The Division Bell
1 High Hopes
Notas iniciais
A pequena garota estava parada, olhando para a porta a sua frente. Seu quarto estava diferente, bagunçado: Os lençóis de sua cama no chão, sua televisão e video game destruídos, cadeira e escrivaninha quebrados em pedaços. As paredes mostravam as cicatrizes do momento em que Madotsuki teve seu colapso final, quando pegou uma faca e desferiu seus golpes nas paredes e na porta de sua pequena prisão.
O mundo lá fora já não era mais o mesmo. Por muitos dias ouviu os gritos e o caos que vinham da sacada de seu quarto. Prédios e casas decaíam-se, sendo invadidos pela matéria orgânica que crescia, infectando e drasticamente mudando aquele mundo. O casal que resgataram-na das ruas caóticas e violentas havia prendido-a naquele quarto, dando-lhe comida e remédios. Ela realmente não havia entendido o que eles queriam, às vezes sentia raiva, outras vezes apenas queria abraçá-los novamente.
Queria deixar aquele lugar, mas tinha medo do que encontraria lá fora. Lembrou-se das duas garotas que acenavam para ela na sacada do prédio da frente, nunca mais havia ido à sua sacada para falar com elas, o medo havia tomado conta de seu corpo e por isso nunca se aproximava da janela. Ela apenas ficava escrevendo em seu diário dos sonhos, o mundo que encontrara enquanto dormia.
Arrumou novamente a sua cama, deitou-se e aconchegou-se naquela superfície quente e acolhedora, algo que não encontrava mais em lugar algum. Ficou surpresa quando algo encostou em seu pescoço, levantou a cabeça para procurar o que havia entre ela e seu travesseiro e encontrou aquele frasco cheio de comprimidos. Era um dos remédios que aquele casal havia lhe dado, lembrou da mulher chorando e abraçando-a antes de trancá-la ali. De alguma forma, não estava com raiva dela, apenas fez brotar um sorriso em seu rosto pálido.
Abriu o frasco e tomou duas das pílulas... E então adormeceu, derrubando o frasco aberto no chão de madeira. Lá estava ela, no meio daquela floresta. Seu guarda chuva a protegia da chuva fria que caía, andou pela trilha na floresta até achar uma máquina de refrigerantes, ignorou-a e continuou andando até chegar à uma estrada. Aquele lugar era solitário... Apenas como o seu quarto, porém muito maior que ele, possuía uma atmosfera depressiva, devaneadora e escura.
Andou pela estrada até encontrar um cone, continuou caminhando e enfim parou. Aquele homem jazia de bruços no asfalto, a poça de sangue de baixo de sua cabeça lembrava um travesseiro, Madotsuki continuou parada, observando aquele corpo sem vida sendo lavado pela chuva gélida e noturna daquele lugar. A garota olhou para cima, fitando o semáforo que emitia a cor vermelha.
Fechou seus olhos, quando voltou a abri-los, sentiu algo atrás de si, era uma cauda. Tocou sua cabeça e percebeu as orelhas de gato que agora possuía, apenas então olhou ao redor, encarando aquele mundo estranho e ao mesmo tempo familiar. Era um lugar desolado, um grande local cheio de barracas encobertos por um céu nublado e escuro. Criaturas humanóides e negras vagavam pelo lugar, onde ao invés de seu rosto possuíam um grande buraco, como o olho de uma agulha.
Andou, evitando aquelas criaturas assustadoras e de alguma forma, dignas de pena. Encontrou uma grande cerca de metal, separando aquele bairro de barracas de uma grande cidade ao longe no horizonte. Aquele céu escuro também se repetia lá, tudo o que Madotsuki podia sentir era uma grande sensação de tragédia e de uma falta de esperança tão grandes que fazia-a sentir-se mal.
Novamente, ao piscar seus olhos encontrava-se em outro lugar. Um lugar completamente escuro, com poças de água e postes de iluminação espalhados por tudo, até mesmo os mesmos seres humanóides das barracas, porém eram completamente escuros, quase como sombras. Monstros que não faziam nada se não estarem sentados. Eram como corpos de mulheres grávidas, porém, havia uma gigantesca boca em suas barrigas, e não possuíam cabeça. Com medo, Madotsuki correu até chutar algo, abaixou-se e pegou aquela faca. Lembrou-se de seu lado mais sombrio. Lembrou-se do que ela mais queria esquecer, quando tirou a vida daquela pessoa.
Tudo ficou branco de repente, encontrava-se agora em uma pequena sala onde havia uma lente na parede que parecia observá-la. Andou para o próximo aposento e estava em uma grande sala, completamente branca assim como a anterior. Havia uma grande janela onde podia-se ver estrelas, várias delas. Uma mesa com duas cadeiras e ele, um homem tocando apenas uma única nota num grande piano monocromático. Ele era pálido, sua pele era praticamente branca, seus cabelos e suas roupas eram negras como o pretume do espaço pela janela.
