The Dark Behind The Light
5 Capítulo 4 - Uma reputação em risco
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Capítulo 4 – Uma reputação em risco
Os meios mais comuns destas crises eram o cyberespaço e disco de dados piratas. Também soube, com o cochicho da reploid de escritório, que havia um tráfico de discos descartáveis feitos apenas para alterar os sentidos dos reploids, apreciados nas noites de festa, mas que traziam danos graves às databases. Como X tinha uma amostra para enviar a Alia, em breve saberia exatamente como estes discos funcionavam. Por isto agradeceu a quem o atendia e saiu com pressa para o furgão estacionado.
Correndo pela calçada à madrugada, era um dos poucos a fazer o percurso a pé naquele trecho e não tinha obstáculos, mas parou. Parou porque viu acima, no dorso de um prédio, um telão mostrando imagens de uma captura policial.
- Zero!
A operação exigira muitos homens e contava com uns 10 dos M-61, Mechaniloids bípedes com o torso pesadamente armado, lembrando uma caixa com um painel cristalino verde em forma de losango acima – o que equivalia à sua cabeça. Uma unidade destas parada era uma verdadeira torre de combate. Ao meio das viaturas policiais estava o Chefe de Polícia, Edkatt, que começava outra entrevista. O reploid com feições de gato, corpo roliço e amarelo – com o peito coberto por uma placa de armadura azul, na mesma cor dos uniformes policiais. Estava usando um capacete com viseira transparente, igual à maioria dos policiais humanos envolvidos. Em sua mão direita tinha uma pistola bem grande, à mão esquerda pousava um megafone.
- Como eu disse antes, nossa cidade tem leis e ninguém, nem mesmo um integrante duma força global vai poder bancar o terrorista, desrespeitando-as e ameaçando a ordem pública...
- Ordem pública? Nós estamos salvando vocês do caos! – Respondeu inconformado o azul reploid para a tela luminosa. Com a testa franzida, contendo muita raiva para não invadir aos gritos e tiros à sede da polícia onde estivesse Zero encarcerado, X não se deteve nenhuma vez mais até chegar ao carro que lhe servia de base.
Entrando pelos fundos, direto na área de equipamentos, já colocou a amostra no teletransportador, assim como iniciou o sistema de comunicações.
- Alia, Alia! Responda...
- X, estou ouvindo. Já sabemos do que aconteceu com Zero, por favor, acalme-se.
- Hm,... Certo. Diga-me, o que podemos fazer?
- Signas está falando com um representante da secretaria de segurança da cidade. Ele vai saber te responder melhor. Vamos adiantar o que mais há da investigação, acabei de receber o disco danificado. Lifesaver já vai começar a examiná-lo.
A expectativa de X por uma resposta da base era ofuscada por uma mágoa exposta em seu rosto. A sua respiração estava muito forte no começo, mas cada vez ia ficando mais devagar e com longos suspiros. Começava a olhar para um lado e para o outro, em busca de alguma coisa que não encontrava. Alia via isto nele com aflição, tentando lhe seguir os pensamentos.
- X,... Não vamos deixar Zero preso. Esta cidade está em guerra e finge que não. Você não está errado ao ir contra as leis deles.
- Sim, não estou... Mas não é só isso. Estou com pena de tanta gente, envolvidos em tantos crimes, em tanto prejuízo deles mesmos... Reploids e humanos deviam construir um mundo melhor, e em vez disso, fazem tanto mal a si. Por todo lado só vimos violência e falsidade...
O brilho naqueles olhos verdes parecia vir de lágrimas, o rosto perfeitamente criado para expressar emoções tinha a cor vermelha forte, a sede de justiça e bem era real em sua garganta seca. Percebendo-se tão abalado, X virou as costas para a câmera, deixando Alia com uma mão erguida na direção da tela, ela pretendia alcançá-lo para tentar fazer algo por ele, mas não tinha como. Acabou contagiada pelo espírito de X, ficando do mesmo modo inconformada e triste, mas não deixou que a vissem, saiu da poltrona em que estava. Quando X virou, não a encontrou, mas logo Signas é quem apareceu à tela.
- As autoridades já estão avisadas... Zero é um Maverick Hunter, nossa força é reconhecida por todas as nações e não pode ser detido em missão. Eles vão iniciar um processo contra ele, mas não vão mais poder detê-lo. Você poderá buscá-lo pela manhã, tente descansar no restante da noite, precisamos de você pronto para agir a qualquer hora.
- Roger. Eu acho que me precipitei um pouco... Onde está Alia?
- Deve ter ido acompanhar a análise com Lifesaver. Não se preocupe, a missão está progredindo bem.
Com uma reverência de cada lado, a comunicação foi encerrada. X foi à cápsula de repouso, acionou o sistema de defesas e alarme, e encerrou-se para dormir. A cápsula induzia o sono, mas a tensão deixava X praticamente acordado, o que era até bom: seus sonhos não seriam nada tranqüilos.
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Sozinho em uma cela, com um inibidor de armas flutuando sobre sua cabeça e as mãos algemadas, Zero estava sentado sobre a cama, único móvel do lugar. Passou até o amanhecer nesta mesma posição, olhando apenas para o chão, como se estivesse completamente concentrado. Na verdade, Zero estava em um tipo de sono, um distanciamento profundo de meditação. Não podia ver o sol, nem as horas, então não soube quando é que a mulher, oficial de polícia, veio para desativar as defesas da cela e abrir as grades para liberta-lo.
