The Experience

1 The Experience


Notas iniciais
Quando estava maratonando a 3º temporada essa semana, tive essa a ideia para uma fic. Espero que alguém goste.

The Experience

Estava escuro, nem uma réstia de luz ou risco de claridade, tanto que pensou, por um momento, que havia ficado cego.

Mexeu-se incômodo, algo ali não estava certo. Sentia uma dormência em cada parte do corpo, mas o pior de tudo eram suas mãos, que presas em algum lugar acima de sua cabeça, não poderia precisar com razão se por cordas ou algemas, seguiam inertes e sem vida.

As sacudiu com o intuito de fazer a circulação voltar. O barulho produzido, no entanto, chamou a atenção de alguém com quem, não sabia, dividia o recinto.

“Quem está aí?” Perguntou assustado ao ouvir um gemido profundo.

“Rick?” Daryl ofegou.

“Ainda bem.” Rick soltou aliviado, satisfeito em ouvir a voz do amigo e sabê-lo vivo.

“Onde estamos?”

“Não sei.” Rick disse com voz sussurrada. “Lembra-se de algo antes de acordar aqui?”

“Não.” Daryl segredou de volta. Uma nota de raiva na voz fazendo seu sotaque mais pronunciado. “Nada depois que entramos naquele galpão.”

Rick recordou o local: Um galpão abandonado, onde ainda encontraram alguns mantimentos, um abrigo decente depois de m mês de idas e vindas na estrada, fugindo dos errantes.

Sacudiu as mãos novamente sentindo que a ação dera resultado. Já podia senti-las formigar levemente, bem como identificar que seguiam restringidas por uma espécie de algema.

“Você está bem?” Rick perguntou quando Daryl gemeu novamente.

“Fui ferido.” Ele explicou. “Meu braço está ardendo como o inferno e dói para caralho.”

“Consegue se soltar?”

“Estou algemado a parede.” O caçador explicou.

“Daryl? Rick?” Uma voz feminina soou a direita.

“Carol, vocês está bem?”A pergunta foi feita com toda a preocupação que o caçador sempre sentiria pela mulher.

“Estou presa.” Ela ofegou e Rick imaginou que tentava se libertar de alguma maneira ao ouvir um tinir de metal. “Sofia? Sofia?” Gritou para a escuridão, o desespero patente em sua voz por não saber o destino da filha.

“Mãe!” A garota respondeu de algum lugar à direita, da mesma direção de onde vinha a voz de Carol. “Estou com medo mãe, me ajude, meu braço dói.”

Daryl sentiu o coração destroçado diante do desespero infantil. Forçando os braços tentou se libertar. Conseguiu apenas que a dor ali irradiasse em todas as direções de seu corpo.

“Pai?”

“Carl?” Rick sentiu que perdia o controle. A voz do filho, apesar de soar alta, parecia vir de algum lugar ao longe. “Carl, você está bem? Está ferido?”

“Não.” Seu garoto respondeu fazendo seu coração ficar um pouco aliviado.

Logo uma pequena confusão de vozes encheu o ambiente. Rick pode discernir, Hershel e Beth, Glenn e Maggie, além dos que já identificara.

“Lori?” Chamou ao perceber que a esposa era a única pessoa que faltava de seu grupo, além de T-Dog.

“Estou aqui.” Ela respondeu após ele chamá-la mais algumas vezes por cima da multidão de vozes. Mas seu tom era baixo, doído, como se lhe custasse, de alguma maneira, falar.

“Todos calados, agora!” Rick ordenou.

Aos poucos o silêncio voltou, com exceção de Sofia que chorava baixinho.

“T-Dog, você está aí?” Rick chamou sem resposta. Talvez ele ainda estivesse apagado. Rick imaginou. “Alguém está com as mãos livres?” Questionou após alguns segundos.

Um coro de vozes negativas e novo silêncio.

Rick fechou os olhos e balançou a cabeça.

“Alguém se lembra de algo após entrarmos no galpão?” Ele tentou.

“T-Dog estava de guarda. Primeiro turno.” Daryl respondeu. “Todos nos ajeitamos para dormir e não me lembro de mais coisa alguma.”

Todos assentiram o mesmo, voltando ao silêncio.

“Alguém mais está ferido?” Rick perguntou após novo gemido de Daryl.

“Meu braço dói.” Glenn respondeu.

“O meu também.” Lori e Hershel sopraram.

