The End Is Coming
3 Sim, Dragões!
Notas iniciais
Espero que gostem o/
Qualquer dúvida só comentar.
Eu passei o final de semana todo pensado sobre o que o Sam havia dito. O que ele ia me contar? Será que ele tinha um dragão em algum lugar? Isso parecia meio estranho... Nem mesmo o fim de semana ensolarado, típico do Rio de Janeiro e todo o sorvete que tomei me fizeram esquecer aquilo.
Finalmente, segunda feira de manhã! Acho que eu nunca havia chegado tão cedo na escola quanto naquele dia. Fiquei no portão esperando o Sam chegar. Enquanto aguardava fiquei observando as pessoas que estavam no pátio, algumas delas aparentavam ser... Diferentes... Eu não saberia explicar como exatamente, ou ao menos como eu conseguia saber disso, mas eu sabia que muita gente ali não era apenas um ser humano normal. Muitos ali estavam destinados a grandes coisas no futuro, que eu mal imaginava estar bem próximo.
Logo que vi o Sam corri até ele, ele já havia entrado, provavelmente deve ter passado enquanto eu estava distraída observando um garoto sentado sozinho, lendo alguma coisa sobre guerras:
–Sam... Sam... – eu estava ligeiramente ofegante, nunca fui muito boa em corrida, sempre perdi o fôlego em questão de poucos minutos. – Sam, você precisa me contar sobre os dragões e...
Eu não tinha notado, havia alguém junto do Sam, uma garota. Pouco mais baixa que eu, cabelos longos e pretos, tinha a cara meio redonda e falava tudo muito animadamente. Pessoas que são animadas demais ao falar sempre me deixaram um pouco nervosa. Sam virou-se para mim:
–Bom dia Aya! Essa aqui é a Rachel, ela é meio que uma prima de consideração. Minha família é grande amiga da família dela, nos conhecemos desde pequenos. Eles vieram da Inglaterra junto com a gente.
Torci a cara e murmurei um “oi” mal humorado pra amiga dele. Grande coisa, “quase uma prima”, “viemos da Inglaterra”. Pensei comigo: “Calma aí, Inglaterra? Bem que eu achava o Sam muito diferente das outras pessoas, principalmente o nome dele.” Não consegui disfarçar minha curiosidade e perguntei:
–Você veio da Inglaterra?
Rachel me olhou com cara de quem diz: “Não sabia não querida?” Sam respondeu educadamente:
–Sim Aya, meu pais são ingleses, eles vieram para o Brasil quando eu ainda era um bebê, junto com os pais da Rachel. Acho que eles estavam pesquisando algo por aqui, não tenho muita certeza.
Rachel deu um sorriso que para mim, pareceu ligeiramente maléfico:
–Bom Sam, eu preciso ir agora, passei aqui na sua escola só para te ver. Senti saudades.
–Ok baixinha, sempre que quiser pode aparecer.
Ele despediu-se dela com beijinhos na bochecha, que ódio eu sentia daquela cena estúpida, sempre fui muito ciumenta, mesmo com amigos. Depois que ela saiu voltei a falar com Sam:
–Estranha sua amiga. Não gostei dela.
–Que isso Aya, vai ficar com ciúme agora é? Pare de ser bobinha.
Fiquei um pouco envergonhada com aquilo, mas havia algo mais importante e que me interessava muito mais:
–E então Sam, os dragões? O que têm eles? Não vá me dizer que você tem um dragão no seu quintal?
Ele sorriu, provavelmente achando meu jeito de falar engraçado, e respondeu?
– Calma Aya. Hoje, depois da escola, você pode ir até minha casa? Lá eu te conto.
Fiquei vermelha, ir até a casa de um garoto? Eu nunca tinha ido à casa de ninguém antes. E se ele quisesse fazer algo comigo? Provavelmente ele deve ter notado:
–Relaxa! Não vou te sequestrar, estuprar ou fatiar, apenas quero te mostrar uma coisa.
– Tudo bem, tudo bem. Mas vai demorar muito? Eu preciso pensar em algo pra dizer aos meus pais pelo meu atraso.
–Não, não, acho que uma hora é suficiente.
Pensei por um minuto que aquilo era uma coisa estranha e assustadora, quase disse não, mas ouvi a voz dela na minha mente: “pode ir, está tudo bem, eu cuido de você.”. Com certeza eu sabia que podia confiar nela, se Chris dizia estar tudo bem, estava tudo bem:
–Ok então Sam. Vamos nos encontrar aqui na saída então?
–Com certeza.
Fui para a minha aula, no intervalo liguei pra minha casa e disse a minha mãe que precisaria ficar até um pouco mais tarde no colégio fazendo um trabalho, ela disse que tudo bem pois iria sair a tarde toda. Eu nunca havia mentido antes, aquilo foi meio estranho.
No fim das aulas, já quase duas da tarde, encontrei com o Sam:
–E então, vamos? – Ele parecia meio apressado ao dizer isso.
Acenei que sim com a cabeça e fomos andando até a casa dele, vinte minutos depois estávamos no portão. A casa de Sam por fora era bem normal, muro pintado de verde claro, portões de madeira, uma varanda onde tinha uma mesa de ferro com duas cadeiras. As paredes externas eram de um verde pouco mais escuro que o do muro e as portas e janelas eram pintadas de branco. Havia um jardim na frente da casa com flores de várias espécies diferentes e uma fonte com dois dragões jorrando água pela boca. Pensei comigo: “Incrível!”.
