Infelizmente devo afirmar que a situação não é das melhores para aqueles que vivenciaram os últimos 10 anos...

Guerras, fome, devastação e sofrimento... É tudo que foi presenciado durante este período, família hoje em dia, só existe nas memórias, tanto boas quanto ruins.

Enquanto ando por este vale da morte que o mundo se tornou, torço para quando eu finalmente voltar a sonhar com o passado, que talvez eu consiga ver todos aqueles que já perdi e que amo até hoje.

20/04/1974

Querido diario...

Hoje tive mais um daqueles pesadelos, cheguei a conclusão que não consigo dormir sem um bom abraço e um beijo na testa de boa noite de meu pai...

Percebi que toda vez que adormeço sem isso, eu acabo tendo pesadelos do qual não consigo acordar...

Este pesadelo foi tão estranho, sonhava que varias pessoas estavam revoltadas e que corriam umas atras das outras com facas em mãos, gritando, de forma assustadora e cobertos de sangue... Lembro que a certo ponto me prenderam e começaram a me cortar.

São esses tipos de sonhos que me fazem ter cada vez mais medo das pessoas ao meu redor...

Eu tentava acordar mas não conseguia. A medida que o sonho seguia, mais dor eu sentia. Era tudo tão real... Inclusive a dor que eu sentia, parecia que realmente estavam cortando a minha carne fora e a cada faca que me perfurava, a sensação piorava e todas as feridas começavam a arder devido a um liquido estranho que parecia água que jogavam em mim, mas tinha um cheiro que dava vontade de espirrar.

Quando a ultima pessoa com um facão em mão ia cortar meu pescoço eu finalmente acordei com meu pai me abraçando forte e dizendo "calma minha pequena, acalme-se, está tudo bem... É só um pesadelo."

Eu estava tão assustada que o abracei imediatamente e não o soltava de jeito nenhum. Eu estava tremendo e pálida de medo segundo ele, e que meus gritos podiam ser ouvidos do quintal de casa, ele também me disse que eu estava me debatendo e estava sufocando com o travesseiro por conta do jeito que eu estava deitada. Eu apenas fiquei ouvindo as palavras dele enquanto tremia respirando aceleradamente abraçada a ele em uma tentativa de me acalmar.

Quando olhei para a porta, vi que lá estava minha irmã e minha mãe olhando para meu pai me abraçando, ambas pareciam muito preocupadas comigo... até por que segundo histórias que minha mãe e meu pai me contaram, Se quer era para eu estar viva.

Eles me disseram que quando eu e minha irmã nascemos, eu fui a primeira e ela a segunda, que minha irmã Peggy havia nascido perfeita, sem nenhum problema... Mas quanto a mim... Foi outra história... Contaram que meu coração batia muito menos que oque seria o normal e que eu respirava pouquíssimo, até pensaram que eu "nasci morta" , dizem eles que só descobriram que eu estava viva quando meu pai me pegou em seus braços antes que os médicos me descartassem.

Minha mãe sempre me dizia que mesmo eu tenha sido a primeira a nascer, que eu era muito mais lenta para me desenvolver... Que enquanto minha irmã ja tinha aprendido a falar, eu ainda estava com os dentes de leite crescendo em minha boca... Em compensação, ela diz que puxei muito mais do meu pai em feições e jeito de ser... Toda manhã eu e ele comemos torradas, afinal, TORRADAS SÃO DELICIOSAS!!!!

Mas oque eles sempre me elogiam se trata dos meus olhos... assim como os dele, meus olhos tem uma cor purpura, assim como tinta. Nem mesmo minha irmã consegui tal façanha, afinal os olhos tela são castanho acinzentado, como os da nossa mãe.

Enfim... Depois de horas, meu pai finalmente conseguiu me acalmar mas ai veio a grande surpresa... Ouvir sair a seguinte frase da boca de minha mãe foi oque me deixou em pânico: "Ainda bem que finalmente se acalmou, pois hoje é o grande dia... O primeiro dia de aula"

Depois daquele sonho, eu realmente não queria ir a escola... cheguei a até mesmo implorar para não ir, Mas eu não tinha escolha, meu pai soube muito bem como me convencer, assim como ele faz todas as vezes.

Fui com meu pai e minha irmã até a escola, ele nos levou até a porta da nossa sala de aula, enquanto ele se despedia da minha irmã eu tive a péssima ideia de ser curiosa, e então espiei a sala de aula pela porta da forma mais discreta possível. Foi a pior decisão que tive nesse dia! Quando vi todas aquelas pessoas sentadas no que pra mim parecia ser uma sala pequena me bateu uma sensação de desespero... abracei meu pai e implorei a ele que não me deixasse naquele lugar, mas de toda maneira, eu tive que ficar...

Eu tive que me sentar bem no meio da sala, oque me deixou mais desesperada ainda. E a pior parte foi quando a professora queria que eu falasse sobre mim, e justo neste exato momento, todos os olhos da sala se voltaram a mim... Quando percebi que todos olhavam para mim, comecei a tremer sem parar, meu rosto ficou pálido segundo oque me contaram e então ao me levantar para falar, eu simplesmente vi tudo girando e desmaiei...

Quando acordei, todos estavam olhando para mim de longe, e apenas minha irmã tentava me acordar, foi a pior sensação de todas. Alem de eu ter um medo extremo da sociedade eu ainda consegui pagar o maior mico da história... Ninguém queria chegar perto de mim durante a aula e nem mesmo no recreio.

Fiquei sozinha o tempo todo, vendo as pessoas apontando na minha direção e dando risadas, meu único pensamento era de fugir daquele lugar para bem longe de tudo aquilo...

Ao final da aula, meu pai chegou para nos buscar e parecia preocupado comigo, afinal, a escola ligou para ele.

Nós chegamos em casa e tivemos nosso jantar como de costume, escovamos nossos dentes e fomos nos preparar para dormir, mas eu como sempre, antes de dormir, escrevo meu dia neste diário enquanto espero que meu pai chegue para me dar boa noite...

Espero um dia poder ler isto e talvez dar risada do que um dia me aconteceu...

Assinado : VI...

"Se podemos esconder nossos medos, temos muito bem a capacidade de encara-los, apenas não sabemos se teremos a força necessária de superá-los" — Violet Müller Sparks

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.