The Crown Of Hearts.
9 - Capítulo 8:
Notas iniciais
Tinha tentado correr o mais rápido possível, mesmo com os pés vacilantes, pernas trêmulas e totalmente desestabilizadas, mas ainda assim, havia chego em meus aposentos com sucesso. Como era possível um mero beijo deixar-me daquela maneira?! Meu corpo havia permanecido horas e horas jogado ao chão sobre o caro tapete persa que cobria quase toda a superfície. Tudo em mim queimava, mesmo horas depois.
Quando o dia amanheceu a tempestade que despencava brava ao lado de fora era uma tentação para que eu saísse e deixasse meu corpo imóvel ser engolido pelos pingos grossos e gelados que caiam impiedosamente com força e que pareciam apenas aumentar ainda mais o frio. Frio! Era isso que eu precisava, isso que minha pele precisava. Fechei os olhos, com a testa colada no vidro gelado da sacada, engolindo seco.
Sabia que já deveria ter me livrado do vestido que estava há horas emoldurando meu corpo, mas minhas mãos haviam se tornado inúteis, minha mente cheia, atordoada demais, para completar uma simples tarefa.
Ainda assim aqui estava eu, agora, de frente ao enorme espelho da penteadeira de madeira maciça, Marie e Caitlyn rodeando-me, ajudando a despir-me o vestido, soltar os cabelos, retirando a tiara que neste instante repousava cuidadosamente sobre a penteadeira. Observo minha imagem pelo espelho, alheia a conversa delas no qual se perdiam em elogios ao baile da noite anterior, busco de alguma forma a encontrar algum vestígio de meu erro. Meus lábios, estão eles ainda avermelhados demais? Minhas bochechas ainda estavam quentes e coradas? Não, não estavam. Era apenas em minha memória que aquelas sensações permaneciam me aterrorizando.
Conforme o vestido era retirado de meu corpo, só conseguia pensar como reagiria hoje diante de meu noivo e de seu irmão. Como eu teria coragem de sorrir para Barry sabendo do acontecimento insano da noite anterior? Eu era dele há anos e nem isso impediu aquele bárbaro Rei de me assaltar como um ladrão. Sim! Assaltar! Ele havia levado para ele algo que era de outro!
Engoli o nó que se formava em minha garganta, erguendo o rosto em uma postura decidida: A solta de balões seria esquecida. Eu entraria na banheira de água quente e me lavaria, lavaria as lembranças, o calor das mãos e do corpo dele que pareciam ainda atormentar meu corpo, o beijo e esqueceria. Esqueceria que meu primeiro beijo já se fora, que meus lábios já tinham sido usados pelo Rei. Esqueceria!
No momento em que chego até a sala onde o café da manhã estava sendo servido, noto a mesa já cheia e consequentemente toda a atenção volta-se para mim e minhas duas damas de companhia. Ignorar, Princesa, ignorar é o seu lema! Cumprimento brevemente a todos e vou me sentar no lugar de costume com Cait e Marie ao meu lado, pouco a pouco todos voltam a tomar o café da manhã, e aí, apenas aí tomo coragem e olho os integrantes daquela mesa. Meu noivo, os dois primos dele e suas respectivas esposas, o Lorde Henrique, primo de Caitlyn também estava à mesa, próximo a eles estava o antigo chefe de segurança do Reino, Lorde Lance e sua filha, Lady Laurel. Puxei na memória de onde conhecia e não tardei a lembrar, já havia visto ela algumas vezes pelo castelo e na noite anterior estava dançando com... O Rei. Meus olhos seguiram até à cabeceira da mesa, procurando o dito cujo e com alívio nada mais do que o vazio encontrei. Volto a olhar para o meu prato e finjo não perceber a sua ausência.
— Princesa! — Sinto uma mão envolver meu cotovelo fazendo meu corpo girar e logo me vejo frente a frente com Barry. — Está tudo bem? Ontem não voltou ao jardim e hoje se atrasou para o café... — Inquietou-se com a voz suave.
Mordi o lábio inferior, havia sido apanhada fugindo da multidão na sala de estar, onde as pessoas haviam se juntado após o café e conversavam em um barulho enlouquecedor.
— Não estava me sentindo muito bem. — Ofereço-lhe um sorriso fraco e tento não me prolongar no assunto. — Mas vi quando você soltou o primeiro balão pela janela.
— Oh! — A expressão dele se torna surpresa ao me ouvir e em um piscar de olhos o sorriso tão dele já lhe rasga os lábios. — Gostaria que estivesses lá... — Ele dá um passo à frente tomando minha pequena mão entre as suas. — Mas este foi apenas o primeiro baile que passamos juntos, teremos infinitos outros bailes que terminarão assim como ontem. Muitas soltas de lanternas.
