Ela abaixou o arco, triste, já estava ficando cansada daquilo.

– Eu não consigo! — tornou a dizer.

– Claro que consegue — disse ele — Não é tão difícil assim.

– Você fala isso porque é um Filho do Diabo e qualquer coisa fica mais fácil!

Ela estava com Weston desde o café da manhã na floresta tentando aprender a atirar uma flecha com o arco. Ele tinha se sentado ao lado dela no café e tinha sido até que gentil. Ele tinha contado sobre como sua vida tinha ficado maravilhosa quando Colton o trouxe para lá e sobre o quanto ele gosta de matar monstros (ela estremeceu nessa parte).

– Nem tudo — ele pegou o arco da mão dela e atirou, a flecha fez um arco perfeito no céu até aterrissar na ponta da árvore que eles usavam como alvo. — Sou péssimo em sentir coisas.

Ela revirou os olhos e retirou o arco de sua mão.

– Muito engraçado — ela apontou o arco novamente — Agora me ensine de novo como se segura essa porcaria.

– Não chame ele assim! — ele exclamou, andando até ela e posicionando o arco na direção certa. — Você consegue, é só mirar, apontar, esticar e soltar! Só isso.

Ela respirou fundo, mas antes que pudesse atirar ouviu um barulho vindo da mata e se assustou, se virando e atirando a flecha na direção de Wes.

Ela pôs a mão na boca e deu um gritinho, mas ele segurou a flecha antes que ela chagasse nele.

– Belo tiro — ele sorri.

Ela fica vermelha.

– Você está louco? Eu quase te matei!

– Ainda bem que não matou — disse uma voz atrás dela, e ela se virou, encarando Finn. — Ia ser trágico.

Weston o cumprimentou com a cabeça. Katherine largou o arco.

– Eu quase matei ele!

– Pena que não matou — ele murmurou, tão perto dela que ela deu um passo para trás.

– O que faz aqui?

– Temos um problema.

– Que tipo de problema? — ele colocou a mão atrás da cabeça como se estivesse cansado.

– Um problema, apenas um problema! — disparou ele irritado. — Agora vamos, Niah quer que você saiba.

Ele se virou mas Katherine não saiu do lugar.

– Porque está tão irritado comigo? — quando ele não se virou ela desistiu e resolveu segui-lo de volta ao Castelo.

Ele manteve a mãos nos bolsos durante o caminho inteiro, e também não olhou para ela, mas também não precisava, ela conseguia perceber o quão irritado ele estava.

Eles cruzaram a escada e subiram até o andar do quarto de Niah, alguns garotos rondavam a porta e pareciam cansados de esperar. Finn lançou um cumprimento com a cabeça na direção de alguns, e abriu a porta para que Katherine passasse.

Blake estava de pé ao lado da cama de Niah enquanto ela estava deitada com os pés para fora da cama. Ela se levantou quando os dois entraram e olhou para Katherine.

– O que está acontecendo?

– Protocolo de emergência — respondeu ela como se explicasse tudo, depois continuou: — Eu estava tão preocupada com você que nem percebi o que estava bem na minha frente.

– O que isso quer dizer?

– Tem uma boate de monstros no centro da sua cidade — disse ela. — Precisamos fechá-la.

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Quando alguém dizer "Boate de Monstros" a coisa já vai parecer estranha o suficiente, mas quando ela diz "Temos que fechá-la" já é demais.

– Como monstros podem ter uma boate no centro da cidade? — perguntou ela — Quer dizer, como monstros podem ter uma boate?

– Eles fazem isso as vezes — Reed deu de ombros. — Passaram a fazer isso quando Niah começou a fazer suas festas, acho que ficaram inspirados.

Reed era um garoto um tanto baixo para a idade, ele tinha quinze anos, e era o melhor amigo de Wes. Os dois ficaram com ela o dia inteiro no arsenal, tentando separar armas e a ensinar a atirar uma.

– Não entendo porque se daria uma festa no Inferno — disse Katherine — Pelo que eu saiba, vocês deveriam estar se ocupando com as almas perdidas, ou qualquer outra coisa do tipo.

Os dois riram enquanto limpavam o chão que tinha se sujado com a pólvora.

– Esse não é nosso trabalho — disse Wes. — Não somos anjos caídos.

– Então o que vocês fazem?