Madotsuki caminhou até ele, ficando de pé ao seu lado. Ele virou-se para ela em curiosidade, mas continuava em silêncio. A garota tocou seus dedos no teclado, produzindo notas aleatórias no piano, tentou conversar com aquele solitário rapaz, mas tudo o que ele respondia eram sons indecifráveis. Ela sabia que ele também não a entendia, mas de alguma forma ela gostara de ficar ao seu lado. Ele era um solitário astronauta, sozinho em uma nave, vagando por um infinito universo escuro. Ela era uma garota solitária, presa em um quarto que de alguma forma salvara-a de um mundo perdido e já inexistente.
Os dois continuaram lado a lado em frente àquele piano e às estrelas por um bom tempo, finalmente Madotsuki ficou cansada, e então ele apontou para uma porta do outro lado da sala. Ela não entendeu de início, mas então caminhou até lá, estava agora em um pequeno quarto, também inteiramente branco, com uma estranha cama no canto.
Madotsuki cobriu-se com o cobertor e adormeceu.
Acordou assustada, uma luz vermelha piscava por toda a nave. Foi até a sala do piano e seu amigo estava em pânico, correndo de um lado a outro, parecendo procurar uma solução para o que acontecia. As estrelas passavam rapidamente na janela, acompanhadas de um brilho avermelhado que assemelhava-se a fogo. Madotsuki chamou pelo seu amigo, ele apenas gritou algo e então, ambos foram jogados em direções diferentes com um impacto violento e barulhento.
Ambos levantaram-se, estavam bem. Madotsuki encontrou seu companheiro novamente em frente ao piano que agora estava danificado. Ao falar com ele, ele respondeu com os mesmos sons indecifráveis, mas agora com um tom depressivo e perdido. Madotsuki então deixou cair aquela faca que guardava consigo, assim que pegou-a no chão, olhou para o rapaz, que com uma expressão de medo em seu rosto, caminhava para trás, distanciando-se da garota. Ela ainda com a faca na mão, tentou acalmá-lo, mas ele apenas distanciava-se, com medo.
A garota deixou uma lágrima cair, sentia-se um monstro. Caminhou até a saída por onde entrou naquela nave, desceu as escadas e encontrava-se em um lugar que parecia-se com Marte naquelas fotos que via nas notícias. Um deserto infinito com diversas rochas e montanhas, um céu avermelhado e cinzento. Subiu uma colina até o seu topo, e então pôde ver o que pareciam ser diversas outras naves parecidas com a de seu amigo, porém estavam longe no horizonte, voando sem perceber a presença da nave acidentada.
No topo daquela colina havia um pequeno buraco. Dele saía uma fumaça estranha, Madotsuki tentou olhar por ele e de repente sentiu-se ser empurrada. Começou a cair por um grande túnel escuro até pousar em um chão negro e metálico, olhou para cima e viu o pequeno buraco de antes, não estava entendendo, pois não sabia como ela havia passado por uma abertura tão pequena.
Desceu a grande escadaria que havia a sua frente até uma sala sem iluminação. Possuía um ar gélido, como se houvesse um grande ar condicionado esquecido na temperatura mínima. Ouvia um zumbido parecido com o de um ventilador e não conseguia pensar em outra coisa se não sair dali. Caminhou até encontrar diversas máquinas, todas eram grandes e complexas, com luzes vermelhas piscando por toda a sala. Continuou caminhando e encontrou aquela figura, um ser estranho e bizarro. Uma criatura que possuía apenas uma única perna e um único olho, estava de parada, encostada em uma de suas máquinas. Algo escorria de seu olho repetidamente, eram lágrimas.
A sensação de fim e de solidão tomavam conta daquele ambiente. O frio apenas ressaltava a tristeza e a escuridão, uma criatura alienígena abandonada, a única restante de sua espécie, condenada a viver numa sala escura cheia de computadores, num planeta que agora não passava de um deserto gelado. Madotsuki não queria deixá-lo ali sozinho, mas quando piscou seus olhos, estava agora em cima de um grande prédio.
O céu era claro e havia um gato preto no terraço. Era o lugar mais alegre que havia visitado até agora, o sol brilhava e a cidade embaixo era linda e normal. Havia uma pequena vassoura encostada e então Madotsuki subiu nela, começando a voar pelos céus, vestindo seu chapéu de bruxinha. Seus olhos brilhavam de alegria e não havia como tirar seu sorriso do rosto, porém, a vassoura começou a perder altitude e assim, a garota começou a cair.
Caiu por um bom tempo, até sentir o impacto.