- Zero, não é? Você será solto, ficará livre enquanto é processado. Seria uma boa idéia parar de se meter em assuntos da nossa polícia por agora. Você tem fama e não quer ser responsável por uma guerra – ou acabar seus dias presos. Tenha juízo ou pode até mesmo acontecer algo pior, lá fora há muita gente que não gosta de ser incomodada
A mulher falava e se intrigava como nada despertava a atenção dele, nem a curiosidade. As algemas caíam-lhe das mãos e ele continuava imóvel. Zero saía lentamente do seu transe por não haver qualquer perigo por perto.
- Ahm, tudo bem, se não quer conselhos, vou só informar. Você vai receber sua...
- Deixe ele comigo, Leila. Já quase conversei com ele antes, talvez ele fale comigo agora. – com isto a policial Leila deu-se por satisfeita e deixou que o colega ficasse com o silencioso detento. Sorrindo, o homem encostou-se na grade para esperar.
- Lembra-se de mim? Mathew, nos encontramos num outro passeio de hoverbike seu...
- Sim. – Soou seco. Zero se levantava apertando os pulsos sem olhar para o interlocutor.
- Venha comigo, pelo que soube você não gosta de jornalistas, ninguém sério gosta. Deixaram seu sabre no setor de armas apreendidas, eu vou te levar até lá. E tinha um amigo seu te esperando no meio dos repórteres, já pedi que o avisassem e que ele fosse para um outro lugar te encontrar.
- Hum, obrigado?
- Disponha? – Riu o jovem da forma como Zero suspeitava dele, começando a sair dali, ele falou com seriedade depois. – Eu reconheço que suas dúvidas são fundadas. Você pegou o cara que a polícia estava atrás há meses em apenas um dia. E nós te prendemos, e não ele. Seria curioso, se não fosse óbvio.
- Então por que toda aquela história de você procurá-lo?
- Porque era verdade, se eu prendesse Smoke Vulture sozinho não teriam como negar que ele é um criminoso. As ações da polícia sempre têm “outras prioridades”.
- Você é um policial.
- Sim, mas isto não me faz igual aos outros. Eu penso por mim mesmo e... Bom, tento fazer o que é certo.
- Eu entendo. Mas é perigoso que você se envolva nestes casos, e comigo.
- Mamãe já chorou demais quando eu decidi ser policial como meu pai. Heheh, ela deve estar preparada para o pior.
Um primeiro sorriso aparecia na face de Zero nesta manhã, enquanto Mathew devia estar pelo seu centésimo e muito mais escancarado.
- Não tenho ninguém em que me apegue, sou só eu e minha parceira, Kind Lady.
- O seu carro?
- Sim e não! Kind Lady é um computador, ela fica no meu carro quando estou saindo, mas também a posso levar em uma mochila e em casa eu a deixo no computador principal. Ela tem uma história e tanto.
- E você quer me contar...
- Ahm... Sim. Posso?
- Esteja à vontade.
- Kind Lady era uma reploid, logo quando eu entrei na polícia já era comum os problemas com gangues de reploids Mavericks. Lady era uma ajudante de laboratório, mas o seu mestre foi assassinado por não colaborar com bandidos, e ela foi destruída com todos os pertences do homem. Quando chegamos para isolar a área, eu a achei sendo removida para ser jogada no ferro-velho, peguei as peças antes e descobri que a database estava quase intacta, muitos programas haviam sido corrompidos e processadores danificados, etc. Não servia para montar outro corpo, eu precisaria de entregá-la a um hospital e uma cirurgia caríssima a restabeleceria. Por isto eu a ativei primeiro, sem um corpo mesmo, em meu computador. Nos tornamos amigos e ela disse que não queria um outro corpo. Eu nunca entendi bem, mas acho que é para me poupar dos custos. Eu tenho poupado dinheiro, um dia quero fazer uma surpresa para ela.
A história era contada e Zero abaixava a cabeça, fechando os olhos e sorrindo, havia encontrado alguém realmente bom, mas não muito sábio e prudente. Seria bom mantê-lo longe de riscos, embora pudesse ser útil. Depois de falar, Mathew apontou uma caixa para Zero, ali estava o Z-Saber. Depois de recebê-lo, o inibidor de busters foi desativado e flutuou sozinho para outra parte da delegacia. O homem acompanhou o reploid até a garagem da polícia, e olhares de reprovação atingiam os dois. Mais ao policial que para o hunter, uma vez que ele era desprezado pela maioria do contingente. Para um sujeito tão falante, devia ser algo que fazia falta.
- Olá minha Lady, trouxe uma companhia a mais para o nosso passeio matinal.
- Oh Math, dessa vez escolheu bem.
Desentendido do tom da conversa, Zero apenas levantou uma mão para acenar um cumprimento e caminhou quieto até a porta que abria por obra de Lady. E fechava-se assim que aquele sob armadura escarlate assentava. Math sentava-se visivelmente irritado pelo que a AI dissera. Cochichando com o painel:
- Você nunca falou alguma coisa assim antes!
- Você nunca me mostrou alguém tão bonito, querido, quem é ele?
- Ah sim, permitam-me: Zero, Kind Lady. Kind Lady, Zero.
- Encantada.