– Nós protegemos esse lugar — ele apontou a sala inteira. — Não queremos bruxas andando por aí tentando fazer seus pequenos rituais para acabarem com o mal.

Ela tirou o alvo da parede e o analisou. Ela não tinha conseguido acertar até a terceira tentativa, e segundo Wes, ela era muito melhor com uma faca do que com uma arma. O que era até que bom, porque um monstro só poderia ser morto com uma arma daquelas, que tinha uma magia que ela não conseguiu entender o nome.

Mas mesmo assim ela se obrigou a aprender a atirar com uma arma, não que ela pretendesse usar uma algum dia, ela apenas não queria ser tão indefesa como era antes.

– Acho que essas são suficiente — Reed entregou o monte que ele tinha prendido com uma corda para Jim. — Aproveita e diz pro Finn que ela está pronta.

– Okay — ele se virou para Katherine e deu aquele sorrisinho que sempre lançava em sua direção. — Até mais, linda.

Ela piscou enquanto ele desaparecia atrás da porta. Jim falava assim com ela desde que entrou na sala pedindo que eles separassem armas para os garotos que iriam na boate. No começo ela ficava vermelha toda vez que ele olhava para ela, com aqueles cabelos loiros e os olhos azuis que oscilavam para vermelho cada vez que ela olhava, ele conseguia deixar qualquer garota assim. Mas ter ele sorrindo para você a cada segundo chegava ser estranho. Ele era bonito, claro, mas não deixava de ser um tanto exagerado, um tanto convencido.

Wes percebeu seu olhar e riu.

– Não ache que é só com você — disse ele. — Ele faz isso com todo mundo.

– Oh — ela deixou escapar. — Ele meio que se acha um pouco.

– E pode — disse Reed triste. — Toda garota praticamente se joga aos seus pés.

Ela o observou enquanto ele imitava Jim andar e dar o sorrisinho para ela. Katherine riu, e isso pareceu deixar Reed feliz, ele e Wes caíram na gargalhada.

– Então — disse ela quando eles se controlaram. — Podemos ir?

– Com certeza — Wes jogou a sujeira que tinha recolhido em um buraco do chão e saiu pela porta. Katherine e Reed o acompanharam.

Ao saírem da caverna, Katherine ficou feliz por não sentir aquele cheiro podre novamente. Ela tinha medo de que isso acontecesse novamente, mesmo Blake tendo garantido que nunca mais aconteceria. Mas isso não era tudo que a preocupava.

Seja lá qual for a tal de boate que tinha no centro de sua cidade, Katherine tinha certeza de que não queria chegar perto, e mesmo se chegasse, ela iria correr e ficar bem longe. Ela já tinha conhecido um monstro em sua forma real, e não daria nada para conhecer outro novamente. Mesmo sabendo que estaria segura perto de Niah e de todos os garotos que iriam com elas, ela não queria ver o sangue de nenhuma criatura.

Ela nunca tinha gostado dessa coisa de maltratar animais, e mesmo sabendo que os tais monstros não eram nada bons, ela não teria coragem de matar nenhum deles.

Ela chegou em seu quarto e se trocou rapidamente, não tendo muita certeza do que vestir. O que se veste quando se está indo para uma luta? Já que, bom, ela tinha certeza de que haveria luta, Finn e seus amigos não eram nem um pouco pacíficos. Ela balançou a cabeça e colocou o que achou mais apropriado: uma caça jeans, uma camiseta branca, um colete de couro e suas botinas.

Não que ela tivesse muitas opções em seu guarda-roupa. Ou era aquilo, ou era nada. Ela pegou a faca que Wes a tinha dado e colocou-a em uma das laterais de sua botina, tendo o cuidado de se garantir que a ponta não furasse nem sua perna, nem seu pé, depois cobriu o cabo com a calça, colocando a bainha por cima, e saiu do quarto.

Finn a estava esperando no corredor, ele estava analisando uma espada que era maior que seu braço, a mesma que ela tinha visto na floresta, quando ele a salvou do Percux, a espada não estava mais brilhando daquele jeito sombrio, mas ela continuava sentindo o ar ficar mais pesado só com sua presença. Ele a encarou quando ela saiu do quarto e guardou a espada no cinto de sua calça.

– Pronta?

– Não.

– Ótimo — disse ele. — Então vamos.