Abriu os olhos, novamente estava em seu quarto escuro. Caída ao lado de sua cama, enrolada no lençol que havia levado junto ao chão. Levantou-se parcialmente, ficando sentada no chão olhando para o seu quarto bagunçado. Ouviu um barulho na porta, seria eles? O casal que havia tentado salvá-la daquele pesadelo? Assim que levantou-se, correu até a porta e ficou esperando, ansiosa e com olhos marejados pela sua saída daquele quarto. Porém, o que ela encontrou foi totalmente diferente, uma grande criatura deformada com um único olho e um único braço, tentando entrar em seu quarto.
Madotsuki tirou aquela faca e então desferiu alguns golpes naquela criatura, matando-a de forma sangrenta. Ela ajoelhou-se ao lado do corpo, toda ensanguentada e viu algo brilhante em meio as deformações daquela criatura, assim que chegou mais perto e pegou aquele objeto, viu que era um óculos... O mesmo óculos que o homem do casal que ajudara-a usava.
A garota deitou-se ali mesmo, naquele corredor apodrecido em frente ao seu quarto. Chorou por horas, andou por aquele apartamento sem nenhum rumo e então encontrou o corpo da mulher que havia abraçado-a e salvado-a daquela insanidade que assolava o mundo. Não tinha mais motivos para viver, não tinha mais motivos para estar ali. Era um legado perdido.
Novamente em seu quarto, procurou pelas pílulas que tomava, na esperança de voltar ao seu mundo dos sonhos, porém, encontrou apenas um último frasco vazio, não havia mais como voltar ao seu pequeno paraíso obscuro, não havia mais nada que ela pudesse fazer além de esperar pela morte naquele pequenino quarto.
Engatinhou até o vidro da sacada, olhou para a do prédio da frente, na esperança de ver aquelas duas garotas alegres que tentavam conversar com ela, aquelas duas garotas que tentaram ser suas amigas. O que encontrou foi um prédio corroído por aquela matéria orgânica, e na sacada onde esperava encontrar rostos familiares, apenas viu dois corpos deformados, sendo mantidos de pé pela matéria que crescia ao redor do prédio e por todo o resto da cidade, ambos os corpos demonstrando suas faces de horror e desespero, agora já sem vida.
As duas garotas morreram tentando falar com Madotsuki, mas ela não apareceu na sacada, por estar com medo dos gritos.
A pequena garota sentou, encostando-se no vidro, a chuva que caía era fria, assim como tudo ao seu redor. Todos que tentaram ajudá-la ou amá-la haviam morrido, ou distanciado-se por medo. Lembrou-se da cena no começo da infecção, quando aviões voavam no céu, disparando seus mísseis nas pontes da cidade, e ela olhava para além das brasas das pontes resplandecendo-se atrás dela e de seu irmão, numa tentativa desesperada do governo japonês em isolar a infecção, mas pelo jeito não havia dado muito certo.
A garota sorriu, mas estava com lágrimas nos olhos. Pegou a cadeira quebrada e colocou-a ao lado da sacada, subiu nela com esforço, sustentando-se no parapeito, olhou para suas mãos e pés e finalmente percebeu... Ela estava infectada. Haviam pequenas deformações surgindo da palma de suas mãos e pés, e o que pareciam ser asas em suas costas.
"Asas... Para me levar longe daqui... Para o lugar onde todos que me amam estão."
A garota abriu seus braços e deslocou-se para frente, as rajadas de vento que recebia enquanto caía do quinto andar eram fortes, mas seu destino estava selado. Apenas via o que pareciam ser gigantescos cogumelos transparentes no asfalto da rua que agora parecia ter transformado-se em um jardim psicodélico.
Aquele realmente era sua última visão?
Atingiu o chão com força, abrindo um grande ferimento em sua cabeça.
Ainda em seu leito de morte, de bruços ela virou-se, encarando o céu acima dela. E então viu ela mesma, de pé e parada ao seu lado, sorrindo. Madotsuki sorriu, e imediatamente, o casal que ajudara-a, a garota loira acompanhada da outra do prédio da frente, o seu irmão que fora morto em frente ao semáforo tentando levá-la à um lugar seguro no começo do caos e até mesmo quem ela mais queria ver... O solitário e pálido astronalta.
Madotsuki em seu último esforço, ergueu seu braço para o céu, e sua mão foi envolvida pela a do seu companheiro monocromático, ambos sorriram, ambos com lágrimas em seus olhos... E então, ela piscou uma última vez... Levando-a à outro lugar, dentro ou não de seus sonhos.
Seu corpo jazia no meio daquele jardim bizarro, antes a grande cidade de Tóquio. A chuva aumentou, lavando sua pele que agora já não se moveria mais. O silêncio predominava como um companheiro solitário, talvez o último do planeta. Aquela garota estaria deitada fitando o céu por um bom tempo, antes de desaparecer e transformar-se no que ela sempre foi... Poeira estelar.
E então se aproxima... O Fim do Sofrimento.
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