Capítulo 1

Memórias Marie

Quando abri os olhos eu estava em um tipo de planície, a terra era negra e o céu estava coberto por nuvens vermelhas. Estava chovendo e em meio ao som da chuva eu conseguia ouvi várias vozes ao meu redor.

“ Eu não estou sozinha. “

Ao meu redor havia várias sombras, mas suas formas me fazia duvidar se eram humanas. Elas pareciam estar sofrendo, algumas até mesmo estavam sendo queimadas, outras não tinham a cabeça ou outra parte do corpo. Dava se para ouvir várias lamentações vinda de alguns deles só por estarem ali e quando notavam a minha presença as sombras se aproximavam e clamavam por ajuda como se eu fosse um tipo de salvação para os seus problemas.

— Nós leve com você! – diziam em uníssono diretamente em minha mente

“ Onde eu estou? “

A chuva molhava o meu corpo que estava coberto apenas por um vestido branco.

— Nós entregue seu corpo. – disseram as formas escuras que me cercava como se fosse uma ordem – Nós leve com você!

“ O que está acontecendo? O que são essas coisas? “

Três delas se destacaram das várias que me cercaram e diferente das outras, elas pareciam felizes. Um sorriso sádico estava estampado no rosto das três formas escuras que se aproximavam cada vez mais de mim passando por cima das outras que estavam sofrendo. Eu não conseguia me mover e nem se quer falar, tudo o que podia fazer era observar enquanto as três criaturas que eram maiores que as outras e que agora de perto eu pude confirmar que realmente não eram humanas, pareciam brigar entre eles para ver quem ira se apossar do meu corpo. Enquanto as três estavam a frente, nenhuma das outras ousou se mover, como se os temessem.

Nenhum dos três parecia se resolver até que a maior delas se abaixou e pôs a mão em minha cabeça. As outras duas seguiram o seu movimento e puseram as suas mãos em outras partes do meu corpo. Assim que cada um dos três me tocava com a mão, eles diziam algo que não entendi.

— Naf karuu far – disseram em língua que não entendi – Annabelle.

Quando o último terminou de recitar essas palavras eu senti meu corpo ficando gelado e minha visão ficou escura. E como se tudo tivesse sido apenas um pesadelo, eu acordei.

***

“11PM — Em algum lugar do Monte Fuji, Japão ”

Acordei com a sensação de ter esquecido algo, mas não fazia ideia do quê. Eu estava deitada embaixo de uma árvore. Suas poucas folhas estavam cobertas de neve igual ao lugar onde eu estava deitada. Olhei para os lados como se procurasse alguém, mas eu estava sozinha. O céu estava escuro e estava nevando. A fraca luz que iluminava o lugar vinha da lua que brilhava forte mesmo encoberta pelas nuvens.

Minha mente estava bagunçada e também estava tonta. De alguma forma eu não conseguia lembrar de nada. De início o meu corpo não me obedecia, na verdade eu quase não o sentia, como quando se dorme por cima do braço e ele fica dormente pela falta de sangue. Porém isso durou apenas alguns segundo, pouco a pouco eu comecei a conseguir me mover e me levantei com cuidado para não cair. A neve no chão estava fofa dificultando a movimentação e a que ainda caía estava me atrapalhando a ver para onde eu estava indo, então andei bem devagar e sem rumo.

O vento frio fazia meu corpo tremer sem parar e cada passo parecia mais difícil. As árvores cobertas de neve pareciam todas iguais o que me fazia perguntar se eu estava andando em círculos. Andei por alguns minutos dessa forma desorientada até ver algo que chamou minha atenção. Não tão longe eu conseguia ver várias luzes que se estendiam pelo horizonte e como se eu fosse um inseto que é atraído pela luz comecei a andar em direção a onde elas estavam.

***

“12:07 AM — Em algum lugar do Monte Fuji, Japão ”

Não sei por quanto tempo eu andei e como cheguei até ali, mas depois de tanto andar me deparei com uma cidade. A minha direita havia um conjunto de casas e a frente uma estrada que seguia pela resto da cidade.

Estava de noite, todo o caminho estava sendo iluminado pela luz dos poste e pelos faróis de alguns carros que passavam quebrando o silêncio. Grande partes das casas que vi enquanto caminhava estavam com suas luzes desligadas, todos já deviam estar dormindo a essa hora. Continuei seguindo pela estrada, sem saber o que procurar ou o que fazer, pelo menos até chegar a um local que havia um estabelecimento aberto e após me ver de longe, uma senhora de meia idade veio ao meu encontro.

