The Crooked Man
15 Capítulo 15 - Uma teoria.
Notas iniciais
Reino Unido — Inglaterra/1842
– Tem certeza que não quer ir? — questionou-me Annie pela quarta vez naquele dia.
Estávamos novamente sentados em um banco, observando o movimento das pessoas de lá para cá. Dessa vez nós não recebíamos olhares estranhos, certamente porque eu não estava mais machucado e sendo tratado por uma bela moça. Ela me convidou para jantar em sua casa, com ela e sua mãe que era surda. Não pude evitar de sentir compaixão, já que não deve ser fácil cuidar de alguém que não pode ouvir. O problema é que eu realmente não poderia ir, já que teria de me encontrar com Jacob para por nosso plano em ação.
Ele conseguiu traduzir a anotação, e não fiquei tão surpreso ao descobrir que se tratava de um versos que já me era conhecido desde criança.
"Lá havia um homem torto.
Ele encontrou seis centavos tortos em cima de uma escada torta.
Ele comprou um gato torto, que pegou um rato torto.
E todos eles viveram juntos em uma pequena casa torta."
As tentativas de minha mãe para me assustar sempre foram muito precárias. Uma vez ela me contou sobre um homem que era metade barata e sobre um javali que virava libélula, sempre rodeando a floresta. Pensando bem, hoje em dia, isso poderia criar boas piadas.
– Sinto muito, mas preciso me encontrar com um amigo. — respondi sua pergunta da forma mais delicada e gentil que consegui arranjar.
O olhar triste que ela me deu foi como uma facada no coração. Eu não poderia adiar, era uma questão de vida ou morte. Eu não via Hugo desde o dia que percebi o reflexo dos papéis, e temia que algo ruim tivesse acontecido com ele. Não seria a a primeira vez que ele sai sozinho, e na última vez a recepção não foi muito agradável. Se sentir reprimido enquanto um homem estranho está farejando bem em cima de você não é uma coisa da qual gosto de recordar. Seria melhor apagar isso da minha mente se a oportunidade viesse à tona.
– E que amigo seria esse? — pode ser só minha imaginação, porém, notei que ela ficou com um pouco de raiva e até abaixou a cabeça para esconder o rosto corado.
Quando eu ia responde-la, notei que uma grande sombra ficou entre nós. Me virei para frente e me deparei com Jacob, entretanto, não do jeito que eu esperava que ele estivesse. Sua roupa simples e costumeira sumiram para dar lugar para um visual mais... descolado? Não sei se essa seria a palavra, mas eu precisei dar uma risada. Ele estava com um casaco preto, com as golas levantadas; um óculos escuro quadriculado; uma boina azul escura; e uma calça cinzenta. Um típico visual de marinheiro não profissional na época. Sua barba morena e espessa só fazia a semelhança aumentar.
– Então... vamos? — perguntou olhando para mim e pondo os punhos na cintura.
Annie soltou uma risadinha do meu lado, acanhada.
– Senhor Rodger? — indagou risonha.
Parece que só aí Jacob notou sua presença. Ele olhou bem para ela por trás dos óculos escuros e quadriculados. De cima à baixo, de baixo à cima. Passou a mão esquerda sobre a barba e fez uma expressão de surpresa tão exagerada quanto a vez em que me guiou pela biblioteca.
– Garota Annie?! — Ela assentiu sorrindo e se levantou. — Quanto tempo, garota! Como você cresceu, veja só... já é uma moça!
– Eu nunca mais te vi por aqui, o que aconteceu? — ela só pôde perguntar isso depois que Jacob a soltou de um abraço apertado que, tenho certeza, quase a deixou sem ar.
– Ah, você sabe, muito trabalho. — disse ainda sem desgrudar o olhar simpático dela. — Eu não sabia que eram amigos!
– O quê? hã.. ah! Sim, sim, nós nos conhecemos faz pouco tempo. — falou isso com um pouco de vergonha.
Eu me levantei para cumprimenta-lo e notei que ele me lançou um olhar malicioso por cima dos óculos, claramente insinuando que eu estava tentando começar um relacionamento com Annie.
– Pois bem, querida, mas agora, se não se importa, realmente precisamos ir.
Ela suspirou e refletiu por um instante.
– Tudo bem, mas depois vou querer saber o que estão fazendo!
Deu mais um abraço e um beijo na bochecha barbuda de Jacob, para logo depois vir fazer a mesma coisa comigo. Me surpreendi, já que ela nunca tinha se despedido de forma tão calorosa antes. Todavia, não é algo de que eu queira me queixar, já que, se dependesse de mim, seria assim sempre.
– É sério! E se não me contar vou ficar com muita raiva... — sussurrou no meu ouvido em tom ameaçador. Eu ri enquanto ela me largava e ia embora, provavelmente indo ajudar a senhora Luvergood no restaurante.
Comecei a caminhar pelas ruas com Jacob pelo meu lado direito. Era obvia sua ansiosidade, já que não parava de remexer as mãos e assobiava uma música que a mim era desconhecida. Desde aquele dia ele quis conhecer a casa. Disse que nem sequer já a tinha visto de fora, apenas ouvia o que as pessoas diziam por aí.
–Você leu aquele livro que levou? — me perguntou no meio da falação. Sem se dar a inconveniência de interromper a caminhada.
– Sim, muito interessante!
Realmente eu havia lido o livro. Contava toda a história da antiga vila-vizinha de Biggin Hills. Dizia que foi fundada por fazendeiros protestantes que estavam contra o reino e queriam parar com a importação de recursos norte-americanos. Continha até mesmo relatos de algumas pessoas que moravam lá. Disseram que pegou fogo numa noite, quando um grupo de homens estava procurando o responsável por um assassinato. Ressaltaram até que nenhum deles voltou depois disso e que nem mesmo depois das chamas terem sido apagadas pela tempestade seus corpos foram encontrados. Só uma casa permaneceu em pé, e nem sequer tinham certeza de quem poderia ter feito-a, nem mesmo se estava lá antes de tudo. Mas eu pessoalmente tinha uma teoria para comprovar. E não importava quem ou o quê estava contra mim.
Fale com o autor