The Contract

1 O que acontece no bar, fica no bar. Ou não.


Não era do meu feitio fazer coisas erradas. Eu estudava das sete horas da manhã ao meio dia, pela tarde eu trabalhava em um café perto da minha casa, e à noite eu estudava um pouco mais. Tudo estava andando perfeitamente bem para mim, se você não contar, é claro, que tudo o que falei a pouco é uma bela mentira.
Meu ponto fraco era a encrenca, e parecia que em todo lugar que eu fosse ela estaria comigo. Não que eu quisesse, só que não tenho culpa de ter nascido em uma família onde a cada dez, nove já cometeram algum crime.
E não, meus familiares não são políticos. Sério. Eles são apenas os Williams, mais conhecidos aqui em Las Vegas como "Triunfos do Pôquer". E eu estava no meio deles, obviamente. Mas a minha garota dos olhos era outra coisa. Talvez um pouco mais simples que o Pôquer (se, bom, você entender de armamento e saber correr muito). Eu era a chave de todos aqueles que queriam se safar de algo. Eu tinha um certo controle sobre as coisas daquela cidade, desde dados confidenciais até os lugares onde as pessoas guardavam coisas escrotas, como vibradores. E não me culpe disso. Não é muito legal ter uma mãe com o hobbie de cuidar da vida dos outros.
— Espera, Richard — Jennifer colocou a mão para frente, pedindo que eu parasse a explicação. Os braços apoiados sobre o travesseiro e os olhos verdes vidrados em mim. — Deixe-me ver se entendi. Você é um FT, não é?

— FT? — estreitei os olhos sem entender nada.

— É a sigla de "faz-tudo", dã — ela revirou os olhos e jogou o cabelo louro para trás dos ombros. — Se alguém te pedir algo, você vai lá e faz.

— Se pagarem, claro — complementei para que ela não tivesse dúvidas daquilo.
Jenn fez um sinal de "tanto faz" com a mão.
— Se te pedirem para matar alguém, você faria isso?
— Acho que sim — falei e Jenn levantou a sobrancelha. — Quero dizer... Sim.
Ela soltou uma gargalhada.
— Nossa, tudo por dinheiro. Que lindo — falou ela com ironia.
— Jenn, não é exatamente assim. Por parte é pelo dinheiro, mas eu gosto de aventura e você sabe disso — Me joguei para trás na cama e pus as mãos embaixo da cabeça. — Eu sou um matador de aluguél. Deus que me perdoe, mas eu gosto de adrenalina.

Jenn se levantou da cama e balançou a cabeça positivamente. Segurei sua mão, fazendo-a ficar parada.
— Ei, nada de contar para as suas amigas, me ouviu?

— Sim, senhor — Jennifer fez sinal de escoteiro e então se retirou de meu quarto.
Eu só precisava contar a alguém sobre aquilo. Na verdade, a mais alguém, pois meu melhor amigo, Ethan, já sabia que eu era um matador de aluguél, até porque ele também era um. E Jennifer, além de ser minha irmã mais nova, era bem confiável. Nunca consegui esconder nada dela.
— Rick? — Ethan falou do outro lado da linha assim que atendi o celular.
— Diga, Ethan — Me endireitei na cama e encostei minhas costas na parede.
— Achei um trabalho pra você — ele riu e pude ouvir vozes vindas do fundo. Bar, de novo.
— Ótimo. Como vai ser?
— Bom, acho que você não vai gostar muito — ele antecipou fazendo uma voz dramática.
— Fala logo, cara.
— O nome dela é Alexis.
Minha sobrancelha se franziu. Tá, e quem é Alexis?
— E você deverá proteger ela.
— É sério isso? — Perguntei bufando.
— Muito sério.
— Nossa, que droga, Ethan.
— Calma. Deixe eu te explicar o resto. O nome dela é Alexis Edwards. A garota está no último ano do colegial.
Soltei uma risada. Vou ter que cuidar da porra de uma adolescente?
— Ela é filha de Wen Edwards, você conhece, não é? — Balancei a cabeça positivamente e murmurei um "uhum" baixo. — Então sabe que ele mexe com tráfico, óbvio. Enfim, para prováveis futuras encrencas, você terá que se aproximar da Alexis. E... Cara, você sabe como que vai se aproximar, né?
— Não... — falei com sinceridade. Onde Ethan estava me metendo?
— Você voltará ao colegial, caro amigo — Ele riu e eu coloquei as mãos sobre a cabeça.
— Droga, cara.
— Ei, calma. O cachê é bom e digamos que ela não é a pior pessoa do mundo.
— Uma adolescente, Ethan. Eu terei de cuidar de uma adolescente?!
— Protegê-la — ele corrigiu e eu me levantei, começando a andar pelo quarto.
— Tá — respirei fundo. — Eu aceito essa missão impossível. Só não garanto virar o Tom Cruise e escalar um prédio enorme.
Ethan gargalhou.
— Ok. Me encontre no Neon em dez minutos. Estou lhe esperando — E desligou na minha cara.
Que ótimo amigo eu tenho.