— Você está perdida, querida? – perguntou a senhora gentilmente – Você não parece bem.

— Hm… – foi tudo o que consegui dizer antes de o cansaço ou a tontura, quem sabe as duas trabalharam juntas para esgotarem as minhas forças.

Eu senti que estava caindo e minha cabeça tocou o chão. Eu ouvia a senhora falando alguma coisa, mas de repente a voz dela começou a ficar distante e tudo ficou escuro.

***

“12:37 A.M — Hospital Shizuoka Fuji, Fujinomiya, Shizuoka, Japão ”

Acordei e tudo estava girando. Eu sentia que estava em movimento e quando finalmente parei comecei a ouvir duas vozes conversando. Quando abri os olhos eu estava em uma sala branca e havia duas pessoas me olhando.

— Onde… Onde eu estou?

— Ela acordou! Não precisa se preocupar. – disse a senhora que havia falado comigo antes de eu apagar – Você está no hospital.

“ Hospital? “

— Bom, vamos conferir os batimentos. – disse a outra pessoa, uma mulher vestida com uma bata branca de médico. Ela tirou algo do bolso e o colocou em seu ouvido – Se machucar me avise.

Gentilmente, a mulher começou a me tocar, e encostar em mim o objeto que ela havia tirado do bolso. O toque desse objeto em meu braço fazia cócegas, além de também ser um pouco gelado. Ela pressionava com força o objeto em meu pulso e depois moveu para cima do meu peito.

A médica começou a levantar a camisa que eu estava usando, mas parou logo em seguida e abaixou a camisa rapidamente, depois voltou se para a senhora que estava apenas observando sentada em uma cadeira próxima..

— Parece que não foi nada sério. Seus batimentos estão normais e sua respiração também. – disse a médica para a senhora – Porém, eu preciso ficar sozinha com ela na sala. Será apenas por alguns instantes.

— Tem algo de errado com ela, doutora? – perguntou a senhora preocupada.

— Não, como eu disse, ela está ótima. – respondeu a médica – Só preciso fazer alguns exames finais para me certificar de que ela já pode ir embora.

— Ainda bem. – disse a senhora aliviada, ela se levantou da cadeira e começou a andar em direção a porta. – Se precisar de alguma coisa, estarei aqui fora.

Antes de sair ela olhou para meu rosto e deu um leve sorriso. Após a senhora sair, a médica correu até a porta e a trancou. Depois de conferir de que a porta estava realmente trancada, ela se virou e começou a me encarar.

A médica era um pouco baixa e magra. Tinha cabelos pretos que eram um pouco ondulados acima dos ombros, pequenos olhos castanhos e um olhar penetrante. Uma verruga abaixo da sobrancelha do olho direito se destacava em sua pele morena e levemente enrugada. Ela vestia um suéter laranja por de baixo da bata branca que estava com os botões soltos, uma calça branca e uma sandália preta.

— Você é maluca? Você não pode vir desse jeito. – ela disse num tom forte mas depois abaixou um pouco – Você não sabe dos procedimentos?

— Hmm?? Maluca? Procedimentos?

— Não se faça de idiota. – ela continuou a reclamar comigo – Se outra pessoa tivesse te atendido, você, nós estaríamos em apuros.

— Como assim? Apuros? Eu não estou entendendo.

— Eu vou ficar brava se você continuar mentindo.

— Eu estou falando a verdade. Eu... não sei do que a senhora está falando.

“ Por que ela está reclamando comigo? Eu fiz algo de errado? “

— Você é nova na cidade? – perguntou a médica

— Que… que lugar é esse? – perguntei

— Aqui é o Hospital Shizuoka Fuji, mas se quer saber a cidade, então você está em Fujinomiya.

— Fuji o que?

— Você não sabe nem onde está?

— Perdão! Eu... não consigo lembrar de nada.

— Você… não lembra nada?

Balancei a cabeça confirmando

— Arf… Isso é um problema. – disse a médica abaixando a cabeça – Qual o seu nome? Você consegue se lembrar?

“ Qual o meu nome? – também perguntei a mim mesma, mas não veio nada em mente “

— Eu não lembro. – respondi balançando a cabeça

— Tsc… Espere um momento, preciso dar um telefonema. – disse a médica tirando um celular de um bolso de sua bata – Enquanto isso… Coloque sua roupa.

