The Dying Ladies
6 Um desejo indesejado
Notas iniciais
Ezra abriu a porta e sorriu para ela. Aria sorriu de volta. Sorrisos ansiosos, carentes um pelo outro. Ele a segurou pela cintura, abraçando-a de modo leve e afetuoso, ela correspondeu ao toque e o beijou. Um beijo cheio de paixão com uma chama distinta de qualquer fogaréu que ambos já experimentaram em suas peles. Era amor, mas nenhum deles havia compreendido a dimensão da confusão que haviam se metido. A intensidade do beijo aumentou e as línguas se encontraram no mesmo ritmo, as mãos de Ezra exploravam o corpo da aluna, apertando-a em um abraço mais forte e ela o sentia, brincando com o seu cabelo. Foi ele quem parou de beijá-la e afrouxou o braço, sem perder aquele charmoso e luminoso sorriso jamais visto em lugar algum. Só ali, naquele apartamentinho.
– Eu tenho uma surpresa para você! – exclamou selando seus lábios mais uma vez antes de buscar uma caixa na gaveta de sua escrivaninha. – Aqui está.
Aria devagarzinho abriu a caixa e arregalou os olhos, admirada.
– Eu sei que é muito, – Ezra se justificou – mas todas as outras pulseiras em todas as lojas pareciam tão normais, tão iguais. Essa sim parecia com você linda, diferente. – juntou os seus olhos antes de prosseguir, para que visse que estava sendo verdadeiro. – E única.
A felicidade chegava até seu coração fazendo-a esquecer do mundo lá fora e de todos os seus problemas, os incontroláveis problemas.
– Ezra é linda! – sentia-se emocionada. – Muito obrigada.
– Eu sei que não posso estar com você no baile de boas vindas, então eu quero que uma parte de mim vá com você. – selou rapidamente os lábios da moça. – Quer dizer, eu até vou estar lá, mas não contigo. Juntos.
De tão baixinha ficou na ponta dos pés e o beijou novamente. E a chama reacendeu ainda maior, ainda mais forte. Era um insano desejo que vinha de dentro para fora, mansinho e de repente tão inesgotávelmente feroz. Aria retirou a sua blusa e em seguida a camiseta de seu professor. Entre os beijos havia sempre dois segundos de pausa para a necessária respiração, aquela que parecia cada vez menos necessária. A mocinha poderia escrever uma poesia sobre aquele gostoso momento e teve certeza disso após retirar a última peça de roupa dele. Quando mais uma vez Ezra penetrou dentro de si e a fez sentir como nunca, arrancando de sua garganta os mais altos gemidos de prazer como sempre. Era amor e eles estavam começando a compreender.
Ao fim do ato passaram minutos abraçados, encarando-se. Observando e admirando cada detalhe dos seus rostos, cada pequenino traço e marquinha. Sentiam-se meio bobocas e antagônicos porque apesar do sentimento ser dessa forma, tudo parecia sério e real. E isso fazia Aria pensar. Pensar que dali alguns anos estaria se formando na escola e partindo para uma boa faculdade. E então pegaria seu diploma de inglês e o casal teria a mesma profissão e nada mais seria errado, escondido. E estar com Ezra era maravilhoso. Maravilhoso não pensar em –A ou em Jenna. Era tão tranquilo viver em um mundo onde o ódio de Ella não existia e Mike não a desprezava ou seu pai não ligava há dias. E ela deixou uma pequena lagriminha cair quando se lembrou de todas essas atrocidades.
– Por que você está chorando? – preocupou-se Ezra. – Eu fiz algo de errado?
– Não Ezra, não tem nada haver com você. – deslizou suavemente a palma das mãos na bochecha. – Você e minhas amigas são as únicas coisas boas acontecendo na minha vida agora.
– Você quer falar sobre isso? – perguntou acariciando os fios castanhos da amada.
– Eu não quero, eu preciso. – murmurou esfregando o rosto no peito nu de Ezra. – Minha mãe não me ama mais e nem meu irmão. E meu pai me largou para sempre.
Aria notou o quão boba e infantil soou aquela frase e Ezra se sentiu no meio de uma crise adolescente.
– Não é tão bobo assim! – disse adivinhando seus pensamentos. – É muito pior do que você está pensando.
– Por que você não me explica melhor?