A parte interna da casa era bem diferente, os móveis eram antigos, desses feitos realmente de madeira e as paredes eram pintadas de vinho. A casa tinha três quartos, um deles foi convertido em biblioteca pela família de Sam e foi pra lá que ele me levou.
–Seus pais não vão reclamar por estarmos mexendo nas coisas deles?
–Você pode ficar tranquila, eles não estão em casa, só chegam à noite.
Enquanto Sam procurava algo nas estantes eu observava o cômodo: Paredes no mesmo tom vinho do resto da casa, uma escrivaninha em um dos cantos, provavelmente para o pai de Sam fazer suas pesquisas, acho que ele era arqueólogo ou coisa parecida. Havia vários quadros com figura em estilo bem medieval, era uma decoração muito diferente pro nosso país. Eu estava examinando um carrinho de chá quando ouvi Sam:
–Achei!
Ele colocou em cima da escrivaninha um livro grande e velho, encadernação de couro e título em inglês que queria dizer: “Dragões: Possíveis locais para encontrá-los.” Ele abriu o livro no índice para procurar a página que queria, logo que achou me mostrou:
–Aqui veja. É isso o que meus pais buscam aqui há quase quinze anos, mas mesmo tendo procurado muito eles não conseguiram encontrá-lo ainda.
A página que estava aberta tinha a ilustração de um dragão verde água, alguns dados sobre ele pelo que eu pude entender, e um mapa que lembrava muito a parte do oceano Atlântico próxima ao litoral brasileiro.
–Você está falando sério? Seus pais estão procurando um dragão? De verdade?
– Eu não sabia se estava mais assustada ou empolgada.
–Sim Aya, meu pai acredita que é de extrema importância que os dragões sejam encontrados, esse é o que ele está buscando, ele tem viajado bastante por todo o litoral até o meio do oceano para descobrir a localização exata, pelo que sei ele está fazendo isso a mando de uma sociedade que existe desde que o homem descobriu a escrita! Ao que parece existem mais três dragões, um deles está próximo às ilhas havaianas, outro em algum lugar da Ásia e um que ainda não foi encontrado, alguns dizem que ele deve se esconder no Triângulo das Bermudas, mas papai acha essa história besteira.
Puxa vida, se ele precisaria de uns dias para entender a história de Chris eu acho que precisaria de meses para entender toda essa história. Eu realmente tinha problemas com espíritos intrometidos, deuses e de vez em quando uma ou outra criatura como um gnomo ou coisa assim, mas um dragão? Isso parecia assustadoramente incrível demais para ser verdade.
–Para com isso Sam, você deve estar tirando uma com a minha cara... Não tem graça.
–Você ainda dúvida? Então acho que terei que te mostrar mais coisas.
Ele me puxou pelo braço, me levou até os fundos da casa onde ficava a garagem e abriu um alçapão que tinha no piso, descemos por uma escada não muito longa, o “porão” em que entramos deveria ter no máximo 1,80m de altura a julgar pelo espaço entre minha cabeça e o teto. Ali havia uma mesa bem grande com vários mapas, coordenadas, mapas estelares, livros de história velhos demais e um mural com dezenas de fotos, todas elas tiradas no fundo do oceano.
–E então, acredita agora?
Acho que naquele ponto era impossível não acreditar... Ele teria que ser muito louco para fazer tantas falsificações apenas pra me pregar uma peça.
–Sim, acredito.
Ficamos um tempo naquele lugar, sempre fui curiosa e é claro que eu quis examinar todos os livros, fotos e mapas, quando nos demos conta já eram seis da tarde, eu precisava ir rápido para casa se não quisesse me encrencar e também precisávamos deixar tudo em ordem para o Sam não se encrencar.
Organizamos tudo o que bagunçamos, subimos a escada e fechamos e alçapão. Como já estava escurecendo Sam me levou até em casa, minha casa não era grandes coisas comparada a dele. Muro com pintura amarela já meio gasta, não tinha varanda, as paredes de dentro e de fora eram brancas e janelas de madeira marrom. Não tinha um jardim com fonte nem nada especial.
–É aqui. – Falei meio sem jeito. – Nós não temos nenhuma entrada secreta ou algo do tipo, mas temos refrigerante na geladeira, quer um pouco?
–Não, obrigada, eu preciso ir, tenho que ver umas coisas em casa antes dos meus pais chegarem.
–Ok. Então nos vemos amanhã na escola.
Fiquei no portão olhando ele ir embora e logo avistei o carro da minha mãe chegando, entrei correndo, liguei a TV, coloquei um pijama e sentei no sofá com um copo de refrigerante e um pacote de salgadinhos. Felizmente ela não desconfiou de nada.
Quando fui dormir aquela noite repassei mentalmente as fotos que vi na casa de Sam, eu tinha uma boa memória para imagens então não foi tão difícil. Lembrei-me de uma em que se via uma espécie de “luz” avermelhada, eu achei que aquilo era um olho, mas Sam disse que era apenas reflexo dos equipamentos usados. Sem dúvida eu iria dar um jeito de voltar até lá e rever aquela foto, eu precisava olhar com mais calma e ter certeza.
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