The Fear
13 Capítulo 12
Notas iniciais
O sol anoitecia ás nossas costas, fazendo nossas sombras se prolongarem diante de nossos pés. Eu já conseguia identificar figuras deformadas correndo pela escuridão que crescia lentamente. Peguei a lanterna que estava em meu bolso traseiro e a segurei firme nas mãos.
- Com medo à essa altura do campeonato? — perguntou Ciel, percebendo minha atitude.
- Isso não é algo que dê para se acostumar, e eu nunca passei a noite fora do cassino — respondi, depois olhei para ele — Aliás, por que eu estou me justificando para você?
Ele deu de ombros.
- Então o papai e a mamãe não deixam a garotinha aí sair de casa a noite? — perguntou ele, com um sorriso travesso no rosto, fazendo graça de minhas noites trancafiadas no cassino que eu havia falado.
- Não fale dos meus pais — disse, secamente. Esse não era um assunto que eu queria tocar com um estranho.
Eu quase não me lembrava de minha mãe e meu pai, apenas imagens borradas brilhavam entre minhas lembranças, sendo abafadas por momentos mais marcantes, como perceber que a boneca que eu sempre tivera medo quando criança começara a andar com um sorriso demoníaco para cima de mim.
As únicas coisas que eu me lembrava claramente sobre eles era o calor do abraço de minha mãe, enquanto escutava o eco da campainha que meu pai tocava em uma casa qualquer. E lágrimas. Choro por abandonar sua filhinha. Depois disso eu não sabia o que havia acontecido com eles.
- Desculpe — disse Ciel, acordando-me de meus devaneios masoquistas, sua voz marcada por um constrangimento que eu não esperava que podia vir dele.
Mal suas palavras foram pronunciadas, percebi o primeiro Nightwalker se aproximando de nós, apenas esperando os últimos raios de sol se extinguirem para estar livre para nos atacar. Seus pés e mãos estavam ensanguentados, delimiando um caminho vermelho atrás da criatura.
O monstro vestia farrapos que um dia foram brancos, seu rosto pálido destacava o sorriso escarlate que delineava seus dentes afiados, e seu olhar prateado nos encarava faminto.
- Acho que está na hora da festa — Ciel disse, ligando sua lanterna.
- Você deveria ir cumprimentá-lo — disse ironicamente, ligando o feiche azulado também.
- Claro, ele com certeza ouviria minha cortesia antes de me matar. — Ciel respondeu, irônico.
O sol se foi e levou com ele a luz que nos protegia, o céu passando de alaranjado para roxo e disso para negro em instantes. As estrelas começaram a brilhar ao longe, não interessadas em nossa sobrevivência.
O Nightwalker soltou um grito horrendo (talvez ele achasse que assim nós ficariamos com mais medo, mas eu só enchergava aquilo como um excesso de viadagem da parte de um monstro), e começou a correr ao nosso encontro, no mesmo momento as duas lanternas foram apontadas para ele, fazendo-o se conter repentinamente e levar a mãos aos olhos com um guincho, fugindo na mesma velocidade com que viera.
- Hey — Ciel disse, apontando para seu lado.
Uma garota mancava para chegar á nós, seus cabelos negros escorriam em volta de seu rosto deformado. Uma tiara despencava do topo de sua cabeça, e seu vestido de noiva estava puído e sujo de sangue.
Ciel iluminou-a sem hesitação. A noiva soltou um choramingo e correu covardemente.
- Fala sério, você tem medo de noivas? — perguntei, mesmo naquela situação, aquilo era hilário.
- Longa história, longa história — disse Ciel, acabando com o assunto constrangedor.
Um palhaço aproximou-se de nós, seus olhos prata esbugalhados enquanto soltava uma gargalhada, revelando seus dentes avermelhados pelo sangue de outros que não sobreviveram, sua maquiagem manchada tornando sua aparência mais horrenda ainda.
Lancei a lanterna á ele e ele pulou para longe, enquanto Ciel afastava um vampiro de presas afiadas da mesma maneira.
- Então é isso, ficaremos a noite toda dessa maneira? — perguntei, enquanto observava outros monstros à espreita.
- Outra ideia? — perguntou Ciel, iluminando mais dois Nightwalkers que soltaram gritos de frustração enquanto fugiam.
- Não sei, que tal ir para uma casa com energia? — perguntei.
- Não tem nenhuma por aqui, seu grupo deve estar em um dos únicos locais com luz na área. — Ciel respondeu.
Ótimo. Pensei, iluminando os meus pesadelos que vinham a uma leva cada vez maior.
Começava a pensar que uma simples lanterninha não daria conta de tantos bichos.
- Hey... — Ciel disse, sua voz começando a despontar sua preocupação. Nesse momento afastei um cadáver que se arrastava para cima de mim, pedaços de carne podre caindo de seus membros enquanto ele tentava se afastar da luz, guiei minha lanterna para o próximo Nightwalker, porém não tinha mais nenhum.
Eles haviam cessado repentinamente, e eu pressenti que isso não era uma boa notícia.
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