“ Minha roupa? “

A médica andou em direção a mesa e sentou nela enquanto discava um telefone. A pessoa do outro lado demorou para atender.

Enquanto ela conversava no celular, eu tentava me levantar da mesa e precisei de muito esforço para não acabar virando e cair da cama. Minha cabeça girava, impedindo que eu conseguisse me equilibrar direito. Assim que consegui ficar sentada na cama com os pés para fora, passei o olhar pela sala a procura da roupa que a médica havia falado. Em um cabide perto da cama havia um casaco branco e duas luvas grossas de cor bege. Olhei para a médica e ela apontou para eles.

— São teus, vista. – disse a médica para mim e depois voltou para o celular – Não, eu estava falando com uma paciente.

Deixando uma das mãos na cama eu desci e andei até chegar ao cabide. Estendi a outra mão para pegar o casaco, mas não botei força suficiente para segurá lo e acabei deixando cair no chão. De um dos bolsos saiu um chaveiro com o formato de estrela e algumas chaves pendurada, um chiclete e um lenço azul que estava enrolando algo. Me abaixei para pegá los e os coloquei em cima da cama onde eu estava deitada.

“ O que isso? – pensei enquanto olhava para o lenço azul e depois de tanto olhar o desenrolei o lenço revelando um óculos vermelho “

“ Será que é meu? – pensei enquanto pensava em colocá lo no rosto – Deve ser, né? Já que estava no meu casaco. “

Eu não havia notado que tinha problema de vista até colocar o óculos e começar a enxergar bem melhor e arrisco dizer que minha tontura até melhorou.

Guardei o lenço e as outras coisas de volta no casaco e depois de conferir no chão se mais alguma coisa havia caído, vesti o casaco e coloquei as luvas.

Terminando a ligação, a médica guardou seu celular e saiu de cima da mesa.

— Vejo que já consegue se mover. – disse a médica sem olhar para mim, enquanto falava ela pegava algumas coisas na mesa e guardava em uma gaveta embaixo da mesa. – Você está ouvindo alguma vozinha dentro da cabeça ou algo parecido?

“ Vozinha? “

— Hmm? – perguntei sem entender

— Pela a sua cara eu acho que não. – disse a médica dessa vez me olhando depois de ter guardado tudo que estava na mesa – Enfim, levarei você para minha casa.

— Anh?! Por que?

— É perigo demais deixar alguém sem memória andar sozinha por aí. Além do mais, você não sabe onde é sua casa, não é?

“ Verdade! “

— Por que eu não consigo lembrar de nada?

— Isso eu ainda não sei, mas tentarei descobrir no caminho. – respondeu a médica indo em direção a porta. – Venha, minha filha já está vindo nos buscar.

A médica destrancou, depois abriu a porta e ficou me esperando. Eu a encarava ainda dentro da sala sem me mexer e sem saber o que fazer.

— Vamos, eu não vou fazer nada com você. Só quero te ajudar e não posso te ajudar aqui no hospital.

“ Será que eu posso confiar nela? Ela não parece estar mentindo, mas... “

Apesar de eu estar um pouco melhor, ainda me sentia tonta. Tirei a mão da cama e tentei caminhar até a porta, mas tropecei e quase cai no chão, mas a médica me segurou antes disso.

“ Eu não tenho muita escolha a não ser confiar nela. “

Com a ajuda da médica eu voltei a andar bem devagar e assim que chegamos ao corredor a médica trancou a porta e voltamos a andar.

— Doutora? – disse a senhora que havia ficado esperando no corredor – Como ela está?

— Ah, senhora Hina. Eu tinha esquecido que a senhora estava esperando. Mas ela está bem, só um pouco tonta ainda mas isso vai passar logo logo.

— Que bom né, querida? – disse a senhora me olhando com um sorriso tranquilo – Ela já está indo embora?

— Eu estou levando ela para minha casa. Ela disse que não se lembra de onde mora, então vou pedir a minha filha pra acompanhar ela até um centro policial pela manhã.

— Ah, coitadinha. Seus pais devem estar bastante preocupados.

“ Meus pais? Eu nem sequer consigo me lembrar os seus nomes ou as suas aparências... “

— Uhum… – disse olhando para baixo

— Não se preocupe, você vai encontrá los de manhã.

— Obrigado! – agradeci

— Bom, senhora Hina, minha filha está vindo nos buscar, então se nos dá licença.

— Ah, sim. Tome cuidado querida. Se precisar de alguma coisa pode me ligar.