Niah, Blake, Reed e Wes estavam reunidos naquela clareira que tinham estado no outro dia quando eles se teletransportaram para a frente de sua casa com mais meia dúzia de garotos que ela não reconhecia (a não ser Jim, que sorriu para ela assim que ela chegou. Ela tentou evitar seu olhar).

Niah estava com uma de suas saias de sempre, o que não parecia muito inteligente, considerando que estavam indo matar monstros, um top preto e uma bota de cano curto. Ela levava um colete na mão cheio de facas e com duas pistolas, e um cinto, onde havia uma espada parecida com a de Finn pendurada.

Ao ver os dois chegando perto ela falou:

– Todos lembram do plano? — todos assentiram. — Ótimo, porque qualquer brecha pode levar a morte.

Todos deram as mãos quando Blake pediu e logo lá estava ela de novo, entre ele e Finn. Ela tentou não tremer ao sentir aquelas ondas familiares subirem a partir de sua mão e fechou os olhos. Ela sentiu seus pés darem um pulo e o ar quente da noite da cidade atingiu seu rosto. Ela abriu os olhos.

Eles estavam atrás de uma cerca de ferro, de frente para um casarão daqueles que ela sempre via quando estava indo para a escola e tomava a precaução de andar bem longe. Vários postes improvisados de luz se estendiam por todo o caminho até a entrada, ela engoliu em seco ao ver a pequena fila de casais que se formava nas escadas e olhou para Finn. Segundo o plano de Niah, eles teriam que entrar na festa fingindo que eram dois convidados e depois usar um tipo de anel que ele e Niah carregavam para se comunicar quando eles pudessem entrar.

Ela não tinha medo de ser atacada, ou até tinha, mas o que mais a incomodava agora que estava ali, era o que iria acontecer com aqueles monstros.

Finn começou a pular a cerca e ela o seguiu. Ela nunca tinha sido muito boa em escalada na escola, mas ali, quase não conseguindo ficar em pé de tanto tremer, ela foi ótima. Eles deram um pulo e chegaram ao outro lado, ela suspirou fundo e andou ao lado de Finn até o fim da fila.

Tirando as roupas escandalosas, nenhum dos seres que se encontravam na fila se pareciam com monstros (ou não pelo menos com o que ela encontrou na floresta). O casal na frente deles estava de mãos dadas, e Katherine conseguia ouvir as poucas palavras melosas que eles lançavam de um para o outro. Coisas como: "Meu Amor", "Você me ama o tanto que eu te amo?" "Oh, eu amo tanto você!". Ela tentou não ficar enjoada, e olhou para a ponta da escada.

Um homem com roupa social e gravata borboleta conferia o nome dos convidados em uma lista, Katherine congelou.

– Não estamos na lista.

– Sei disso.

– O que vamos fazer?

– Não faço a mínima ideia — ele sorriu como se fosse divertido eles estarem em problemas.

Antes que ela pudesse cruzar os braços, Finn segurou sua mão sussurrou em seu ouvido:

– Faça de conta de estamos juntos.

– O que? — perguntou ela se distanciando.

– Apenas finja — disse ele. — Você vai ver porque.

Ela queria protestar, mas não sabia como, então deixou que ele segurasse sua mão, tentando ignorar aquele sentimento familiar. Eles chegaram na ponta da fila e o homem de gravata borboleta olhou diretamente para a mão entrelaçada dos dois. Ele sorriu.

– Namorados?

Finn se balançou para a frente e para trás, olhando para o chão.

– É — respondeu ele.

– Maravilha! — disse o homem abrindo passagem para os dois. — A festa é logo nos fundos — ele apontou para um corredor que tinha no lado da porta de entrada. — É só seguir naquela direção.

Ele sorriu mais uma vez para Katherine, feliz com sigo mesmo e se voltou para o próximo casal, voltando a ter sua cara séria de antes.

Ela e Finn seguiram obedientemente pelo corredor, e de lá Katherine já conseguia ouvir a música alta que fazia seus ouvidos doerem. Ela nunca foi muito de festa, e para alguém como ela, participar daquelas duas festas, contando com a que estava agora, isso era demais. O fim do corredor se dava para a parte de trás da mansão, assim como o homem tinha dito, e iluminado pelos mesmos postes improvisados da entrada, a pista de dança se estendia ali, no ar livre.

