The Darkness is Coming
2 O karma das escolhas
Coelhão era o ser mais antigo do planeta Terra, anos e anos de solidão o fizeram arrogante, o não contato com outros seres e o massacre da sua espécie o tornaram amargo, a escuridão que trouxe Breu e o tornou o que era o deixou amargo, o fez se isolar até mesmo do contato de outros seres, dos humanos.
Mas os humanos viviam no mesmo planeta que ele, tentou de tudo para que nada do que fizessem prejudicassem o único lugar que viviam e era habitável, mas não.
Ele tinha previsto pelas suas viagens pelos túneis o que aconteceria, que seria inevitável e mesmo assim ele impediu o mestre do Norte de alterar o passado, de impedir o que já aconteceu e piorar algo que mais cedo ou mais tarde teria acontecido, viu que as crianças destruiriam eles de alguma forma, mas ele viu além.
Alguém como ele não admitiria, mas ele viu Karma em suas viagens quando era apenas um ser místico, viu que ela traria uma grande mudança, seria o símbolo dessa mudança e que ele estaria ali quando acontecesse, iria testemunhar a filha da Mãe Natureza balancear as escolhas, a balança. A neta do grande senhor das trevas, o ser que dizimou sua raça inteira e destruiu seu planeta, Breu.
Como ele poderia respeita-la, vocês perguntam. Ele se mantinha distante, não perguntava nada e sempre sabia quando agir na presença da mesma, sabia que até mesmo uma troca de frases traria algo de errado ou bom, ela era o a prova viva de "você colhe o que plantou".
Não poderia mudar o passado, não mudaria o futuro e não se aproximaria da herdeira das sombras. Para poucas palavras, ela era perigosa demais para ele, não para Jack ou a Fada, mas Coelhão não deveria tentar nada, mudar o curso e rumo das coisas trariam consequências terríveis.
— Vi o jeito que você olhou para ela — Jack falou ao seu lado.
Estavam na toca, não tão bonita e viva como antes, mas ainda era a velha Toca, que não era atormentada pelas travessuras de Jack Frost já que o mesmo nem conseguia voar direito, não tinha mais controle das tempestades de neve ou pela própria neve, como se tivesse sumindo aos poucos.
Mas Coelhão não tinha previsto que até mesmo seus amigos iriam sumir, desaparecer. Talvez ele devesse ficar mesmo sozinho, como se seu medo tivesse se tornando realidade.
— Não sei do que está falando — Desviou o assunto, coçando a orelha e olhando melancólico para os ovos guerreiros da qual estavam parados, sem vida até a data da páscoa — A garota só não gosta de ser enquadrada na imagem do avô, nada demais — Falou e Jack suspirou ao seu lado.
— Ela quase poderia ter feito algum brinquedo cair nas nossas cabeças pela conversa da semana passada — Comentou, dando uma risada e Coelhão riu nasalmente — Ela é incrivelmente assustadora, mas ainda acho a Fada mais perigosa que ela, uma guerreira indiana não é pior do que o que a encarnação do mau que você planta.
— Você subestima ambas — Coelhão falou e Jack deu de ombros — Mas você não comentou para elas da sua escuridão — Mudou o assunto e foi visível a reação de Jack com isso, ele mudou e se encolheu, como uma criança — É como se os medonhos fossem uma gripe e você tivesse pegado uma doença rara e incurável, o que é perigoso e preocupante.
— Para o guardião da esperança, não me sinto tão esperançoso assim diante de sua presença — Comentou com sarcasmo — Sinto como se cada parte de mim estivesse morrendo, como se nunca tivesse existido... É um vácuo de solidão eterna, como se Breu tivesse me convencido a ficar ao lado dele ao tomar o mundo novamente.
— Pelo menos você demorou apenas trezentos anos para ter a companhia nossa e ser reconhecido — Coelhão falou e Jack o olhou, indignado — Não sabe como é viver milhões de anos sem alterar o percurso do tempo, dos humanos... De ser o único da própria raça — Sorriu para o outro — Não é triste, Jack, é aterrorizante... Você tem sorte de ter encontrado Sandy e Norte, de ter se juntado a todos e retiro o que disse antes... — Falou, mas Jack franziu o cenho
— Por falar que você era a consequência de tudo.
— É a verdade, não posso ignora-la... 'Tá na minha cara, mas não quero aceitar de forma alguma — Falou, amargo.
— Então você não mudou de forma alguma — Coelhão falou — Continua o Jack Frost de sempre, garoto.
