The Forest City
7 Capítulo 7 - Entediada
Notas iniciais
Ele morava numa casa grande, mas simples. Não era uma oca.
Depois que fomos buscar algumas roupas para mim em casa, minha mãe ficou furiosa ao saber que eu dormiria fora. Não porque ela estava preocupada comigo, com saudades ou porque era a casa de um garoto onde eu ficaria. Mas sim porque isso seria ignorá-la e desafiá-la. Foi exatamente o que eu fiz.
O temporal que caiu logo depois refletiu bem o humor dela naquele instante.
Entramos correndo e fugindo da chuva. Eu estava tremendo de frio e o vento cortante tinha deixado minhas bochechas vermelhas. Já ele, totalmente o contrário. Daniel não respirava com dificuldade e não estava com frio. Na verdade ele estava muito quente. No sentido literal, claro.
Daniel franziu o cenho para mim, que estava encolhida e mordendo o lábio inferior para que ele parasse de tremer.
– Tome um banho quente — disse com voz rouca e me levou até um banheiro pequeno.
Assenti e não demorei a fazer o que ele disse.
Quando sai do banheiro, ele estava seco, trocado e sentado no sofá preguiçosamente.
– Você é bem molenga — resmungou.
Revirei os olhos e me sentei também. Ele jogou uma manta para mim e ela já estava quente. Como se ele estivesse com ela a muito tempo. Abracei meus joelhos e me embrulhei.
– Obrigada por me deixar ficar aqui — agradeci com a voz abafada pelos braços.
Daniel resmungou algo inaldível e depois suspirou.
– Antes que estranhe algo ou me pergunte, eu vivo sozinho — disse ele depois de minutos de silêncio.
Assenti. Eu já tinha percebido, de alguma forma. Ele não parecia ser do tipo que convivesse com a família. Se é que ele tinha família.
Tudo ali tinha utilidade para algo e feito de madeira, com detalhes em dourado. As únicas decorações pela casa (ao menos pelos cômodos que vi), eram estatuetas de madeira e quadros étnicos. Algumas coisas tinham símbolos de dragões e basiliscos, mas ficavam praticamente escondidas. Tudo surpreendentemente limpo e brilhoso.
Um clarão iluminou a casa, seguido por um trovão. Contei quantos trovões ribombavam no céu e senti o sono chegar, mas continuei contando. "Acho que são ovelhas que se contam...", pensei antes de cair no sono.
Podia imaginar perfeitamente o sol lá fora lutando para que alguns de seus raios atravessassem as espessas nuvens. Mas ele estava perdendo... E a janela estava furiosamente salpicada de gotas de chuva como pequenos diamantes.
Me levantei sem reconhecer o lugar onde estava. Eu dormira na sala, mas estava num quarto pequeno, muito bem organizado. A decoração era completamente diferente do restante da casa. Tudo era branco com detalhes em prata e lilás. Havia uma lua gigante no teto e me veio à mente que seria muito legal se ao apagar a luz, ela brilhasse. Eu gostava da lua.
Esfreguei meus olhos e de repente, ou melhor, finalmente me toquei de que não estava em casa. Procurei meu celular pela cama, sem nenhum sinal dele. Logo a porta se abriu revelando um Daniel muito preguiçoso, sonolento e de cabelos desgrenhados. Você diria que um cara com cabelo grande ficaria muito feio quando desgrenhado. Mas ele não estava.
– Sua mochila está embaixo da cama — explicou ele — seu celular está na sala.
Desci bocejando e fui conferir minha mala. Estava lá. A puxei, escolhi um conjunto qualquer e olhei para a porta, esperando que ele saísse.
– O quê? — ele perguntou confuso depois de alguns segundos.
– Eu quero me trocar — respondi soando óbvia.
Ele pareceu imensamente envergonhado e saiu imediatamente. Ele não devia mesmo conviver com muitas pessoas.
Me troquei e percebi que o quarto onde eu estava tinha uma suíte. Franzi o cenho me perguntando o porquê de ele me deixar num quarto assim. Dei de ombros e fiz minha higiene.
Não havia percebido o quão faminta estava até chegar na cozinha e sentir o cheiro de bacon. Aliás, não precisei chegar na cozinha para sentir o cheiro. Eu o senti só de abrir a porta do quarto, mas foi quando encontrei Daniel debruçado na mesa e comendo cinco pratos de bacon foi que entendi o motivo de todo aquele cheiro.
– Você é anormal — disse eu olhando seus pratos e me sentando na mesa.
– Você também — respondeu ele me olhando visivelmente irritado.
– Não tenho uma temperatura corporal absurdamente alta, não sou incansável e não como por cinco seres humanos. Ou mais, porque sei que você está se contendo — rebati cruzando os braços e virando a cabeça de lado.
Ele me encarou surpreso e depois se levantou para pegar mais bacon. Tentei me conter, mas não consegui. Ergui a cabeça e ri como não ria a muito tempo. Mesmo de costas, pude ver que ele também deixou escapar um sorriso. E de repente aquilo não era mais tão engraçado. Por que eu estava rindo com ele? Aliás, por que eu estava rindo?
Bufei e esfreguei o rosto tentando aliviar o sono. Um prato cheio surgiu diante de mim e meu estômago roncou como resposta. Comi o que aguentava (o que era muito pouco) em silêncio e tomei metade de um copo de suco de laranja que também surgiu na minha frente.
Daniel franziu o cenho quando deixei sobrar bacon e suco.
– Eu não como muito — respondi dando de ombros.
Não era uma mentira. Assim como eu também não queria admitir a mim mesma que ele cozinhava tão bem quanto meu pai. Ele semicerrou os olhos e me encarou por alguns segundos antes de deixar os braços caírem e suspirar.
– Então vamos pra escola, Selene — ele disse por fim.
E não podia ter dito nada melhor.
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