The Cursed Blood

17 O sangue da Bruxa


(Valkyon)

Deixei que Mycaela cuidasse do ferimento, mesmo sabendo que em pouco tempo ele cicatrizaria sozinho. A vantagem de se estar no mundo humano é que a bruxa não poderia usar armamentos amaldiçoados nem nada parecido.

Mas foi impressionante a rapidez com que terminou de passar a faixa pelo meu peito.

–pronto!- exclamou orgulhosa do próprio trabalho e se abaixou para juntar a bagunça feita no chão. Foi quando me abaixo para ajudar que percebi a pequena pilha de liquido espesso e escuro deslizando lentamente até Mycaela como se tivesse vida própria.

Praguejei mentalmente, quase sem acreditar que o sangue daquela bruxa queria a garota.

–Mycaela...- chamei tentando não parecer alarmado, o líquido parando no lugar quando ela também passou de ser mexer.

–O que foi?

Não respondi, mais focado nos movimentos daquilo quando ela voltou a andar.

Não tinha como lutar com aquela coisa rastejante, e eram ordens claras de Miiko não deixar nenhum humano notar a nossa realidade que se misturava a deles.

–Vou ver se Amanda está bem, daí eu pego um dos comprimidos da minha mãe para dor e volto, pode ser? -perguntou parada a frente, o sangue movendo-se agora como se tivesse tentáculos e rodeou os pés delas no chão.

Prendia respiração sem saber como mandá-la não se mexer e não olhar parte baixo; mais dois segundos e aquilo teria chegado a seus pés.

–Ok... Vou entender isso como um sim. — começou a ir embora e quase pisou naquilo; se meu impulso não tivesse sido mais rápido e eu a levantado por sobre meu ombro num grito seu assustado, o sangue daquela bruxa teria chegado até ela e não queria nem imaginar o que poderia acontecer.

–Valkyon! O que está...? — a carreguei para fora e coloquei-a no chão, olhando ao redor procurando por Ezarel ou Nevra. Precisava avisar sobre aquilo. Precisava avisar que era ela.

Ela ficou parada, me encarando de olhos arregalados, esperando por minha explicação, coisa que eu não pretendia dar. Pelo menos, não ali.

Pela fresta debaixo da porta, o sangue azul começou a rastejar para fora preguiçosamente, como se soubesse que eu não poderia fazer muita coisa contra ele.

–Não saia daqui. — comecei a empurrá-la para dentro de sua casa, sem dar ouvidos aos protestos. Sua vida era mais importante do que sua vontade.

Bati a porta de seu apartamento e segurei na maçaneta esperando que ela fosse tentar abrir, mas nada aconteceu do outro lado; suspirei quase aliviado, não fosse aquele líquido ter começado a correr atrás da garota.

No meio do caminho, quando eu estava pronto para fazer algo contra aquilo que ainda não sabia bem o que seria, ele parou, apenas uma poça líquida e escura no chão.

Esperei que algo acontecesse, mas parecia que aquilo tinha mesmo perdido a vida.

Foi quando suspirei aliviado que saiu em disparada, mas dessa vez para longe dali, saindo pelo portão para as ruas, como se temendo algo ali.

Fiquei parado por um tempo sem saber mais como reagir, até que o reflexo alaranjado do sol poente refletido no vidro do carro bateu em meu olho, despertando-me; tínhamos menos de seis horas agora para voltar.

Menos de seis horas e uma bruxa que passaria a nos perseguir assim que percebesse porquê estávamos ali.

" Amanda foi atrás de Mycaela, rindo como nunca havia feito. Mesmo o corte na perna ganho naquela luta com o Guarda não parecia estar doendo tanto.

–Hey, não era pra você... — começou a falar ás suas costas, parada em frente ao apartamento dos meninos.

O coração de Amanda disparou no peito com a ideia de ver Nevra, o que alargou ainda mais o seu sorriso. A sensação de estar viva era como água escorrendo pelo seu corpo após anos de secura e sol escaldante.

Alegria que foi embora quando atravessou aquela porta.

Lá estava o Guarda, sentado no sofá, o corte que fizera em seu peito já não escorrendo tanto quanto antes.

Uma tontura nauseante a invadiu com a ideia de que tê-lo atacado alguns minutos atrás acabara de colocar todo o plano á baixo. Não esperava que ele fosse se recuperar tão rápido a ponto de chegar até os outros antes dela.

