The Evil Within
45 O fim é um novo começo
Notas iniciais

Taehyung abriu os olhos lentamente. A claridade o fez franzir a testa; ardia. Piscou algumas vezes, tentando reconhecer onde estava. Tudo parecia confuso, branco, silencioso. Quando finalmente seus olhos se acostumaram à luz, percebeu que estava em um quarto de hospital. O som do monitor cardíaco ao lado era o único sinal constante de que ainda estava vivo.
Na poltrona ao lado da cama, Jungkook ergueu a cabeça com um sobressalto ao perceber o movimento.
— TAEHYUNG! — gritou, entre o alívio e o desespero contido.
Taehyung virou o rosto com dificuldade, sua voz saiu rouca e fraca:
— Yoongi... onde está o Yoongi?
Tentou se levantar, mas Jungkook rapidamente o conteve, firme e cuidadoso.
— Ei, calma! Você não pode se mexer assim. Foram três dias de recuperação. Ainda tem pontos nas costas por causa da viga… pode se machucar de novo.
Mas Taehyung não ouvia nada além do próprio coração pulsando em pânico.
— Cadê o Yoon?! — insistiu, a respiração acelerada.
— Ele está bem, Tae. Tá tudo bem com ele.
— Me diz onde ele tá. Agora.
Jungkook suspirou, vencido pela urgência nos olhos do amigo.
— Ele tá no quarto ao lado. Também se machucou um pouco com a queda, mas nada de grave. Só precisa de repouso.
Antes que Taehyung pudesse tentar sair da cama por conta própria, Jungkook se adiantou.
— Calma. Eu te ajudo. Vamos devagar, ok?
Com esforço, Jungkook o ajudou a se levantar. Taehyung mordeu o lábio com dor. Os músculos das costas protestavam, os pontos repuxavam. Mas nada disso importava. Ele precisava ver Yoongi. Precisava ter certeza de que ele estava bem.
Cada passo que dava, mesmo com dificuldade, o aproximava do que mais importava: o amor da sua vida.
Jungkook caminhou com Taehyung até o quarto ao lado, apoiando seu corpo ferido com todo o cuidado. Parou diante da porta, respirou fundo e a abriu lentamente.
O quarto era silencioso, envolto pelo cheiro suave de desinfetante e lençóis limpos. A luz amena filtrava pelas cortinas, banhando o ambiente com uma delicadeza quase sagrada. E lá estava ele.
Min Yoongi.
Dormia tranquilo, quase etéreo, afundado entre os lençóis brancos que destacavam ainda mais sua pele pálida e serena. Pequenos arranhões adornavam seu rosto como marcas de uma batalha vencida. A respiração era calma, os lábios levemente entreabertos, como se estivesse sonhando com algo leve e bom.
O coração de Taehyung apertou. Seus olhos se encheram de lágrimas no mesmo instante. Ver Yoongi ali era tudo o que ele precisava.
Com passos lentos e trêmulos, se aproximou da cama. Ajoelhou-se ao lado dela com dificuldade, ignorando a dor nas costas. Curvou-se sobre o corpo de Yoongi e, por um instante, apenas observou. Seu rosto, suas pálpebras delicadas, a curvatura de seus lábios. Aquela era a pessoa por quem ele atravessaria o inferno quantas vezes fosse preciso.
As lágrimas caíram silenciosamente, pousando como gotas na bochecha de Yoongi.
— Eu te amo... eu te amo tanto... — sussurrou repetidamente, com a voz embargada, deixando um beijo leve e demorado em sua testa.
Taehyung então se virou para Jungkook, a voz fraca, mas carregada de urgência.
— Como ele tá? Me diz a verdade.
Jungkook se aproximou, pousando a mão em seu ombro.
— Ele tá bem, Tae. De verdade. Só está dormindo por causa dos sedativos. Foi difícil pra ele... não conseguia descansar. Mas agora está seguro.
Fez uma pausa e sorriu com os olhos marejados.
— Ele está vivo por sua causa. Você o salvou.
