros e apontou para minha mala num canto do quarto.
– Soube que vai viajar — ele murmurou contrariado — então terminei de arrumar suas coisas.
De repente senti um peso na consciência. Eu não avisara meu pai de que viajaria. Como ele sabia?
– Aquele Seth ligou avisando já faz alguns dias, eu esperava que você me contasse mas eu entendo que anda ocupada — ele continuou e abriu um sorriso tentando parecer animado.
– Papai… — chamei, me sentindo a pior filha do mundo — eu volto logo, prometo.
Eu sorri para ele, que dessa vez retribuiu sinceramente.
– Eu sei que sim — respondeu e me deu um beijo no topo da cabeça.
Assim que meu pai saiu do quarto, Yukina agarrou o relógio do criado-mudo em forma de Ben 10 com desprezo e arregalou os olhos, surtando ao ver que horas eram.
– Levanta — ela gritou e jogou minhas cobertas no chão — agora!
Me sobressaltei com a urgência na voz dela e encarei o Ben-relógio. Já eram dez da manhã.
Yukina jogava roupas pra todo lado com euforia e pressa. Franzi o cenho e me perguntei o que ela estava fazendo e já ia pronunciar a dúvida em voz alta quando ela se levantou ofegante e com um olhar satisfeito no rosto disse:
– Aqui, vista isso.
Desço meu olhar para as peças de roupa que ela segurava. Um macacão jeans destruído com uma regata rosa.
– Não acredito que fez uma zona no meu quarto pra procurar roupa — disse eu indignada e tirando as duas peças da mão dela, que bufou.
– Não achou que eu ia deixar você ir de pijama, certo? — ela perguntou irritada e sarcástica.
Revirei os olhos e me troquei ali mesmo. Segundos depois a porta abriu e um Daniel impaciente apareceu. Abriu a boca pra dizer algo, parecendo menos irritado ao me ver, mas deixou pra lá.
– Já estamos indo! — Yukina bufou e bateu o pé no chão.
Penteei meus cabelos com a mão e a japonesa baixinha sumiu dentro do banheiro. Eu podia ouvir ela remexendo em embalagens e mais embalagens, além de um zíper se fechando.
Ela voltou para o quarto e jogou uma necessaire dentro da mala, finalmente parecendo ter terminado.
– Vamos — resmunguei enquanto calçava um par de tênis.
Daniel me segurou quando passei pela porta e quase tropecei indo de cara para o chão.
– Ops — resmunguei tentando parecer mal humorada e falhando em esconder o vermelhão à la Sardene.
Daniel sorriu e não me soltou até estarmos no andar de baixo, para que eu pudesse me despedir do meu pai.
– Cuide-se — ele disse em tom severo — e não demore voltar pra casa.
– Pode deixar — eu respondi sorrindo e o abracei.
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– Bem vindas ao meu pequeno império — Seth apareceu do nada em cima do iate com um óculos de sol espelhado no rosto.
Semicerrei os olhos e me lembrei da vez em que passei um fim de semana no Brasil com meu pai e vi algumas pessoas usarem algo parecido.
– Sobe logo, Sel! — ouvi uma voz familiar e alegre me chamar de algum lugar no iate.
Localizei Solara com um biquíni amarelo que combinava perfeitamente com sua pele bronzeada. Revirei os olhos e me xinguei mentalmente por quase ficar triste ao me imaginar pálida e sem graça ao lado dela. E por ter flashes de uma Solara beijando Seth.
Massageei minhas têmporas, tentando esquecer e subi no iate protestando contra Daniel, que tentava me ajudar.
– Não sou nenhuma inválida, obrigada — resmunguei, corando com a atenção demasiada que ele estava me dando naquele dia.
Ignorando meu comentário, Daniel praticamente me carregou para dentro e através da minha cabeleira loura que se esparramou no meu rosto, pude ver Yukina fazer um “troféu joínha” enquanto mexia a boca dizendo “é isso aí!”
Bufei e assoprei os fios do meu rosto, sem sucesso. Estava com as mãos ocupada segurando o pescoço de Daniel, embora eu soubesse perfeitamente de que ele jamais me deixaria cair.
– Aqui, eu arrumo — ele resmungou e colocou minha franja atrás da orelha.
– Obrigada — murmurei e fui depositada numa cadeira feito criança.
– Viagem ao Caribe com minha irmãzinha! — Solara pulou e estendeu um copo de suco de laranja em minha direção — ressaca?
A encarei sem expressão alguma no rosto. Ela não tinha ido na festa de formatura, como sabia que eu estava de ressaca?
A expressão no rosto de Solara dizia que ela sabia exatamente o que eu fizera a noite toda e o que eu vira. Arqueei uma sobrancelha como quem dizia “sério que está aqui pela irmãzinha?”. Ela sorriu. Era um “conversamos depois”.
Tirei o copo de suas mãos e torci o nariz. Não gostava do fato de Solara saber praticamente tudo sobre mim e eu, nada sobre ela. Era frustrante.
Bebi o suco e logo Yukina me arrastou para dentro da cabine, expulsando alguém que eu ainda não tinha visto de lá.
