The First Tale

9 Capítulo 8 The Golden Warriors-2


Eu ainda caminhava ao lado de Elliot, e nós íamos, guiados por Leo, para uma grande barraca branca. Por mais ciente que eu estivesse do que eram meus pensamentos e os de Arghen, a minha atenção não saía da mente da elfa.

Acalme-se, minha irmã – falou o jovem elfo que, em muito, se parecia comigo.

Mas, se você for, aquela bruxa vai matar você! Ela está matando a mamãe! E já levou o papai, eu sei! Se você for também, Cael, e...

Não seja boba. Eu vou ajudar nossa família e você não vai ficar sozinha, eu prometo!

O jovem elfo sorria olhando para a irmã. Arghen segurava o irmão por um familiar lenço vermelho que ele tinha amarrado na cintura, tentando impedi-lo de ir.

Eu já volto – disse mantendo o sorriso ao dar as costas para a irmã mais nova, deixando seu lenço para trás, preso nas mãos da elfa.

Antes que eu pudesse testemunhar o desfecho das lembranças de Arghen, tive “meus” pensamentos interrompidos por um forte puxão no braço esquerdo que me fez cair sentado no chão. Em seguida, vi um brilhante reflexo dourado ofuscar minha visão e ouvi algo se chocando contra a terra macia da floresta ao meu lado, à direita. Quando, finalmente, consegui focar minha visão na realidade ao meu redor, pude entender o que havia acontecido.

Elliot havia me puxado pelo braço para me afastar do golpe desferido pelo homem logo ao meu lado. O garoto ainda mirava o inimigo com a expressão de surpresa estampada na face. Antes que eu pudesse reagir, a figura ao meu lado se reergueu e desenterrou a lâmina da fissura que havia criado.

Agora com minha visão mais clara e os pensamentos focados onde eu estava, analisei o sujeito. Era poucos centímetros mais baixo que eu, media 1,80 aproximadamente, e parecia um pouco mais jovem. Era loiro, os cabelos espetados e desordenados como se o vento os tivesse penteado. Tinha olhos azuis claros que expressavam firmeza enquanto nos analisava, e o olho direito era cortado por uma cicatriz que partia da testa até o fim do contorno de seu rosto. Vestia-se basicamente de branco, como fazem todos os habitantes das Cidades Douradas, exceto pela armadura de ouro, muito peculiar, pois lhe cobria só metade do corpo. Apenas ombreiras, manoplas e cobertura do lado direito. No ombro esquerdo havia o símbolo de um sol laranja desenhado a mão, sobre a capa que cobria suas vestes.

Ele brandiu a espada na minha direção: uma imensa cimitarra dourada. A fonte do brilho que eu vi tinha cerca de 1,50m de comprimento e parecia absurdamente pesada. Com a ponta da lâmina a centímetros do meu rosto, ele disse:

— Podem passar – sua voz era tão firme quanto seu olhar.

Eu não tive certeza do que o rapaz havia dito. Mesmo assim, não quis dar a ele a chance de mudar de ideia ou a mim de ouvir direito. Esquivei-me da espada e segui, junto de Leo e Elliot, adiante.

De repente, com um movimento rápido e simples, o rapaz colocou-se no meu caminho de novo. A espada mais uma vez apontava para meu rosto, ainda refletindo o sol.

— Você não, as crianças. Não há muito que eles possam fazer mesmo. Eu não vou impedi-los de passar, mas você – e aqui ele teve o cuidado de enfatizar a palavra “você” – terá de lutar, se quiser prosseguir.

A imagem do espadachim piscou e me vi de frente para o fogo mais uma vez. Arghen gritava, mas eu não sabia se estava vendo sua lembrança ou a realidade. Com os poucos segundos que tive, não pude ponderar por muito tempo. A elfa ainda corria perigo e tínhamos que salvar o líder da tribo Druida.

— Elliot, Leo, vão! Rápido, eu cuido dele – falei enquanto gesticulava para que se apressassem. – Em pouco tempo Arghen e eu estaremos com vocês, agora vão!

Os garotos concordaram em silêncio e partiram. Os dois corriam lado a lado e em pouco tempo os perdi de vista entre as árvores. Restava apenas eu e meu oponente. Puxei minha espada da bainha e a empunhei. Sem nenhum poder mágico restando, a única maneira de derrotá-lo seria armado. Não que eu gostasse da ideia, pois agora frente a frente notei que ele carregava uma segunda lâmina na cintura.

— “Não há muito que eles possam fazer mesmo”. – comecei – Não foi esse pensamento que fez você deixá-los ir, foi?

