The Cursed Blood
22 Oportunidade Perfeita
Notas iniciais

(Micaela)
A dor aguda tomou minha garganta por uns instantes que me pareceram a eternidade. Eu realmente já esperava o pior. Já esperava a morte. Já esperava acordar em minha cama sem conseguir me recordar desse pesadelo.
Mas, por trás das pálpebras, percebi que a luz do luar fora cotada por algo gigantesco, para logo depois um rugido forte soar a alguns metros de mim, o chão tremendo como se de repente um gigante houvesse pisado com força ali.
Forcei meus olhos a focarem na direção do som, e lá estava Amanda, de pé com um braço estendido apontando para a mulher de capa vermelha em frente ao navio gigante.
Amanda a fitava friamente, queixo erguido, coluna ereta, exalando a aura de uma guerreira. Em sua mão uma borboleta prateada planava, rodeando seu pulso pelo ar; abriu sua palma voltada para cima e ali a borboleta pousou. Seus dedos então fecharam-se, espremendo a criatura cintilante, esta que desfez-se em partículas de luz, as quais rodopiaram por seu braço e, por fim, agregaram-se em seu antebraço, formando um símbolo estranho e negro antes de ser absorvido por sua pele e, então, desaparecer.
–Espero que saiba o que está fazendo. — a mulher falou, rindo. E então deu as costas, correndo até o casco do navio e saltando, pulando em uma altura que me fez perguntar se realmente vi aquilo: em um salto atingira a ponta da popa do navio, agachando-se sobre uma das cabeças do monstro lá entalhado.
–Não se esqueça que uma Quimérica não pode ter futuro! — gritou lá de cima, parecendo se divertir com a situação.
Minha respiração já começara a tornar-se mais trabalhosa, e a dor da garganta espalhava-se por todo o corpo.
O navio começou a afundar, sem ninguém da tripulação gritar ou se desesperar; a madeira simplesmente passou a ser engolida pelas águas agora escuras com a noite que dominava, adentrando cada vez mais no oceano. Meio minuto sem que eu conseguisse ter alguma reação se passou, e foi tempo suficiente para a embarcação desaparecer de vista.
Esforcei-me para conseguir sentar, a escuridão da noite ao redor pareceu girar ao meu entorno, fazendo meu estômago revirar. Acabei optando por permanecer deitada, mesmo que isso fizesse um fio de sangue escorrer para minha nuca.
Se a dor não fosse tão intensa eu teria chorado de alívio. Não sabia que estava com tanto medo até aquelas lágrimas me escorrerem pelo rosto.
Ouvi os passos de Amanda chegando até mim, e percebi que era a falta de presença dela que me aterrorizava.
Mesmo que houvesse me atirado uma faca. Mesmo ela tendo me atacado com aquelas criaturas negras e monstruosas. Mesmo ela tendo me trazido a um lugar completamente desconhecido. Ela ainda era a única companhia que tive, e, provavelmente, a única que teria naquele local.
–Você é realmente inútil. — ela falou agachando-se ao meu lado, sorrindo torto. Não fosse o fato de seu corpo ainda estar translúcido e difícil de focar, ela ainda era a mesma Amanda que conheci, perdoei e confiei.
Movi os lábios para manda-la ficar quieta e perguntar o que fazia ali, mas esse simples movimento causou-me ondas de dor, fazendo-me franzir o cenho.
Amanda desceu o olhar do meu rosto para o ferimento, observando com desagrado. Quando sua mão tocou a própria garganta percebi o enorme hematoma arroxeado que havia ali.
–Co... — outra vez tentei perguntar algo, sem sucesso devido ao ferimento que, esperava eu, pelo menos houvesse estacado com o sangramento.
–Pare de tentar falar, só vai piorar mais. — murmurou para mim olhando em volta como se procurasse algo — Não saia daqui; vou procurar algo para que isso não infeccione.
E então adentrou outra vez na mata, deixando-me ali com a lua e as estrelas.
Suspirei, sem forças para tentar algo; decidi a partir de agora deixar Amanda tomar as decisões por mim. Eu não sabia como voltar, não sabia como sobreviver ali, era melhor deixa-la cuidando de tudo.