– Considere-se com sorte de ter vindo! — ela ralhou e uma morena com sorriso presunçoso saiu da cabine.
Era Iria. Estava com um biquíni azul que a deixava ainda mais linda e aquilo de alguma forma me irritou muito. Claro que a lobisomem não deixou essa passar.
– Ora, não vai colocar roupa de banho? — ela perguntou fingindo estar interessada — talvez você consiga pegar um bronze.
Antes que eu pudesse respondê-la, ela saiu rindo para onde eu sabia que Daniel estava.
– Vadia — soltei sem querer.
Os lábios de Yukina se abriram, formando um perfeito “O”.
– Pensei que não tivesse ciúmes dela! — ela tentou falar baixo, mas exclamou.
Revirei os olhos.
– Me poupe — resmunguei — não é como se eu tivesse com medo de perder pra ela nem nada.
Cruzei os braços e revirei os olhos. Depois percebi o quão infantil foi aquilo e o quanto o reverso daquilo era óbvio.
Yukina estava rolando de dar risada.
– Vem, menina da lua — ela me puxou ainda gargalhando — vamos mostrar quem é que tem poder.
Hesitante, fechei a porta da cabine. Yukina abriu uma das minhas malas parecendo saber perfeitamente onde tudo se encontrava. De lá, tirou um biquíni preto e prata.
– Por que eu vestiria ISSO? — perguntei segurando a peça com a ponta dos dedos.
Yukina bufou e bateu o pé.
– Larga de frescura, Selene — ela sibilou — vai ficar muito bom.
Arqueei uma sobrancelha e alternei o olhar entre ela e o biquíni várias vezes. Mas quando vi que os olhos dela se tornavam verdes e brilhantes devido à impaciência, levantei as mãos para cima em forma de rendição e o vesti no banheiro.
– Que demora é essa?! — ela chamou irritada, batendo na porta enquanto eu me encarava no espelho.
Realmente tinha ficado muito bom. Se fosse um biquíni completamente preto, simplesmente destacaria ainda mais a minha palidez. Mas um dos lados era prateado, o que combinava perfeitamente com os diferentes tons dos meus cabelos e até mesmo me deixava mais bonita. Destacava meu corpo e ofuscava meus olhos bicolores.
O que era desconcertante. Daniel estaria lá.
Abri a porta hesitante e joguei os cabelos para frente, tentando esconder um pouco.
Yukina batia o pé impacientemente quando apareci diante de seu campo de visão e devo dizer que jamais em toda a minha vida, vi expressão mais surpresa.
– Eu vou tirar — eu disse envergonhada e já estava fechando a porta quando ela começou a gritar.
– DANIEL! DANIEL! — ela gritava histericamente.
Em questão de segundos, ele apareceu. Andou feito um borrão pela cabine até chegar onde estávamos e eu não sabia para onde olhar. Onde enfiar a minha cara.
– O que foi? — ele perguntou com uma ruga de preocupação na testa.
Yukina apontou para mim e Daniel encarou meus olhos sem entender o motivo da gritaria.
– Não sei — respondi.
Ele deu de ombros. Soltei a respiração que não sabia estar segurando. Aliviada, por Daniel não ter percebido que eu estava de biquíni. Já ia fechando a porta novamente, mas o pé dele obstruiu a passagem.
– Agora eu entendo o motivo da gritaria — ele resmungou enquanto me olhava dos pés à cabeça.
Arregalei os olhos e empurrei a porta com força. Mas apesar de eu estar muito mais forte que uma humana, não era páreo para um dragão. Ainda.
– Daniel, solta! — pedi com um olhar suplicante.
– Solto sim — ele concordou.
Devido à resposta que recebi, fiquei surpresa e afrouxei o empurrão na porta. Daniel entrou num piscar de olhos e fechou a porta atrás de si.
Seu olhar estava dourado e eu não sabia o que pensar. Daniel parecia ter gostado do que via, e eu gostava muito disso, mas por que ele tinha que me fazer ficar vermelha daquele jeito?
Andei dois passos para trás antes de bater as costas no boxe fechado do banheiro. Abri e entrei ali dentro, mas aquele foi o meu maior erro, pois assim que fechei, Daniel pulou o boxe como se aquilo fosse natural para ele.
– Você é maluco — murmurei ficando irritada com a perseguição.
– Ninguém mandou você fazer isso comigo — ele grunhiu e eu pude ouvir um barulho nada humano vindo da garganta dele.
Como um dragão com fome.
Ele percebeu que eu tinha escutado e hesitou por um segundo, parecendo analisar se eu tinha medo. Depois de se certificar de que eu não sentia, me puxou pra mais perto e me beijou.
Ele simplesmente me beijou de forma demorada e depois se afastou com um sorriso divertido no rosto e me deixou lá, extasiada e sem saber o que fazer.
Antes de sair pela porta, ele virou para trás e disse:
– O que acha da sua vida amorosa agora, Selene?
Mas que merda. Será que todo mundo sabia o que eu pensava ou sentia?
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