Não esperava que ele fosse se recuperar antes que levasse Mycaela com ela.

Praguejou mentalmente enquanto cambaleava para se apoiar na cadeira perto da entrada; o corte em sua perna latejando, sentindo o sangue fugir de seu corpo.

Conseguiu reunir um pouco de força para chamar por Mycaela para saírem dali, usando nem que fosse a desculpa de que sentia que ia desmaiar ali, mas foi quando percebeu o líquido azul — escuro e espesso contorcendo-se sobre a lâmina do machado que a ferira, dois dos guardas tentando tirá-lo da visão de Mycaela, sem se importarem se ela o veria ou não. E viu. Assim como viu seu sangue escorrer para o chão de gota em gota, pronto para correr até ela e curar o ferimento de sua mestra.

Engoliu em seco, sabendo que seria descoberta caso aquilo chegasse até ela e não a "gravasse" quando tocasse em sua pele.

Deixou a coluna e ereta e mancou até a porta, aproveitando a distração dos Guardas, até que Mycaela chamou por ela, e Amanda sentiu todos os olhares caírem sobre si.

Evitou encarar qualquer um que não fosse a garota, sentindo que seria descoberta caso fizesse contato visual.

–Eu... Tenho pavor de sangue. — respondeu colocando toda a náusea na voz, esperando estar fazendo um papel convincente o suficiente.

E pareceu dar certo quando Mycaela simplesmente voltou-se para o Guarda de cabelos pratas, a ignorando completamente. Foi a primeira vez na existência que Amanda agradeceu por ser ignorada.

–Tudo bem, pode ir deitar em casa se quiser. — ela respondeu mais preocupada com os frascos de medicamentos da caixa.

Amanda lançou um último olhar para seu sangue, estagnado numa poça ao chão, esperando.

Sorriu de lado assim que deu as costas. Em menos de seis horas já estaria com Mycaela do seu lado no outro mundo.

Passou um tempo sentada no sofá do apartamento da garota, esperando pela volta dela. Não podia arrastá-la a força, provavelmente chamaria a tenção daqueles Guardas, e ela não queria empecilhos. Já bastava aquele corte na perna que não parava de doer.

Alguns minutos se passaram e ouviu Ezarel e Nevra murmurando enquanto saiam, quase rindo por saber que não tinham a mínima ideia de que nem sequer suspeitavam dela. Mas essa diversão logo passou quando o rosto de Nevra iluminou de relance sua mente, enquanto o corpo de Mycaela caia para fora do banco quando ela se distanciou dele; naquela hora, o calor do corpo dele em cima do da garota atravessara a carne dela e chegara á seu espírito quieto lá dentro, fazendo seu desejo assumir o controle por alguns instantes e Mycaela desejar o mesmo que ela.

Afastou essa memória da cabeça quando ouviu os gritos indignados de Mycaela e ela ser praticamente jogada para dentro, a porta batendo com força atrás de si.

–O que foi? — perguntou levantando-se com um gemido de dor; aquele era um dos motivos pelo qual ela detestava ter um corpo físico.

Mycaela pareceu confusa por alguns instantes, e depois deu de ombros, sentando-se ao lado de onde estivera segundos antes.

–Eles são todos estranhos. — murmurou cruzando os braços e fechando a cara, o que a teria feito rir não fosse a urgência da situação.

O sol estava quase completamente posto do lado de fora, e aquela noite era a última dos seus Círculos.

–Hey, hey, mycaela! — perguntou fingindo empolgação e jogando-se ao lado dela — Quer dormir lá em casa hoje?

A outra pareceu confusa com o convite por alguns instantes, franzindo o cenho.

–Acho que hoje não, já tá quase de noite e...

–Ah, vaamos! — insistiu a balançando pelos ombros, fazendo biquinho, chateada — Vamos fazer uma festa do pijama para compensar os anos em que passamos de mal!

Mycaela pareceu considerar a ideia dessa vez, dando um sorriso tímido logo em seguida.

–Seus pais não vão ficar bravos se eu aparecer assim, de última hora?

–Claro que não! — respondeu alegre, sorrindo de lado.

'Papai e mamãe vão adorar te ver indo pra casa' completou a frase em pensamento"

Notas finais
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