The Fear
36 Capítulo 35
Notas iniciais
Abri minha boca para gritar por Mikael. Era uma ideia idiota, mas naquele momento eu não conseguia pensar em nada mais além da visão do garoto morrendo, cena que o anjo tanto me atormentara em uma época que parecia longe demais daquele momento. Eu me recusava a presenciar aquela ameaça tornando-se realidade.
Porém no momento em que eu tomara fôlego para chamar a atenção deles, Ciel cobriu meus lábios com sua mão, reprimindo qualquer tentativa de voz que eu pudesse articular. Debati-me para que ele me soltasse, mas nada do que eu fizesse iria se comparar à força daquele híbrido. Olhei para ele com raiva, seu olhar respondendo-me com um pedido de silêncio. Encarei-o por mais uns instantes, percebendo mais alguma coisa em seus olhos antes tão frios quanto o prata que apoderara-se de sua cor.
Antes que eu pudesse decodificar o que se escondia por trás de sua expressão, ouvi Mikael sussurrando, suas palavras tão baixas e fracas quanto suas chances contra o pesadelo que o encarava.
– M-Mãe? — ouvi ele dizer, seus lábios mal abrindo-se para encontrar as palavras — É você?
Olhei para a cena à minha frente, Mikael parara de tentar fugir inutilmente dali, seus braços pendendo frouxos ao lado de seu corpo, a mão que antes segurava a lanterna agora largava-a no chão claro do quarto, rendendo-se a chance de que aquele objeto o salvásse de mais um pesadelo.
Observei a figura que eu achara ser um Nightwalker, tentando encontrar qualquer detalhe que me mostrasse que ele era humano, além de sua forma levemente abalada. Talvez a mãe de Mikael houvesse se tornado híbrida como Ciel, e na verdade não apresentasse uma real ameaça para nós.
A criatura soltou uma risada sobrehumana, o som rouco e sinistro de sua voz chegando à mim como uma serpente que se esgueirava por meu corpo, seu tom frio mostrando-me que aquela figura não era um híbrido, muito menos um humano.
Aquele era um dos piores tipos de Nightwalker que já tive o horror de conhecer.
Encarei o teto daquele quarto, onde uma pequena lâmpada iluminava o aposento. Um estalido veio aos meus pensamentos quando observei aquela luminosidade, mostrando-me que aquele era um Nightwalker da trupe do meu anjo, o que explicava por que a criatura não fugira quando encontrara o local iluminado.
Os olhos daquele Nightwalker eram completamente negros, como os do meu anjo, isso eu pude ter certeza naquele momento, mesmo sem ter visto a face assustadora do pesadelo que estava de costas para mim. Porém seu rosto transformara-se nas feições da mãe de Mikael, dando ao garoto uma das piores visões que ele poderia ter em sua vida.
Sua última visão seria da pessoa que sempre o amara sorrindo enquanto arrancava sua carne, seu assassino era a pessoa que lhe trouxera à vida.
Fechei fortemente os olhos, negando-me a acreditar naquela verdade terrível, tentando negar a face cada vez mais tenebrosa que nossos inimigos nos apresentavam. Senti lágrimas ardendo em meus olhos fechados, as pequenas gotículas descendo pesadamente por minhas bochechas.
– O que fizeram com você? — Mikael disse, sua voz falhando quando o choro tentou dominá-la.
Abri os olhos, sem conseguir desviar-me da cena que ocorria. Mikael encarava o Nightwalker com os olhos marejados de lágrimas enquanto o pesadelo seguia lentamente até sua presa, sua risada ainda ecoando com todo o divertimento que o sofrimento do garoto lhe fornecia.
Uma vontade de chutar tudo o que havia ali se alastrara por meu corpo, e eu comecei a lutar ainda mais contra os braços de Ciel que me seguravam. Foda-se que eu fosse morrer, foda-se que tudo fosse em vão, eu simplesmente não podia ser a platéia da morte horrenda de Mikael.
– Já basta um de nós morto — disse Ciel em meu ouvido, uma tristeza aparecendo levemente em sua voz — Vamos embora daqui, o Nightwalker já nos ouviu, será questões de segundos para ele nos pegar.
Fiquei parada por um instante, observando estarrecida o Nightwalker agachando-se ao lado do corpo petrificado de Mikael enquanto pensamentos cada vez mais rápídos encaixavam-se em minha mente. Os Nightwalkers eram ótimos ouvintes, isso era óbvio, aquele pesadelo talvez havia escutado eu e Ciel antes mesmo de chegármos àquele local. Mas ele não se importara, ele não se virara uma única vez em nossa direção, porque a razão por ele estar ali era Mikael, seu único alvo era aquele garoto.
Lembrei das ameças constantes que o anjo me havia feito, sua voz cortando minhas memórias dolorosamente. Ele me atingiria através das pessoas que eu gostava, seu plano era me torturar com a morte de todos com os quais eu me importava, para depois finalmente me proporcionar a agonía física que ele tanto presava.
Não havia nada que eu podia fazer ali, mesmo se eu chamasse a atenção do Nightwalker, ele não tentaria me matar. Não até ter realizado sua tarefa.
Ouvi o som agoniante dos dentes do Nightwalker cravando-se profundamente no pescoço de Mikael, seu ataque rasgando a pele do garoto e trazendo à tona o sangue que se escondia sob aquela fina camada. Desejei esquecer o grito sufocado de dor que atravessou a garganta de Mikael enquanto seu último pesadelo se tornava realidade torturosamente.
Mikael olhou para frente em um de seus últimos instantes de lúcidez. Percebi seus olhos encarando os meus, o escuro de suas orbes que antes me traziam confiança agora tentando em vão esconder a dor pela qual seu corpo passava.
– Mãe, — ele disse, sua voz pouco mais alta que os grunhidos do Nightwalker que se satisfazia com sua carne — tem uma pessoa que eu queria que você conhecesse.
O garoto tentou esboçar um sorriso, seus lábios curvando-se no esforço de não demonstrar a dor que estava sentindo. Uma única lágrima desceu de seus olhos, rolando por sua face até curvar-se sobre seu pescoço escarlate.
Mil desculpas subiram à minha garganta, sem conseguirem transpassar o choro que se acumulava em minha voz. Eu queria que tudo aquilo fosse um pesadelo, eu queria acordar em algum momento daquela terrível imagem e perceber que tudo era uma medonha fantasia da minha mente, queria suspirar aliviada enquanto percebia que Mikael ainda estava ao meu lado, longe de qualquer pesadelo que pudesse lhe fazer mal.
Porém aquela era a realidade, a fria realidade que me perseguiria por onde eu fosse a partir daquele momento. Senti Ciel puxando minha mão, afastando-me dali, porém minha mente estava longe do movimento entorpecido de meus passos, meus pensamentos despencando junto com aquela última lágrima rumo à morte rubra de Mikael.
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