- Um-hum. – Sem dar asas à cerimônia, talvez por pretender logo se separar dos dois, Zero cruzou os braços e esperou a partida do carro. A garagem abriu-se e o hovercraft flutuou para a rua atrás do departamento de polícia. Kind Lady falou antes mesmo de Mathew:
- Em que podemos ajudá-lo, senhor Zero?
- O que sabem sobre o exército da cidade velha? Os vagabundos recrutados por Sharp Linx.
- Oh, o Junk Army. São jovens, reploids e humanos, além de uns mechas de velha geração remontados, que se reúnem em festas barulhentas e patrulham bairros da cidade vez em quando.
- Nestas patrulhas acabam assaltando muitas lojas, mas o que fazem de pior é ameaçar e desafiar a polícia. Não que tenham muito deste trabalho, mas muitas vezes um cidadão prefere procurar um “junk soldier” do que um policial, para reaver um objeto perdido, ou para uma vingança. – Acrescentou Math.
- Onde eu posso encontrá-los?
- No antigo ginásio de patinação no gelo da cidade. Costumam jogar por lá um tipo de hockey violento, mais que o normal, além de shows de destruição. – Respondeu prontamente a ex-reploid.
- Obrigado. E onde está X?
- Ali! – Mathew estacionou a viatura policial. As portas abriram-se e o vento entrou no carro, empurrando o rabo-de-cavalo loiro para o interior. Os dois saíram e X levantou o braço, correndo até Zero.
- Até mais fofo, precisando de ajuda, é só chamar, não é Math?
- Ahm, sim, é sim. Boa sorte para vocês dois.
- O mesmo para vocês. Vamos, X. – Respondeu-lhes Zero, que depois abraçou X pelo ombro e foi com ele para o furgão.
- O cabelo dele é lindo, não é? – Comentou para Math, que estava debruçado sobre o teto do carro.
- Você nunca achou bom que eu deixasse o meu crescer.
- Ai, e aqueles olhos...
- Vamos voltar para o departamento. – grunhiu pouco antes de sentar e fechar ele mesmo a porta.
###Apenas rever o outro bem após o dia de riscos foi o suficiente para cada um dos dois amigos sentir alívio. Afastando o carro dali, reiniciaram o contato com a base, Signas e Alia apareceram no monitor dividido ao meio. O comandante dos hunters foi o primeiro a falar:
- X, Zero, já demos o primeiro passo nessa investigação. Entretanto, devemos ter mais cuidado. Se não controlarmos o modo como aparecemos para a imprensa, vamos ser pressionados pelos habitantes e perderemos opções.
- E como devemos fazer então? – questionou X.
- Marquei a entrevista de vocês com Atma Phree hoje à tarde. Vocês dois terão a oportunidade de explicar os últimos eventos polêmicos em que se envolveram. – prontificou-se Alia a responder, sorrindo, de uma forma peculiar.
- Em que nos envolvemos? O que houve com X? – Zero olhou curioso para o companheiro.
- Er... O que eu fiz? – Com os ombros encolhidos e a cara confusa, X olhava para os três tentando descobrir do que falava-se. Alia fechou os olhos e respondeu com uma falsa indignação.
- Você foi filmado “curtindo a noite” em uma boate. Pouco antes de ir encontrar com a sua fada Maverick.
Uma expressão surpresa e ainda mais curiosa de Zero para X deixava o azul muito sem-jeito, com medo até, do que se poderia pensar nele. Era a primeira vez que X via o que se passou por uma ótica mais “suave”. Erguendo os braços com as mãos abertas à sua frente, X as balançava em negativa, assim como sua cabeça.
- Não foi bem assim. Eu estava seguindo uma criança, acho que era uma ilusão, ela entrou na boite e de repente jogaram uma luz sobre mim, eu achei que dançando eu não alarmaria e distrairia eles para continuar a seguir a menina. Bom, foi só isto. Ah, e a Faerie Duster foi a responsável pela ilusão, eu acho. Era uma reploid com asas e antenas de mariposa. – falou bem rápido, e mesmo assim, Alia não se contentou e disparou outra pergunta:
- Asas e antenas, ela parecia um inseto? Irch!
- Er.. Não, ela era uma linda mulher, tinha cabelos azuis e as antenas eram como uma tiara sobre sua cabeça.
Alia abriu bem os olhos, enquanto Zero os fechou, cruzou os braços e comentou:
- Hum, então você também encontrou com uma reploid bonita, e perigosa, será comum isto nessa cidade?
- Ora, do que está falando Zero? Ah, é mesmo Zero, você não contou nada do que fez neste tempo todo. – Alia não parecia bem humorada com os rumos da conversa, o que a fazia morder seu lábio discretamente, apenas Signas podia notar isto, que por sinal, estava alienado naquela conversa, mas conseguia aproveitar algumas das informações das operações de X e Zero.
- Eu fui procurar por algo com a Ride Chaser, achei um membro da gangue de Smoke Vulture, um traidor dos hunters que agora está aqui. Também conheci um policial e sua parceira, a partir daí fui atrás de Vulture, procurando por outros membros da gangue. Num dos bares eu vi uma reploid de armadura vermelha assassinar dois dos bandidos.
Respirando, era a vez de X saciar a curiosidade sobre Zero. Impressionado com a atitude de Zero, já que ele foi encontrado por um Maverick e não o contrário, Zero era seu ídolo por isto, justificava o título de caçador. Tinha então uma pergunta:
- Zero, era aquela reploid da foto? A de olhos vermelhos...