Taehyung respirou fundo, tentando conter o choro. Um alívio quente invadiu seu peito. Pela primeira vez desde que tudo começou, sentiu que estava tudo realmente acabando. Que o pior tinha passado. E que o amor tinha vencido.
— E nossos bebês? Como eles estão? Estão bem? — a voz de Taehyung saiu trêmula, carregada de medo e esperança.
— Estão, sim. — Jungkook respondeu com um sorriso sereno — Graças a Deus, nada de grave aconteceu. Eles são fortes... como os pais.
O alívio escorreu pelo rosto de Taehyung em forma de lágrimas silenciosas.
— Obrigado por cuidar dele enquanto eu estava inconsciente. Você disse que dormi por três dias... o que aconteceu? Como saímos de lá?
Jungkook suspirou profundamente antes de responder, o olhar se perdendo por um instante na lembrança do caos.
— Foi tudo muito rápido. Quando ouvimos a explosão, corremos para a entrada do hotel. Encontramos você e Yoongi desmaiados, cobertos de poeira. Namjoon te pegou nos braços, e eu carreguei Yoongi. Conseguimos sair... segundos antes de tudo desabar.
Taehyung fechou os olhos, sentindo o peso daquelas palavras. A imagem de perder tudo — Yoongi, seus filhos, sua vida — o esmagava por dentro. O peito apertado, o ar parecia mais pesado.
— Ei, não fica assim. — Jungkook sorriu para ele — Deu tudo certo, Tae. Vocês estão vivos. O Yoon vai ficar bem, os bebês também. Você foi um herói. Salvou todos.
As palavras do amigo foram como um cobertor quente em um dia gelado. Taehyung sorriu, ainda entre lágrimas.
— Obrigado, Jungkook... de verdade. Nem sei o que dizer...
— Não precisa agradecer. — Jungkook retribuiu o sorriso, os olhos também marejados — Nós somos mais que amigos, Tae. Somos família. Sempre fomos.
Sem conseguir segurar a emoção, Taehyung se jogou nos braços de Jungkook. Chorou como uma criança, permitindo-se desabar depois de tudo o que enfrentou. Jungkook o abraçou forte, como um irmão faria, e deu leves tapinhas em suas costas, num gesto silencioso de consolo.
— Espero não estar atrapalhando o casal... — disse Yoongi, sonolento, com a voz rouca e um sorrisinho no canto dos lábios.
— YOON! — Taehyung deu um pulo e correu até ele, envolvendo-o num abraço apertado — Eu fiquei com tanto medo de te perder... — chorava sem conseguir conter a emoção, soluçando contra o peito do amado.
— Eu também, Tae. — Yoongi sussurrou, acariciando suas costas com carinho — Senti tanto sua falta. Não me deixavam ficar no quarto com você, mas... eu fugi. Várias vezes. Dormi com você escondido — ele deu uma risadinha travessa — As enfermeiras me expulsaram mais do que devia, já estavam cansadas da minha cara.
Taehyung riu entre lágrimas, beijando o rosto de Yoongi repetidas vezes, como se quisesse provar que ele realmente estava ali.
— E como estão os nossos bebês? — perguntou com os olhos brilhando.
— Sentindo sua falta também. — Yoongi sorriu, apontando para a barriga.
Taehyung se curvou, colou o rosto à barriga de Yoongi e deixou um beijo demorado ali.
— Papai está aqui... — sussurrou — Papai vai cuidar muito bem de vocês. De vocês três. Meus três bebês...
Então se inclinou e roubou um beijo dos lábios de Yoongi. Doce, cheio de amor e alívio.
Jungkook pigarreou da porta, com um sorriso nos lábios.
— Bom... acho melhor eu sair antes que vocês façam mais filhos.
E saiu, sendo completamente ignorado pelos dois, que pareciam ter se desligado do mundo. Porque naquele momento, tudo o que existia era o amor entre eles.
...
Uma hora depois, eles foram despertados por batidas suaves na porta.
