Notas iniciais
Mesmo que ele sorrisse daquele jeito... ele não poderia esconder sua verdadeira natureza para sempre...

Era uma tarde fria de outono. Embaixo do céu nublado, Rima arrastava Shiki para um lugar especial. Ele, claro, não estava gostando muito da idéia. Mas prometera seguir Rima sem questionamentos.

— Estamos quase lá — ela disse, sorrindo.

Rima realmente parecia mais feliz nos últimos tempos. Talvez porque os dois estavam juntos agora. Quase seis meses juntos. Shiki nunca se sentira tão bem em sua vida. Parecia um sonho.

Eles levaram mais alguns minutos para chegar ao lugar. Rima correu na frente e parou ao centro do belo jardim, então olhou para Shiki, convidando-o para vir também.

Shiki sorriu, e começou a caminhar na direção da garota.

Era apenas impressão dele ou o céu estava mais azul agora...?

————†————

— Shiki...? — Rima disse ao ouvido do vampiro, tentando acordá-lo.

Ele finalmente abriu os olhos e olhou para Rima — Rima...? Aconteceu alguma coisa? — ele disse, ainda sonolento.

— Un — ela concordou com a cabeça, então se sentou na cama. — O conselho quer que nós dois cacemos um vampiro... level E — ela entregou um papel para Shiki, e ele entendeu o porquê da pontada de hesitação na voz dela.

Mesmo assim, não era usual que a jovem hesitasse diante de algo assim. Ela era o tipo de pessoa que mataria os próprios pais se eles se tornassem vampiros level E.

E ainda, Shiki sentia que havia algo diferente naquela pessoa. Era estranho. Conviver tão perto de uma pessoa e não ser capaz de dizer se ela mudou ou não.

— Eu cuido di... — ela segurou a mão dele antes que pudesse terminar a frase, então fez um gesto negativo com a cabeça.

Isso deveria ser importante para ela. Talvez como uma obrigação, ele não sabia dizer ao certo.

No fim, ele continuava a se perguntar se conhecia realmente aquela pessoa.

— Vamos? — ele fez um gesto com a cabeça e os dois saíram.

O local onde o vampiro estava escondido costumava ser uma igreja. Mas agora as paredes estavam cobertas por um musgo esverdeado, e a luz que iluminava o lugar entrava por onde antigamente era um teto abobadado. As imagens estavam parcialmente destruídas — não só as imagens, todo o lugar estava destruído, — e um cheiro forte de sangue impregnava o ar.

Shiki deu um passo à frente e se preparou para atacar. O inimigo estava atrás do altar — ou do que sobrou dele, — onde as pilastras e um pedaço da parede um pouco mais conservado bloqueavam a luz do sol.

— Shiki... — ela sussurrou e ele parou naquele instante. Sua mão, que estava quase em sua boca, voltou ao bolso.

Ele observou Rima caminhar lentamente pela nave, sem nem mesmo se preparar para um ataque. Shiki resolveu se preparar para dar cobertura à Rima, caso algo saísse errado. Mas ela lançou aquele olhar para ele, e como se fosse algum tipo de magia hipnótica, ele ficou ali, parado, observando.

A pessoa atrás do altar deixou sua presa de lado por um momento e observou a jovem se aproximar. Sua boca estava manchada de vermelho vivo. Não só sua boca, aquela cor tomara suas roupas e uma boa parte da pele branca.

O demônio observava Rima se aproximar, com um sorriso estranho no rosto. Shiki sabia, aquela não era mais a pessoa que Rima conhecera um dia. Mas a jovem parecia desconhecer isso. Ou talvez soubesse, mas estivesse com medo de encarar aquilo.

— Sa... — Rima disse, alguns passos antes de chegar à escada que dava para o altar — yuri...?

A pessoa — se é que aquela coisa ainda podia ser chamada de pessoa — não respondeu. Apenas observou Rima se aproximando e deu alguns passos para trás. Talvez estivesse protegendo sua presa.

— Sayuri...?

Rima já subira as escadas, então se aproximou um pouco mais. A criatura apertou os dentes. Como um aviso. Se Rima ousasse chegar mais perto, ela atacaria.