Antes aquele que estava ali como um apoio, como um amante já parecia estar estranhamente conectado a sua alma, agora tudo o que ela tinha era a certeza que de fato suas almas estavam interligadas. Aria dividiu o seu mundo com Ezra. Seu pesado e intranquilo mundo. E ele a entendia e a escutava. Naquele dia descobriu que era Ezra um ótimo conselheiro já que baseou todo seu discurso em uma só palavra: paciência. Ella provavelmente só precisava de um tempo para seus instintos maternais retornarem, mesmo achando que foi um tanto quanto precipitado da parte dela condenar a filha que foi impulsionada a guardar o segredo pelo bem da família e Mike poderia ser o maior desafio por ter o temperamento mais forte e os complicados hormônios da adolescência, mas dali algum tempo tudo faria sentido para ele. E a respeito de Byron, ele apenas disse que o pai estava envergonhado e a ligaria assim que tudo estivesse mais claro em sua cabeça.
– Muito obrigada Ezra. – agradeceu se ajeitando à cama colocando os joelhos no colchão para encarar o namorado, sem se importar com o corpo ainda desnudo. – Às vezes eu não queria gostar tanto de você.
Ao ouvir as duras palavras, a feição antes calma se transformou instantaneamente em amargura, tristeza, o que fez Aria refazer a frase.
– Não por mim. – forçou um sorriso meio rígido. – Por você. Eu queria simplesmente não gostar tanto de você porque não posso imaginar o que aconteceria se descobrissem sobre... sobre nós.
O ventilador foi música para os seus ouvidos enquanto os dois assistiam a um filme dentro de suas mentes. A polícia chegando e o levando para longe. Doía nela ser a culpada, doía nele estar longe dela.
– Olha, eu sei que o que nós temos é complicado. – começou a discorrer pegando a pequena pelos braços e a acolhendo. – Eu não vou desistir de você fácil, não acho que valha a pena fugir disso que nós temos. Você é especial de uma forma estupidamente linda e aterrorizante. E é perfeitamente feita para mim.
– Eu nunca ouvi nada parecido – disse mordiscando de leve a orelha de Ezra que se arrepiou. – E eu jamais poderia dizer uma só palavra diferente do que você me disse. Acho que a perfeição é mesmo inexistente, veja só nós dois! Somos tão iguais e há um mundo todo para fazer dar errado.
Aconchegou-se outra vez no quente peito do rapaz e escutou seu coração. Tum-tum. Fechou os olhos e sentiu o cheiro do conjugado, então relaxou.
– Ezra, você pode ler para mim?
Ele adorava ler para ela.
– Claro. O que você quer que eu leia?
– Qualquer coisa, ao seu gosto.
Esquivou-se delicadamente da quase adormecida Aria e pegou um livro de poesias. O autor era T. S. Eliot. Um dos favoritos de Ezra e muito provavelmente um dos queridinhos de Aria. Não era difícil relacionar seus gostos estranhamente parecidos. Passou as páginas se direcionando até a cama, onde se achegou a namorada e a tomou nos braços pela milésima vez naquela noite. Escolheu A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock e com a voz leve e baixa começou a lê-lo.
Então vem, vamos juntos os dois,
A noite cai e já se estende pelo céu,
Parece um doente adormecido a éter sobre a mesa;
Vem comigo por certas ruas semidesertas
Que são o refúgio de vozes murmuradas
De noites em repouso em hotéis baratos de uma noite
E restaurantes com serradura e conchas de ostra:
Ruas que se prolongam como argumento enfadonho
De insidiosa intenção
Que te arrasta àquela questão inevitável…
Oh, não perguntes “Qual será?”
Vem lá comigo fazer a tal visita.
Parou a leitura imaginando que estava Aria no país dos sonhos, mas ela o cutucou como quem o dissesse “ei, eu ainda estou aqui”. E ele continuou.
Passeiam damas na sala para além e para aqui
E falam de Miguel Ângelo Buonarroti
A névoa amarela que esfrega as costas nas vidraças
O fumo amarelo que esfrega o focinho nas vidraças
Passou a língua dentro dos recantos da noite,
Demorou-se nos charcos que ficam na sarjeta,
Deixou cair nas costas a fuligem solta das chaminés,
Deslizou pelo terraço, de repente deu um salto,
E, ao ver serena aquela noite de Outubro,
Deu uma volta à casa, enroscou-se e dormiu.
Calou-se. E não houve nenhuma manifestação contra o silêncio. Ezra, porém leu mais um pouco esperando que o ouvisse nos sonhos.
Haverá por certo um tempo
Para o fumo amarelo que desliza pela rua
E esfrega as costas nas vidraças;
Haverá um tempo, tempo
De compor um rosto para olhares os rostos que te olharem;
Tempo de matar, tempo de criar,
E tempo para todos os trabalhos e os dias, de mãos
Que se erguem e te deixam cair no prato uma pergunta;
Tempo para ti e tempo para mim,
E tempo ainda para cem indecisões
E outras tantas visões e revisões
Antes de tomar o chá e a torrada.
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