The Cursed Blood
12 Perda de consciência
(Mycaela)
Quando o sinal bateu senti que o som estava vindo de dentro do meu cérebro, fazendo a cabeça latejar ainda mais.
Já era a quinta noite consecutiva que dormia menos de quatro horas por causa daqueles pesadelos, e a cafeína não estava me servindo mais para manter os olhos abertos.
Com um esforço maior do que o normal mandei uma mensagem para que minha mãe marcasse algum médico para aquilo, qualquer um, mesmo que fosse um dos psicólogos que eu vinha evitando desde...
–Mycaela! — me chamam, e me arrependo de ter respondido quando vi quem é que se aproximava.
Gemi baixinho em desgosto e me levantei, lutando contra um sono que chegava a ser anormal de tão forte.
–Me deixa. — murmurei entredentes saindo da sala quando Amanda chegou a mim.
Segui pelo corredor cinzento e sem vida, apesar das centenas de adolescentes que faziam barulho por ele. Um barulho que entrava pelos meus ouvidos e reverberava em minha cabeça.
Eu precisava chegar ao banheiro e lavar o rosto com a água fria, ao menos para me manter acordada até ir embora. E, claro, ela tinha que estar ali para estragar esse plano também.
–Espera! — Amanda exclamou puxando-me pelo ombro e fiquei de frente para ela, sem nem fazer esforço para esconder o mal humor.
Ela congelou, tentando gaguejar algo para começar a frase, mas nada significativo saia, o que me tirou ainda mais a paciência.
–Eu não tenho nada a dizer nem para ouvir de você; agora me deixe. — falei e, se pudesse, teria rosnado quando me lançou um olhar magoado que fiz questão de ignorar.
–Por favor. — pediu depois de tomar fôlego, assim que me virei para sair dali.
Permaneci parada, uma guerra interna fervendo em mim. Eu deveria ir embora, deixá-la para trás enquanto falava, e ignorar sua existência até o fim do ano; eu tinha razão por estar com raiva dela, e suas íris roxas mostravam que tinha consciência disso. Mas a outra parte de mim só queria chorar pela amiga de volta, queria perdoar e recomeçar a única amizade que teve na vida.
O problema era que nunca aprendi o perdão.
Ela tomou meu silêncio como uma deixa para seu discurso.
–Quero que me perdoe por tudo que te fiz. E-Eu... — o lábio tremeu e os olhos lacrimejaram; bufei querendo dizer que seria necessário muito mais que uma cena dramática como aquela para amolecer minha raiva — Sei que o que fiz não foi legal e-e... Mas é que... Eu só qu-queria...
Revirei os olhos e ela se calou.
–Não quero nada de você, e não vai ter nada de mim. — falei sentindo mais pontadas agudas na cabeça, e pareceram piorar quando ela começou a chorar.
–P-por favor, Mycaela, juro que eu... — ela fungou e secou as lágrimas, e eu não sabia se ela estava encenando ou se era real. Preferi me obrigar a acreditar que era encenação. Não iria sentir pena dela. Nem perdoá-la.
Mas... A parte humana de mim se compadeceu um pouquinho; sabia como era chorar por alguma besteira feita — ou dita -, e a dor por não saber como consertar era sufocante.
Desviei o olhar, o rosto ruborizando, sem saber mais o que fazer.
O mundo em volta parecia girar com tanto sono que eu sentia, e a dor de cabeça não me ajudava a pensar com clareza, de modo que acabei permitindo uma rachadura em minha represa.
–Estou passando mal. — falei olhando para o chão, ódio e compaixão lutando para tomarem controle sobre minhas palavras — Outra hora a gente conversa. — olhei para ela — Talvez. — acrescentei a tempo.
Um sorriso enorme iluminou seu rosto, e coloquei como ilusão o sentimento de alegria por saber que alguém se importava comigo a ponto de se sentir mal por eu odiá-la.
–Obrigada! — abriu os braços para me abraçar e distanciei-me alguns passos.
–Não abusa. — murmurei e aquele movimento pareceu muito esforço para mim.
–Você está bem? — a preocupação em sua voz era real demais.
A raiva perdia espaço demais.
Minha ainda cabeça girava demais.
– Seus pesadelos... Ainda continuam? — perdi a linha do raciocínio por um tempo ao perceber que ela ainda se lembrava dessas coisas sobre mim. -Quer que eu ligue para meus pais? Eles podem te levar...
Recobrei a compostura e aumentei a distância entre nós. Eu precisava dormir para poder retomar o controle das minhas atitudes.
–Não, já estou indo. — falei e dei as costas, pronta para correr. E lá estava ele outra vez.
Trombei de costas com o peito de Ezarel, o corpo tão cansado que agradeceu por ter algo mais macio que uma parede para se escorar.
– Pensei que tivesse parado com essa estória de ficar trombando comigo. — falou ápero e empurrando meus ombros, se distanciando de mim.
Talvez eu tivesse discutido se o cansaço não fosse mais forte.
Apenas continuei andando, a garganta seca; a dor na cabeça se espalhando pela espinha, parando no estômago. Acho que comecei a suar frio enquanto um calor desconfortável tomava meu corpo, e precisei apoiar-me na parede outra vez para poder recuperar o folego.
As vozes eufóricas ao meu redor tornaram-se cada vez mais distantes e abafadas, as cores perdendo o foco aos pouco.
–Droga...- murmurei para mim mesma num suspiro — Aqui não... — tentei varias vezes recuperar a compostura, e a cada esforço isso parecia cada vez mais difícil.
Pensei haver alguém chamando meu nome em algum lugar atrás de mim, mas a voz vinha como se abafada por um travesseiro; mesmo se quisesse não conseguiria responder ao chamado. Meus joelhos fraquejaram e a ultima coisa de que me lembro era da mao de alguém me segurando pelo pulso.
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