O jovem espadachim cravou a ponta da espada no chão e, apoiando-se no cabo, olhou-me prestando atenção, como se esperasse aquela reação de mim. Tirei uma das mãos do cabo da espada, arrumei os óculos com o indicador e continuei:

— Você não luta com crianças, não é? São ordens ou orgulho?

— Sei que você sabe fazer magias. Não é? – perguntou, ignorando minhas perguntas.

— Claro, mas no que isso interfere?

— Tenho orgulho das minhas habilidades como espadachim e acredito que a melhor maneira de aprimorá-las é usando-as. Notei que você carrega apenas esta arma, proponho que nós lutemos usando somente uma espada. – ele falava enquanto insinuava sua segunda lâmina com a mão esquerda. – Eu vou usar apenas esta espada e você usará somente a sua.

Eu não pude conter-me e sorri, apesar de temer que isso me entregasse. A proposta do rapaz não podia ser mais conveniente: sem nenhum poder mágico me restando, lutar apenas com a espada já era minha única opção, e agora eu tinha a garantia de que meu oponente também usaria apenas uma espada.

— Uma espada? – indaguei – Parece justo.

— Theol, Guerreiro Dourado e espadachim aprendiz da Rainha Aurel.

Eu gostaria de estar tão calmo quanto aparentava. Minhas habilidades como espadachim eram razoáveis, mas não posso chamá-las de meu orgulho. Meu orgulho são minhas histórias, mas eu duvido que contá-las naquele momento pudesse me ajudar.

— Nicholas, contador de histórias e nada modesto.

Theol arrancou a espada do solo e a empunhou facilmente com as duas mãos. Ele girou o corpo apoiando-se no pé direito e fazendo o brilho de sua armadura dourada incomodar meus olhos. Segurei minha katana sem dificuldade, também, com as duas mãos. Olhei o rapaz nos olhos, tentando ignorar o reflexo de sua lustrosa arma. Sua determinação era evidente e isto abalava minha confiança.

Nos estudamos por alguns segundos, o som das árvores e suas folhas balançando com o vento suave criavam uma atmosfera tensa. Eu aguardava o momento em que teria de me defender da grande cimitarra dourada quando minha visão se embaçou e minha mente mudou de foco.

O fogo dominava a floresta ao meu redor. Eu era Arghen outra vez, em suas lembranças. A elfa corria desesperada enquanto gritava “Cael!”, indo na direção do horizonte flamejante. De repente, ela atravessou o fogo, chamuscando suas vestes. A jovem elfa seguia correndo, sem se importar com as queimaduras, ela queria sua família.

Senti o peso perigoso da arma dourada me empurrar para trás. De alguma forma me defendi, mas muito mal. Meu corpo se desequilibrou e soltei uma das mãos da espada. Em seguida, levantei o rosto: meu oponente vinha em minha direção mais uma vez.

Tudo acontecia muito rápido. Eu segurava minha espada com apenas uma das mãos e, com isso, era impossível defender qualquer golpe de Theol. A investida veio e, com um salto silencioso, o rapaz jogou-se contra mim. Apoiei minha mão livre no chão e me joguei para o lado oposto, me esquivando do golpe fatal que, novamente, enterrara a cimitarra dourada no chão, criando mais um buraco.

Segurei a espada apropriadamente e flexionei as pernas para saltar. Eu precisava aproveitar os segundos que ganharia enquanto ele desenterrava a arma. O vento cobriu minha face quando me joguei na direção do inimigo, a espada sobre a cabeça pronta para descer e atacar.

Theol não demonstrou preocupação ao notar meu golpe, mesmo ainda tendo sua arma no chão, inútil. Sua única reação foi inclinar seu corpo e erguer o braço direito para cobrir o rosto. Quando minha espada acertou-o na direção da face, vi minha investida ser frustrada pela armadura dourada do rapaz, que não perdeu tempo e, usando toda sua força, afastou minha lâmina com o mesmo braço que a defendeu, ileso.

Meu inimigo teve o tempo que precisava para recuperar a arma. Tive a impressão de que ele sempre soube que conseguiria. Virou-se para mim e correu, dessa vez sem saltar. Preparei-me para o golpe erguendo a lâmina na altura do rosto e, em poucos segundos, nossas lâminas colidiram. Ele me golpeou pela esquerda forçando todo o peso de sua arma contra mim, e defendi-me com dificuldade. Minha vantagem era que, por ter uma arma mais leve, eu podia usar o tempo que ele se recuperava de cada golpe para contra atacar, mas ele parecia saber disso.