A vampira parou e observou a criatura atrás do altar. A coisa sabia que não poderia derrotar a “saqueadora” à sua frente, mas lutaria por sua presa até o fim.

— Sa...

— Rima! — Shiki gritou. Rima sabia o que aquilo significava.

A jovem fechou os olhos e levantou o braço, lentamente. Mas antes que pudesse terminar, a criatura à sua frente pulou sobre ela, empurrando-a contra a pilastra.

Mal Rima tinha acabado de receber o impacto, a criatura se preparava para um novo ataque. Mas a mão que almejava o pescoço de Rima foi parada antes, por algo vermelho.

Rima abriu os olhos. Shiki estava perto das escadas. O sangue que escorria de seu dedo se transformara em uma lança, perfurando o braço da criatura.

Ela não teve tempo para reagir. Assim que tentou puxar o braço, agora preso na parede, ao lado da cruz, o sangue de Shiki se transformou novamente, perfurando o coração do que um dia foi a bela Sayuri.

A areia descia, batendo no sangue de Shiki e terminando no chão do altar. Estava tudo acabado.

Rima deixou seu corpo deslizar pela pilastra, até chegar ao chão. Então abraçou os joelhos, ainda sem acreditar que tudo aquilo tinha acontecido à sua frente.

Afinal, era Sayuri. Como ela poderia acreditar que a única pessoa em quem acreditara por tanto tempo a trairia assim. A atacaria sem misericórdia.

— Rima... — ela podia ouvir os sons de passos cada vez mais próximos. E logo Shiki estava ao seu lado. — Vamos para casa.

— Sayuri... — uma voz totalmente sem vida.

— Não havia mais nada que pudéssemos fazer. Você sabe... ela... não era mais a Sayuri... — Ele ficou observando Rima por um tempo, então deu um longo suspiro. — Vamos para casa.

Nenhum dos dois disse outra palavra na volta para casa. Rima foi direto para seu quarto e se trancou lá. Shiki se perguntava se ela ficaria bem. Se ele podia fazer alguma coisa por ela.

Como nada veio à sua mente, ele resolveu dormir e esquecer um pouco os problemas daquele dia. Rima deveria estar fazendo o mesmo. Ou pelo menos ele rezava para que fosse o caso.

————†————

O lugar onde estavam era o jardim de uma igreja abandonada. Sentados em um antigo banco de madeira, abaixo de uma pérgula envolvida em rosas vermelhas, os dois observavam a paisagem. Sem dizer uma palavra por um longo, longo tempo.

Não era necessário, porque os dois conheciam tudo o que se passava na mente do outro. Afinal, aquele era o santuário deles, e só deles. Onde as orações dos dois teriam o poder de Deus. Onde nada seria impossível...

————†————

Rima abriu a porta do quarto, lentamente. Shiki estava sentado sobre a cama, no quarto escuro. Seus pensamentos bem longe dali.

— Shiki...? Eu... estou entrando.

Ela fechou a porta e caminhou até a cama de Shiki, sentando-se ao seu lado. Era apenas o ritual que eles repetiam sempre que Shiki precisava usar seus poderes.

Ele tentava manter seus pensamentos longe. Não que não quisesse fazer aquilo, ele só não queria daquele modo. Que Rima se sentisse na obrigação de dar seu sangue a ele.

Rima tocou levemente o braço do vampiro. Ele olhou para a jovem, para o pescoço dela.

E estava começando a perder a sanidade.

A vampira continuou, subindo seus dedos pelo tronco nu de Shiki. Levemente, lentamente. Saboreando cada parte daquela pessoa que sempre desejara.

E que nunca poderia ter.

As mãos de Shiki estavam tremendo, e ele não sabia o que fazer. Na verdade, ele não sabia se conseguiria se contar caso Rima continuasse.

Mas talvez ela estivesse desafiando-o. Ou talvez ela quisesse algo diferente de um ritual. Qualquer que fosse o motivo, ela deslizou suas mãos para o pescoço de Shiki.

O vampiro mordeu o lábio inferior. Uma pequena linha vermelha foi desenhada paulatinamente no corpo de Shiki. Começando pelos lábios, descendo pelo queixo, e chegando aos dedos de Rima.