— Sou eu, Namjoon.
— Pode entrar. — disse Yoongi, se ajeitando nos braços de Taehyung.
A porta se abriu e Namjoon entrou, surpreso ao ver Taehyung acordado e aconchegado na cama com Yoongi, ambos com olhares cansados, mas vivos.
— Vejo que finalmente acordou. — Namjoon sorriu, aliviado — Que bom… fico mais tranquilo agora.
— Muito obrigado por tudo, Namjoon. Por ter salvado nossas vidas.
— Não precisa me agradecer. — ele respondeu, meio encabulado — É o meu trabalho… e, além disso, vocês são meus amigos.
A sinceridade em sua voz surpreendeu até ele mesmo. Namjoon não era bom em expressar sentimentos, e Yoongi soube tirar vantagem disso.
— Então venha aqui nos dar um abraço, chefinho.
Namjoon bufou, revirando os olhos, mas cedeu. Se aproximou e os abraçou com carinho, como um pai exausto, mas orgulhoso de seus filhos rebeldes. O momento foi silencioso, mas cheio de significado.
Ele então se afastou e seu semblante ficou mais sério.
— Preciso falar algo importante com vocês.
O clima mudou. Taehyung apertou Yoongi com mais força, como se pressentisse o que viria a seguir.
— Sobre Victor…
O nome foi uma faca no ar. O corpo de Taehyung enrijeceu.
— O que tem meu irmão? — sua voz soou firme, mas trêmula — Ele fez algo? Mandou algum recado? Está nos ameaçando de novo?
Namjoon fez uma pausa, suspirando profundamente. Seu olhar se perdeu por um instante, como se procurasse as palavras certas.
— Não encontramos o corpo. — começou — Mas… pelas imagens, pelos destroços… é impossível que alguém tenha sobrevivido àquilo. A explosão destruiu completamente os andares superiores. A estrutura inteira desabou logo depois.
Silêncio.
— O Victor... muito provavelmente não sobreviveu. — concluiu, num tom pesaroso. — Sinto muito, Taehyung.
Taehyung baixou os olhos. Yoongi segurou sua mão e a apertou, solidário.
— E a minha mãe? Como ela tá? Onde ela está? — Taehyung perguntou, com a voz baixa, como se temesse a resposta.
— Ela esteve aqui nos horários de visita. — respondeu Namjoon com suavidade. — Tá tentando digerir tudo… a perda do Victor a abalou profundamente. Se sente culpada. Mas a gente cuidou dela enquanto você ainda estava desacordado. Saber que você acordou vai ser um alívio pra ela.
Taehyung abaixou o olhar, apertando o lençol entre os dedos. Não era exatamente remorso o que sentia. Victor tentou matá-lo. Quis destruir sua vida por inveja. Mas era seu irmão. E mais do que isso, era o filho da mulher que ele mais amava no mundo.
E Taehyung sabia que mãe é mãe, ama mesmo quando o mundo inteiro vira as costas.
…
Uma semana depois...
A rotina de Hye Sung se resumia em silêncio e flores. Todos os dias, no mesmo horário, ela ia ao cemitério, sentava diante da lápide de Victor e chorava.
— Me desculpa... meu filho. Me desculpa por não ter conseguido te salvar de si mesmo.
Repetia essas palavras como um mantra. Como se, com o tempo, elas pudessem costurar as feridas invisíveis.
Ela queria que tudo tivesse sido diferente. Queria ter notado antes. Queria ter lutado mais. Mas agora só lhe restava seguir em frente por Taehyung. E por seus netos. Dois pequenos corações que em breve chegariam ao mundo, e ela jurou, do fundo da alma, que os protegeria de toda a maldade que não conseguiu impedir antes.
Enquanto isso, o mundo assistia a história dos gêmeos idênticos que seguiram caminhos opostos, um acontecido que dominou os noticiários. Era como um roteiro de cinema, um policial grávido, um sequestro, bombas, amor, perdão... e um desfecho trágico.
