The Cursed Blood
15 Outra vez amigas
Notas iniciais
(Mycaela)
Quase uma semana se passou e Amanda pareceu finalmente ter desistido de falar comigo, o que me foi um alívio; poderia seguir com minha vida até aqueles últimos meses acabarem.
Ezarel ainda não falava comigo, nem quando nos esbarrávamos no portão ou na porta da sala de aula, e Nevra se recusava a explicar para ele o que estava realmente acontecendo aquele dia que nos "flagrou".
–Se infelizmente não estávamos fazendo nada, não devo nenhuma explicação. — foi a justificativa dele quando fui até sua sala na escola, os braços atrás da cabeça e os pés em cima da mesa como se sua função ali fosse fazer nada o dia todo. -Além do mais — colocou-se de pé e veio até mim, olhar selvagem e sorriso torto.
"Opa" pensei e antes que pudesse reagir, ele já estava com os braços ao redor minha cabeça, minhas costas contra alguma estante atrás de mim, procurando por uma distância que ele fazia questão de eliminar entre nós.
–... Que tal se algo de verdade acontecer entre nós? — seu nariz roçou o meu e um calor percorreu minha espinha; encolhi os ombros contendo o desejo repentino de concordar com ele — Daí ele teria um motivo REAL para ficar emburrado.
Engoli em seco, sem responder, minhas forças estavam concentradas em manter a razão no lugar e não ceder aos impulsos do meu corpo.
Ele me encarou por um tempo e afastou-se , rindo, o que foi suficiente para meu rosto queimar.
–Não se preocupe com Ezarel; acredite em mim, não vai querer nada com ele. — avisou sentado na quina da mesa, os braços cruzados.
Murmurei alguma coisa como: — Como se eu quisesse alguma coisa — e sai dali, sentindo todos os olhos sobre mim devido á vermelhidão de meu rosto.
Já eram quase cinco da tarde quando batem na porta.
Sentei-me ereta e desligue a TV esperando que Nevra entrasse; ele tinha as chaves, não precisava que eu fosse até lá.
Alguns instantes de silêncio se passaram e batem novamente á porta, com um pouco mais de força. Provavelmente não era Nevra e uma batida do meu coração falhou.
Para estar ali deveria ter entrado pelo portão primeiro, e Ezarel ficara até mais tarde na escola, Valkyon parecia ter ido em algum tipo de viagem, Nevra, bom, ele teria entrado quando quisesse, assim como minha mãe.
Batem de novo com mais insistência e levanto num salto, tentando me lembrar se eu havia trancado o portão ou não; e o sangue gelou quando percebi que a resposta era "não".
Caminhei devagar até a porta, fazendo o mínimo de barulho possível.
–Quem é? — perguntei fingindo uma calma inexistente.
Nenhuma resposta do outro lado. Já ia dar meia volta e pegar o telefone antes de espiar pela janela para ver quem estava lá quando ouço um "Sou eu" vindo do lado de fora, a voz acanhada como se estivesse com medo do que aconteceria caso se revelasse.
–Amanda?! — gritei abrindo a porta num safanão, surpresa por ela estar ali.
Ela me encarou de boca aberta por alguns instantes, parecendo esquecer como se falava.
Respirei fundo, sentindo a a vinda de uma dor de cabeça.
–O que quer aqui? Como ENTROU aqui? — perguntei com a testa apoiada no batente da porta.
–Ne-Nevra.. — engasgou e mostrou minhas chaves, que na verdade eram de Nevra.
Praguejei por dentro e a cabeça doeu.
–Vou matá-lo depois. — murmurei e então a fuzilei com o olhar, esperando que fizesse seu discurso e fosse embora logo.
–Por favor, me perdoa. — implorou, falando tão rápido que quase não a entendi.
Revirei os olhos e dei as costas, entrando em casa, mas deixando a porta aberta.
Bom, eu pretendia esquecer tudo e carregar a raiva pro resto da vida, mas se ela insistia em tentar se desculpar, não tinha porque eu continuar evitando aquela discussão.
–Se a situação fosse inversa, você ME perdoaria?
Abriu a boca para responder, mas a fechou logo em seguida sem soltar nenhuma palavra por mais alguns instantes.
–O que eu tenho que fazer pra provar que REALMENTE me arrependo do que fiz? por favor! Eu era só uma criança estúpida que...- ela engasgou quando as lágrimas começaram a cair e bateu o pé no chão, frustrada por não conseguir terminar a frase.
Eu não queria, mas ri com a cena, logo em seguida repreendendo-me.
