The Dying Ladies
10 O vestiário feminino é muito interessante papai
Notas iniciais
Havia dias que Emily Fields não se sentia bem. Fisicamente não estava somente cansada, sim exausta: essa era a mais provável palavra. E não precisava ter um grande diploma de psicologia da Universidade de Harvard para saber que isso vinha de cunho emocional. Maya não a encarava e lhe faltava a coragem para se desculpar. Não conseguia apagar os olhos esbranquiçados e cegos de Jenna a encarando como uma morta-viva e ouvia os debochados risos de Paige em sua cabeça. E podia presenciá-los diariamente após os treinos, naquela tarde, porém foi tudo completamente diferente.
Era quinta-feira, cinco dias desde o baile e já estava se tornando um chato hábito ter um milhão de pensamentos e todos sobre algo que provocava dor. Seu banho se tornava a cada dia um minuto e meio mais longo para equilibrar com o um minuto e meio que seu tempo na piscina aumentava. Além de tudo, sua treinadora não estava nada feliz com ela graças ao seu péssimo desempenho.
Para esclarecer melhor como a situação entre Paige e Emily estava, a primeira esperava todas irem embora para ficar sozinha com a atormentada Emily. E nada fazia a não ser dar aquela mesma risada, intimidando-a. Excepcionalmente quando todos saíram Paige nada fez e havia algo muito errado em sua expressão facial. A boca estava em linha reta, bolsas inchadas apareciam por debaixo dos olhos como se chorasse por uma noite inteira. A situação estava horripilante e pode confirmar no exato momento que Paige desabou, ainda nua, em um dos bancos.
Paige deitou como um feto. E soltou gritos terríveis, mas não tão altos para que saíssem das paredes do vestiário. Emily paralisada ficou, descontrolada Paige começou a chocar sua cabeça no banco, blasfemando contra Deus e o universo. Vê-la tão sensível como uma pena fez com que a observadora se movesse finalmente, correu até a colega de time e segurou sua cabeça para que não se machucasse mais. Com aquele ato de misericórdia, apenas recebeu um empurrão que a fez bater os ossos no armário. E Paige continuou a se torturar.
Foi quando Emily percebeu que ela tinha um papel em mãos. Quão estranho poderia aquilo parecer?
Vestiu-se e foi buscar por ajuda de alguém que Paige não teria forças ao empurrar. O diretor por ali estava e sofrendo para respirar contou o acontecido. Não podia estar certo, já que ele era um homem e a moça estava desnuda, ele se preocupava muito com isso e com a quantidade de problemas que iria trazê-lo. Emily se dispôs a cobri-la e isso o daria tempo para ligar para seus pais.
Assumiu o risco de ser jogada contra o armário novamente e seus ossos ainda doíam. Perguntava-se para que ser tão boa se era Paige que sabia seu segredo e que debochava de si dia após dia, se era Paige que concorria contra ela para capitã do time. Eram muitas perguntas e Emily era boa demais para responder qualquer uma delas.
– Paige, eu vou colocar essa toalha em cima de você, tudo bem?
Logo que voltou ao vestiário viu que a cena era quase idêntica, tirando os pedaços de papel picados no chão.
– Você vai se acalmar e não vai me empurrar.
Velozmente jogou a toalha branca em seu corpo. Sentou-se ao seu lado e encostou a cabeça machucada de Paige em suas pernas. Dessa vez ela não lutou contra a ajuda e aceitou o colo chorando na calça jeans de Emily. Aquela cena durou minutos e cada pedacinho do tempo que por ali passaram Emily fitava o que sobrou do papel destruído. O que haveria ali para provocar um ataque de pânico na nova garota do momento? Pensou também em como Hanna se sentiria aliviada por saber que aquela que roubou seu homem e trono era fraca a ponto de bater sua cabeça com tamanha força em um duro objeto.