Foi fitando aquele céu escuro e pontilhado de luzes que flagrei-me pensando nos meninos, me perguntando como eles estariam. Eles sem dúvida faziam parte de toda aquela loucura. Uma vez vi no caderno de Ezarel sua caligrafia numa língua que nunca vi, ele e Nevra vez ou outra mencionaram o fato de "ser eu", mas isso sempre me fazia perguntar "eu o que?". Apenas Valkyon nunca me fizera suspeitar de nada, ele não parecia fora do lugar quando estava na escola (mesmo com sua fisionomia muscular ele ainda parecia dentro do cenário escolar: sabia interagir sem se destacar em excesso como Nevra ou gerar irritação com facilidade como Ezarel).
Suspirei, querendo alguém do meu lado para me consolar naquela situação em me encontrava.
Um gemido baixo e dolorido próximo a mim fez meu coração gelar; e, antes que eu pudesse imaginar outra cena onde eu estaria com uma lâmina em algum ponto vital, aquela tartaruga estranha e pequena pôs a cabeça bem diante de meus olhos, tapando minha visão do céu.
–Ah! AH! — exclamou triste e baixinho, fazendo-me sorrir de leve.
Mesmo sendo uma criatura estranha para mim, ainda conseguia ser encantador, ainda mais com aqueles olhos grandes e redondos que agora encaravam-me fundo nos olhos.
–AAAH! — começou a inclinar a cabeça, permitindo-me ver a poça de água em sua cabeça.
Encarei aquilo, confusa, sem entender o que ele pretendia fazer.
Foi quando passos apressados saíra de dentro da floresta, tanto aquela criaturinha quanto eu virando na direção do som, encarando — ambos assustados — o garoto que acabada de aparecer.
(Amanda)
" Micaela saiu correndo por entre as árvores, deixando para trás Amanda que gritava mandando-a esperar, mas sem impedi-la. Não precisava impedir. Poderia voltar para Micaela assim que decidisse; afinal, a garota ainda não aprendera a bloqueá-la.
Acabou optando por ficar ali mesmo, observando a noite que se abatia sobre Eldarya. A última noite em que a lua brilharia daquele jeito.
Sorriu de lado com esse pensamento. Ela viveria para ver a justiça ser feita, e isso fazia seu coração acelerar de emoção. Ou deveria fazer, se seu coração existisse para poder bater.
Lágrimas afloraram em seus olhos, aquele aperto familiar no peito voltando para lhe fazer companhia.
Por que ela não podia ter um corpo?
Levantou-se, as mãos cerradas em punho.
Por que ela não podia ter uma alma?
O ar girou ao seu redor, os cabelos negros agora agitando-se em todas as direções.
Por que ela não podia EXISTIR?
Pedaços do chão ergueram-se, forçados pelo vento, espalhando-se em várias direções, chocando-se contra as árvores e pedras; a aura assassina e furiosa da garota causando o mesmo furacão num raio de duzentos metros, obrigando os pequenos seres, habitantes dessa área atingida, a saírem correndo para longe.
' — Você não é horrível assim...'
O rosto de Nevra relampejou em sua mente, trazendo a tona um dos únicos momentos em que Amanda sentiu felicidade.
'Nevra colocou parte de seu cabelo atrás da orelha, fazendo as bochechas da garota corarem ainda mais.
–Vai, me deixa ver seu sorriso. — ele disse, sussurrando tão perto que ela sentia o hálito quente dele em seu rosto.
Estava sentindo.
Pela primeira vez estava viva.'
A lembrança do calor de Nevra a acalmou. Aos poucos foi relaxando os punhos e o corpo; as mechas caíram novamente em seu lugar e os pedaços de terra voltaram com um baque surdo para o chão.
Ficou algum tempo encarando o vazio á frente, sem saber o que sentir ou pensar; desde que fora ao mundo humano e conhecera aquele guarda, este passara a dominar sua mente. Tanto era, que incontáveis vezes chegou a pensar em desistir de todo o plano. Não queria envolver Nevra. Não queria machuca-lo. Queria apenas cair no calor de seus braços como fizera quela noite.
Mas, para isso, precisava de seu corpo físico de volta. E para isso, precisava de Micaela.