***

— Richard Williams — Norman, o balconista, sorriu assim que passei pelas portas do bar.

— Viu Ethan por aí?

— Sim. Ele... — Norman inclinou-se para frente e falou em um tom mais baixo enquanto terminava de passar um pano úmido no balcão. — Bom, ele está acompanhado do chefão. Senhor Edwards. O que será que o velho veio fazer aqui?

Não respondi. Apenas dei um sorriso fraco. Não gosto de dar informações para pessoas como Norman. Qual é, esses caras de bares fofocam mais que as mulheres.

— Salve, Richard! — Ethan se levantou assim que o avistei. Andei em sua direção e ele me deu aqueles dois-tapas-típicos-nas-costas-que-arrancam-qualquer-catarro. Fiz o mesmo e me sentei na mesa onde ele estava.

Wen Edwards estava na minha frente. Puta merda.

— É... Wen, este é Richard. Richard, este é Wen — Ethan nos apresentou e eu apertei a mão do poderoso chefão.

— É ele que cuidará da Alexis?

Não gostava que falassem sobre mim na minha presença como se eu não estivesse ali, então respondi:

— Sim, sou eu.

Wen me observou por alguns segundos e então sorriu.

— Tudo bem. Vou acreditar no que Ethan disse sobre você — Olhei rapidamente para Ethan, querendo saber o que diabos ele tinha falado sobre mim, mas voltei a olhar para Wen, que prosseguiu: — Há coisas que deve saber sobre Alexis. A primeira é que ela é linda, linda e linda, e nem pense em botar seus olhos nela, me ouviu? — assenti porque, bom, aquele olhar fuzilador dele tinha mesmo me intrigado. — A segunda é que ela é um pouco complicada de se lidar. Teimosa que você vai ver, e também um pouco esquentada. Minha filha puxou um pouco a mim — ele soltou uma risada baixa. — Nada que você não consiga lidar. E a terceira e mais importante: ela odeia elevadores tanto quando odeia morangos, então se possível nada de pegar um elevador com ela se não quiser causar um ataque de claustrofobia na minha menina. Você entendeu?

Balancei a cabeça em sinal positivo e ele deu um sorriso fechado. Tudo bem, não seria algo tão difícil pelo visto.

— Peguei o número da sua conta bancária com Ethan. Não se preocupe, no começo de todo mês seu dinheiro estará lá. Se tiver algum problema, nada de me ligar. Dê seu jeito, Williams.

— Claro, senhor Edwards — sorri também e apertei sua mão assim que ele se levantou.

— Você começa amanhã. Não se esqueça.

Wen se despediu de nós dois com um aperto de mão e um aceno de cabeça, e então saiu do Neon acompanhado de dois seguranças que o esperavam lá fora. Me sentei em uma das banquetas perto do balcão e Ethan se despejou ao meu lado.

— Cara, você está ferrado.

— Quer saber? Não vai ser tão difícil — sorri fechado tentando convencer a ele e até a mim sobre aquilo. Qual é, nada impossível.

— Você acha? — Ethan riu debochado assim que Norman chegou com nossas cervejas.

— "Tenho certeza" seria mais correto.

— Você é muito cheio de si, Richard. Sua autoconfiança me inveja — Ethan debochou novamente e então soltou uma gargalhada. — À nossa volta ao colégio, irmão — Ethan levantou o copo para brindarmos e eu franzi o cenho.

— Nossa volta?

— Claro, irmão. Você não irá sozinho. Vou te acompanhar.

Soltei uma gargalhada e brindei junto com ele.

Colégio novamente? Droga.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Comentem aí, por favor. Preciso da opinião sincera de vocês. Beijos.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.