Victor, que viveu como vilão na sombra do irmão, morreu como herói. Sua última ação não apagava seus crimes, mas mudava o fim da história. Ele salvou Taehyung. Salvou Yoongi. Salvou os dois pequenos seres que ainda nem haviam visto a luz do mundo.
E por isso, mesmo com todas as cicatrizes, havia quem o perdoasse.
...
Alguns dias depois, Yoongi e Taehyung receberam alta.
Namjoon os esperava na recepção com um sorriso discreto, mas visivelmente aliviado. O caminho de volta para casa foi silencioso, como se o simples fato de estarem juntos de novo fosse mais importante que qualquer palavra.
Ao chegarem, todas as luzes da casa estavam apagadas.
— Estranho... — murmurou Taehyung.
Namjoon apenas sorriu de canto. Taehyung destrancou a porta devagar. Assim que acendeu a luz da sala levaram um grande susto.
— SURPRESA! — ecoaram em uníssono.
Os dois se sobressaltaram, ofegantes de susto e emoção. A casa estava cheia. Rostos familiares, sorrisos emocionados, olhos brilhando de alegria.
Uma grande faixa com letras coloridas dizia:
“Bem-vindos de volta!”
Balões por toda parte, uma mesa farta com bolos, docinhos, salgadinhos, sucos... tudo com cores vibrantes, como se o mundo estivesse comemorando o milagre da vida.
Hye Sung atravessou a sala em poucos passos, lágrimas nos olhos e o coração transbordando de amor.
— Te amo, mamãe. Você é a melhor mãe do mundo. — disse Taehyung, apertando-a forte em seus braços.
— Eu também te amo, meu amor. — ela respondeu, enxugando as lágrimas dele com os dedos. — Não chore, tá bem? Hoje é dia de celebrar. De agradecer por vocês estarem aqui, vivos.
Taehyung assentiu com a cabeça, mesmo com as lágrimas escorrendo sem controle. Era impossível conter a emoção.
Enquanto isso, um certo alguém tinha os olhos fixos em outra coisa...
— Yoon... você tá chorando? — perguntou Jungkook, com um sorriso torto.
— Não. Tô salivando mesmo. Preciso comer pelo menos uns cinco brigadeiros antes que eu desmaie.
A sala caiu na risada. E ali, entre lágrimas e risos, os dois se permitiram respirar de novo.
Taehyung olhou ao redor com o coração leve, absorvendo cada detalhe daquela cena. Estar ali, cercado por amigos e por amor, parecia um sonho distante dias atrás, quando ainda estava preso naquele hotel com o irmão. Mas agora... agora ele estava vivo. E não apenas vivo, estava cercado pelas pessoas que mais amava.
Na sala, Jimin, Hoseok e Rosé dançavam animadamente ao som das músicas que saíam do celular. Rosé começou a atacar os docinhos ao lado de Yoongi, como se fosse uma missão de vida. Namjoon e Jungkook disputavam uma partida de xadrez tensa; Jungkook fingia concentração, mas claramente pegava leve para não perder o emprego. Jin e Hye Sung trocavam receitas animadamente, como velhos conhecidos de cozinha. E no centro de tudo, o casal mais amado se abraçava em silêncio, apenas curtindo a paz que finalmente os abraçava de volta.
Foi então que Yoongi pigarreou e se levantou com dificuldade, chamando a atenção de todos.
— Atenção, pessoal! — disse, com a voz suave, mas firme o suficiente para que todos o escutassem. Os risos e conversas cessaram, os olhares se voltaram a ele. — Fico imensamente feliz por ver todos aqui. Vocês são a família que eu nunca tive. E agora sei que nossos bebês vão crescer rodeados de amor...
Fez uma breve pausa e sorriu de canto.
— Aliás... falando neles... acho que tá na hora deles nascerem.
Silêncio.
Os olhares se entrecruzaram, confusos.
— Como assim, amor? — perguntou Taehyung, franzindo o cenho.