— Obrigado.

— Até mais senhora Hina. – disse a médica se despedindo e depois olhou para mim – Vamos sair pela porta de trás.

Enquanto a médica me ajudava a andar eu olhei para trás e balancei as mãos me despedindo da senhora que havia me ajudado. Seguimos pelo corredor até uma porta larga. Novamente a médica abriu a porta e me ajudou caminhar.

A porta dessa vez dava para fora do hospital. Como ela tinha dito, nós saímos pela porta de trás do hospital que dava para o estacionamento. Havia poucos carros estacionados e nem uma pessoa além de nos. O chão estava todo pintado de branco por causa da neve e o frio me fazia tremer por baixo da roupa.

Enquanto esperávamos a filha da médica, o silêncio reinava. A médica estava de pé ao meu lado esperando pacientemente por sua filha. Ela me olhava de vez em quando e voltava a olhar para frente sempre que uma luz passava rapidamente ao lado do hospital.

— Você não perguntou, mas meu nome é Isabella Sakurai, mas pode chamar por Dra. Isabella ou so Isabella se preferir. – disse a médica quebrando o silêncio

— Pra… prazer! – estendi a mão mas ela não notou

O fato de não lembrar o meu nome me incomodava. E não apenas o meu nome mas tudo sobre mim ou o que aconteceu comigo antes de acordar em baixo daquela árvore.

Depois que a médica se apresentou ela voltou a ficar calada e a olhar para frente.

O silêncio foi interrompido assim que um carro de cor prata estacionou ao nosso lado. A pessoa de dentro abaixou a janela e notei que era uma garota, mas estava muito escuro para ver seu rosto. A senhora Isabella abriu a porta de trás e pediu para que eu entrasse. Ela se sentou na frente, ao lado da garota.

— Está é minha filha. O nome dela é Miho Sakurai. – disse senhora Isabella apresentando a garota

— Prazer… – eu disse

A garota não falou nada e como se eu não estivesse ali ela simplesmente virou o rosto para frente. Entrei no carro e com um pouco de esforço fechei a porta.

— Tente descansar um pouco. – disse Isabella – Quando chegarmos na minha casa conversamos.

Infelizmente, parece que eu estava mesmo cansada porque assim que ela disse essas palavras eu encostei a cabeça na porta e adormeci.

***

“ 1:14 A.M — Hara, 575, Casa da Familia Sakurai, Fujinomiya, Shizuoka, Japão ”

— Chegamos! – disse uma voz me acordando

Acima de mim, batendo na janela estava a garota que estava dirigindo, Miho se não me engano. Quando percebeu que acordei ela sinalizou para que eu me afastasse da porta e quando me afastei ela a abriu.

— Minha mãe está lhe esperando lá dentro. – disse Miho se afastando para que eu saísse e apontou para a porta da casa ao lado.

Estavamos na garagem da casa aparentemente. Apesar da pouca iluminação deu para notar que a casa tinha um estilo japonês. Também consegui ver de relance o rosto da garota, mas não consegui gravar na memória. Porém ela vestia um suéter vermelho, além de uma calça jeans preta toda amassada e um tênis vermelho. Eu saí do carro e Miho bateu a porta atrás de mim. Depois ela caminhou até a porta que estava apenas encostada e seguiu para dentro da casa. Segui atrás dela, mas fui parada na entrada.

— Você poderia tirar as botas por favor? – pediu Miho enquanto retirava o seu tênis e me entregava um par de sapatinhos rosas. – Minha mãe não gosta de sujeira no chão.

— Ah, desculpa! – disse me abaixando para tirar minhas botas e quando as tirei reparei que ao lado da porta havia um lugar para eu colocá-los.

Assim que guardei as botas e coloquei os sapatinhos, que por sinal são tão leves que dá impressão de não estar usando nada, Miho que também estava usando sapatinhos igual ao meu voltou a andar e seguimos até chegarmos numa sala.

A sala era grande e bonita. Havia vários quadros e monumentos espalhados por toda a sala. Em uma mesa no centro da sala havia uma espécie de árvore bem pequena dentro de um jarro feito de cerâmica. Em um canto da sala havia um altar e acima dele uma pequena estátua dourada. Do outro lado da sala havia um sofá e uma poltrona. Ao lado do sofá tinha outra mesa, menor do que a do centro e em cima dela havia um abajur.

A senhora Isabella estava sentada no sofá segurando um caderno em uma mão e um lápis na outra.