Assinto sintomaticamente, sorrindo leve. Infinitos outros bailes que terminarão assim como o de ontem... Deus que não lhe ouvisse as palavras! Não suportaria nem mais um baile se terminando na maneira do de ontem, nem mais um.
— Acompanhe-me até a porta dos meus aposentos? — Perguntei, tentando dissipar a noite de ontem de meus pensamentos.
Barry muito animado ofereceu-me seu braço, o qual aceitei sem hesitar e nos guiou pelos corredores do castelo até meus aposentos, onde adentrou, sendo convidado por mim, logo se acomodou nas cadeiras confortáveis da pequena sala de estar, relembrando animado de sua infância fora do Castelo e eu, tentava ao máximo não deixar o gosto amargo da incerteza me envolver a cada vez que eu pensava naquele assunto.
Já fazia quatro dias desde que o baile acontecera e a chuva permanecia, assim como a ausência do Rei. Não sabia ao certo o que realmente me incomodava, o mal tempo que parecia não melhorar, Barry cada dia mais estressado por estar envolvido nos assuntos do Reino, motivado pela ausência do irmão ou se era Caitlyn que não conseguia ficar quieta choramingando por aparentemente ter sido convidada pelo Rei após a solta de lanternas para tomar um chá, os dois, no centro do Reino.
Estava entediada, admiti após terminar de escovar os cabelos para deitar-me. Já não estava aguentando apenas andar pelo castelo, conversar com as pessoas, conhecer as pinturas e obras de arte dos pintores daquele Reino. Essa não era a vida que estava acostumada, eu havia nascido para ser uma líder, saber de todas as decisões, ser permitida em todos os assuntos, livre para fazer muitas coisas, mas aqui não. Aqui era apenas a Princesa prometida ao Príncipe de Star, uma bela joia a se expor ao lado do noivo, uma mera figurante. Não estava a par dos problemas do Reino, não sabia o que acontecia do lado de fora, Barry atrapalhado que só, mais se irritava do que conseguia fazer outra coisa, já havia oferecido ajuda e tentado fazer o homem compartilhar os problemas que tinha a resolver no Reino, porém a boca dele era um túmulo. Não soltava uma coisa sequer, se não reclamações por seu irmão imprudentemente — palavras dele — ter decidido ir caçar justamente naquela época.
Quando o sol raiasse iria correr os quatro cantos desse castelo e não me chamaria Felicity se não encontrasse algo a minha altura para me entreter.
Na manhã seguinte após me vestir rapidamente com a ajuda de minhas amigas, saio de meus aposentos arrastando o longo vestido azul bebê com detalhes em rosa clarinho, as mangas longas que me cobriam do leve frio dos corredores de pedra, meus cabelos domados por uma trança bonita indo em direção aos aposentos de Barry, que certamente pularia mais um pequeno almoço. E daí que nunca havia sido convidada? Se eu não fosse até lá provavelmente passaria o dia inteiro sem vê-lo. Os guardas se prostravam ao me ver passar, escondendo os olhares estranhos e carrancas confusas por me ver próxima aos aposentos de meu noivo aquela hora da manhã, ignorei-os, marchando firme até parar diante da enorme porta que separava o corredor do lugar secreto de Barry. Segui a mão e com o nó dos dedos bati insistentemente. Forte, sem parar. Não seria ignorada nem mais um segundo naquele local e não serviria novamente apenas para ouvi-lo reclamar de seus deveres.
— MAS QUE BADERN... — A pesada porta de madeira é escancarada por um Barry desconhecido por mim. A face vermelha, os olhos irados, os cabelos bagunçados, as roupas decompostas e as palavras morrendo em seus lábios assim que me viu em sua frente.
Pressionei meus lábios em uma linha fina, meu semblante sério e sem deixar nenhum pingo do susto que sentia ser demonstrado. — O que faz aqui? — Abriu novamente os lábios, perguntando com a voz já normalizada, após segundos no silêncio cortante que pairava entre nós.
Minha vontade era de tirar satisfação, berrar dizendo o quão ridículo ele estava sendo há quatro dias, fazê-lo engolir o tom em que gritou na minha cara ao abrir a porta. Mas não, aquele era seu reino, seu território e ele por mais que não passasse de um mero Príncipe despreparado, que parecia não ter jeito algum para cuidar de uma pena sequer no reino, merecia respeito.