Enquanto ele reerguia a lâmina para preparar uma nova investida, eu ataquei, mirando sua cintura. No mesmo instante, ele girou seu corpo para a esquerda, fazendo sua armadura entrar no meu caminho mais uma vez, tornando minha investida inútil. Naquele momento, tive certeza de que a expressão no meu rosto era, se não de surpresa, de terror. A espada de Theol já estava preparada para o golpe, eu não teria como me defender.

A grande cimitarra cortou o ar, vindo do alto. Aquele golpe iria me dividir em dois, o peso da arma em queda faria isso. Joguei-me para trás com todo o impulso que consegui, minha espada rangeu ao raspar a armadura do rapaz. Vi minhas vestes serem cortadas pela ponta da lâmina do inimigo e, quando firmei meus pés e me lembrei de respirar, percebi que havia sangue e que meu peito estava ferido.

Perceber o corte foi a única coisa que tive tempo de fazer, pois Theol já corria até mim. Respirei fundo enquanto pensava em uma maneira de atacá-lo com eficiência, mas algo estranho aconteceu. Vi-me de frente para pessoas estranhas. Um elfo alto e de cabelos loiros compridos armava um arco com três flechas, uma em cada fio, pois a arma possuía dois a mais. Ele mirava contra uma mulher cujas mãos expeliam fogo. No chão, dois corpos...

Um reflexo dourado cortava o ar. Minha espada estava em minhas mãos, mas no lugar errado. A lâmina de ouro cortou meu ombro esquerdo, fazendo-me gritar. Eu havia me esquivado de mais um golpe de Theol por puro reflexo. Sem pensar nas conseqüências, esperei a espada chegar ao chão, na altura dos meus pés e, então, chutei a lâmina pelo lado, fazendo o espadachim vacilar. Usando essa ridícula distração, me afastei o máximo de Theol e, com uns oito metros de distância dele, percebi que eu tinha mais um problema.

Algo estava errado. Toda vez que minha mente se concentrava na tentativa de arranjar uma maneira de derrotar meu oponente, as lembranças de Arghen vinham à tona e eu perdia o foco da minha própria realidade. Aquela luta não era nenhuma brincadeira, se eu estivesse em condições normais já não seria uma tarefa fácil. Mas nunca passei por algo assim antes, nunca perdi o controle sobre minhas magias. Não que eu soubesse.

Firmei a espada em minhas mãos e lancei-me na direção do inimigo, não havia tempo para pensar. Meus passos levantavam a grama da floresta, o vento fresco açoitava meu rosto e minha espada fatiava o ar do meu lado direito. Sim. Se eu o atacasse pelo lado sem armadura daria certo, golpeando pela minha direita eu estaria mirando o lado esquerdo de Theol, o lado sem armadura.

O dono da grande espada de ouro não se intimidou, imitou meu movimento e avançou. A única diferença era que Theol brandia a espada pela esquerda. As lâminas se chocaram. A grande cimitarra bateu em minha espada e a empurrou, fazendo com que eu forçasse minha arma para frente, tentando retardar o golpe inimigo. Foi aí que Theol escorregou sua lâmina pelo fio da minha, acertando o metal que protegia minhas mãos. Nada aconteceu. Eu sabia que minha arma não quebraria, era muito bem feita, uma raridade, mas Theol não esperava por isso.

Girei a lâmina o mais rápido que pude, e isso fez com que a arma de Theol se afastasse da minha por alguns segundos. Em seguida, golpeei a espada propositalmente, para afastá-la de mim. Meu oponente demonstrava sua incompreensão na face, mas logo tudo se tornou claro quando me distanciei o mais rápido que pude e o mais longe que pude. Eu não estava fazendo um jogo muito corajoso, cauteloso era a palavra.

Naquele momento eu havia me lembrado de algo que poderia ser o meu trunfo neste duelo tão perigoso. “Hassetsu”, o estilo de luta conhecido apenas pelos ferreiros das Terras Proibidas. Consiste em usar sua própria espada de uma maneira peculiar e sutil, o que faz com que a força do oponente seja jogada contra ele. Essa técnica é muito simples, porém rara e somente quem tem a arma certa pode usá-la. Os conhecedores dessa técnica jamais a passam adiante, mas, durante as minhas viagens, mais do que conhecimento, eu adquiri amigos, e um deles me ensinou o estilo “Hassetsu” ou, em nossa língua, o Destruidor de Lâminas.

