The End
6 Eu vejo fogo
É meia noite.
Falta menos de 8 horas para o acordo ser fechado.
Eu não consigo dormir.
O grito apavorado do Hylians ecoava na minha cabeça, mães tentando fugir com seus filhos de colo e algumas morriam abraçadas a eles. Irmãos que abandonavam os mais novos para salvar suas vidas. Famílias morrendo como uma família. Crianças pequenas gritando por seus pais. Homens sendo queimados vivos e pessoas praticamente pisando em cima das outras para tentarem serem salvas.
Meu peito doía, sentia o que o exército de Hyrule iria sentir. A dor de não conseguir salvar uma alma. Pois, pelo o que me lembro, o exercito não conseguiu salvar a todos, por mais que muitos de nossos homens se sacrificaram para conseguir este feito, a maior parte de nosso povo foi consumida por dor e sofrimento.
Estava encarando a situação de um jeito diferente, já que eu era uma mulher de 17 anos no corpo de uma garotinha de 10. Tive várias experiências relacionadas à guerra durante minha adolescência
Talvez com toda essa minha experiência eu consiga aplica-las agora e salvar meu pai, mas eu tenho que me lembrar de que tenho minhas limitações, serei obrigada a obedecer às ordens dos mais velhos. E no dia do golpe final a ordem do soberano será: “Tirem minha filha daqui”. Então serei posta num cavalo e irei para longe.
Abri a porta de madeira do meu quarto silenciosamente para não ranger. E em passos largos e silenciosos comecei a vagar pelo castelo. Lembrei-me das palavras de Dimitry, que caso algo fosse ocorrer com nosso reino eu poderia avisá-lo imediatamente.
Passei na frente da porta da sala de escrituras. Foi tentador, poderia ser uma carta de socorro ou despedida, pois depois de subir naquele cavalo duvido que nos veremos novamente.
Pensei por longos minutos e resolvi entrar. Peguei uma pena e um pergaminho e comecei a escrever:
“Caro Dimitry,
Lembra-se do homem que você viu quando veio aqui pela ultima vez? Sim, ele é sinônimo de problema.
Eu tive um sonho, um sonho que me revelou toda a verdade. Eu sei que pode ser meio estranho, mas eu sempre consegui ver a verdade oculta.
Esse homem tem o objetivo de nos transformar em cinzas. A cidade, o castelo, as pessoas, ao rei e a mim.
Em meu sonho, Impa me colocou as pressas em um de nossos cavalos e fugiu comigo. Então ficarei bem.
Por favor, entregue essa carta ao seu pai. Tenha o objetivo de salvar as pessoas e não o reino. Salve as famílias e esqueça a possibilidade de me encontrar.
Talvez um dia nos veremos novamente.
Eternamente amiga,
Princesa Zelda”
Carimbei, enrolei e amarrei. Iria pegar um de nossos pombos-correios para enviar a mensagem.
Parei minha sequência de ações, pois comecei a ouvir passos.
Passos fortes.
Passos de respeito.
No desespero em tentar encontrar um esconderijo, deixei a carta cair no chão. Escondi-me atrás de uma estante tapando minha boca para não espirrar, pois a poeira estava forte. Quase ninguém usava a sala desde que papai assumiu. Ele prefere falar pessoalmente a mandar “bilhetinhos”.
Como presumi, Ganondorf entrou na sala. Olhei para todos os lados tentando encontrar uma saída. Consegui ver um pequeno e estreito caminho atrás das estantes que levava até a saída.
Tentava não respirar alto e ir o mais rápido que pudesse sem fazer barulho. Estava nervosa, engatinhava no meio daquela poeira toda, por conta do nervosismo minha mão suava e eu me esforçava por não escorregar por culpa do suor. A poeira do local ia grudando em mim e dificultava um pouco minha visão
Ganondorf pegou minha carta e a abriu sem cuidado nenhum e começou a ler, deve ter lido somente o que lhe interessava e jogou a carta no chão. Passou a olhar pra todos os lados, estava como um lobo caçando por sua presa.
Se eu saísse ou desse pistas que eu estava ali, ele daria um jeito de sumir comigo. Ele olhou em todos os lugares onde uma garotinha pudesse se esconder, dentro de um baú, atrás das cortinas e em outros lugares que uma criança pequena pudesse “desaparecer”.
Então ele começou a olhar atrás das estantes. Minha sorte foi que ele começou por uma que eu já tinha deixado para trás. Voltei meu foco a engatinhar, tomando cuidado para não escorregar e nem acabar tropeçando por essa maldita barra desta camisola. Conseguia ouvir o barulho que suas mãos faziam ao procurar ficarem mais altos.