“Alguém mais?” Rick inquiriu, lembrando que Sofia também reclamara do braço, mas ninguém se pronunciou.

Logo todos começaram a falar ao mesmo tempo, uns com os outros, sem agonias ou confusões. Glenn dizia a Maggie que tudo ia ficar bem e o mesmo dizia Lori a Carl. Carol tentava acalmar a filha, mas a menina não parava de chorar. Ela seguia sendo tão diferente de seu filho, medrosa e assustadiça, que muitas vezes se viam em problemas para mantê-la em segurança.

Mesmo com a distância pode ouvir Carl conversando com a mãe. Informando-lhe que tudo estava bem, que ele não estava ferido. Rick não poderia se sentir mais orgulhoso. Mas, procurando ser prático, tentou avaliar que droga de local era aquele e imaginar no porquê de estarem presos ali.

Tateou com as pernas ao redor, os pés tocando em uma parede a sua esquerda e algo liso a direita. Vidro, talvez? Voltando a mexer os pés deu de encontro a algo que também se mexia.

“Daryl, toquei em você?”

“Sim.” A voz de Daryl soou mais baixa, um pouco enrolada, dolorida de um jeito que seu coração falhou uma batida ao imaginar que o amigo estava sofrendo com algo que não conseguiria esconder, quando sempre camuflava suas dores.

De repente as luzes acenderam. A claridade foi tão poderosa que nenhum deles conseguiu enxergar por quase um minuto.

Logo, quando os olhos voltaram a se acostumar com a claridade um ofego de dor e consternação invadiu o local.

Estavam presos em celas individuais, dois por dois, estreitas e com a parede de entrada feita quase completamente em vidro.

Rick deu um grito de raiva quando olhou para Daryl e viu que o caçador estava sem camisa e seu braço revelava uma horrível mordida.

“Não.” Sacudiu as algemas, a raiva lhe dando a capacidade de força-la um pouco para fora da parede caiada, mas mesmo assim impossíveis de serem quebradas.

Daryl olhou para o braço, fechou os olhos e murmurou algo encostado a cabeça na lateral do bíceps. Rick apenas pode discernir que ele xingava baixo algumas vezes, mas parecia um pouco resignado. Coberto de suor, o amigo parecia ter emagrecido e seu rosto já apresentava um cor cinza e pestilenta.

“Lori.” Rick chamou ao se dar conta de que todos os que reclamaram por estarem machucados, também poderiam ter sido mordidos.

“Fui mordida.” Ela exclamou com voz quebrada e Rick sentiu que poderia morrer naquele momento.

Olhando pela parede de vidro avistou Glenn tentando consolar Maggie, o braço do rapaz ostentava uma mordida ainda mais feia que a de Daryl e ele parecia ainda mais acabado que o amigo.

Encarou novamente Daryl, sem conseguir ou desejar conter as lágrimas por ele, por Lori e pelos demais, que sabiam estar com o mesmo problema.

“Estou com você irmão.” Sussurrou com carinho. “Estou com você.”

Daryl ergueu o rosto e assinalou um sorriso torto, o que apenas fez com que seu coração apertasse com mais força. Arrastando o pé, Rick encostou a bota com a dele por um momento, quando seu desejo era tocar em seu ombro e lhe dar um abraço. Ele já o salvara tantas vezes e agora, nada podia fazer a não ser vê-lo morrer aos poucos.

Do outro lado Glenn sentia que poderia desmaiar a qualquer momento. A dor passara de seu braço para o corpo inteiro. Sentia-se quente, fraco, cada pequeno pedaço de seu ser a ponto de estilhaçar em mil pedaços.

“Eu te amo.” Apenas dizia, várias vezes, a Maggie, arrastando os pés nus em busca dos dela, a única parte de seus corpos que poderiam se tocar no momento, e ainda assim, muito levemente.

“Quem fez isso?” Maggie sacudia a cabeça desconsolada, o rosto torcido em uma máscara de aflição e desespero. “Por que alguém faria isso?”

Mas nem Glenn, ou qualquer um deles sabia ou conseguia compreender aquela pergunta. Ainda que agora, sentindo que seu fim não demoraria muito, Glenn não se importasse muito. Queria apenas olhar para Maggie, lembrar-se de seus olhos, sua boca, do modo como enfiava o rosto em seu cabelo quando faziam amor, aspirando seu perfume e deixando que ela escutasse o quanto o fazia feliz, sempre e sempre.