- E cabelos prateados, sim, era ela. Um certo indício de que Ordo está envolvido com Vulture, mas se ele é o principal contratador dos serviços de Vulture, eu não sei dizer.
- Continue a relatar, Zero. – Acrescentou Signas. E Zero prosseguiu, falando dos serviços semelhantes que Vulture e Linx prestavam, contando na mesma hora da prisão e da saída.
- Falando na destruição da minha Ride Chaser, será que Douglas podia fazer outra para mim? Preciso que ela seja mais rápida para não deixar Vulture escapar numa próxima ocasião.
- Douglas fará o possível, sabe como ele gosta disso. – Alia respondeu a Zero. – Continuando sobre as missões de hoje, vão falar com Atma, primeiro conversem, depois gravem a entrevista. Vai ser uma troca de favores. Depois, o que acham de aparecerem na Arena? É uma chance de obter publicidade positiva, e de encontrarem pessoalmente aqueles dois heróis. Pelo que analisei deles, há algum mistério na vitória deles durante a Rebelião de Sigma.
Os dois hunters entreolharam-se. Nenhum viu escapatória no outro, então simultaneamente balançaram os ombros.
- Que seja. – respondeu Zero.
- Tudo bem, eu também fiquei instigado para saber quem eles são de verdade. – disse X, já um tanto empolgado.
- Então esta é a missão de vocês à tarde, apresentarem-se no canal Arena. Não devem precisar participar, porque ali há um roteiro e tudo mais, mas estejam prontos. – confirmou Alia.
- Sim, e a noite, é hora de irem ao tal ginásio de hóquei abandonado que os informantes da polícia indicaram, confirmem o lugar suspeito com Atma. Não se aborreçam com isto da mídia, tentem ver o lado engraçado, não é tão difícil. – Signas fez sua última fala.
- X, a amostra ainda está sob análise. Ao fim da entrevista já teremos uma resposta completa sobre ela. E Zero, Douglas já começou a elaborar os desenhos de sua nova Chaser. Boa sorte para vocês, e tenham juízo! – Alia se despediu e recebeu um sorriso de Zero e outro de X em troca, cada um no seu jeito.
###Quando sozinhos, ficaram pensativos, X sentou-se e em sua mente passaram muitas imagens dele se divertindo. A maior parte dela era de momentos amenos em meio às complicações de missões e treinamentos. Em toda vida, desde que Cain o despertou, não tivera uma folga. Todos os dias esteve a aprender alguma coisa. Na experiência que tinha até hoje, já aprendera muito mais que certas pessoas vêm a conhecer por toda a vida, mas ainda se comportava como um menino, sempre curioso e sempre pronto para descobrir algo novo. Tinha algo que descobria nestes dias, sobre sentimentos. Mas não conseguia entender sozinho, por isto olhou para Zero, que estava com o cotovelo direito apoiado na porta traseira do furgão. A mão esquerda pendia ao lado aberta...
Zero recuperava aquele pressentimento, aquela sensação de força que recebeu no dia anterior. Não era apenas poder, havia também mistério e um... vazio. Vazio, Zero sentia um vazio quando lembrava daquilo, causava-lhe um arrepio à nuca, para onde levou a mão pendente. Mas não conseguia parar de pensar no que sentiu, e no que viu. O manto sendo subitamente retirado e o labirinto de mechas desenrolarem com a queda da cobertura, ou antes, quando apenas o vermelho daqueles olhos podia ser visto enquanto a música era tocada. O caçador não lembrava nem mais como era a música, embora fosse um robô e sua memória registrasse os eventos como uma câmera digital... A atenção dele estava tão presa àqueles olhos e àquela energia, que quase todo o restante foi esquecido. Zero estava muito intrigado com isto.
- Ela era uma Maverick mesmo, Zero?
- Como é, X?
- A reploid de armadura vermelha. Você disse que era provável e que sendo assim, seria nossa inimiga. Era nela que estava pensando?
- Hum, você está mais esperto, X. Eu não sei. Mas ela assassinou os dois sem piedade. No mínimo, ela trabalha com isto,... Como nós. Venha, vamos pensar no que perguntar para a repórter-cientista.
Zero saía daquela posição e sentava-se ao lado de X, sua mente ainda lhe traía e visitava os mesmos pensamentos de antes, mas ele conseguia não ficar parado por isto, e ouvia as sugestões de X, que aparentemente, não
notava sua distração.
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Ao transitar pela cidade, os hunters eram obrigados a se acostumar com as câmeras flutantes que sempre captavam sua direção. E como Zero devia controlar os seus modos como motorista, evita-las era impossível.
- A reunião com Atma será em um lugar público, nós nos misturaremos à multidão de uma loja de departamentos e como o combinado, vamos para uma sala do depósito para conversar com a mulher. Se alguma coisa acontecer, eu distraio e você vai para lá.
- Hum, pode deixar, Zero.
A conversa se dava no estacionamento, um painel indicava a posição da vaga. X, na poltrona de passageiro, ficava admirado com a complicação para ter uma conversa privada, mas reconhecia a necessidade de precauções. Desceram os dois, azul e vermelho, adentrando o ambiente climatizado e extremamente limpo. Desde a entrada dividiram a passagem com duas dúzias de pessoas. No interior devia haver cerca de dez ou vinte milhares. Na armadura dos seguranças, podia ser ver o emblema DAC, também visto por X em outros locais, como no hospital e às ruas.