Cheguei à saída e sai correndo, sem olhar para trás, acabei derrubando alguns livros e logo após ouvi os passos dele atrás de mim.
Não foi fácil, Ganon sabe magia. Então lançou todas possíveis para me parar e por obstáculos na minha frente. Como ninguém ouviu aquela barulheira toda, não sei.
Tive que me lançar de um lado para o outro para não ser atingida, mas como nem toda esquiva é perfeita, ele acertou minha perna…
Parecia fogo, não, aquilo deveria doer mais que fogo. Eu sabia que se eu gritasse de dor, ele começaria seu plano mais cedo.
Agarrei-me a perna ferida e fiquei parada por um tempo, o suficiente de ele começar a se aproximar de mim.
Agarrou-me pela gola da camisola e me ergueu. Estávamos olho a olho.
Começou a recitar algum feitiço, olhando fixamente para mim. Senti minha garganta ser apertada e meus órgãos se comprimirem.
Se eu ficasse parada por muito tempo, ele me explodiria por dentro. O feitiço parece só funcionar se ele olhar para a vítima.
Olhei para uma poeirinha que estava em meu ombro, peguei e a soprei-a em direção ao seu olho.
Acertou em cheio, ele fechou os olhos e me soltou para tirar a poeira dali. Tive tempo de fugir.
Lembrei-me então do treinamento que Impa ainda iria me dar e olhei para uma janela. Seria suicídio, pois não tinha ainda força física o suficiente.
Comecei a ouvi-lo tornar a me perseguir e eu não tinha mais nenhuma opção além daquela.
Corri em direção àquela janela e pulei.
Agarrei-me a uma das pedras que compunham a estrutura do castelo e olhei para baixo, as coisas estavam minúsculas.
Conseguia ver apenas a pontinha da lança que os guardas carregavam não precisava me preocupar com eles, afinal, ninguém olha pra cima.
Por mais que minha mente estava acostumada com aquilo o meu corpo não estava e senti meu estomago revirar.
Comecei a escalar ignorando meu estomago, minha falta de força e o fato de que meus pés estavam nus, tinha pulado do segundo andar e meu objetivo era chegar ao quarto, onde eu poderia me esconder no sótão.
Estava chegando ao terceiro e estava passando perto de uma janela, onde uma das cozinheiras estava.
Parei e prendi minha respiração até ela ir embora.
Ela simplesmente não ia, estava ocupada demais olhando e comtemplando à noite. Meus braços começaram a doer.
Precisava continuar a escalada mesmo com ela ali.
Botei tudo o que restava da minha força para alcançar pedras mais distantes e sair dali rapidamente.
Teria sido uma boa ideia, se meus braços não tivessem ficado mais doloridos do que já estavam.
Continuei a subida, estava perto do meu destino. Mãos suadas, braços esgotados e já trêmulos.
O braço direito começou a vacilar, já não conseguia agarrar a próxima pedra. Quanto mais eu subia mais frio era e mais havia a ação do vento, o que não melhorava muito, pois o vento era mais forte do que meu braço cansado. Então toda a vez que eu conseguia agarrar a pedra o vento tirava-me essa alegria e empurrava meu braço para longe.
Olhei para baixo, a pontinha das lanças já haviam desaparecido, meu estomago revirou mais.
Continuei a subida, usando apenas o braço esquerdo e a força de meus pés, que já estavam esfolados e congelando.
Finalmente avistei a janela do sótão, estava ainda distante e eu não aguentaria escalar até ali.
Não pensei duas vezes, usei o que restou da força e me lancei em direção à janela. Era tudo ou nada.
Meus dedos se agarram a borda da janela, me forcei um pouco mais e consegui entrar.
A primeira coisa que fiz assim que pisei em terra firme foi vomitar. Tinha me esquecido o quão um corpo e organismo infantil poderia ser tão fraco.
A segunda foi me enrolar em uma manta e me manter aquecida. Peguei algumas faixas para tratar da minha perna.
O sótão era lotado de caixotes, baús com vestimentas já velhas, pinturas e decorações antigas. A madeira de seu chão rangia a cada passo, então tinha que tomar muito cuidado para ninguém me ouvir.
Não podia voltar ao meu quarto até o amanhecer. Ganondorf me caçava, então não era 100% de certeza que eu estava salva ali. Mas eu estava distante o suficiente, para maior segurança fui para de trás de uns caixotes e fiquei ali bem encolhidinha.