Entretanto, diante do seu sofrimento, desviou os olhos por um momento, e, fitando a cela a esquerda pode ver Rick e Daryl, bem como parte da cela de Carol e Sofia.

A mulher chorava desesperada, enquanto a menina parecia ter perdido a consciência, o corpo magro caído em uma posição estranha com os braços erguidos e todo o resto meio torcido para a esquerda.

As suas costas podia ouvir a voz de Hershel. Ele e Beth faziam uma pequena prece. Algo singelo, com palavras de esperança, pedindo que cada um deles carregasse seu fardo e pudessem ser salvos de alguma maneira.

Contudo, Glenn não acreditava que algo poderia salvá-los desse último perigo que os levara até ali. E, no seu desespero, em se encontrar próximo de se tornar uma daquelas coisas que odiava, ele apenas pensava que não queria machucar de nenhuma forma a mulher que amava. Mas, olhando para a cela nua, que apenas ele e Maggie dividam, não pode conter um estremecimento, por que nada o separaria dela ou a protegeria quando ele se transformasse.

“Carl.” Ouviram a voz de Lori. “Eu te amo filho.”

“Eu te amo também mãe.” A voz do garoto soou trêmula, enquanto a da sua mãe quase não pode ser ouvida.

“Rick?” Lori chamou. “Rick me perdoe.”

O xerife sentiu as entranhas darem um nó e um soluço sufocar na garganta. Passara aquele mês inteiro tratando Lori como se ela fosse à causa de todos os seus problemas. Nem chegara a consola-la quando ela perdera o bebê, tamanha a sua raiva e mágoa da esposa.

“Está tudo bem querida.” Disse.

Mas sabia que não estava e que seguia sendo muito tarde para tentar consertar tudo. Contudo ela estava partindo e precisava dizer adeus de uma forma ou outra, ainda que seu coração estivesse tão ferido que só poderia perdoá-la, por que nada mais lhe restava para lhe entregar.

“Sofia!” Carol gritou. “Sofia não, não, não.”

“Glenn, pode vê-las.” Rick perguntou desarmado, impotente de todas as formas, quando sempre fora ele o primeiro a ajudá-los e mantê-los seguros.

“Ela se transformou.” Glenn ofegou olhando para o outro lado por um instante para não ver a garota que fazia todo o esforço possível para se libertar e avançar na mãe.

Talvez se ela não fosse uma recém transformada, se estivesse apodrecida como a maioria dos errantes, pudesse ter arrancado a pele e parte dos músculos e se libertar, mas a carne fresca e os ossos resistentes impediam que ela escapasse, visto não possuir a força necessária, mas, se continuasse ela acabaria se livrando das algemas.

Após alguns minutos todos ouviram um clique e um grito de terror de Carol se seguiu a ele.

“Meu Deus!” Glenn ofegou muito mais pálido, virando e vomitando, no momento em que compreendeu algo que nenhum deles poderia saber. Todos estavam perdidos. Alguém estava fazendo uma brincadeira macabra e deveria ser um sádico a se divertir com o desespero deles.

Aos poucos os sons ao redor retornaram. Ouviu a voz de Maggie e a de Rick lhe chamando, questionando, bem como a de Daryl, frágil chamando por Carol. Porém, Glenn sabia, ela não responderia... Não responderia nunca mais. Aos poucos a consternação de todos diante do ocorrido preencheu o ambiente e Glenn o sentiu como se eles todos estivessem ligados pela tristeza e incompreensão.

“As algemas... As algemas de Sofia.” Respondeu por fim com voz trêmula. “Ela foi solta... Atacou Carol.” Apesar de conseguir falar, Glenn mantinha os olhos fechados, mesmo que a imagem da criança atacando a mãe fosse algo que não esqueceria, mesmo nos poucas horas ou minutos que lhe restavam.

“Quem está fazendo isso?” Maggie sussurrou. “Por que você está fazendo isso?” Gritou logo após e sua voz ecoou por todas as celas.

No silêncio seguinte todos podiam ouvir os rosnados de Sofia e um som tenebroso de carne sendo rasgada. Mas Maggie só conseguia escutar como Glenn arfava e tentava respirar após ter vomitado novamente, bem como o choro baixo de sua irmã no outro cômodo.

“Beth? Pai?”

“Ele desmaiou.” Beth respondeu. “Acho... Acho que ele não foi só mordido... A camisa dele está encharcada de sangue.”

“Glenn, você tem outro ferimento?” Maggie perguntou avaliando sua figura sem camisa e sem sapatos, mas não encontrando nenhum corte ou ferimento.