Os poucos instante que ela levou para se recompor foram suficientes para todo tipo de sentimento tomar conta de mim; indo desde ódio até o que me pareceu o perdão. O problema era este último que aparecia e desaparecia toda vez que eu me lembrava.
–Olha, Amanda, eu sei que você pode até estar se sentindo mal agora, mas...
–Não, você não sabe! — ela gritou de repente, atirando uma almofada do sofá ao lado da porta em mim — Se soubesse mesmo pelo menos me deixaria terminar uma maldita frase que tento te dizer! Você sabe porque fui embora né? Foi porque não conseguia mais olhar pra você por causa da culpa! Não, você não sabe como é se sentir assim! Você nunca fez nada de errado! E-E...- ela foi parando de falar, a explosão de raiva já passando.
Fiquei parada segurando a almofada que tacara em mim, chocada demais para interromper em algo, a encarando enquanto ia de um lado para o outro da minha sala, fungando e limpando o rosto, praguejando consigo mesma.
–Eu detesto ficar sozinha. — falou depois de um tempo, mais calma, a voz rouca — Você sabe disso. Foi a única amiga que tive. Não, irmã, isso é o que você sempre foi pra mim. A atenção que nem meus pais não me davam eu sei que poderia conseguir com você... — ela secou os olhos mais algumas vezes enquanto os meus se umedeciam.
–Droga... — murmurei encarando o chão, tentando consertar minha represa; mas Amanda conseguira, tocou num ponto fraco meu.
Eu também a tomava como irmã; a única que não me virava as costas quando precisava, que me apoiava, que...
–Por favor, pelo menos me dê a chance de mostrar que aquilo que fiz foi por más influências, você sabe que nunca faria aquilo por mal, não contra você.
Mordi o lábio; eu queria acreditar, queria mesmo, mas a cabeça girava com a confusão de meus sentimentos, sem saber como agir em sintonia com eles.
–Por favor, Myc. — pediu mais uma vez, chamando pelo apelido que eu proibira qualquer um de usá-lo depois daquela vez.
Ela ficou esperando uma resposta, e minha vontade foi de gritar para que me deixasse em paz, não porque eu a odiava, mas sim porque eu percebia que aquele ódio que acumulei por anos estava indo embora mais leve do que areia ao vento.
Abri a boca para responder, mas nada saiu.
Ela sorriu sem graça, fungando.
–Posso considerar isso um sim?
Eu estava para responder "não", automaticamente como tantas vezes antes. Mas então me lembrei de como era fácil voltar a dormir depois que acordava de madrugada com os pesadelos e ligava para ela, onde passávamos uma hora falando sobre idiotices de crianças e pré-adolescentes.
Sorri com a lembrança, surpresa por ainda tê-la. Passei tanto tempo me corroendo com a raiva que esqueci que pelo menos bons momentos eu tiveram antes de tudo.
Assenti com a cabeça, o que foi mais fácil do que eu imaginava que seria.
Seria só sermos amigas né? Eu não conseguiria confiar nela como antes, mas saber que teria alguém com quem conversar nos silêncios dos meus dias já me parecia confortável o suficiente.
Ela soltou um grito agudo, pulando e batendo palma, o que me rir de novo.
Antes que eu pudesse dizer o quanto aquilo estava ficando ridículo ela me abraçou, agradecendo, fazendo-me perceber o quanto eu mesma precisava de um.
Quando me soltou arrancou a almofada de minhas mãos e a jogou no chão, puxando-me pelo pulso para fora de casa.
–Vamos. Precisamos colocar a conversa em dia. — falou rindo me arrastando pela rua, e nem me importei com o fato de o portão ter ficado aberto — Aquela cafeteira da Tia Ana ainda funciona? Sinto saudade daqueles cookies dela, mas ir lá, tipo, sem você é muito estranho. Lembra quando você entrou na cozinha escondido só pra pegar o doce que uma das garçonetes tinha levado sem querer? Nunca vi a Tia tão brava por você ter derrubado metade dos bolos dela no chão só pra recuperar esse doce. — ela riu alto e eu a acompanhei, me sentindo muito mais leve, sem nem me importar se alguém na rua nos olhava estranho pelo modo como falávamos alto.
Percebi que era a raiva que guardava que tornava meus dias tão sufocantes, e ter decidido ao menos colocar aquele sentimento de lado havia facilitado muito as coisas.
Dera eu saber o que aconteceria dali alguns minutos depois, quando Amanda simplesmente recebesse uma suposta ligação urgente dos "pais" a mandando voltar para casa.
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