A princípio, não foram notados senão por um ou outro, que tinha dificuldade em seguir o par de heróis. Entretanto, quando os dois pararam, diante de um grande brinquedo que girava crianças pelos ares com o uso de bolhas e jatos de ar no interior de um grande domo, houve a chance de mais gente percebê-lo. No centro da imensa loja havia um playground, era onde os dois estavam agora, e qualquer um que olhasse para as telas de divulgação da loja, viria os dois parados, olhando para cima, sorrindo. Até que o próprio Zero notou sua imagem, fechando o cenho e dando dois toques no ombro de X, para que fossem embora.
Um tanto tarde, as pessoas que os cercavam não os deixavam partir, um grande número delas eram crianças. Queriam autógrafos, que posassem para fotos e pequenos vídeos, que falassem com eles e não tardou que um jornalista se metesse no meio pedindo uma palavra sobre o incidente com a polícia. Sem saber como reagir, nenhum dos dois deu resposta ao que lhes pediam, mas quando X notou que alguém derrubara um garotinho para chegar mais perto, avançou em meio aos empurrões muito rápido, abaixando-se e protegendo ele com o corpo, para evitar que fosse pisado, depois o levantou além do chão, vendo seu rosto cheio de lágrimas.
- Shhh, calma, você está seguro agora.
- Waaaaah! Eu quero a minha mãããeee!
- Um-hum, vamos encontrá-la, me diga como ela é.
- Aaaahm, — chuif – ela é do seu tamanho, mas a roupa dela é rosa e branca, e não azulona assim, nem tem um balde na cabeça.
- Owh, acho que sua mãe escolhe roupas melhor do que o Dr. Light. — X riu-se constrangido.
- E quem é esse “dotô”? Essa coisa na sua cabeça é para você não machucar ela de novo?
- Er, mais ou menos. Doutor Light é o cientista que me criou, um senhor calmo e de barba branca como a neve. – Disse X, sorrindo com muita paz a transmitir. O menino já estava muito mais calmo, e todos ao redor tinham se contido para ver o herói em um pequeno resgate. Claro, isto não ia durar, mas quando o primeiro ameaçou falar alto, encontrou dois olhos azuis, ferozes, do reploid escarlate atrás de X. Dele vinha uma energia que amedrontava aqueles que estavam com intenções baixas e pela natureza destes dois, o pequeno momento tranqüilo foi conservado.
- Hahah, ele parece o meu avô.
- Filho! – Exclamou uma mulher de vestido rosa e casaca branca.
- Mãe! Olha, esse menino azul ia me ajudar a te encontrar.
A mulher parecia muito assustada, mas avançou no meio das pessoas com coragem maternal, segurando o peito do menino com os dois braços. X sorria muito contente, e a mesma felicidade parecia dividida por muitos ali.
- Me dê meu filho. – E puxou o garotinho para seu colo. – Coisas como esta deviam ser mantidas nos quartéis. – Comentou indignada, apesar de estar cheia de medo na voz. O menino acenava inocente naquela situação.
- Coisa? – X ficou imóvel diante daquilo, perplexo com um estranho ódio que a mulher parecia ter. Mas não por muito tempo, Zero o puxou pela mão e os dois atravessaram a multidão sem deter-se. Foram seguidos, mas entraram em uma das seções e os seguranças impediram que o tumulto os acompanhasse.
- Por que ela me chamou assim, Zero? Não somos apenas coisas, todos sabem disso.
- Nem todo mundo aceita a verdade. Vamos, é aqui que encontraremos Atma, veja, ela está ali.
Estas palavras não removeram de X a aflição daquela última situação. Do outro lado da loja, uma humana baixava óculos escuros e olhava para os dois com orbes castanhos, claros como mel. Uma mulher de trinta e poucos anos, vestindo uma saia cinza escura e uma camisa social branca, tinha os cabelos negros, lisos e curtos, a pele morena e uma postura altiva.
Caminharam os três, disfarçadamente, até uma saída perto dos provadores de roupa, com um gesto ela lhes pediu para entrar primeiro, e por último, ela os acompanhou e fechou a porta.
###- Primeiro, muito obrigada por esta reunião. Eu estava quase perdendo as esperanças quando vocês apareceram. Muito obrigada mesmo.
- Ah, não precisa agradecer, nós vamos ajudar um ao outro, não é? – X respondeu a Atma, sorrindo constrangido.
- Sim, de fato. Muito prazer, sr. X, sr. Zero,... – Ela ergueu a mão direita para cumprimentá-los e os dois confirmaram o gesto. Zero continuava sério e X preocupado com seus pensamentos.
- Então, como começamos? Gravamos a entrevista primeiro e conversamos sério depois, ou o contrário?
- Em que esta entrevista vai ajudar, precisamente? – indagou Zero, tentando valorizar o tempo que iam estar ali.
- Bom, o senhor está sendo massacrado pelo chefe de polícia nas aparições dele na imprensa, ele está fazendo de tudo para que a cidade te veja como um desordeiro e para você ir embora. Se a cidade não tiver uma opinião favorável a vocês, é muito mais fácil a polícia ou algum outro figurão da cidade atrapalhá-los, com uma boa imagem, terão mais facilidade para investigar. Veja, as pessoas valorizam mais aquilo que acham conhecer, as entrevistas as fazem acreditarem que conhecem mais dessas pessoas públicas.