Yoongi simplesmente apontou para o chão, ainda sorrindo com a maior calma do mundo.
— A bolsa estourou, Tae. Chegou a hora.
Taehyung baixou os olhos e viu o chão molhado.
— OH MEU DEUS, MEU DEUS! A BOLSA ESTOUROU! SOCORRO, SOCORRO, A BOLSA ESTOUROU!
— Respira, amor — disse Yoongi, com a tranquilidade de um monge. — A gente treinou isso, lembra? Tá tudo bem. Vai dar tudo certo.
— EU NÃO LEMBRO DE NADA! SOCORRO! — Taehyung suava, tropeçava nas próprias pernas, e mal conseguia falar entre um soluço e outro.
Jin foi até Yoongi e o ajudou a sentar com cuidado no sofá.
— Namjoon, amor, liga o carro. Hye Sung, pega a mala do Yoongi, tá no quarto, pronta! Hobi, liga pro Dr. Usui, avisa que tá na hora. Ele já sabe do que se trata. Jungkook, paga um copo d’água com açúcar pro Taehyung. Rápido. Açúcar é a única coisa que acalma esse homem.
— Nem parece que é médico — Jungkook comentou rindo, enquanto tentava acompanhar o caos que se desenrolava à sua frente.
— MAS EU NUNCA FUI PAI, CARALHO! — Taehyung gritou, ofegante, passando as mãos trêmulas nos cabelos, completamente em pânico.
— Amor, respiração cachorrinho... lembra? A gente treinou isso! — Yoongi tentava acalmá-lo. O que era irônico, considerando que ele era quem estava prestes a parir.
Tudo aconteceu muito rápido. Num piscar de olhos, Yoongi já estava sendo levado para o carro, a mala de emergência nas mãos de Hye Sung, Namjoon ao volante, e Jin coordenando tudo com a precisão de um general. Yoongi foi acomodado no banco de trás com Taehyung e Jin. Hye Sung e Namjoon seguiram na frente.
No meio do trajeto, a coisa desandou de vez.
Yoongi se contorcia de dor. As contrações vinham em ondas cada vez mais intensas, e ele apertava a mão de Taehyung com força sobrenatural.
— Vai dar tudo certo, meu amor. Estamos quase lá. Respira certinho comigo, ok? — dizia Taehyung, tentando manter a calma, mesmo tremendo como um filhote.
— RESPIRAR CERTINHO É O MEU CU, SEU OTÁRIO! — Yoongi berrou, num tom tão animalesco que Taehyung congelou.
— O-o-o-ok... você tá indo muito bem... isso aí... força…
Yoongi gritava, xingava, arranhava e esmagava a mão de Taehyung como se quisesse quebrar todos os ossos, e quase conseguiu. Taehyung segurava o grito, os olhos marejados de dor, mas não soltava.
Quando finalmente chegaram ao hospital, o carro nem chegou a desligar. Yoongi foi retirado com urgência e levado direto para a sala de cirurgia.
Jin correu para a recepção com os documentos em mãos. Namjoon teve que praticamente enforcar Taehyung com um abraço para impedi-lo de invadir a sala.
E enquanto Taehyung surtava na recepção como um protagonista de novela mexicana, lá dentro, Yoongi respirava fundo, concentrado, pronto para trazer ao mundo o maior amor de suas vidas.
...
Algumas horas depois, a porta do quarto se abriu e o médico chamou Taehyung pelo nome. Ele se levantou num pulo, o coração disparado, as mãos tremendo de ansiedade, e seguiu o médico pelo corredor até chegar à porta. Respirou fundo antes de entrar.
Lá dentro, o tempo pareceu parar. Yoongi estava deitado na cama, o rosto suado e cansado, mas com os olhos brilhando de emoção. Chorava baixinho, embalando os dois bebês nos braços. Eles dormiam tranquilos, como dois anjinhos em meio aos lençóis brancos.