“Só o braço.” Ele conseguiu responder.

Alguns segundos depois fechou os olhos e sua cabeça pendeu molemente.

“Fique acordado, por favor, querido, fique acordado.” Maggie pediu. “Por favor, não me deixe.”

“Ainda estou aqui.” Ele respondeu.

“Pai? A mãe desmaiou também.” Carl avisou com a voz trêmula. “Ela está sangrando... Tem sangue no lugar em que ela está sentada.” Explicou.

Rick estremeceu, falou algumas palavras de consolo para Carl, mesmo sabendo que isso não ajudava muito. Desde que Glenn contara o que vira na cela de Carol, ele fazia uma ideia alarmante do jogo mortal que estava ocorrendo ali.

Um a um seus amigos morreriam e algum sádico os libertaria para atacar os companheiros de cela. Não podia dar uma motivação que não crueldade para explicar o que estava acontecendo. Mas o mundo estava cheio de pessoas assim agora. Pessoas sem moral ou decência, desumanas em sua essência, por que já o eram ou se tornaram.

De outra maneira teriam sobrevivido?

Pessoas como as que estavam no seu grupo, que não tomavam, que ajudavam e se amavam, eram uma exceção a regra. E, talvez isto, esta característica que os definia, os tenha tornado peças interessantes no jogo de uma mente doentia.

“Diga o que você quer.” Ouviu Maggie gritar para o vazio, intuindo que ninguém responderia.

Olhou ao redor e sentiu que enlouquecia um pouco, as vozes dos que estavam saudáveis fisicamente cortando o silêncio novamente. Beth gritando pelo pai, Maggie incentivando Glenn a ficar acordado, Carl chamando Lori, tentando que ela despertasse.

Seu coração estava dividido em todos aqueles pedaços. Entre aqueles que morriam e na angústia do perigo iminente dos que ficavam para trás. Agora mesmo, seu filho corria perigo na outra cela e nada podia fazer para salvá-lo.

Tentou soltar-se novamente em vão.

Alguns minutos depois olhou para as mãos e teve uma ideia, talvez sua última chance. Com determinação, firmou os dentes na gola da jaqueta de couro, o gosto da lã, suja e curtida, impregnou seu olfato.

“O que vai... fazer?” Daryl questionou franzindo o cenho, a dor escapando em cada uma das palavras.

Rick não respondeu. Precisava de toda a sua coragem, necessitava não pensar, nem questionar o que faria. Com determinação esticou o braço, o esforço e a agonia fazendo-o parar e imaginar que não conseguiria.

O elo de metal estava um pouco frouxo em seu pulso, mas o que se propunha não seria possível sem quebrar alguns ossos da mão e esfolá-la de alguma maneira.

No entanto, ouvir a voz de Carl na outra cela foi todo o incentivo de que estava precisando. Tentou novamente. Com toda a sua força. A mão ferindo, uma parte da pele se desprendendo, até que ouviu um estalo e sentiu a dor de um osso quebrado e do dedão deslocado.

Pareceu-lhe uma eternidade, mas logo sua mão estava pendendo em direção ao colo, esfolada, sangrando, um pouco inútil, mas a sensação de liberdade, junto com uma descarga de adrenalina que fazia seu coração bater acelerado, o impulsionou a erguer a mão e, com a que ainda estava presa, colocar o dedão no lugar.

Não tentaria o mesmo com a outra mão, mas soube que se quebrasse o dedão e usasse um pouco de sangue a libertaria também. Foi o que fez. Precisou quebrar outro dedo, mas a dor não o deteve, apenas o incentivou. Segundos depois estava livre.

Sua primeira reação foi se aproximar de Daryl.

“Como está?”

“Vivo.” O amigo respondeu. “Pegue o meu lenço e use nessa mão.”

Rick puxou o lenço vermelho que estava enrolado no cós de sua calça e a atou a mão esfolada, das duas era a que estava pior. Sabendo que não havia muito que fazer por Daryl, aproximou-se da saída da cela.

A porta possuía uma fechadura eletrônica, o que descartava qualquer tentativa de abri-la por dentro. Jogou o corpo contra ela algumas vezes, mas a mesma seguia sendo feita de aço impossível de derrubar. E o vidro da parede também era muito grosso para tentar algo.

Rick se deu conta de que se soltara por nada. Ainda estava preso e não poderia ajudar o filho de maneira alguma.

“Rick.” Daryl chamou.

