''Depois das aulas terem acabado, fui direto para casa, estava cansada por causa da educação física, eu precisava de um banho, dos bem demorados.''

Era exatamente 20:00, meus pais estavam assistindo um filme do Charlie Chaplin, eu tinha acabado de terminar o dever de casa, sim, ''dever de casa, logo no primeiro dia de aula'', ainda não entendia o porque disso. Arrumei meu material que estava todo espalhado na mesa da sala de jantar e levei para o quarto. Dei uma última olhada no meu celular, para ver se tinha alguma mensagem nova, e tinha, ''15 mensagens de CADÊ VOCÊ e 20 chamadas perdidas da Beka''. Meu celular tocou, era Beka.

–Oi Beka, desculp....- não consegui terminar a frase, Beka estava gritando no telefone.

–POR QUÊ NÃO ATENDEU A DROGA DO CELULAR ANTES? ESTOU À HORAS TENTANDO FALAR COM VOCÊ, AONDE VOCÊ ESTAVA MELANIE?

–Estou em casa o dia inteiro, eu estava fazendo o dever de casa, e o celular estava no quarto, não era mais fácil vir aqui?- respondi num tom grosseiro, Beka era minha melhor amiga, e eu raramente era grossa com ela, mas tinha vezes que ela me tirava do sério.

–Não estou em casa- ouvi ela falar.

–Aonde você está?

–No shopping, me encontre no café em 20 minutos- Beka desligou, não tive nem tempo de falar que não podia ir, o que será que ela queria? Eu não tinha escolha, eu tinha que ir até lá. Troquei meu pijama por um jeans azul escuro e moletom, e fui me encontrar com Beka.

20 minutos depois de ter saído de casa, cheguei ao único shopping da cidade ''Shopping Delahils'', fui direto para o café que ficava em frente à duas lojas de vestidos caros. Beka estava sentada em uma mesa redonda de mármore, e tomando café com chantilly. Andei até ela e me sentei a sua frente.

–Ok, o que aconteceu?- falei rapidamente, e olhando para Beka com um olhar desconfiado.

–Aconteceu nada- ela me olhou surpresa.

–Como assim não aconteceu nada? Você me liga as 20:00 da noite, gritando que nem uma louca, e praticamente me obriga a vir aqui, pra nada?- realmente me senti um pouco mal depois de ter falado daquele jeito com Beka, ela devia ter uma explicação.

–Desculpe, é que...depois que a aula de inglês terminou, você ficou sozinha com o Robbie na sala, e como não te vi antes, eu não consegui perguntar, mas, conte ai, o que rolou?- Beka estava com aquele sorriso ansioso dela, apenas esperando que algo de bom tivesse acontecido.

–Rolou nada, por quê rolaria algo?- indaguei.

–Sei lá. Que pena, queria que tivesse rolado alguma coisa, então, vamos fazer compras amanhã?

–Tudo bem, as 10:00?- perguntei.

–Com certeza- sorrindo pra mim, Beka se levantou- Vamos pra casa- Me levantei também e seguimos juntas até o estacionamento do shopping, e fomos embora.

Era 01:00 quando eu acordei, por causa do galho estúpido do carvalho do nosso jardim, que estava batendo na janela do meu quarto por culpa do vento. Nala estava dormindo no pé da minha cama. Eu estava cansada, então não demorei muito para dormir novamente, tinha sido um longo dia.

''Abri meus olhos, eu não estava no meu quarto, e sim num lugar totalmente diferente, não estava me sentindo segura, eu sentia que precisava achar uma saída, o lugar era totalmente branco, a não ser pelo barro e sangue no chão. O odor era forte, e eu não encontrava nada que me ajuda-se a sair dali. O medo estava me engolindo de dentro pra fora. Que lugar era aquele?

Passei as mãos nas paredes úmidas do lugar, tentando encontrar uma porta ou janela. Achei uma única porta daquele quarto pequeno e sufocante, sai e me deparei com um porão, com algumas coisas quebradas no chão. Olhei para todos os lados, e algo chamou minha atenção. Uma sombra preta, deformada, o que seria? Caminhei para mais perto, tentando ver o que era, ''espere, um monte de penas?''. O monte de penas pretas no chão tremiam, o cheiro de sangue era forte, e se espalhava para todo lugar, de quem era aquele sangue? E porque as penas estavam tremendo? Cheguei mais perto, perto o suficiente para poder tocá-las, quando encostei minha mão em uma delas, todas voaram, penas pretas pairavam no ar. Foi ai que me toquei, era um par de asas pretas abertas e esticadas, e havia um garoto agachado, todo ensanguentado.

–Você está bem?- perguntei horrorizada, aquele garoto era familiar, mas da onde eu o conhecia? Ele estava todo machucado, e parecia estar sofrendo de dor- Quem é você?

–Não me reconhece Mel?- o garoto perguntou.

–Robbie?- Eu o reconheci pela voz, estava meio rouca, mas deu para saber quem era. Seu rosto estava inchado e cheio de hematomas, o que não ajudou em nada, e a luz fraca do porão só tinha piorado- Não se preocupe, você vai ficar bem.

Robbie se levantou, aquele par de asas eram enormes e faziam parte dele, chegava a tocar no teto do porão, ele começou a caminhar em minha direção, percebi que segurava uma faca em uma das mãos.

–Não tenha medo querida, vai ser bem rápido- ele falou, observando minha reação ao ouvir aquilo- NÃO TENHA MEDO''

Acordei com o rosto todo dolorido, percebi que estava deitada no chão, eu tinha caído da cama. As palavras '' não tenha medo'' ecoavam na minha cabeça. Me levantei e fui me ver no espelho, com o tombo, uma mancha vermelha do lado direito do meu rosto apareceu. ''Que sonho mais esquisito'', Robbie era um anjo ou o que? E ia me matar?É isso mesmo? Balancei a cabeça e ri.

–Foi apenas um sonho Melanie, apenas um sonho- falei para mim mesma, enquanto me encarava no espelho.