— Para de me bajular — Resmungou, mas deu uma risada no final.
Coelhão conseguiu fazer algo da qual não era sua função, fazer alguém rir. Pelo menos não ajudou ninguém dando chocolate para dar ânimo, deu para Fada uma vez e o efeito durou uma semana inteira, mas quando a amiga deu um pedaço a Karma... A Toca do Coelhão teve mais vida no dia seguinte.
Com a conversa, Jack mostrou o braço infectado pela escuridão, seu tom de pele parecia com a do Breu.
Se alguém tivesse conhecimento melhor sobre isso seria o próprio Norte ou o Homem da Lua.
Jack contou da tristeza, da grande depressão que sentia em si, como um vazio que o cercava e Coelhão se preocupou se essas trevas passariam para os outros guardiões, mas preferiu ver o outro partir em um dos túneis que abriu para ele, abrindo um para si mesmo e começar assim uma viagem entre o futuro e presente.
Era como um vulto, mas vários e com vozes ecoando. Vozes de mulheres, da mesma mulher.
— Não deveria vê-la, Pooka – A voz familiar falou.
Quanto tempo, fazia anos que ninguém falava a raça dele. Mas a voz não vinha da passagem do tempo dos túneis.
A Mãe Natureza não aparecia com tanta frequência, mas era uma entidade poderosa e não agressiva, ainda mais quando envolvia a segurança da filha e do seu fruto, dos humanos.
Dos longos cabelos negros como uma constelação cheia de estrelas, os olhos azuis como céu a noite e o sorriso amável que só ela daria a ele.
— Preciso confirmar uma coisa, não irei colocar a segurança da sua filha em risco – Respondeu a entidade, nem ficando surpreso ao vê-la ficar em um tamanho médio ao seu lado no túnel – Não sou idiota em alterar o curso do destino de Karma.
— Não o chamei de idiota em momento em algum, Pooka – Mãe Natureza sorriu para Coelhão – Simplesmente fale com ela, a mesma poderia dar as respostas da qual você precisa.
— Eu tenho todas as respostas ao meu alcance, sem ofensas – Falou receoso e a mesma deu uma risada – Você teria coisas mais importantes para fazer, não? Sua flora está em colapso, sinto isso o tempo todo, ela me faz tremer de medo e tristeza, me faz sentir raiva.
— Você entendeu, está ficando com raiva, raiva é bom, raiva faz as coisas acontecerem na maioria das vezes, Pooka – Mãe Natureza falou, surpreendendo Coelhão – Raiva é uma resposta.
— Então é essa a resposta que você está dando a todos? A sua filha não mede seus atos para que você sofra?
— Quem disse que ela trará dor a mim? A consequência é dos humanos, a minha dor reagem como defensora, ela apenas reage como uma pancada no joelho – Explicou – Por isso você não pode vê-la no futuro, ver o mesmo deslumbre e mesmo sabendo disso, teima.
— Ela é uma incógnita.
— E você é o último Pooka restante, deixe que o destine os guie, não observe o futuro – Pediu – Deslumbre o presente, meu caro.
— Como posso deslumbrar uma coisa que herda o que me extinguiu? – Murmurou, mas ela tocou seu ombro – Jack está morrendo... Não podemos fazer nada, não sabemos se os medonhos afetam a todos, se Breu está definhando como nós ou se aproveitando dos nossos medos.
Ele não tinha tanta certeza de muitas coisas como antes, ele estava cercado de perguntas, mas todas sem respostas na maioria das vezes, agora era até mesmo barrado de viajar entre os túneis.
— Deveria conhecer o que tanto teme, “Coelhão” – Aconselhou – Os tempos estão mudando e mesmo que não queira mudar, a mudança chegará a você.
E dito, ela se desfez ao seu lado e folhas repousaram onde estava anteriormente. Olhava para frente e se perguntava a vantagem de seguir caminho com a conversa que teve.
Mas ele desistiu, de toda a sabedoria de anos, ele alterou o percurso e seguiu para o lugar onde todos se reuniam, o Polo.
Quando saiu do túnel e pisou em um chão amadeirado, engoliu em seco ao ver a presença da figura feminina que saia do lugar, estando de costas para si e cantarolando uma canção de ninar humana, carregando algum globo de neve na mão.
Mas só foi um dos duendes notar sua presença e se agitar, fazendo barulho do guizo que isso chamou a atenção de Karma e atraiu o sorriso gentil dela para si.
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