Taehyung sentiu os joelhos falharem. As lágrimas começaram a cair antes mesmo de dar o primeiro passo. Caminhou lentamente até Yoongi, cada passo carregado de alívio e gratidão. Quando chegou perto, Yoongi levantou os olhos para ele, o sorriso mais doce que já tinha visto.
— Amor… venha conhecer nossos filhinhos — disse Yoongi com a voz embargada.
Com todo cuidado do mundo, Yoongi colocou a menininha nos braços de Taehyung. Ela era minúscula, tão delicada que parecia caber dentro das mãos dele. A pele era clarinha e sensível, com pequenas manchinhas vermelhas. Seus poucos fios de cabelo eram tão loiros, quase brancos, que brilhavam sob a luz do quarto. Estava enrolada numa cobertinha rosa, e Taehyung a pegou com extremo cuidado, com medo de machucá-la.
— A princesa do papai… — Taehyung chorava de orgulho, acariciando de leve o rostinho dela — Yoon… ela é linda. Branquinha como você.
Yoongi sorriu, embalando o bebê menino que ainda segurava.
— E o nosso príncipe é lindo como você, amor. — O menino, maior e mais gordinho que a irmã, tinha herdado o tom da pele de Taehyung. E, quando abriu o berreiro pela primeira vez, ficou claro que também tinha herdado o pulmão do pai. Taehyung esticou os braços para pegá-lo, desesperado para acalmá-lo, e assim que falou com ele, o bebê parou de chorar. A voz de Taehyung era como um abrigo.
O médico, emocionado, perguntou curioso:
— Já escolheram os nomes?
Os dois responderam juntos, sorrindo com lágrimas nos olhos.
— Nosso príncipe lindo será Kim Han Sung — disse Yoongi.
— E nossa princesinha será Kim Mi Suk — completou Taehyung.
Eles ficaram ali, olhando para os bebês com um sorriso bobo estampado no rosto. Taehyung deixou um beijo na cabeça de cada um, e também na testa de Yoongi.
— Meus três bebês… — murmurou ele, a voz embargada pelo orgulho. — Minha família.
...
Dois meses depois...
A casa estava uma loucura. Todos corriam de um lado para o outro com os preparativos do tão aguardado casamento duplo.
Yoongi e Jimin estavam no quarto, nervosos, tentando terminar de se arrumar. Vestiam ternos brancos impecáveis, combinando com coroas delicadas de flores rosas e lilases. Jin finalizava a maquiagem de ambos, e como sempre, eles já estavam atrasados.
Na área da cerimônia, o clima era de expectativa.
Taehyung, parado em frente ao altar, parecia prestes a explodir de ansiedade. Suava, o coração batendo tão forte que podia ser ouvido.
Jungkook estava ao lado, se controlando para não chorar antes mesmo da cerimônia começar.
Os dois iriam se casar com o amor de suas vidas.
A decoração da festa era uma explosão de tons rosa e lilás. Rosa, escolha de Jimin, e lilás, a cor "mais razoável" que Jin permitiu depois que Yoongi sugeriu preto, o que, para desespero de todos, Jisoo apoiou e achou que Preto e Rosa seria uma combinação perfeita.
Rosé brincava com o Sr. Coelho, alheia a todo alvoroço, enquanto Hoseok tentava, em vão, atrair a atenção de Jisoo, que fingia não notar.
A música nupcial começou a tocar, e todos se viraram ao mesmo tempo, ansiosos pela chegada dos noivos.
Taehyung e Jungkook, em seus smokings pretos, estavam incrivelmente lindos. Tentavam manter a compostura, mesmo com os olhos marejados e sorrisos nervosos. Acenaram um para o outro, cúmplices, e voltaram a olhar para a entrada.
As portas se abriram.
Namjoon apareceu no centro, de braços dados com Jimin à direita e Yoongi à esquerda. Parecia um pai orgulhoso conduzindo seus filhos ao altar, e para ele, era exatamente isso.
Taehyung sentiu o ar sumir dos pulmões quando viu Yoongi.
Jungkook prendeu a respiração ao olhar para Jimin.