- Então realmente vale a pena, então, começamos pela conversa. Eu nem sei o que responder nessa entrevista. – suspirou o reploid de voz grave, contrariado, mas resignado.
- Não se preocupe, apenas algumas perguntas sobre aquele Maverick da moto, opiniões suas sobre coisas polêmicas, e uma ou outra pergunta pessoal.
Olhos fechados, mais uma vez Zero tinha esta feição. Enquanto X tentava se concentrar nas palavras de Atma e esquecer-se um pouco, começou a perguntar:
- Senhorita Atma, eu gostaria que me dissesse algo sobre este vírus que reploids compram, como um tipo de narcótico ou estimulante, com Mavericks. Já que é ilegal vender algum material assim. Os reploids sabem do risco que correm?
- Hum, o holo-virus... É assim que chamam isto que está falando. Vou tentar explicar o que eu sei. Todo mundo nesta cidade já ouviu falar disso, mas te digo que apenas um terço teve um contato próximo e todos estes deviam saber que é perigoso. Há muitas mortes ligadas ao abuso deste vírus, eu não sou especialista nessa área, mas ele destrói os sistemas lentamente, corrompendo eles e transformando aos poucos os reploids em um tipo de escravos, ao mesmo tempo em que convence eles de que estão mais livres que nunca, por induzirem uma sensação de leveza.
- Alguém controla estas pessoas quando o vírus age sobre elas? – indagou Zero, assim que ela deu a primeira pausa em sua fala.
- Aparentemente não, eles só ficam suscetíveis a lideranças fortes, como estes chefes de gangues. Eles perdem a noção de certo e errado e quando uma má influência lhes aconselha a trabalhar para eles em troca de mais do holo-vírus, então trabalham com fidelidade servil.
- De onde vem este vírus? Algum lugar deve produzi-lo, deve ser preciso no mínimo uma fábrica de microchips. Um pequeno laboratório não daria conta.
- Zero, não sei te responder isto. A polícia já fez uns ataques a laboratórios, mas estavam obviamente falsificados. Muitos apontam para uma fornecedora misteriosa, uma reploid que chamam de “fada dos sonhos”. Também já vi a chamarem de Faerie Duster.
- Faerie Duster! Então ela não só defendia isto, como também é ela quem consegue o vírus... – X exclamou e depois ficou reticente, pensava no fato dela ter desperdiçado a chance de eliminá-lo, pois devia saber que ele faria isto com ela quando descobrisse que ela era uma Maverick das que mais prejudicavam aos outros. Ou ela não sabia disto?
- É, parece que você a conheceu, foi depois de ter sido filmado?
- Sim, foi isto. Eu fiquei inconsciente por efeito da poeira que ela estava lançando em mim com uma mariposa mecânica. Acordei num lugar que ela chamou de “pequeno palácio”. Mas não consegui ver muito de lá, tive de fugir o quanto antes para que os vírus que ela transmitia com a poeira não me dominassem de vez.
- Interessante, então ela é real. Rapazes, ela deve saber de onde vem o holo-vírus. Lembra-se do caminho para o lugar de onde fugiu, X?
- Não, na verdade. Eu estava atordoado e os dados não foram registrados bem pela minha memória, posso chegar na região e procurar pelo lugar...
- Nós iremos procurá-la quando soubermos mais do vírus. – Zero interrompeu X — Atma, nós notamos que os chefões Mavericks daqui têm um contratador para serviços de intimidação, você deve ter percebido o mesmo com relação às redes de comunicação, e tudo indica para Ordo, o que você tem sobre isto?
Atma parou um pouco para pensar, sentou-se, cruzou a perna direita sobre a esquerda, estavam os três em meio a muitas caixas, cabides com roupas, escadas e armários, além de alguns bancos, como o usado pela jornalista. Zero e X permaneciam de pé, formavam os três um triângulo, com Atma no vértice.
- O mesmo que vocês, informações cruzadas, suspeitas por causa da influência dele, mas nenhuma prova. Nenhum criminoso confessou envolvimento com ele, ou fez isto e continuou vivo até o julgamento.
- Argh, o maldito parece escorregadio. E que pessoas mais acredita estarem ligadas a ele? – resmungou o espadachim.
- Se realmente ele é o chefe do crime organizado de Eveland, todos os grandes criminosos poderiam estar ligados a ele. Então teremos alguns suspeitos: Faerie Duster, como já comentamos; Smoke Vulture, que Zero já perseguiu; Big Boy Boom, um outro reploid conhecido apenas pelo nome, atribuem a ele o fornecimento de armas para Mavericks por todo o mundo, ele atravessa equipamentos que talvez sejam até fabricados pela Dok Awards Company; e Sharp Lynx, que chefia a maior gangue de desordeiros da cidade.
- Aquela que se reúne no estádio abandonado de hóquei?
- Essa mesmo.
- Nunca tentaram dispersá-los? Se não a polícia, algum tipo de gangue rival ou cisma entre eles? Como podem se reunir sem disciplina.