— Sente-se, por favor! – disse senhora Isabella indicando para que eu sentasse na poltrona ao lado dela.

Eu não havia notado, mas Miho havia saído da sala enquanto eu prestava atenção em sua mãe me deixado sozinha com a senhora Isabella.

— Você se sente melhor? – perguntou Isabella

Eu ainda me sentia estranha, como se eu ainda não tivesse acordado e tudo que está acontecendo fosse um sonho. A tontura havia passado, mas eu continuava desnorteada, sem minhas memórias e agora um pouco tensa por estar na casa de estranhos. Mesmo assim balancei a cabeça indicando que sim.

— Não se preocupe, não vamos fazer nada com você. – disse Isabella que parecia ter notado meu desconforto e tentava me acalmar – Apenas queremos te ajudar.

Me sentei na poltrona ao lado de Isabella e esperei até que ela falasse algo.

— Vejamos, você disse que não lembra de nada, mas até que ponto da sua vida não lembra?

— Eu… não lembro de nada antes de acordar.

— Hm… – ela anotou algo em seu caderno antes de continuar. – E você sente ou sentiu alguma dor depois que acordou? Tipo na cabeça por exemplo.

— Não…

Novamente ela escreveu alguma coisa no caderno e quando terminou de escrever fez outra pergunta.

— Você lembra de onde você estava antes de ser levada ao hospital?

— Eu… acordei de baixo de uma árvore e tudo estava coberto de neve. – disse o que eu conseguia lembrar – Quando vi as luzes da cidade eu… não lembro. Eu acordei no hospital depois disso.

— Você realmente não lembra de nada?

— Eu não estou mentindo, eu não consigo lembrar de nada do que aconteceu comigo antes de acordar. E mesmo o que aconteceu depois de eu acordar estão bastante embassadas.

— Hm… Essa não é minha área, mas já vi casos parecidos no hospital. – disse a senhora Isabella passando os dedos pelo cabelo e depois como se não precisasse mais do caderno ela o colocou de lado, junto com a caneta – Então eu tenho duas suposições, mas como ninguém viu o que aconteceu e você obviamente não lembra, vai ser difícil ter certeza de qual é a certa.

Eu não havia percebido, mas havia uma xícara de café na mesinha ao lado do sofá. Depois de tomar um gole a senhora Isabella continuou.

— A primeira é que você pode estar sofrendo de amnésia psicogênica.

— Amnesia psi…

— Psicogênica. Talvez você tenha passado por algo impactante demais e com isso criou um trauma psicológico. O seu cérebro para proteger você está bloqueando as informações do seu passado.

— Me... proteger? do que?

— Eu não sei até quanto da sua vida o seu cérebro estar bloqueando ou qual foi a situação impactantes, mas seu cérebro quer te proteger de sensações de dor e sofrimento que você pode vim a ter se recordar desse acontecimento.

“ Eu vou sofrer se eu lembrar do meu passado? “

— A segunda também é ligada a amnésia, mas nesse caso a hipótese é de que a perda de memória tenha sido provocada por um impacto físico diretamente em uma região chamada de lobos temporais.

A senhora Isabella tomou mais um gole de café antes me fazer uma pergunta.

— Você está entendendo? – ela perguntou e depois como se já soubesse a resposta ela continuou. – É normal que você não entenda, afinal seu cérebro ainda não deve está conseguindo processar essas coisas difíceis.

Infelizmente era verdade. Eu não estava entendo nada, apenas que aconteceu alguma coisa comigo e por causa disso eu perdi a memória.

— Já que parece que você só está com dificuldade de lembrar do seu passado, então a sua amnésia deve ser classificada como retrógrada eu presumo.

— E isso é ruim?

— Nesse caso se eu estiver certa, você vai ser recuperar daqui algumas horas ou alguns dias, não se preocupe.

— E o que eu faço até lá?

— Por hoje você pode dormir aqui. Se amanhã você estiver melhor, tente encontrar alguma coisa sobre você. Talvez ajude você a lembrar de algo do seu passado.

— Mate-a! -

“ O que...foi isso? – pensei antes de minha cabeça começar a doer e minha consciência apagar de novo, porém antes dela apagar completamente uma fome estranha surgiu dentro de mim “

Algo parecia estranho, eu achei ter perdido a consciência, mas eu ainda estava acordada só que eu me sentia diferente, uma sensação de ter perdido o controle do meu corpo ou melhor de estar dividindo o controle com outro alguém. Vários pensamentos estranhos começaram a surgir em minha mente, coisas terríveis, sofrimento, sangue, morte, tudo isso se misturava dentro de mim. Eu olhava para senhora Isabella que também me olhava preocupada, observei enquanto ela parecia falar comigo ou será que estava chamando por alguém, eu não conseguia ouvir.