Os pais de Paige apareceram por lá e sua mãe estava com a maquiagem borrada no desespero de encontrar sua filha arruinada. O pai entrou em seguida pegando sua filha, que permanecia calada, no colo e como um bebê a levou até o carro.
– Emily, muito obrigada.
A mãe super competitiva sempre a destratou por ser a maior rival da filha, entretanto tudo mudou com um simples gesto de solidariedade e uma parte de Emily se sentiu bem por ser útil a alguém tão insuportável.
***
Por conta dos estranhos acontecimentos (não havia outra palavra para descreve-lo) da tarde, Emily chegou uma hora atrasada e mais uma vez sua mãe estava com as mãos grudadas no telefone. Seu pai ria do comportamento super protetor de Pam e pensava consigo mesmo a respeito dessa doentia preocupação. Afinal, doentio não era o antônimo de sadio?
– Emily! – respirou aliviada ao ouvir o barulho da porta. – Por onde esteve?
– Na escola. Aconteceu algo muito... ruim.
– O que houve filha? – desesperou-se com as palavras de Emily.
– Eu não entendi até agora, mas uma colega do time surtou. – parou para tentar compreender o que se passava. – Ela batia a cabeça no banco do vestiário e falava coisas estranhas e nós duas éramos as únicas por ali.
– Ai meu Deus! – Pam com o queixo caído ficou. – Se fosse você acho que eu ficaria desesperada. Os pais dela foram até lá?
– Sim, o diretor os chamou.
– Você a ajudou? – seu pai se meteu no encaminhar da conversa.
– Sim, claro. Por isso demorei.
Sua mãe a abraçou forte como se a crise entre as duas não existisse. As tantas vezes que Pam se tornava uma pedra de gelo com a filha pareciam ir embora. Somente aquele abraço e seus problemas estavam todos resolvidos. Talvez ela pudesse se acostumar com suas namoradas e com netos adotados, talvez um dia ela olhasse para trás e teria orgulho da filha por encarar sua orientação como algo natural e não um problema. E isso a deu coragem para acabar com a rede de mentiras que parasitava entre suas veias.
Ao fim do abraço, Pam se entregou à cozinha. E Emily se entregou a verdade com o mais compreensivo dos dois, seu amado pai.
– Há algo eu preciso falar com você. – não esperou muito e resolveu não dar voltas para que a bendita coragem não se afugentasse.
– Pode falar querida.
Um acréscimo de silêncio, uma pitada de constrangimento e uma porção gigante de vergonha quase a fez recuar. Deixou duas lágrimas rolar em seu rosto.
– Ei, o que houve querida? – passava os dedos no rosto da filha, enxugando-o.
– Eu não aguento mais mentir para o senhor, mas eu não sei se tenho coragem.
– Você pode falar o que quiser comigo, eu sou seu pai. – e pela segunda vez ela foi abraçada com amor naquele dia. – Eu vou te amar independente do que esteja me escondendo.
– Pai... – o pavor a fez se calar até que a coragem retornou. – Eu gosto de mulheres.
O abraço carinhoso se rompeu e o rosto petrificado do pai apareceu. Queria Emily ter forças para rir e falar que era tudo brincadeira, queria Emily ter forças para pelo menos se entregar ao desespero. A mentirosa deixou de ser mentirosa e isso a libertou, certo? A verdade a libertaria, não era isso que se dizia?
– Emily...
– Você não precisa falar nada se não quiser.
– Eu realmente não sei o que dizer. – sentou-se na poltrona. – Pode ir para o seu quarto? Não estou bravo com você ou chateado, apenas preciso de um tempo para pensar.
Nada mais justo foi o que queria falar, mas não falou. Com seu corpo endurecido e sua bolsa transpassada foi para o quarto. Pegou seu telefone, uma mensagem foi enviada há dez minutos. Temeu e tremeu.
“Quer saber o problema da Paige? Beije-a e saberá –A”
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