Empunhei a katana, dessa vez mais determinado, e avancei. Theol parecia esperar por mais esse ataque e manteve sua estratégia: cobrir seu lado esquerdo com a espada e defender-se usando o direito. Nós cruzamos as espadas em golpes repetidos, cada estocada dele era pontuada por uma exclamação, eu fazia força para não ser empurrado a cada golpe. Minha ideia só funcionaria se eu conseguisse uma rachadura na espada dele, e isso parecia impossível com golpes normais, afinal, sua arma era impecável.

Ele continuou golpeando enquanto eu defendia, analisando cada ponto do borrão dourado que eu podia ver. Minha falta de atenção no combate me custou mais um corte, desta vez na cintura. A dor me fez vacilar e então fui lançado para trás com uma forte investida horizontal desferida por Theol. A mistura da dor em minhas feridas com a dormência em minhas mãos me fez baixar o rosto. Respirei fundo, procurando fôlego, e, quando ergui os olhos, vi a sombra do rapaz interromper a luz do sol.

Esforcei-me o máximo para erguer o corpo nos segundos que eu tinha. Usei a espada para me defender, e foi então que ouvi o som de metal se chocando. Mas, além desse, houve outro, um ruído que só quem estivesse esperando escutaria. O golpe em queda livre somado a força de Theol e o peso da espada me fez afundar alguns centímetros no chão. Minhas mãos doíam por sustentar todo aquele impacto, mas não importava, eu havia conseguido minha rachadura.

Bastava que eu mirasse continuamente minha defesa naquele ponto. Com toda a força que Theol empregava em seus golpes, não precisaria muito para sua espada se partir em duas. Eu me recuperava do choque e da dor em minhas mãos quando meus olhos deixaram de enxergar meu oponente, mais uma vez.

Arguen gritava o nome do irmão, eu não sabia por que. Seu pai, Findan, ainda combatia a misteriosa mulher que havia posto fogo na floresta. Havia chamas por todos os lados, elas pareciam vivas, pareciam escolher o que queimavam. A elfa se aproximava dos corpos no chão. Um deles parecia ser feito de madeira, mas agora era apenas carvão; o outro era, sem dúvidas, Cael, seu irmão mais velho.

Minha curiosidade quase me custou a vida. Quando voltei à realidade, vi a grande cimitarra cortar o ar a minha esquerda, e foi quando ganhei um fino corte no rosto. Foquei-me. Eu precisava vencer essa luta para poder me preocupar com Arghen. Afastei a cimitarra usando minha lâmina, meus olhos atentos à pequena, porém visível, rachadura na espada do inimigo.

Por um vislumbre, notei que Theol me olhava nos olhos enquanto desferia seus golpes e, quando ele notou que minha atenção não parecia estar no combate, passou a atacar com mais força. Talvez tenha se ofendido, orgulhoso como pareceu ser, mas isso me ajudou. Cada golpe que eu defendia aumentava as minhas chances de vencer.

Eu tentava não piscar, precisava manter minha atenção naquela única chance. A cada vez que a espada se movia e redirecionava os golpes eu seguia a rachadura com minha espada. Certas vezes, era muito mais complicado defender-me acertando aquele ponto do que simplesmente me defender.

De repente, a espada do inimigo se afastou de mim, e foi como se finalmente houvesse ar no espaço entre nossas lâminas. Mas, em seguida, ele golpeou, sem se aproximar, de uma maneira que apenas a ponta da lâmina me acertasse. Meus reflexos me fizeram cair no truque e, ao invés de me afastar e prevenir o golpe, eu estupidamente me defendi usando a katana, entregando a rachadura ainda não notada.

— Como foi que...? – perguntou de repente, percebendo que sua espada já estava prestes a se quebrar.

O jovem pareceu se enfurecer. Seu olhar me atacava enquanto dava passos lentos para trás. Eu percebi o que ele faria, era agora ou nunca. Ele veio correndo e em seguida saltou, mais alto do que antes. Fechei meus olhos e me concentrei, se eu não acertasse sua espada no lugar exato estaria acabado.

Floresta em chamas. Arghen chorava e algo parecia tentar sair do meio do fogo. A elfa ergueu o rosto e viu seu pai, Findan, carregando algo nos braços. O corpo tossiu, estava vivo. Arghen exaltou-se por um instante, era Cael. Mas, quando seu pai deitou-o no chão, foi possível ver que era uma criança, um garotinho, cabelos pretos chamuscados, a expressão marota em sua face. Era Elliot, dez anos mais novo.

Notas finais
Olá pessoal! Me desculpem pela demora e pelo capitulo muita grande!
Espero que leiam. Espero que gostem!