— Mate-a, mate-a! -

A voz vinha de dentro de mim e dessa vez mais forte, como uma ordem. Eu senti minha cabeça doer mais uma vez.

— Mate-a! – dessa vez a voz saiu de minha boca

Eu comecei a me levantar da poltrona e senti que avançaria para cima da senhora Isabella a qualquer momento. Novamente a senhora Isabella falou alguma coisa e dessa vez eu percebi que não era para mim, mesmo que eu não estivesse a ouvindo. Minhas mãos começaram a se mover para frente e numa velocidade muito rápida eu agarrei o pescoço da senhora Isabella que nem sequer teve tempo de se mover. Com as duas mãos eu comecei a apertar o seu pescoço e senti que eu poderia quebrá lo quando quisesse, mas mesmo assim a senhora Isabella não parecia se incomodar. Ela nem tentava escapar das minhas mãos, apenas me olhava e continuava a falar algo que eu não ouvia. O fato de ela não tentar fugir de mim parecia incomodar, provocar eu acho que a palavra certa, o que dividia o controle do meu corpo e sem exitar apertei a sua garganta até sentir quebrá-la.

— Pare! – eu consegui dizer

Por esse breve momento eu tive o controle do meu corpo e consegui soltar a senhora Isabella, porém o seu corpo caiu morto no chão.

— O que você fez? Tanto faz, ela está morta. -

Dito isso a minha visão escureceu e eu caí ao lado do corpo inerte da senhora Isabella.

***

“ 1:23 A.M — Sala, Casa da Familia Sakurai ”

Acordei com um sabor de algo salgado, porém um pouco apimentado e com um leve teor de álcool em minha boca. Quando abrir os olhos eu estava sentada na poltrona e a minha frente estava Miho. Ela segurava um copo transparente e dentro havia uma bebida levemente avermelhada.

— Parece que ela acordou. – consegui ouvir a senhora Isabella falando atrás de Miho

A senhora Isabella estava sentada no sofá tomando café como se nada tivesse acontecido.

“ Ela não morreu? “

— Será que só isso é o bastante? – perguntou Miho para mãe

— Dê mais uma dose se quiser. – disse senhora Isabella se levantando do sofá e dando alguns passos em direção ao meio da sala. – Eu acho que já foi o suficiente.

Miho abriu a minha boca e me fez tomar outro gole da bebida avermelhada.

— O que… O aconteceu? – perguntei

— Você dormiu. – respondeu senhora Isabella de onde estava – lhe demos um remédio para recobrar a consciência.

“ Dormi? Então o que aconteceu foi um sonho? “

— O que… é isso? – perguntei apontando para a bebida

— Isso? é uma bebida chamada “Bloody Mary”. – respondeu Miho – O sabor do remédio é meio ruim então misturei com a bebida para que ficasse mais fácil de tomar.

— Você teve uma noite ruim. – disse senhora Isabella – É melhor você descansar um pouco, amanhã conversamos melhor.

A senhora Isabella voltou ao sofá e recolheu o caderno e a caneta. Depois foi até o corredor ao lado da sala e pegou bolsa, onde guardou algumas coisas e o caderno junto com a caneta. Após guardar tudo ela pôs a bolsa nos ombros e se dirigiu a porta, tirando uns sapatinhos brancos e colocando as sandálias que estava usando antes.

— Miho, leve ela até o quarto de hóspedes. – disse senhora Isabella para filha – Empresta a ela uma roupa para passar a noite e prepare um banho para ela também.

— A senhora já vai embora?

— Sim, o meu expediente ainda não acabou afinal. – respondeu senhora Isabella – A chave do carro, por favor.

Miho pôs a mão em um bolso da calça e tirou uma chave. Ela andou até a porta e entregou a chave para mãe que logo depois virou as costas e passou pela porta indo embora.

Miho ficou um tempo olhando para a porta como se esperasse ela abrir novamente, mas nada aconteceu. Desistindo, ela olhou para mim, ela parecia chateada, mas respirou fundo e sorriu.

— O quarto de hóspedes é por aqui. – chamou Miho

Da sala ela andou para a direita e seguiu pelo corredor. O chão era feito de madeira fazendo os passos ecoarem pela casa.

