The Fear
23 Capítulo 22
Notas iniciais
- M-Mikael? — sussurrei fracamente, enquanto observava a expressão de surpresa e alegria no rosto machucado de meu amigo.
Ele apenas assentiu levemente, e antes que qualquer movimento passasse pelos meus pensamentos, senti o calor confortável dos braços do garoto ao meu redor. Fiquei estática por um instante, perguntando-me por que repentinamente me sentira tão segura mesmo com todo o caminho tortuoso que parecia me aguardar em um futuro que parecia cada vez mais próximo.
Eu nunca havia mostrado qualquer tipo de afeição por alguém, pois nunca achara que era necessário tanto contato e solidariedade para nossa sobrevivênica, porém todas as minhas frias convicções pareceram evaporar quando me percebi enterrando o rosto no pescoço de Mikael. Lágrimas insistentes turvaram meus olhos e desceram por meu rosto, deixando linhas salgadas em minhas bochechas, eu não entendia por que estava chorando, porém os soluços contidos continuavam querendo sair de minha garganta apertada, enquanto Mikael me abraçava mais forte, tentando me consolar. Dessa vez eu não o impedi de tentar me ajudar.
- Eu pensei que você... — comecei a dizer, tentando controlar as lágrimas quentes que ainda tentavam transbordar.
- Eu sei, não precisamos falar sobre isso agora — Mikael me interrompeu, tentando me acalmar.
- E os outros? — perguntei, olhando para ele, depois de limpar meu rosto molhado.
Mikael apenas suspirou, negando com a cabeça enquanto um pesar invadia seus olhos escuros.
Eu apenas assenti, cansada demais para começar a chorar novamente. Quando Mikael percebeu que eu já estava melhor, ele lentamente tirou os braços ao meu redor, suas ações parecendo um pouco hesitantes, como se a qualquer momento eu pudesse cair novamente. Eu havia me esquecido do modo exageradamente protetor que ele me tratava, e sorri fracamente e sem humor quando lembrei o quanto aquilo me irritara anteriormente.
- Então, parece que estamos sozinhos e sem iluminação para a próxima noite — Miakel disse, depois de pigarrear constrangido com o estranho silencio que se formara entre nós.
- Não teria tanta certeza quanto à iluminação — respondi, tirando as pequenas lanternas que eu havia encontrado nos arredores do bolso de minha calça.
O rosto de Mikael iluminou-se um pouco com pelo menos aquela boa notícia, e rapidamente ele pegou uma das lanternas e guardou-a no bolso, como eu.
- Você sobreviveu todo esse tempo sem nenhuma lanterna? — perguntei, imaginando como ele conseguira tal sorte.
- Sim — ele respondeu, e deu de ombros com um pequeno sorriso — Não sei por que, mas nenhum Nightwalker tem me atacado por estes dias.
Por um instante fiquei tão confusa quanto ele, até que lembrei de minha última noite no cassino, quando o anjo impedira todos os pesadelos de me perturbarem para poder ter uma amigável conversa comigo, no mesmo momento, a ameaça rouca do Nightwalker rasgou meus pensamentos, levando-me à imagem que o próprio havia feito de Mikael morto e ensanguentado.
- O que foi? — o garoto perguntou, percebendo minha repentina expressão de preocupação.
Por um instante cogitei não contar a história à Mikael, porém no mesmo momento a ideia fora apunhalada pela minha mente. Eu estava colocando-o em um grave perigo sem ele nem mesmo saber, o mínimo que eu podia fazer era contar todas as promessas sangrentas que me foram feitas, para que, se fosse sua escolha, ele pudesse ir embora e sobreviver antes que fosse tarde.
Estranhei a pontada de tristeza que afundara em meu peito quando criei a imagem de Mikael se distanciando de mim, porém ignorei tal pesar, eu precisava fazer aquilo para que pelo menos ele tivesse uma pequena chance de viver, tão difícil de encontrar nos dias que vivíamos. Pela primeira vez eu não faria algo pensando apenas em minha satisfação, pela primeira vez eu aceitava sofrer um pouco e deixar alguém ter uma chance de viver maior que a minha.
Mikael me observava apreensivo, seu olhar perguntando-me a razão pelo meu silêncio. Respirei fundo, tentando ganhar tempo procurando as palavras certas para dar uma sentença tão móribida, porém todas as frases que voavam em minha mente pareciam erradas de alguma forma.