- Duas coisas, corrupção e violência, Zero. Sharp tem contatos e muita força. Ele já passou pelo canal Arena até. Era invencível, mas nunca confrontou com Marauder, na verdade, deixou o canal quando Marauder foi aclamado pelo público, e aí passou a liderar essa gangue enorme. Ele corrompe estes jovens e é um símbolo para eles. O grupo é todo unido ao redor deste sujeito e no mais, são comuns as notícias de brigas entre eles. A parte abandonada da cidade é completamente submetida a ele.
- Como é possível que uma vida marginal possa ser tão atraente para que este exército e os viciados no holo-vírus sejam tão numerosos? – X perguntou, ergueu a voz até, esta dúvida era forte nele.
- Hum... Nesta cidade há muita competição. Eu vi repórteres de sucesso caírem na obscuridade em questão de dias, e logo depois, aparecerem mortos por suas próprias mãos. Há muitas recompensas e por causa delas, muitas frustrações. Esta vida no submundo é uma fuga, eu acho. Há até mesmo menos rivalidade quando somente os mais fortes estão no poder. Os fracos têm seus sonhos adormecidos e se contentam com a troca de favores com aqueles que mandam, perdem a sua moral e fazem qualquer coisa para continuar anestesiados e sem se preocupar com a culpa.
O corpo de X tremia com a resposta, e ele admirava o tanto que Atma sabia sobre estes sentimentos. Ele queria perguntar mais a ela, e fez mais uma, agora sobre algo que desconhecia ainda mais.
- E os humanos? Por que a maioria dos que vi estão tristes ou aborrecidos? E tinha até mesmo humanos entre os Mavericks, onde não tinham nem como se defender nem muito como ferir.
- É o que eu falei sobre competição, X. Vocês sentem o mesmo que nós. Repare bem e vai ver que os reploids ocupam quase todos os postos de destaque na cidade. Dizem que aqui humanos e reploids vivem em harmonia, mas isto era apenas no começo, quanto mais os reploids podiam trabalhar nas mesmas funções que os humanos, mais a engenharia de seus corpos e circuitos lhes permitia fazer isto melhor. E os próprios humanos acabavam preferindo os reploids. Muita gente foi embora, muitos morreram nos incidentes com Mavericks e o restante está sempre entristecido por ser de um “tipo inferior”, ou rancoroso, com ódio de nós.
- Ódio dos reploids, por sermos melhores que eles,... Mesmo que estejamos fazendo isto para ajudar...
- Exatamente. A intenção não é sempre observada. Mas, X, você está bem?
A reploid se levantava rapidamente, os óculos escorregaram pelo nariz dela, revelando mais dos olhos castanhos. Zero também descruzava os braços, preocupado, e estendia as mãos para X, segurando-o nos ombros. Ele passara a tremer muito, de repente, e começava a cair logo em seguida.
Demorou a acordar, quando isto aconteceu, Zero já tinha feito a entrevista. Foram perguntas fáceis. Zero falou do trabalho como Maverick Hunter, de que estava ali apenas para caçar os Mavericks e que não importava aos hunters que não tenha sido pedido ajuda, eles apenas faziam o que precisava ser feito. Quanto ao caso da Repliforce, Zero deu a mesma resposta: “Foi feito apenas o que precisava ser feito”. Foram apenas cinco minutos. E como estava preocupado com X, não lhe importunou tanto dar algumas opiniões. Atma estava muito contente, além de ter conseguido passar para eles o seu número de contato, tinha presenciado pessoalmente a força da personalidade daqueles dois, era como sonhava, suas esperanças se confirmavam. Embora ainda faltasse uma peça em seu objetivo: como a cidade tinha um bloqueio de transmissões tão eficiente?
“X, o que aconteceu com você? Algo do que descobriu sobre os reploids e os humanos foi responsável por isto?”
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Azul, um brilho intenso nesta cor ocupava a visão de X, ele não sabia onde estava, nem de onde viera, mal conseguia sentir que tinha um corpo, era apenas uma consciência. A luz foi diminuindo seu fulgor, e as paredes cheias de cabos de um laboratório de robótica o cercavam. Estava deitado, levemente inclinado, e podia ouvir uma voz masculina de alguém com bastante idade, pois mostrava desgaste das cordas vocais.
- Este é X, ele é um pouco diferente de você, mas tem a mesma inspiração.
E uma outra voz, de um menino precedente à puberdade, respondia de perto.
- Então este é o meu irmão? Engraçado, eu vim primeiro e sou menor que ele.
- É isto mesmo Rockman. Quando eu criei você, eu estava começando a dar vida ao meu sonho. Você foi um dos primeiros, é meu menino azul. X vai ser o meu último e nele vou aplicar um projeto mais maduro.
- Hum, entendi. Então ele vai ser meu irmão mais velho, gostei dele! Quando ele vai acordar?
- Heheh, eu adoraria que vocês dois se dessem bem. X não pode acordar ainda, e temo que eu não vá poder presenciar isto. Eu já estou muito velho e X não pode despertar agora.
- Aah, mas falta tanto assim para acabar ele? Já posso ver todas as partes dele aqui, é algo do programa dele que não está dando certo?