“ Deve ser difícil andar sem fazer barulho aqui… “

Miho andou até parar a frente de uma porta larga e corrediça. A maior parte dela era coberta papel translúcido de cor branca. Por sinal, quase todas portas dentro da casa seguiam esse padrão. Me aproximei devagar e quando cheguei até ela, a porta já estava aberta.

— Eu vou preparar o seu banho, então já pode ir tirando sua roupa, se quiser. – avisou Miho e depois apontou para um guarda-roupa que estava no fundo do quarto – Pode colocar suas coisas lá dentro.

Dito isso ela saiu, me deixando sozinha no quarto. O quarto era simples, mas bem arejado devido a uma grande janela a minha esquerda que estava meia aberta deixando o lugar um pouco frio. O piso era feito de madeira igual ao corredor e a sala. No meio do quarto havia um grosso tapete branco e em cima dele uma mesa baixa coberta por um grosso coberto preto e ao seu redor várias almofadas também pretas..

“ Não tem cama? – pensei revirando o olho pelo quarto “

No canto do quarto estava o guarda-roupa. Ele era bem grande ocupando toda a parede. Suas duas portas eram corrediças e todo o guarda roupa era branco. Empurrei a porta da uma das portas para ver o que tinha dentro. Havia apenas alguns cobertores e cabides. Abrir a outra e nesse só havia outro cobertor, apesar de bem mais grosso que os da outra porta. Na parede da direita havia um espelho e depois tirar o meu casaco e pendurar em dos cabides fui até a frente do espelho e me vi pela primeira vez.

É meio estranho a sensação de não lembrar como eu era antes de me olhar no espelho. Isso só realçou o fato de que não lembro nada sobre mim. De pé em frente ao espelho havia uma garota de pele clara levemente bronzeada, cabelos negros que iam até abaixo dos ombros e cobriam um pouco a sua testa como uma pequena franja. Olhos grandes e de pupila verde que brilhavam como duas esmeraldas se escondiam atrás do óculos que ela usava. Sua boca de lábios pequenos e finos estava coberta por um gloss que realçava a cor rosada dos lábios. Ela estava vestida com uma blusa branca que deixava os seus braços expostos e uma calça preta, além das pantufas rosas.

Eu me observava bem cuidadosamente para gravar minha memória a primeira coisa que sei sobre mim, a minha aparência. Fiquei de frente ao espelho por mais ou menos 3 minutos e ficaria mais se Miho não tivesse me chamado no corredor. Quando sai do quarto Miho estava me esperando no corredor. Uma porta a frente do quarto de hóspede estava aberta.

— Aqui fica o banheiro. – disse Miho entrando no banheiro – Eu já enchi a banheira com água quente então já pode tomar seu banho.

Agora com ela debaixo da luz eu consegui ver melhor como ela era. Ela tinha longos e ondulados cabelos loiros que caiam pelas suas costas e uma curta franja que cobria sua testa de pele clara. Um rosto cativante com pequenos e puxados olhos azuis seguidos por um pequeno nariz e uma boca delicada e levemente rosada. A garota tinha braços finos e longos, peitos grande e um cintura fina. Eu diria que ela tem a mesma idade que eu, se eu soubesse a minha idade.

— Obrigada. – agradeci

— Eu deixei um pijama para você vestir dentro daquela cesta. – disse Miho, ela apontou para uma cesta dentro do banheiro. – Eu vou está no meu quarto que fica aqui do lado, se precisar de algo… é só chamar.

Balancei a cabeça indicando que havia entendido e então Miho saiu do banheiro e andou até outra porta. Antes de entrar ela olhou para mim e disse.

— Pode demorar o tempo que precisar. – e então ela entrou em seu quarto

“ Acho que ela falou do banho… “

Bom, como se chama essa área… vestiário? Não sei. A minha direita havia um pequeno armário, a frente uma porta de vidro e direita havia duas cestas. Uma das cestas estava o pijama que Miho havia deixado para mim e a outra estava vazia. Pela porta de vidro dava para ver que o banheiro era do outro lado então aqui deve ser um tipo de vestiário mesmo.

Fechei a porta e comecei a tirar minha blusa. Assim que a tirei reparei que havia uma pequena tatuagem, um símbolo desenhado na minha barriga abaixo do meu peito esquerdo. Essa tatuagem cobria uma parte de uma cicatriz que começava no tórax e ia até a minha cintura.

