The Crooked Man
2 Capítulo 2 - O escuro nada.
Notas iniciais
Reino Unido — Inglaterra/1842
– Espero que você possa melhorar de vida, rapaz, e que Deus lhe abençoe! — dizia o senhor Willard enquanto apertava minha mão e me dava um olhar orgulhoso.
Naquele momento eu estava me despedindo de meu patrão que, como sempre, agia muito gentilmente e cordial. Sujeito de estatura alta, de meia idade e quase sempre se vestia com um grande sobretudo marrom. Ele sorria para mim como se fosse minha formatura e seus olhos profundos e ativos pareciam perfurar a minha alma.
Eu havia conseguido comprar a casa, e acontece que era mais barata do que eu havia pensado, pois sobrou para mim uma quantia consideravelmente boa de dinheiro. É como se eles quisessem se livrar logo daquele lugar.
– Obrigado, eu agradeço por tudo, senhor! — exclamei no mesmo tom caloroso. Pelo menos tentei, já que estava cansado demais. Não tinha dormido a noite inteira, fazendo imagens em minha mente sobre como seria a pequena residência por dentro. Pior do que o lado de fora não poderia ser.
– Sabe que estaremos de portas aberta se quiser voltar, não é, rapaz?
– Sim senhor, mas não posso depender de vocês para sempre — respondi dando um sorriso envergonhado — afinal, está na hora de voltar atrás da minha independência.
A família do senhor Willard era composta por ele, sua esposa, duas irmãs e três filhos. Todos moravam juntos na fazenda, sem contar os empregados.
– Ora, pare de falar bobagem! — falou ultrajado, mudando seu olhar para repreensão — Você trabalha como qualquer outro aqui; de modo algum seria recompensado sem ter feito esforços.
Olhei para o relógio no meu pulso esquerdo e percebi que o meu cocheiro já devia estar impaciente, e com razão. Olhei em volta. Estávamos em um corredor perto da escada, no andar de cima. Quadros estavam espalhados pelas paredes e escrivaninhas empoeiradas estavam encostadas às paredes de cor bege. Apertei mais fortemente a mala que eu levava na mão direita devido a nostalgia que me atingiu.
– Bom, de qualquer jeito, agora preciso ir. — disse me virando para ele.
– Certo, direi aos outros que você mandou lembranças. Espero que você venha nos visitar assim que possível!
Assenti e lhe dirigi um sorriso mais uma vez. Desci as escadas rapidamente e fui balbuciando cumprimentos e despedidas para as moças que lá trabalhavam. Saí da fazenda e cruzei todo o quintal, até onde uma carroça puxada por dois cavalos me esperava. O clima ainda era frio, e o campo aberto dava a impressão de estarmos num local completamente deserto. Nuvens cinzentas se encontravam no céu branco e inexpressivo.
Me aproximei e entrei no coche preto. O cocheiro ranzinza de cabelo grisalho e expressão carrancuda olhou para mim por cima do ombro.
– Para onde? — perguntou com a voz rouca e num pequeno timbre de raiva, pela minha demora.
– Última parte do distrito de Biggin Hill, por favor.
Ele arqueou uma das sobrancelhas, em sinal de dúvida.
– Que quer fazer neste lugar? Trocar o conforto de Greenwich por uma cidadezinha rodeada por áreas urbanas e tempestades não é lá uma boa ideia...
– Não é para a cidade que vou — eu lhe falei, fixando meu olhar na janela — vou para uma casa que comprei próxima de uma dessas áreas urbanas que falou.
O cocheiro arregalou os olhos e estremeceu por um instante. Antes de pronunciar qualquer coisa, pensou e decidiu que seria melhor não questionar mais nada. Virou-se para a frente e começou a comandar os cavalos. Fiquei observando a fazenda, o armazém de carregamento e o celeiro onde eu dormia ficarem pequenos conforme a distância que percorríamos.
Comecei a ouvir trovões e fechei os olhos para apreciar o som das gotas de chuva em confronto com a carruagem.