Comecei a dizer o que havia acontecido em minha última no cassino, e observei os olhos de Mikael arregalando-se quando contei das ameaças constantes do anjo sussurradas apenas em minha mente, e de sua repentina aparição, capturando-me e me levando para o que eu havia achado que seria a morte.
Contei sobre Ciel, e percebi uma sentelha estranha no olhar de Mikael, algo muito diferente do terror e da preocupação que ele mostrara antes, porém não fora algo que eu conseguira decifrar, continuei minha trágica história de Nightwalkers perseguidores, até chegar àquela noite, em que o anjo declarara a morte que daria a todas as pessoas próximas a mim.
Quando terminei todo o conto de terror, Mikael encarava-me com uma expressão confusa, seus olhos perdidos nos pensamentos que rondavam em sua mente, ele parecia estar lutando com as ideias que eram sussurradas em sua cabeça.
- Certo — ele disse lentamente — Então, o anjo quer me ver morto, assim como esse seu... amigo.
Assenti lentamente, achando engraçado o jeito rísipido que ele falara "amigo", era algo idiota o suficiente para ser hilário, não fosse a situação nada cômica em que nos encontravamos.
- Por isso ele não mandara os Nightwalkers atrás de você, ele quer fazer isso por ele mesmo — disse, sentindo minha garganta seca depois de tanto contar.
- E por isso eu sobrevivera do cassino com só alguns arranhões — ele continuou, olhando para longe.
Eu não considerava aqueles profundos cortes em sua pele como pequenos arranhões, porém se seu estado fosse comparado ao corpo escarlate e imóvel de nosso antigo lider, Mikael estava intocado.
- Então acho que seria melhor se você se afastasse de mim — eu disse, ignorando o nó que formara em minha garganta.
Mikael voltou olhar para mim, em seu rosto eu apenas conseguia ver confusão.
- O quê? — ele indagou, como se não entendesse o que eu dissera.
- É verdade, cara — eu disse, repentinamente irritada por aquela reação — Se você continuar ao meu lado nós dois morreremos.
O garoto apenas continuou me encarando, em seus olhos escuros pintava sombras de dúvidas, porém nenhum vestígio da determinação em sobreviver que eu esperava que veria.
- Você está pensando em mim? Na minha segurança? — ele perguntou, inclinando a cabeça enquanto o leve brilho de um sorriso chegava aos seus lábios.
- Não! — eu disse, como que por reflexo, porém percebi toda aquela situação, e sobre a expressão estranha de Mikael, não pude deixar de dizer a verdade — Hm, sim.
Ouvi um som ligeiramente rouco vindo de Mikael, e quando percebi o outro estava rindo abertamente, como se eu houvesse contado uma piada extremamente boa, e não a conversa que colocava sua vida em jogo.
- Você? Emily? Preocupando-se comigo? — ele deu um último riso baixo, antes que virasse para mim ainda com um sorriso no rosto — Estou extremamente lisonjeado.
- Pare com isso — disse, porém não pude deixar de sorrir levemente também — Se um Nightwalker nos atacar eu serei a primeira a fugir sem olhar para trás.
- E aí está a garota que eu conheço — disse Mikael, com as mãos viradas para mim, como se me apresentasse para uma plateia invisível — Pois fique sabendo que eu não farei isso com você, ficarei ao seu lado até o fim.
Levei um instante para processar o que aquelas palavras realmente significavam, demorei um momento para perceber que Mikael largava uma chance valiosa de sobreviver.
- O quê? — agora fora minha vez de indagar, incrédula — Não, você tem que ir embora. Tem que tentar sobreviver.
Mikael apenas negou com a cabeça enquanto eu dizia, seu rosto tomado por uma seriedade que varrera todos os indícios do humor que havia estado ali.
- E o que adiantaria sobreviver sozinho? — ele perguntou, encarando-me — Vagar para sempre por essas cidades destruídas, dependendo de uma fraca lanterna todas as noites, e tudo isso sem o apoio de ninguém?
Ele deu de ombros.
- Prefiro morrer ao lado de alguém que gosto do que viver assim — Mikael completou, e deu um leve sorriso.
Fiquei sem fala por aquele momento, as frases proferidas por ele ecoando em minha mente. Olhei para o sol alto que agora nos queimava, uma brisa suave bagunçando levemente nosso cabelos e fazendo as folhas caídas das árvores a nossa volta sussurrarem. Naquele momento percebi que também morreria por alguém, e, por mais mórbida que a ideia parecia ser, um pequeno sorriso subiu sem aviso aos meus lábios.
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