Consternado sentou-se ao lado do homem que passara a considerar como um irmão.

“Preciso que faça algo para mim.” O caçador ofegou.

“Quando chegar a hora, mas não agora.” Rick respondeu não deixando que Daryl lhe dissesse mais nada.

O caçador, no entanto, continuou:

“Então, assim que eu morrer... Quebre meu pescoço.” Daryl o encarou com decisão, por que sabia o que o amigo estava pensando. “Não vou ser mais eu... Apenas faça e não poderei lhe machucar. Prometa.”

“Prometo.” Rick o puxou para um abraço, chorou em seu cabelo e se afastou para falar com Carl.

Não poderia dizer quanto tempo estavam ali, mas ninguém sobrevivia quando mordido por mais de um dia.

Sofia, fora a primeira a morrer, pensava Rick, talvez por ser uma criança. Lori provavelmente estava tendo uma hemorragia por causa do aborto que sofrera a duas semanas. E Hershel estava com algum tipo de ferimento.

Pareceu a Rick que, quem quer que fosse, tinha tomado providências para adiantar algumas mortes, como se seguisse uma agenda, ou cronograma. Provavelmente os estava monitorando, mesmo que não conseguisse identificar nenhuma câmera.

“Paaaiii!” Carl gritou e Rick quis está morto.

“Estou aqui com você.” Gritou de volta. “Eu te amo filho.”

“Soltaram ela.” Beth explicou desesperada.

A cela dela e de Hershel estava bem em frente a do garoto e sua mãe. Viu quando Lori se mexeu, bem como as algemas serem abertas. A mulher pareceu hesitar um segundo, mas logo avançou sobre a criança. Carl tentou se defender, mas era pequeno e nada pode fazer quando ela o agarrou e o mordeu.

No pouco que podia ver da cela conjunta, Beth observou o desespero de Rick. A forma como ele atingia a parede envidraçada com suas mãos ensaguentadas, batia a testa algumas vezes no vidro, se machucando, não se importando, para depois deslizar até o chão e ali ficar quando Carl parou de gritar.

“Ele está morto.” Rick colocou a cabeça entre as mãos e soluçou. "Meu menino..."

Daryl ficou em silêncio. Estava se sentindo tão fraco agora, que mal podia manter os olhos abertos ou sequer chorar. Seus amigos estavam morrendo um a um pelas mãos das pessoas que amavam e nenhum deles podia fazer nada para alterar isso.

Mas ele não machucaria seu irmão. Rick estava em pedaços agora, mas ele tinha que sair daquele lugar. Ele tinha que ficar vivo para acabar com a raça do desgraçado que fizera aquilo com eles.

Pensando em Carol e nos demais, pensando que não queria se transformar em uma daquelas coisas obscenas, mergulhou na inconsciência.

Rick mexeu a cabeça levemente ao perceber que Daryl mal respirava agora. Encostado ao vidro observou durante uma hora a vida se esvair aos poucos de seu corpo, até que soube, ele tinha partido.

Por um momento de desespero se deixou ficar ali, o observando, lembrando.

O viu claramente na montanha, se aproximando com sua besta e dando uma lição sobre como matar errantes. As imagens dele ao longo daqueles meses, se misturando com as de seu filho e sua esposa. No como cada dia ao seu lado o fez conhecer e apreciar sua alma honesta e honrada, escondida sobre uma fachada rude e desbocada.

Escutava a voz de Maggie e de Beth lhe ordenando alguma coisa, mas Rick não os escutava. Pensava apenas que ele acordaria em algum momento e daria fim ao sofrimento que lhe corroía e destruía o homem que era antes de ouvir os gritos de seu filho sendo devorado pela mãe.

Seu filho estava morto, por que mais continuar vivo?

Mas algo lá dentro, uma necessidade de sobrevivência e de vingança, começou a queimar em seu peito.

Aproximou-se do corpo do amigo, o colocou de lado e passou os braços em seu pescoço em um meio mata leão. Não foi fácil, principalmente por que ele começou a despertar, se transformando muito mais rápido que todos os outros.

Rick o restringiu como pode, se escorando a parede de vidro quando as algemas se abriram e seu corpo o empurrou para trás.

“Desculpe irmão.” Sussurrou quando conseguiu a força necessária e quebrou seu pescoço, impossibilitando que ele coordenasse o restante do corpo, ainda que, como errante, ele continuasse vivo.