Como o caminho era incrivelmente longo, resolvi descontar naquela tarde o tempo de sono que perdi na noite anterior. Como qualquer outra pessoa, mal percebi e já estava com a consciência em outro lugar. Lembro-me nitidamente de ter sonhado com duas figuras. Não os reconheci primeiramente, no entanto, era tudo muito significativo.
Os vultos andavam de lá para cá. O maior balançava os braços como se estivesse explicando algo importante. O menor, que pela estatura e voz julguei ser mulher, foi quem consegui ouvir primeiro.
– Você está interpretando as coisas erradas de novo, você sabe que isso pode...
– Eu não ligo! – cortou-lhe a fala, quem julguei ser um homem — Eu sempre soube o que eu quis, só não havia percebido ainda.
Pela janela daquele cômodo, pude ver que chovia fortemente, mais do que onde eu me encontrava realmente.
– E o que eu quero? Já parou para pensar nisso? – indagou a mulher.
O homem parou de andar e depois de alguns instantes abaixou a cabeça. Um trovão ribombou e fui me distanciando da cena. Foi naquele momento que percebi. O homem agitado era eu. A mulher era ela. Eu já havia sonhado com ela antes, mas nunca era uma lembrança. Isso me pegou de surpresa e me abalou, mais do que eu gostaria de admitir.
Acordei e percebi pelas florestas e plantações de cereais que estávamos chegando no meu destino. A chuva já tinha diminuído consideravelmente, todavia, as nuvens ainda estavam presentes. E, num solavanco, a carruagem parou.
– Só vou até aqui! — avisou o cocheiro olhando pra mim — Eu poderia ir mais adiante se seu destino fosse a cidade, mas para o lugar onde você vai nem os demônios teriam coragem de entrar.
Isso me deixou um pouco assustado e bravo.
– Ora, por que todos têm tanto medo de lá? Não é uma simples casa velha e abandonada?
Ele olhou para mim em forma de censura.
– Por acaso é forasteiro? Deveria saber da história do homem torto. Todos conhecem!
– Pois digo que conheço e muito bem! — era verdade, mamãe contava histórias assim para mim antes de dormir. Uma pena isso ter acabado quando papai morreu. Uma pena maior ainda eu ter perdido minha mãe.
– Então só te digo para tomar cuidado, homem.
Dei uma última olhada para seu rosto ranzinza e carrancudo e saí sem dar mais importância. Fiz carinho nos cavalos e apertei mais fortemente na cabeça o chapéu que eu usava. Meu casaco cinzento balança de acordo com o vento e esperei até que a carruagem estivesse fora de vista. Me virei e segui a mesma trilha de quando fui até lá efetuar a compra. Pulei por poços de barro, passei por minas de ferro e por altos milharais. Observei plantações mortas de trigo e moinhos que caíam aos pedaços.
A lua era a única luz presente naquela região. Pensei em ir até a cidade e pedir um lampião para alguma moradora gentil, entretanto, levaria muito tempo.
Andei, andei e andei. Trilhas arrastadas e buracos profundos estavam constantemente em minha direção. Raios ainda surgiam no céu por uma fração de segundos, e isso me permitia enxergar lugares um pouco mais longe. Foi quando eu a vi. Quando eu comprei a casa, era de dia e a sensação não era tão sufocante, sem falar da presença dos empreendedores do reino. Agora eu estava sozinho e nunca vi imagem mais sinistra antes.
A pequena casa era, na maior parte, feita de madeira. Muitas partes estavam gastas e quebradas. As janelas rachadas e completamente escuras. O casual vento forte fazia ela ranger um pouco. É como se uma bomba tivesse explodido e somente ela resistiu a isso.
Engoli em seco e me aproximei. Dei uma pequena volta ao redor dela e olhei para o lago estranho. Raso como uma poça, grande como uma pequena parte do mar. Pessoas procuram explicações para isso até hoje. Toquei na árvore torta que havia perto dele. Percorri minha mão por toda sua extensão e senti cada pontilhado das suas cascas. Olhei em volta novamente, para o nada escuro. Para o escuro nada.
Estava na hora de entrar na casa.
Fale com o autor