Nesse momento uma dor aguda perfurou sua garganta, tirando-lhe o fôlego.
–Droga — murmurou segurando o pescoço e disparou pela floresta, na direção de Micaela — O que você aprontou dessa vez? — perguntou a si mesma, rangendo os dentes, arrancando o bracelete dourado estilo espartana para fora de seu braço direito; o símbolo de sua Casa relampejou em preto no seu antebraço.
Assim que chegou a praia e percebeu a situação em que Micaela estava, simplesmente agiu por impulso. Estendeu a palma e evocou o primeiro encanto que lhe veio a mente; um círculo formado pela caligrafia da Língua Antiga surgiu em sua palma, cintilando em roxo, e estendeu-se até ter mais de um metro de diâmetro, fazendo-o parecer uma projeção holográfica á sua frente, exalando magia.
–Ordeno que desapareça. — falou e fechou a mão. Tal círculo despedaçou-se como caco de vidro, e o corpo do homem que estava com a lança sobre Micaela fez o mesmo, os "cacos" de sua existência física desaparecendo de vista antes de chegarem ao chão.
Amanda percebeu o movimento daquela mulher, esta que pretendia mesmo ataca-la mesmo sabia que não tinha chance de vence-la. Calmamente a garota virou-se para sua oponente, estendendo o braço sem bracelete para ela.
–Venha. — falou sorrindo de lado, divertindo-se com a ideia de enfrenta-la sabendo que não seria repreendida depois. Mas não seria necessário. Amanda sabia que aquela mulher tinha inteligência o suficiente para não enfrentá-la no um a um.
Obedecendo ao com comando, ele apareceu.
Sem saber de onde ou como, o dragão branco cortou o céu noturno, sua sombra encobrindo tudo por onde tocava. Nem sequer precisou usar de sua força bruta, apenas rugir ao se colocar atrás de sua mestra fora o suficiente para que os ali presentes captassem a mensagem: se eles avançassem, a Casa entraria no jogo com força total. E ISSO era algo que não poderiam enfrentar naquele momento.
Sem receberem tal ordem, os encapuzados voltaram rapidamente para o barco, prontos para irem embora com os kappas que captraram até então.
Amanda encarou friamente aquela mulher que tanto desprezava, esperando por algum ataque ou provocação.
–Volte. — ordenou quando sentiu Micaela remexer-se atrás de si.
O dragão abriu as asas gigantescas, o corpo desfazendo-se em pó luminoso que foi varrido pelo brisa leve que de repente tomou o lugar, indo tudo se reunir na palma de sua mestra, aglomerando-se de volta agora na forma de uma borboleta que planou por um tempo por ali, até os dedos da garota fecharam-se sobre o animal quando este pousou em sua mão, tornando-se partículas de luz que rodopiaram o braço de sua mestre até se agruparem em sua pele, formando o símbolo da respectiva Casa á qual pertencia, para então desaparecer como se nada tivesse acontecido.
–Espero que saiba o que está fazendo — a mulher falou, rindo, e não fosse o fato de o ferimento na garganta de Micaela estar doendo nela também, Amanda jamais a teria deixado usar aquele tom de voz com uma Herdeira como ela.
–Não se esqueça de que uma Quimérica não pode ter futuro! — gritou já em cima da serpente de múltiplas cabeças entalhada na frente do navio, este que já se encontrava afundando, pronto para voltar á seu porto de origem.
–Tisc. — foi só o que Amando soltou; aquela provocação da mulher já estava perdendo a graça de tanto que já a dissera para ela. Amanda fez a anotação mental de, na próxima vez que a encontrasse numa Assembleia, iria pedir 'gentilmente' para que ao menos mudasse de provocação, já que aquela estava bem velha e irritante.
Amanda sabia o que era. Não precisava de ninguém a lembrando daquilo.
Quando o navio foi completamente engolido pelas águas escuras, percebeu a agitação de Micaela, e foi até ela, esperando que o ferimento na garganta não estivesse tão horrível quanto aquela dor que sentia indicava.
–Você é realmente uma inútil. — falou já agachado ao lado dela, o sorriso torto escondendo a culpa de feri-la no ombro mais cedo.