— Espero que Vossa Alteza mande prepara a carruagem e me leve para conhecer o Reino. Não ficarei bem mais um dia trancafiada neste lugar! E se isso acontecer pegarei as minhas coisas e nunca mais colocarei meus pés neste Reino, nem amanhã, nem daqui a um ano, mesmo após você se tornar meu esposo. Não pisarei aqui nunca mais. Nem mesmo para o teu funeral, Barry! — Soltei tudo o que prendia no peito, deixando claro pelo meu tom de voz que estava falando sério. Barry permaneceu me olhando até meus lábios se calarem e então abaixou o rosto, murmurou algumas palavras que soaram como um "Pode deixar, irei providenciar" logo girou os calcanhares, batendo à porta em meu nariz e me enfurecendo ainda mais.
Então era assim? Seria daquela forma? Perguntei-me internamente amargurada. Era aquilo que eu estava destinada? Um homem incapaz de cuidar dos assuntos do reino sem enlouquecer e que nem sequer se dava ao trabalho de falar comigo, de me dar a mínima atenção.
Encarei a porta fechada a minha frente e engolindo a vontade de chorar de raiva. Decepção! Saí dali indo tomar o café da manhã junto a Caitlyn e Marie.
— O que aconteceu alteza? — Perguntaram em uníssono assim que viram o quão transtornada eu estava. Conheciam-me bem demais.
Desdobrei o guardanapo de pano sobre minhas pernas, antes de começar a me servir de frutas e pães com frios.
— Sai da cama com o pé esquerdo. — Dei de ombros, querendo evitar conversa.
— Está com saudades do Reino? — Marie perguntou, dando uma mordida em um pedaço de pão. Ergui os olhos, suspirando.
— Se hoje houvesse um navio pronto partiria agora mesmo!
— Brigou com Barry? — Pergunta novamente, olhando-me com muito mais atenção.
— Não. Não brigamos! — Passo as mãos no rosto, contendo a vontade de gritar raivosa só de lembrar dos acontecimentos de minutos atrás. — Passe o suco, Caitlyn. – Pedi estendendo a mão em direção a jarra.
— Ele tem estado estressado... — Caitlyn comentou, alcançando e me passando a jarra com suco de laranja. — Mas acho bom que ele sinta o peso da coroa, mesmo não sendo ele a usá-la agora, mas em breve ele será seu marido e um dia o Rei consorte de nosso reino. É bom aprender.
— Ele já deveria ter aprendido, já tem idade para saber lidar com os assuntos do Reino sem se desesperar como está nestes últimos dias. — Soltei me servindo. A verdade era que a falta de tato de Barry com o reino e os assuntos dele me incomodava desde o momento em que me dei conta que ele sequer havia sido criado no castelo, próximo aos assuntos importantes, que seu pai e após o seu falecimento, seu irmão não tivessem lhe dado mais responsabilidade.
— Dê-lhe tempo, Felicity. — Marie pediu, carinhosa. Senti vontade de revirar os olhos, mas me contive, as intenções dela eram as melhores. — Será um ótimo Rei quando o momento chegar. — Assenti, levando um pedaço de fruta aos lábios.
Minhas amigas então entraram em um assunto que conseguiu me arrancar do mal humor — ou boa parte dele. As nossas férias de verão no sul do Louvre, no castelo próximo à praia onde todos os anos passávamos os três meses mais quentes, junho, julho e agosto junto a meus pais. As nossas longas caminhadas rente ao mar, descalças com os pés na areia e vez ou outra montadas em nossos cavalos, nos fins de tarde antes do escurecer. Eu amava o mar, amava o verão. Era sem dúvida a minha época favorita do ano, se eu tivesse algum controle sobre as estações do ano sem dúvidas faria o verão prolongar-se.
Nossa conversa foi interrompida por um dos guardas informando que meu noivo já estava na carruagem me esperando, minhas amigas lançaram-me um olhar estranho e lhes convidei a vir conosco até a cidade, Marie logo dispensou dizendo que iria acabar de ler o livro de espanhol que estava estudando e que eu devia aproveitar alguns momentos de passeio a sós com meu noivo, já Caitlyn negou, desculpando-se e repetindo que iria conhecer a cidade com o Rei assim que este voltasse.
Meu noivo estava emburrado. Por Deus! Ele estava emburrado como uma criança de sete anos de idade. E só me levou para fora do castelo para fazer-me calar, sequer deixou-me sair da carruagem por conta da chuva que caía, nos fez ver tudo pela pequena janela embaçada pelo frio. Tentei convencê-lo a me levar para tomar um chá em uma das casas de chá por onde passamos, mas não, negou e disse estar chovendo demais, além de que não podíamos tardar a voltar para o castelo... Tinha muitos assuntos pendentes. Argumentei dizendo que tinha trago minha sombrinha, que sairíamos da carruagem e logo estaríamos dentro do estabelecimento longe da chuva, não demoraríamos, apenas sentaríamos, dividiríamos um chá com bolachas e depois seguiríamos de volta para o castelo. Lançou-me um olhar cansado e entre dentes queixou-se de eu não ter chamado minhas acompanhantes para virem comigo ao invés de ir até ele que tinha coisas demais a fazer. O restante do caminho lhe ignorei, vendo-o perdido em seus próprios pensamentos resmungando até do balançar da carruagem nas estradas de terra batida.
