The End of The Innocence
1 Capítulo único
Notas iniciais
O lugar fedia a carne de porco e morte. Sandor ouvia os gritos vindos do salão onde o jantar acontecia, e podia ver soldados incendiando tendas. Fogo. Ele queria dar o fora dali, como fizera durante a Batalha da Água Negra, e pela segunda vez, era alguém de sobrenome Stark que o impedia de fazê-lo imediatamente.
Onde a merdinha se metera? Ele não queria adentrar ainda mais por aquelas vielas impregnadas pela traição e frieza dos Frey, mas não tinha outra opção. Não deixaria seu único trunfo ali para morrer. Embora a companhia de Arya fosse deveras desagradável, ela era seu saco de ouro e ele sempre defendera o que lhe pertencia.
Felizmente não teve de investir muito tempo em sua busca, não demorou para ver uma cabeça castanha escondendo-se porcamente atrás de um barril. Ele se aproximou o suficiente para perceber que Arya estava paralisada, mal via suas costas se mexerem com a respiração. Curioso, Sandor olhou adiante em busca do que deixara a menina naquele estado, e por baixo das grades de um estábulo viu sangue escorrendo e um lobo cinzento dando seu último suspiro. Sandor suspirou também, ele se lembrava muito bem do drama que acontecera mais de um ano antes, quando uma daquelas bestas de quatro patas fora assassinada pelo patriarca da família Stark por ordem da Coroa.
Sandor deu um passo na direção de Arya, já haviam passado tempo demais naquele covil. Ele estava prestes a alcançá-la quando ela levantou cambaleante e se precipitou na direção de alguns guardas que riam com suas espadas ensanguentadas. Ele teve que correr atrás dela, Arya não tinha respeito pela própria vida, ela morreria ali se ele não intervisse.
Tocou o ombro dela com força, virando-a para si.
Ela o olhou com aqueles olhos enormes, estava sem cor, sua expressão era angustiada e robótica. Ela não parecia ter noção do que acontecia a sua volta.
– É tarde. – Ele ouviu sua voz dizer.
Ela o olhou por mais uma fração de segundo e virou-se indo novamente na direção dos homens. Sandor desferiu um golpe na parte de trás do corpinho franzino da garota. Poderia tê-la detido de outra maneira, mas ele sentiu que aquilo era uma vingança por ela ter sido desobediente e tola, por insistir em caminhar para a morte. De qualquer maneira, naquele momento, ele queria machucá-la.
Imediatamente pegou o corpo desacordado e jogou sobre o ombro, da mesma maneira que fizera com Sansa meses antes. A diferença de carregar um passarinho e uma loba, é que para carregar a loba, ela precisa estar inconsciente.
Com rapidez andou até Estranho e montou-o, ajeitou Arya a sua frente e agarrou as rédeas. Homens lutavam e ateavam fogo uns nos outros, soldados da Casa Bolton enforcavam aliados dos Stark, outros os amarravam em seus cavalos e davam sinal para que o animal corresse. O chão adquiria um tom escarlate, a atmosfera era insuportável e os gritos e lamúrias também.
Sem vontade de lutar naquela noite, Sandor agarrou uma bandeira da casa Frey e continuou a cavalgar levando a junto de si, garantindo assim passagem segura pela chacina.
Estava quase cruzando a fronteira da cidade quando uma movimentação o fez olhar para trás. Um bando de homens gritava “Rei do Norte” em tom de zombaria, enquanto outros traziam em um cavalo algo que Sandor reconheceu como sendo o corpo de Robb Stark costurado à cabeça de seu lobo. Sandor sentiu vontade de ir até lá e matar todos os soldados, não por respeito a Robb, ou Arya ou qualquer outro Stark. Mas por respeito à conduta básica de combate, aqueles homens haviam sido mais baixos do que Sandor se lembrava de ter sido a vida inteira e ainda se vangloriavam de seu feito.
Foi exatamente enquanto avaliava aquele comportamento asqueroso que Arya, até então desacordada, ergueu um olho preguiçoso para encará-lo. Mal sabia ele que seria o último olhar puro que veria no rosto dela. Ele estava pronto para virar o cavalo e poupá-la da visão de seu irmão morto, mas ela segurou seu braço o impedido.
Ele não se sentiu culpado por permitir que ela olhasse aquela cena por vários segundos. Culpa não existia em seu vocabulário. Ele fora desfigurado e agredido quando era mais jovem do que Arya e nunca ninguém se sentira culpado por isso.
Ele olhou de esguelha para a garota e viu lágrimas lavarem-lhe a face pequenina, finalmente deu o comando para que Estranho deixasse aquele lugar e quando voltaram a cavalgar ele pode ouvir os urros dolorosos que saiam da boca da garota. Ela escondeu o rosto na armadura fria de Sandor e embora ele não pudesse sentir as lágrimas quentes, sentia a tristeza dela atravessar sua alma.
Horas silenciosas se passaram até que ela saísse de sua posição, quando pararam em uma relva iluminada precariamente por luzes de uma cidade próxima seus olhares se encontraram. Os olhos inchados de Arya eram desprovidos de emoção e o que Sandor viu naquele rosto, fez com que seus próprios olhos se entristecessem.
Ela estava se dilacerando como ele fizera anos antes, e não havia nada que ele ou outra pessoa pudessem fazer para impedir que isso acontecesse. Ele nunca pensou em protegê-la e naquele momento entendeu que mesmo que quisesse, não poderia. Podia impedir que alguém a tocasse, mas não podia impedir que ela se autodestruísse. Aquele era um processo que havia começado anos antes, quando Arya sonhou em ser uma heroína naquele mundo podre. Respirou fundo. Estava fora de seu alcance. Estava feito.
Notas finais
Alguém gostou?
Opiniões e críticas são muitíssimo bem vindas nas reviewes.
See ya soon.
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