Depois disso, Rick não se mexeu, nem mesmo uma hora depois, quando ouviu os gritos de Beth, somados aos de Maggie, e soube que Hershel atacara a filha.

Não soube porque, mas algo o fez erguer a cabeça e olhar para a cela em frente.

Glenn partira há muito. O rapaz estava imóvel mesmo antes de Hershel sucumbir. Maggie, a sua frente, não desgrudava os olhos dele, as lágrimas ainda estavam lá, mas ela parecia tão resignada quanto Rick estivera uma hora atrás, quando pensou em deixar Daryl devorá-lo e acabar com seu sofrimento.

Rick encolheu-se quando viu que os dedos de Glenn se mexiam, algo sutil, até que seu corpo se sacudiu, como a tirá-lo do estupor da morte. Sua cabeça balançou e seus olhos abriram. Ele olhou para o lado de Rick e rosnou ao vê-lo. Foi quando Maggie soluçou e atraiu sua atenção.

“Eu amo você.” Ela disse quando as algemas se abriram e ele ficou livre.

E continuou sussurrando que o amava até ele se aproximar o bastante para avançar em seu pescoço, sem que ela tentasse nada para se defender.

Não houve gritos. A constatação desse fato impulsionou Rick a observar novamente a cela em frente e não acreditar no que via.

Glenn encarava Maggie e rosnava, o rosto há um palmo de distância do dela, mordendo o ar algumas vezes, mas nunca tocando na garota. Depois ele fez o impossível, se afastando para o outro lado da cela e ali ficou, virado para a parede, se mexendo levemente, grunhindo baixo, como os errantes ficavam quando estavam sozinhos e confinados em algum lugar.

Maggie olhou para Rick, os olhos muito abertos, sem poder acreditar. Encolhendo-se depois e evitando fazer qualquer ruído que pudesse alterar aquele milagre.

“Eu não acredito!” Uma voz soou no corredor e ambos ouviram os passos de alguém que se aproximava.

Era um homem, jaleco branco, prancheta na mão onde rabiscava algo com frenesi. Devia estar na casa dos trinta, cabelo castanho e óculos redondos.

“Eu tenho lutado por este momento.” Ele dizia excitado. “Tenho reunido todos os meus esforços para provar isso.”

“Seu desgraçado.” Rick bateu as mãos no vidro. “Vou matar você.”

“Desculpe, senhor, mas acho que não está em posição de fazer ameaças.” E riu, algo insano.

“Por quê?” Maggie perguntou em um fio de voz. “Por que fez isso conosco.”

“Foi por uma boa causa, acreditem.” Rick deu um passo atrás, com nojo daquele louco. “Tenho feito experiências, desde que tudo começou.” Olhou diretamente para Glenn. “Vejam bem, eu tinha certeza que ainda havia algo de nós que sobrevivia neles. Mas nenhum dos meus testes deu resultado. Todas as minhas tentativas sempre foram frustradas, por que algo estava faltando, entendem?”

O homem parecia adorar o som da própria voz.

“Foi quando o grupo de vocês entrou no galpão. Meu galpão armadilha.” Ele sorriu. “Vocês eram tão unidos. Havia um pai e suas filha. Duas mães e seus filhos. Amigos que conversavam como se fossem irmãos.” Olhou para Maggie. “Um casal apaixonado.”

“Miserável.” Maggie cuspiu.

“Eu sei que parece bárbaro.” Ele parecia fascinado com Glenn. “Mas vocês me mostraram o que faltava na minha experiência.”

Rick pensou em cada uma das divisões nas celas e se deu conta do que ele usara em seu absurdo e desumano teste.

“Amor.” Falou e o homem afirmou com a cabeça.

“E eu estava certo.” Apontou para Glenn. “Olhe para ele.” Estava em êxtase. “Olhe para ele.”

Foi rápido, e o homem não pode e nem teria muita capacidade de reagir. T-Dog o atingiu na cabeça e ele caiu desmaiado. O braço do companheiro estava ensanguentado e seu ombro parecia deslocado, mas ele estava bem o bastante e não parecia ter sido mordido.

Rick viu T-Dog se abaixar e retirar um cartão magnético do bolso do jaleco daquele louco. Havia ali um nome bordado: Milton Mamet.

Estava livre, mas aquele experimento mudara algo nele irremediavelmente.

Encarando Maggie, no momento em que T-Dog abria a porta, Rick riu de modo cruel, e ela sorriu cruelmente de volta.

Notas finais
Foi isso!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!