Fiquei tão cansada com esta maratona que não demorou muito para que caísse no sono. Iria acordar assim que o galo cantasse.
Amanheceu e infelizmente eu não fui acordada por um galo. Foi pelo primeiro Hylian sendo consumido em dor.
Havia começado. Ele deve ter adiantado tudo durante a noite... Por minha causa.
Vesti rapidamente um vestido velho que estava num baú, assim todos pensariam que eu teria saído do quarto mais cedo e corri lá pra baixo, ainda esgotada por causa da escalada.
Enquanto corria, vi soldados de Hyrule contra os de Gerudo. Nossas cozinheiras gritavam e batiam na porta da cozinha desesperadas, estavam trancadas e um forte cheiro de queimado vinha de lá de dentro.
Eu queria poder ajudar. Mas se uma Gerudo me avistasse tudo o que eu venho fazendo seria em vão. Então só continuei a correr, com meus olhos molhados.
Senti uma mão agarrar meu braço, congelei na hora.
– Onde você estava?! – Graças a Triforce, era Impa.
– E-Eu
– Eu e seu pai estamos loucos atrás de você!
– Papai! Temos que salvar o papai!
– Não há tempo! – ela me pegou no colo e saiu correndo comigo.
– NÃO! ME SOLTA! NÃO PODEMOS DEIXAR PAPAI AQUI!
– ESSE CASTELO VAI A RUINAS, PRECISAMOS SAIR! E SEU PAI JÁ DEU A ORDEM PARA TE TIRAREM DAQUI!
–. . . – me soltei dela e comecei a correr em direção a Sala do Trono.
– ZELDA!
O castelo já estava começando a ser consumido por chamas. Olhei por uma janela e parecia que a noite havia chegado mais cedo, o céu estava escuro e o cheiro que vinha dos jardins não conseguia disfarçar o cheiro da morte que o interior desse castelo exala.
Mesmo que eu não conseguisse salvar ninguém presente naquele castelo eu tinha que tentar salvar meu pai... Pelo menos meu próprio pai.
As pinturas que nos retratavam como pai e filha que decoravam o corredor, agora eram cinzas. Todas as memórias que fizemos juntos não passavam de cinzas.
Quando finalmente cheguei à entrada da Sala. Só existia fogo... Não havia trono nem tapete... Somente fogo.
Fiquei parada na frente daquele grande incêndio, sem reação e com um pouco de esperança.
– O rei de Hyrule.... – Consegui ouvir Ganondorf anunciar – Está morto!
Comecei a chorar. O triunfo de todo o exercito de Gerudo era alto o suficiente para ninguém ouvir meus soluços de dor.
– Papai... – me abracei, tentando recriar o calor de seu abraço – me perdoe... Por não ter tentado te avisar sobre o ataque.
– AINDA NÃO ACABOU PARA COMEÇAREM A FESTA! – Ganondorf bradou e a alegria do exercito foi cessada – ACHEM A PRINCESA!
A saída do castelo ainda estava livre, sem chamas por perto, comecei a correr até lá e acabei tropeçando em algo.
Em meio aos destroços causados pela guerra, achei um objeto azul. A Ocarina Do Tempo... Eu poderia toca-la agora, voltar para a minha época ou tentar salvar meu pai. Mas eu podia falhar nas duas opções e se eu salvasse meu pai aumentaria minha dívida com a morte. Fora que, alguém precisa deste instrumento mais que eu.
Impa passou correndo e me agarrou durante sua corrida.
– Não fuja mais assim!
Fiquei calada desta vez.
Corremos até acharmos um cavalo, montamos nele e fomos em direção à saída da cidade.
Gritos e mais gritos, sangue e mais sangue. Nosso cavalo não conseguia correr direito pois o chão estava coberto de corpos.
Fogo queimando casas, lojas, árvores e consumindo almas.
Vi uma mãe agarrada as suas duas crianças pedindo piedade a uma Gerudo, cobri meus olhos... Ouvi-a gritar... Não quero imaginar o que aconteceu ali.
Fiquei de olhos tapados até chegarmos ao portão, só ouvindo o sofrimento e um trote de cavalo, estávamos sendo seguidas.
Soube que tínhamos saído da cidade por que o cheiro da morte diminuiu.
Vi Link parado, olhando para o castelo com certo horror tentando entender o que estava acontecendo.
Joguei a Ocarina no lago mais perto e olhei para ele. Ele somente assentiu com a cabeça, havia entendido o recado.
Impa fez o cavalo acelerar e quando me dei conta, estávamos bem longe daquele inferno.
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