Escondendo a culpa que sentia de tê-la deixado vagar sozinha por ali.
Escondendo a culpa de a estar usando.
O machucado em sua garganta realmente fazia jus á dor que sentia, e quando Micaela tentou falar, por pouco não consegue esconder o desconforto que tomou-lhe o corpo.
–Pare de tentar falar, só vai piorar mais. — falou procurando ao seu redor alguma planta que pudesse resolver aquilo; o problema estava no fato de que sua especialidade era feitiçaria, não medicina — Não saia daqui; vou procurar algo para que isso não infeccione.
Adentrou na floresta sem esperar nenhuma resposta da outra, sem muitas esperança de conseguir algo.
E, se soubesse que deixa-la sozinha por dez minutos seria tempo suficiente para um guardião a encontrar, Amanda teria possuído o corpo dela e forçado para saírem dali.
Seu queixo caiu quando voltou para a praia e encontrou o tal de Chrome cuidando dos ferimentos de Micaela com um kit que havia a seu lado.
Praguejou e escondeu-se atrás de uma das folhas gigantes ali perto, tensa como nunca se sentira antes. Aquele garoto iria leva-la dali. Iria tira-la da costa. Iria tira-la de sua POSSE.
Foi quando Amanda percebeu ali a oportunidade perfeita para seguir o plano original.
A oportunidade perfeita para entrar no Q.G.. Eles jamais desconfiariam de Micaela, muito menos se ela fosse levada por um membros de sua guarda.
Amanda sorriu e seus olhos roxo cintilaram"
(Micaela)
–Quem é você? — aquele garoto baixinho com orelhas de lobo perguntou antes que que pudesse fazê-lo.
Não conseguia responder. A dor não deixava.
A tartaruga, então, correu até ele, puxando-o pelo tornozelo.
–He-hey! — exclamou, confuso, mas mesmo assim veio até mim, ajoelhando-se ao meu lado, analisando-me de cima a baixo — O que aconteceu com você...?
Pela sua expressão, meu estado deveria estar deplorável.
–Ah!Ah! — aquela tartaruga gritou de novo, puxando a roupa do garoto enquanto apontava para meu rosto, mais especificamente meus olhos.
Tão confuso quando eu, ele se aproximou, fitando-me, até que seus próprios olhos se arregalaram.
–Não acredito... — murmurou para si mesmo.
Eu já estava tão cansada de tudo aquilo que nem me importei em perguntar do que estava falando; minas pálpebras começaram a pesar, e tudo o que eu queria fazer era dormir.
–Espere um minuto — pediu o garoto indo até a floresta e voltando pouco tempo depois com uma caixa de madeira em mãos.
E então, passou a cuidar de mim; pelo modo como parecia estar suando frio, nem mesmo ele parecia se sentir capaz de cuidar aquilo.
–Você é a garota pela qual os três chefes das guardas foram até o mundo humano, não é?
Minha cabeça girava; prestar atenção ao que ele dizia consumia-me mais do que o normal. Nem o fato de Amanda aparecer silenciosamente atrás dele conseguiu me causar alguma reação.
Para mim não dava mais. Eu já estava cansada de tudo aquilo, de modo que apenas encarei-a ás costas do menino sem nem tentar dizer nada.
–O que foi? — ele perguntou se virando; Amanda, muito mais rápida, se pôs ao meu lado antes que ele a visse. Sua mão tocou em meu peito, seu corpo translúcido cintilou de leve antes de se tornar poeira luminosa e ser sugado para dentro de meu peito. Tudo isso a tempo de aquele garoto voltar-se para mim sem nem notar o que aconteceu.
"Não o deixe suspeitar de nada" falou Amanda em minha mente. Como se eu tivesse forças para falar algo sobre tudo isso.
–Valkyon, Nevra, Ezarel, conheceu eles? — meus olhos se arregalaram ao ouvir seus nomes — Conheceu né? Acho que seria bom eu te levar até eles então...
Sorri, fraca, mas feliz por saber que, finalmente, encontraria algum conhecido que me explicaria o que estava acontecendo. Tal felicidade que pareceu consumir o resto de minhas forças e, então, entreguei-me à escuridão que tanto lutava para apossar-se de mim.
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