- Não, não é isto Rockman. X está praticamente pronto, eu só não posso me permitir liberá-lo no mundo em que moramos sem submetê-lo a muitos testes. X é diferente exatamente por apenas ter lhe programado sua inteligência, mas não dei a ele nenhuma forma. – cough, cough (tossiu um pouco) — Quando eu o criei, Rocky, eu o fiz como um garoto amável, bondoso e justo. Dei a personalidade de uma criança, com o senso de dever de um adulto responsável. Fiz o máximo que pude para lhe dar uma alma, e acredito sinceramente que consegui. Mas você ainda foi programado e submetido a leis para bem conviver com os humanos e para que eles o aceitassem. X não tem estes programas, ele é livre para pensar por si mesmo, para sentir tudo o que lhe acontecer, eu não dei a ele as proteções que dei a você. Livre, ele tem um potencial sem-limite. Você entende por que robôs como X não podem ser ativados ainda?
- Sim, Doutor Light. Pessoas como Wily fizeram mau uso dos robôs e aumentaram o medo das pessoas de nós. Quanto mais poder tiver o meu irmão e sem regra nenhuma para impedi-lo, mais vão ter medo dele. Por que não fez com ele como agiu comigo, me protegendo dos meus sentimentos e das minhas escolhas?
- Hah- cough, cough. – Light estava rindo, mas a tosse lhe atacou na mesma hora.
- Doutor Light! Está bem?
- Cof, sim, Rockman. Estou. Eu fico orgulhoso de você. Também fiz você capaz de aprender, foi um dos motivos para ter lhe desenhado como um garoto. O criei sabendo tão pouco e hoje já tem tanta experiência e maturidade... Mas ainda não pode deixar de ser um garoto. Eu não queria isto para X. O mundo é mais complicado do que eu posso explicar em uma programação, sem esta liberdade de sentir e pensar, as transformações da personalidade ficam incompletas. Você será eternamente um garoto, Rockman. E eu não podia deixar um poder tão sem medidas – cof – que exige tanta responsabilidade pesar sobre as suas costas. Por isto X é diferente, mas eu ainda estou inseguro se acertei no seu projeto, ele precisa de muitos anos de teste. Mas,... Olhe Rocky! Ele abriu os olhos, devia estar ouvindo tudo o que falamos!
- Hah! Que danado ele, doutor! Oi X! Sou seu irmãozinho, quero que chegue logo o dia em que esteja pronto, aí vamos poder aprender juntos muitas coisas!
X tinha conseguido levantar o pescoço apenas no final, quando vira os dois que conversavam, um homem velho e baixinho, de barba volumosa, branca e leve, como se feita de algodão. E um menino quase da altura do velho, vestido de azul, com capacete e braçadeiras, como X também via em seu corpo. Estava completamente perdido, mas percebeu que falavam dele. Logo depois perdeu a consciência, e em seguida, despertou, com sede de rever todas aquelas palavras, mas sem conseguir fazer isto corretamente, cada vez que recuperava alguns trechos, esquecia outros. Ergueu o torso, ficando sentado, piscando os olhos com força. A luz vermelha de “Recording” da câmera apagou no mesmo instante e Zero levantou imediatamente do banco em que estava, ajudando X a levantar.
- X, como está? O que aconteceu com você?
- Ze-...Zero? Eu... Eu não sei bem, acho que fiquei fraco desde ontem e me preocupei demais, meu sistema deve ter me pedido um tempo à força. Acho que foi isto... Eu tive um sonho estranho.
- Um sonho? O que acontecia nele, X?
- Eu acho que era ele!
- Doutor Light?
- Sim, mas também o outro, Rockman. Aquele robô que Dr. Cain disse que foi meu ancestral. Ele falou comigo, Zero!
- Que bom, X. Não foi um sonho ruim. Vamos, pode andar?
- Ah sim, acho que posso, posso sim. Obrigado, Zero. A entrevista já acabou?
- Já sim, podemos ir agora.
- Me desculpe por não ter ajudado.
- Não se importe, já está feito, vamos.
X tinha um belo sorriso no rosto, embora estivesse envergonhado e por isto sua face corava. Atma olhava para ele com admiração e surpresa, carregada de curiosidade, mesmo assim não se atrevia a perguntar-lhe nada. X e Zero começavam a andar para a saída, e a mão do vermelho apoiava as costas do azul. Mas este ainda virou-se mais uma vez:
- Atma, obrigado pelas informações. Vamos te ajudar a descobrir o mistério do bloqueador de transmissões.
- Ah, disponha, X. Mas... Me permite perguntar uma coisa?
- Um-hum, claro.
- É verdade que o projeto deste Doutor Light, o seu projeto, foi o que Cain usou para criar os reploids? Os andróides que replicavam um modelo ideal?
- Sim, é verdade.
- Então,... Todos são descendentes de você, seus herdeiros... – dizia Atma, com tom de quem descobrira uma revelação e estava diante de um profeta, ou mesmo um deus.
- Acho que é melhor pensar que somos todos irmãos, filhos de um mesmo homem e de um mesmo sonho. Tenha um bom dia Atma.
- ... Bom... Dia, X. Vocês dois, tenham boa sorte!
Os dois sorriam para ela, que aos poucos saía do estado fascinado em que estava. Zero olhava orgulhoso para X, e este olhava apenas para frente, aquele descanso havia lhe feito muito bem.
Notas finais
Nota do autor: No capítulo anterior X relatou por alto que encontrou uma reploid chamada Faerie Duster. Apesar de não contar muito como significado, já que são nomes, a maioria dos reploids têm nomes que aludem ao que são. Faerie é fada em inglês, por isto Alia vem falar com X ironizando como se ele tivesse encontrado a "sua fada". Por que ela se importa com isto?... Bom, operadora possessiva? ^^'
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