Os dois estavam simplesmente deslumbrantes. Os ternos brancos brilhavam sob a luz suave, e as coroas de flores nos cabelos davam um toque angelical.
Caminharam pelo tapete vermelho sob os olhares emocionados dos convidados.
Namjoon os conduziu até o altar e, antes de entregá-los aos respectivos noivos, disse em tom firme, porém carinhoso:
— Cuidem bem deles.
Taehyung segurou a mão de Yoongi como se fosse a coisa mais preciosa do mundo.
Jungkook entrelaçou os dedos nos de Jimin com tanta doçura que fez até Jin chorar, e ele nem era o noivo.
A cerimônia estava prestes a começar, mas o amor, esse já estava ali há muito tempo.
...
A cerimônia chegou ao fim com um belo e uníssono "sim" dos quatro noivos. Os aplausos ecoaram pela cerimônia, todos de pé, emocionados e animados, pedindo o tradicional:
— Beija! Beija!
Os casais se beijaram sob os gritos e risadas da plateia, enquanto Rosé fazia uma careta exagerada de nojo e, dramaticamente, cobria os olhos dos pequenos Han Sung e Mi Suk, como se quisesse poupá-los de tamanha ousadia romântica.
Hoseok, entre uma garfada e outra de bolo, desviou os olhos rapidamente para Jisoo, que, percebendo o olhar, marchou até ele achando que estava sendo encarada.
A festa foi simples, mas calorosa e cheia de alegria.
Comida farta, música animada e muita dança. Uma combinação perfeita para uma celebração inesquecível. Todos riam, cantavam, dançavam e, claro, queriam tirar fotos com os recém-casados. Até os gêmeos estavam de branco, como Yoongi, e chamavam a atenção com tanta fofura. Uma fila se formou só para tirar selfies com os pequenos.
Depois do corte do bolo, chegou o momento mais aguardado pelos solteiros: a disputa pelos buquês.
Yoongi e Jimin tomaram a frente, empolgados.
— UM... DOIS... TRÊS! — contaram juntos, lançando os buquês para trás.
Jimin acertou em cheio nas mãos de Jisoo, que segurou o arranjo com um olhar de desconfiança.
Yoongi, por outro lado, acabou jogando direto no colo de Hoseok, que estava distraído comendo e tomou um susto.
— Jisoo, olha! Eu peguei! — disse Hoseok, correndo até ela com o buquê nas mãos.
— Você vai ser o próximo a casar, então — respondeu ela, emburrada, desviando o olhar.
— E isso é ruim? — ele riu.
— Pra você deve ser ótimo... — ela murmurou.
— Você também pegou o buquê, sabia? Isso quer dizer que... nós dois seremos os próximos.
— Pode se casar com a sua vizinha, que vive em cima de você — respondeu ela, virando o rosto com falsa indiferença.
— Já tenho uma pessoa com quem quero me casar quando crescer.
— E quem seria essa?
— Você, ora! — disse Hoseok, deixando um beijo tímido na bochecha de Jisoo.
Ela arregalou os olhos.
— Hobi... isso é um pedido de namoro? — perguntou, desconfiada.
— Você... você quer namorar comigo? — ele respondeu, quase se encolhendo, já esperando o fora. — Já sei... agora é a parte em que você me dá um fora.
— Não, idiota! — Jisoo segurou a mão dele e o puxou para dançar. — Eu aceito.
A festa durou até às seis da manhã. Todos dançaram, comeram e beberam. A partir dali, Yoongi passou a ser Kim Yoongi e Jimin, Jeon Jimin. Ambos casados e apaixonados. Prontos para uma nova vida ao lado de suas almas gêmeas.
...
Quatro anos depois
Taehyung corria pela casa como um louco atrás de Han Sung, que gargalhava enquanto fugia em zigue-zague. O garotinho era puro fogo no parquinho: danado, esperto e cheio de energia. O problema? Estava na hora do banho, e Taehyung queria os dois filhos cheirosinhos e impecáveis antes que seu amado marido chegasse do trabalho.