Katherine encarou os milhares de casais se agarrando na pista, e percebeu que nenhum praticamente estava dançando, se é que aquele lugar era mesmo uma boate.

Criaturas de dois metros de altura, com a pele azul claro e cabeça de urso circulavam entre os casais. Uma áurea dourada os cobria assim que ele chegava perto das pessoas se agarrando, eles pareciam inspirar a névoa e se alimentar dela.

– O que são essas coisas? — perguntou ela.

– Diliges - respondeu Finn com uma careta. — São monstros que se alimentam do amor.

– Eles sugam o amor?

– É claro que não — disse ele. — O amor é como se fosse uma bateria infinita, mesmo que eles suguem bastante, sempre vai sobrar um pouco.

– E essas pessoas se agarrando...

– Estão fornecendo alimento para eles — completou. — Muito comum até, na Idade Média as festas costumavam ser bem piores.

– E esses casais vem aqui, mesmo sabendo que o amor deles está sendo sugado?

– O amor nunca vai acabar mesmo — ele deu de ombros. — Então qual é o problema?

– Então porque fechar a boate?

Ele olhou para ela. Niah tinha feito com que seus olhos ficassem como ela viu quando se conheceram, aquele tom de cinza que ela adorou.

– O que você acha que vai acontecer quando os mortais vierem aqui? — perguntou ele. — Se verem essas criaturas, como você acha que eles vão ficar?

Ela olhou em volta. Mesmo sabendo que se fosse com ela, ela provavelmente iria ficar louca, Katherine não conseguia ver o problema real de tudo aquilo. Talvez ela apenas não quisesse acabar machucando ninguém.

Um dos monstros parou sua ronda entre os casais e encarou os dois. Finn logo tratou de levá-la direto para a mesa cheia de comida no canto da pista.

– O que vamos fazer? — perguntou ela olhando de soslaio os casais atrás deles.

Ele começou a mexer no anel em seu dedo, parecia concentrado mas depois de várias tentativas fazendo com que ele funcionasse, largou o anel no chão e praguejou entre gritos.

– O que foi? — perguntou ela pegando o anel no chão e analisando-o.

– Não. Está. Funcionando — ele disse entre pausas. Ele passou a mão no cabelo e olhou para os monstros que os encaravam. — Vamos ter que dançar.

– O que?

Nesse momento, a música mudou para uma música lenta e Finn a levou para o centro da pista, tomando a precaução de colocar-se entre vários casais se agarrando, que encobria a imagem dos dois.

Ele segurou em sua cintura e puxou ela para perto de si. Katherine sentiu seu rosto esquentando e o virou para o lado, Finn olhava para algum ponto em cima da cabeça dela.

Pareceu horas até que a música acabasse, e os vários casais que os rondavam se dispersaram, deixando a imagem dos dois visível aos monstros. Eles os encararam com o rosto franzido, até dois deles começaram a se aproximar e Finn olhou para ela, e pela primeira vez ela não queria que ele parasse, não queria que ele saísse de perto, ela estava com medo.

– Calma — ele disse. — Eu tenho um plano, só me prometa que não vai me bater.

– Bater pelo que?

– Por isso — ele a puxou para ele novamente, mas dessa vez, colou seus lábios no dela, e não soltou mais.

Ele a beijou não do jeito que ela e Chris costumavam se beijar rapidamente no corredor da escola, mas como aqueles muitos jeitos que ela lia em seus livros, como aqueles que ela invejava.

Ela sentiu cada fibra de seu corpo tremer, esquentar e tentar se desvencilhar dele, mas ele a puxava cada vez mais assim que ela tentava se soltar, até que ela desistiu de resistir. Ela deixou que ele a puxasse mais ainda, e enroscou seus braços em seu pescoço, seus corpos se juntaram como se fossem um só, e ela sentiu seu peito descendo e subindo acelerado, seu coração chegando a doer de tão rápido que batia e a respiração dos dois se misturando. Aquela sensação familiar que ela sentia sempre que estava ao seu lado explodiu dentro dela, ameaçando amaçar seus órgãos se eles não parassem, mas seu coração mesmo doendo não queria que parasse, ele parecia desejar aquilo desde o primeiro momento que se viram.

Só um estrondo como aquele poderia fazer com que os dois se separassem exaltados um do outro. Eles pularam ao sentir o chão tremendo, e viram a figura de Niah e dos outros irrompendo da escuridão da floresta.