Ela não resistiu e começou a desmanchar a linha vermelha com sua mão. Então pôde sentir os lábios daquele jovem. Macios e levemente enrugados.

Rima só podia imaginar aqueles lábios tomando os seus. Porque algo assim... nunca poderia ocorrer.

Afinal, o avô de Shiki era um dos anciões do conselho, enquanto a família de Rima era pró-monarca, e então, pró-Kaname. Considerando que a maioria das pessoas já não gostavam que os dois andassem juntos, e que Rido até mesmo tentou matar Rima e sua família pelo fato de estarem ao lado de Kaname, imagine...

Uma dor aguda. Rima abriu os olhos e olhou para a boca de Shiki. Seus dedos estavam ali dentro, e agora um líquido vermelho pingava deles e manchava ainda mais a boca do vampiro.

Rima sentia seu sangue sugado pelo jovem. Ela podia sentir o calor da boca dele, o toque leve da língua dele em sua pele. Era uma sensação estranha. Difícil de explicar. Ela nunca sentira nada assim antes quando alguém chupara seu sangue.

Shiki deixou a mão de Rima. Ela olhou para ele, pedindo silenciosamente para que continuasse. E ele forçou os ombros de Rima, deitando-a na cama. Ela estava um pouco assustada.

O vampiro agora estava sobre a doce jovem. Seus joelhos na cama, prendendo as pernas de Rima. Ele inclinou seu corpo sobre a vampira e forçou o pulso dela contra a cama. Se já era difícil fugir apenas tendo Shiki olhando para ela daquele jeito, agora então, era impossível.

— S-Shiki...!? — ela tentou reagir, mas não tinha nenhuma força para lutar contra a pessoa à sua frente.

Ele mordeu o lábio inferior dela e aproveitou o sangue que descia pelos lábios dela, antes de tomá-los para si, de uma só vez.

Rima hesitou por um instante, talvez estivesse em choque com tudo aquilo, ou talvez em dúvida se aquilo era certo ou errado.

Mas ela não conseguiu resistir por muito tempo à língua de Shiki. E logo estava brigando por ela, pela saliva do outro vampiro, o ar dos pulmões dele, e tudo mais que ela pudesse ter do outro.

O beijo foi ficando mais e mais apaixonado, exigindo cada vez mais dos dois. As mãos de Shiki que prendiam os pulsos de Rima agora deslizavam pelos fios loiros e sedosos do cabelo dela. Enquanto as mãos dela sentiam as costas despidas do vampiro.

Depois do beijo, Shiki deslizou seu rosto pela face de Rima. Ela se virou, sabendo o que viria depois. E logo os dentes de Shiki estavam cravados em seu pescoço. Ela soltou um fraco gemido, então aproveitou a sensação daqueles lábios macios em seu pescoço. A sensação estranha e magnífica de ter seu sangue sugado por aquela pessoa.

Era diferente de todas as outras vezes. Talvez ele estivesse sugando sangue do mesmo modo que sempre fez, mesmo assim, ela sentia que era diferente. Ela só não sabia dizer o que era diferente.

— Shi... ki...?

O vampiro abriu os olhos e observou Rima por algum tempo. Os olhos dela estavam mais úmidos do que o normal.

Ele finalmente percebeu o que estava fazendo. No fim, ele acabou quebrando sua promessa com Rima.

E ela nunca poderia perdoá-lo. E ele nunca poderia olhar no rosto dela novamente. Estava tudo acabado. Tudo por causa de um desejo momentâneo. Ele tinha jogado fora todo o tempo dos dois juntos por causa de algo tão idiota.

— Desculpe... — ela não falou nada. E Shiki não pôde ver a expressão no rosto dela.

Mas ela devia estar chorando.

Notas finais
Okay, essa é a primeira da série de fics ShiMa que eu estou escrevendo, Unending Sanctuary. Cada uma das one-shots poderá ser lida separadamente, mas as partes em itálico só farão sentido no decorrer da série. So, hope you all enjoy ^.^

E deixem reviews please
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!