Entrei no castelo arrastando o vestido, as roupas úmidas pela chuva que peguei da carruagem até a entrada, sentia-me exausta tão cedo naquela manhã e muito, muito decepcionada. Caminhando em direção às grandes escadas, quando passo perto de uma saleta e ouço duas vozes conversando, não ligo até ouvir meu nome e a curiosidade ganha, fazendo-me parar de andar e me aproximar da porta.
— Não sei a razão dessa viagem inesperada. — A voz masculina desconhecida falou, deduzi que o homem era mais velho, pois sua voz continha um pesar e um timbre mais cansado. — Deve ter acontecido alguma coisa, encontrei-o após o baile se embebedando na sala do trono.
— O que quer que tenha acontecido não explica ter deixado tudo nas mãos do menino Barry. — Uma mulher falou, me levando a revirar os olhos pela forma dela falar de seu noivo, um homem com vinte e um anos nas costas. — Quem se prejudica com isso é o Príncipe e a noiva. Pobrezinha, tem andado tão tristinha pelos cantos, não pode sequer ir andar a cavalo com esse tempo.
Estava tão decepciona com o homem que Barry se tornava quando tinha responsabilidades que até permiti esquecer toda a culpa que me corroía nos últimos dias por ter gostado das mãos do irmão dele sobre mim, sim, já fiz as pazes com minha consciência e aceitei o inevitável, que eu tinha sim gostado do toque dele. Nunca antes outro homem havia me segurado daquela forma em uma dança, nenhuma outra mão algum dia apertou com aquela firmeza minha cintura. Eu tinha gostado de sentir o rosto dele embrenhado em meus cabelos, da barba de homem tocando em meu rosto e do beijo, por Deus que Barry ao menos o jeito de beijar tenha herdado do irmão, porque esperava voltar a ser beijada daquela forma muitas e muitas vezes ao longo de minha vida. Tudo bem, está certo... Nunca tinha conhecido outro tipo de beijo, outra intensidade, mas sabia que só conseguiria me contentar com algo daquela maneira. Foi um erro ter aceitado o convite de Barry para que viesse passar essas semanas aqui, não devia ter aceitado. De lá para cá só consegui me meter em encrencas e por fim acabei me desapontado enormemente com o homem que desde pequena é meu prometido. Jamais um sentimento tão angustiante havia tomado conta do meu peito... O arrependimento era tão grande. Desencostei-me da madeira e subi indo para meus aposentos
Já era noite, concluo olhando em direção as janelas. Afundo minha cabeça no travesseiro tentando dormir mais um pouco, enfurnando-me ainda mais, se é que era possível — nas cobertas quentinhas. Tarde demais, conclui abrindo os olhos, não iria conseguir voltar a dormir de jeito nenhum. Minha barriga pela terceira vez em menos de quinze minutos roncou me fazendo lembrar que havia pulado o jantar. Afastei as cobertas e me sentei na cama, soltando um suspiro pesado. Será que Marie estava na biblioteca? Talvez eu devesse fazê-la companhia. Certamente já não conseguiria voltar a dormir e naquele momento qualquer coisa que pudesse ocupar a minha mente frenética seria bem-vinda.
Levantei da cama, calçando os delicados sapatos para o quarto e procurando próximo à cama o robe e logo vestindo-o, balancei a cabeça negativamente e engoli o gosto amargo que predominava meu paladar. De nada adiantou, o amargo permanecia ao chegar na conclusão dos meus problemas, o nó que parecia estar no meio de minha garganta, parecia ter inchado três vezes mais: Toda a raiva, indignação que fazia meu corpo rugir estava sendo direcionado para a pessoa errada. Barry não tinha feito nada de errado, a errada era eu por jogar sobre si o peso do beijo secreto que eu havia partilhado com seu irmão, ato que estava me enlouquecendo.
A culpa era minha e eu só me sujava mais ainda com a imundice dela, ao remoer e secretamente culpar Barry por nunca ter feito algo que seu irmão teve a coragem de fazer. Eu não sabia que queria ser beijada, mas agora eu só conseguia pensar no maldito beijo e nas mãos impiedosas do dono do Reino.
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