Enquanto isso, Mi Suk, a calmaria da casa, assistia desenho no sofá, mamadeira na boca e olhar atento na tela. Era uma menininha doce e tranquila, tirando os momentos de manha em que só queria colo e cafuné.
Yoongi e Jungkook haviam sido promovidos à Divisão de Homicídios, o que significava adeus às rondas perigosas nas ruas e olá às salas com ar-condicionado. Claro que tinham que lidar com o humor duvidoso do chefe Namjoon, que só melhorava quando Jin aparecia com donuts e café, como um anjo da guarda corporativo.
Naquela semana, Yoongi e Jungkook estavam mergulhados em um novo caso, enquanto Taehyung ficava com as crianças. Ele havia ajustado sua agenda na clínica para ter mais tempo com os filhos, o casal se revezava com harmonia, mantendo o equilíbrio entre o amor, o trabalho e o fato importante de serem pais, sem esquecer de reservar momentos só para eles. Quer dizer... tentar reservar. Porque, invariavelmente, toda vez que começava uma faísca no quarto, um choro infantil ecoava pela casa.
— É como se eles tivessem um radar anti-pegação! — dizia Taehyung, entre risos.
As férias daquele ano seriam novamente em casa. Sair com duas crianças pequenas era como participar de uma gincana de sobrevivência. Então, decidiram transformar o lar no melhor parque de diversões possível.
Para o fim de semana, planejaram um piquenique em família no quintal, com toalha no chão, suco natural, biscoitinhos e muita risada. Nada de luxo, só amor e simplicidade.
Taehyung observava tudo com o coração cheio. Sentado no chão, vendo Mi Suk aninhada no colo de Yoongi e Han Sung tentando colocar um pão de forma na cabeça como se fosse um chapéu, ele respirou fundo e sorriu.
Aquela era a família dos seus sonhos.
E agradecia todos os dias por ter construído tudo aquilo ao lado de Yoongi.
…
Hye Sung surpreendeu a todos. Assumiu sozinha os negócios do falecido marido, transformando-se na CEO mais temida, e respeitada, da rede de hotéis. Aquela que antes era vista apenas como uma enfermeira doce agora gerenciava tudo com punho de ferro, com um único objetivo no coração: construir uma herança sólida para seus netos.
Rosé, com seus quinze anos, sofria todos os dias com os discursos motivacionais de Jisoo, que agora, aos vinte, era uma das mais jovens residentes de medicina do país e ainda se preparava para uma segunda graduação.
Hoseok estava prestes a realizar seu próprio sonho: formar-se em Artes. Não virou advogado nem médico, como os pais esperavam, mas estava feliz fazendo o que amava, e com um detalhe extra escondido no bolso, comprou um anel de compromisso para pedir Jisoo em casamento. Toda vez que imaginava o momento, começava a suar frio.
Jimin havia concluído a faculdade. O sonho de escrever um livro finalmente estava ao alcance das mãos. Para ganhar experiência, começou como assistente de uma escritora. Foram dois anos de trabalho intenso, revisando capítulos, incentivando quando a autora desanimava, dando ideias para cenas e personagens.
Agora, com o esboço do livro nas mãos, ele alisava a contracapa. No nome do autor lia-se “Rize Kamishiro”, e logo abaixo, no nome do coautor, “Jeon Jimin”. Ele sorria ao ver seu nome ali. Com a outra mão, acariciava a barriguinha onde uma nova vida crescia, fruto do amor entre ele e Jungkook.
— Jimin — chamou Rize, emocionada — quero te dar a honra de escolher o nome do nosso livro.
Jimin arregalou os olhos. Amava aquela obra; tinha ajudado a dar vida a cada capítulo. Sentia-se parte dela de um jeito único. Inspirou fundo, lembrando do protagonista, um rapaz solitário que encontrou amigos leais e descobriu que nunca esteve sozinho. Jimin sorriu e respondeu:
— O nome do livro será… O Príncipe de Amicitia.
Fim
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