“ Eu não sabia que eu tinha uma tatuagem, muito menos uma cicatriz tão grande. “

Experimentei tocar na cicatriz e nada aconteceu, nenhuma dor.

“ Deve ser antiga, eu acho… mas o que será que causou isso? “

Isso era só mais uma coisa para lista das coisas que não lembro, então apenas continuei a me despir já que não adiantaria nada ficar parada insistindo mesmo. Tirei toda a roupa e logo comecei a sentir frio. Joguei tudo dentro da cesta vazia e abrir a porta que dava para o banheiro.

O banheiro era todo branco, literalmente tudo era branco. Diferente da parte de fora o piso aqui dentro era feita de cerâmica branca. A minha esquerda havia uma pia e espelho, a frente estava a privada e ao seu lado no canto da parede da direita estava a banheira. A direita acima da banheira havia uma janela que estava fechada, para minha alegria. Na parede da direita também havia um chuveiro e no chão uma pequena cadeira.

A banheira estava cheia como Miho havia falado e ela também disse que estava cheia de água quente então me apressei a entrar. A água estava bem morna o que fez meu corpo relaxar assim que entrei.

“ Ai, que delícia! “

Fiquei sentada dentro da banheira por alguns minutos, tava tão bom que eu não queria sair.

“Tenho uma leve impressão de que não gosto de frio. ”

Ao lado da banheira havia alguns produtos para limpeza do corpo como shampoos e sabonetes, além de uma esponja.

“ Será que eu posso usá-los? “

Fiquei parada como se estivesse esperando por alguma autorização e no fim acabei decidindo apenas me molhar. Enquanto eu mergulhada na banheira, comecei a pensar um pouco sobre as coisas que aconteceram hoje.

“ O que aconteceu comigo? Por que não lembro de nada? Tá, a senhora Isabella disse que acha que é culpa dessa tal amnésia alguma coisa, mas que não sabe o que causou. Então mudando a pergunta, o que me fez ter essa amnésia? “

Fiquei parada por um tempo pensando nisso

“ E o que foi aquilo mais cedo? A senhora Isabella disse que eu dormi, mas parecia tão real e o que era aquela voz? E por que dizia para eu matar a senhora Isabella? “

Não adianta, por mais que eu tentasse entender o que estava acontecendo comigo eu apenas entrava em mar de mais perguntas sem respostas.

“ Por hoje você pode dormir aqui. – foi o que a senhora Isabella me disse – Mas e amanhã? O que eu vou fazer? Ela disse para a senhora no hospital que ia pedir para Miho me acompanhar até polícia e depois disse pra eu procurar alguma coisa sobre mim, mas eu nao sei nem por onde começar... “

Comecei a ficar tonta novamente, talvez por ter ficado muito tempo dentro da água quente.

“ Eu acho que a senhora Isabella está certa, é melhor eu ir descansar. Não vou conseguir pensar em nada assim. “

Eu tinha que sair da banheira antes de acabar desmaiando de novo mas…

“ Mas deve tá tão friiio lá fora… E tá tão bom que aqui dentro. “

Eu sentia que estava prestes a desmaiar se eu não saísse logo. Juntei coragem e me levantei e pra minha tristeza eu estava certa, estava bem frio fora da banheira. Eu quase mergulhei novamente, mas eu precisava sair. Sai de dentro da banheira e me enrolei na toalha para me secar. Após me secar eu fui até a cesta e peguei o pijama que Miho havia deixado para mim.

Ele era simples e bonito, a camisa era pequena, mas as mangas eram longas e ficavam mais largas no final parecendo um sino. Tanto a camisa quanto o short eram feitos de algodão na cor amarelo claro com alguns detalhes marrom na gola, barra e manga da camisa. Ah, também havia uma calcinha branca. Vesti a roupa e para minha alegria cabia perfeitamente em mim.

“ Tenho que agradecer a ela depois. “

Tanta gente me ajudou hoje, a senhora Hina, a senhora Isabella e agora a Miho, mas não algo me dizia que não gosto de depender de outras pessoas para tudo. Eu precisava recuperar minhas memórias o quanto antes para não precisar ficar incomodando mais ninguém. E novamente me veio o pensamento “ o que eu vou fazer? “ , e de novo eu ainda não tinha uma resposta pra me dar.

“ Vou deixar para pensar no que fazer amanhã quando eu acorda. – e com esse pensamento voltei para o quarto de hóspedes. “

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.