Faltava três dias para o baile e nada do Newt chamar a Kate que já estava achando não ser boa o suficiente, o que era extremamente ridículo.

— Você não vai mesmo? – Brenda perguntou guardando seus livros no armário.

— Não. – mordi o lábio.

— Vamos sentir sua falta. – ela falou triste.

— Só é uma festa na escola. – dei de ombros.

— Na verdade vai ser na casa da Mirella.

— Espera. – lembrei de Minho se esconder no provador por causa de uma Mirella – Ela estuda aqui?

— Você nunca notou uma menina em cima do Minho o tempo todo?

— Todas ficam em cima dele. – falei enquanto ela fechava o armário.

— Às vezes esqueço que chegou agora. A Mirella sempre planeja coisas estúpidas para chamar atenção do Minho, você não a viu em ação, provavelmente porque ela ainda está tramando algo...

Começamos a andar em meio aos alunos indo em direção ao refeitório.

— Mas por que o baile da escola vai ser na casa de uma aluna?

— A diretora não gosta da sujeira pós-festa, então no fim, acabamos transformando essas festas tradicionais nas do tipo que você foi quando chegou...

— E vocês ainda querem que eu vá? Me traumatizei com aquele tipo de festa.

— Você fala isso, mas foi para a praia com o Minho. Não é? E o pobre Thomas acabou torcendo o pé quando ia entrar no carro para ir com vocês...

— Moramos na mesma casa. Não posso fazer nada. E não tenho culpa pelo o que houve! – me defendi.

— Pode não ter... Mas meu pobre amigo está em casa agora tentando recuperar o pé para ir ao menos, ao baile.

Abrimos a porta do refeitório e a cena me fez colocar as mãos na boca assustada.

Chuck estava no meio do refeitório ajoelhado com uma ruiva enjoada – que implicou comigo uma vez no banheiro – na sua frente. A cena seria até fofa se 1) a menina não fosse uma garota chata; e 2) se não tivesse uma espécie de molho no cabelo do Chuck.

— Sua va... – ouvi Kate, de algum lugar, tentar gritar.

A procurei pelo olhar e vi Minho tampando a boca dela.

— Você achou mesmo que um pirralho como você ia me levar ao baile de boas vindas? – ela olhou para ele e fez uma falsa cara de choro – Oh! O bebê nerd vai chorar?

Aquele foi o cúmulo.

Não sei como cheguei tão rápido ao meio do refeitório, mas quando vi que Chuck tinha uma rosa vermelha na mão, minha raiva só aumentou.

— Licença... – pedi a Mirella.

— O que vai fazer? – ela perguntou por pura curiosidade.

— Lhe ensinar a ser educada... Acho que bastava dizer não...

— Sua opinião não me importa. – murmurou ela.

Olhei para Chuck e me ajoelhei a sua frente falando.

— Que bom, Mirella, porque eu não queria que se importasse.

Levantei o rosto do garoto a minha frente e vi a sua concentração e conter o choro.

— CHUCK, VOCÊ QUER IR AO BAILE COMIGO? – perguntei bem alto para que todos ali ouvissem.

— Mas você não... – ele choramingou.

— Eu vou se você aceitar ser meu par. – expliquei.

Chuck suspirou fundo e se levantou.

Eu sabia que Mirella atrás de mim observava tudo com desdém.

— Hoje... – o garotinho começou baixo, mas aumentou o tom da voz – Hoje eu aprendi que nem sempre a mais bonita é educada, obviamente, sempre existe a exceção, como é o caso da Karine.

Sorri orgulhosa quando ele entregou a rosa, um pouco suja, dizendo:

— Eu me sinto honrado com o convite e aceito ir ao baile com a garota mais educada e linda que pisou nessa escola.

O puxei para um abraço pouco me importando para o molho no cabelo do meu amigo.

— Ótimo. Agora que os perdedores fizeram o showzinho, posso sentar?

— Quem está te impedindo de sentar? – Kate, que aparentemente se livrou da mão de Minho, gritou.

Olhei aos lados em busca de algum professor e não encontrei nada.

— Você vai querer falar com a direção? – sussurrei à Chuck.

— Não. – ele murmurou e percebi que chorava com o rosto enterrado em meu ombro.

— Quer matar aula? – disse nunca imaginando que iria propor algo do tipo.

Ele olhou para mim com os olhos vermelhos arregalados.

— Só se for agora.

Segurei sua mão e saímos correndo.

***

— A MINHA VONTADE ERA DE BATER NAQUELA MERETRIZ ESTÚPIDA! – Kate disse assim que chegou na minha casa, quer dizer, na casa do Minho.

Chuck, que tinha trocado de roupa, já não estava mais tão cabisbaixo pelo o que tinha acontecido e fazia vários planos para nós dois no baile.

— Ainda bem que você a segurou. – Newt falou para Minho.

Ambos estavam entrando.

— Nunca pensei que vocês dois matariam aula. – o asiático abriu um sorriso para mim.

Sorri de volta e encarei o chão.

— Pelo menos você vai ao baile! – Kate se sentou a nossa frente no sofá.

Por sorte, a minha mãe estava trabalhando e a mãe de Minho tinha levado a Sra. Yka para uma consulta, deixando a casa só para nós e evitando perguntas desnecessárias como “Por que tem molho de tomate na sua camisa, Karine?”.

— Isso foi muito legal da sua parte. – Minho disse pendurando um casaco me encarando.

— Uau. – Newt soltou se sentando ao lado de Chuck – É isso mesmo? O Minho está flertando com a Karine?

Corei.

— Quem nos dias de hoje fala “flertar”, Newt? – o asiático perguntou se sentando propositalmente ao meu lado.

— Você não negou. – Chuck observou – Mas não venha furar meu olho! Ela vai comigo ao baile.

Minho abriu um sorriso e olhou de mim para o amigo.

— Você vai a deixar dançar comigo pelo menos uma vez?

Olhei para Kate boquiaberta.

— Talvez... – o garoto rechonchudo riu e passou o braço ao meu redor – Se ela quiser.

Todos me olharam em expectativa.

— Qual a resposta? – Newt incentivou.

— Ahn... É... Talvez. – murmurei fazendo Kate bater contra a própria testa.

— Definitivamente esse tempo sem beijar ninguém tem afetado o Minho. – minha amiga concluiu – É sério isso, Minho? Você...

— Eu te falei. – ele a encarou sério – Não sei o que houve, mas eu mudei.

Apesar de querer desesperadamente saber sobre o que falavam, estava claro que aquele era um assunto só deles.

— Bom... – Newt começou e olhamos para ele – Eu posso falar com você, Kate?

— A-a-a sós? – ela conseguiu formular.

Kate e eu nos olhamos em expectativas.

— Não... Eu... Ahn... Você pode ajudar minha irmã a se arrumar para o baile?

— Que merda, cara. – Minho parecia decepcionado – Ele quer te chamar por baile.

A garota fuzilou o amigo pelo olhar e Newt disse colocando a mão no rosto:

— É isso mesmo... Eu sou um terrível idiota.

Chuck desatou a rir e eu bati levemente em seu braço para ouvir o que minha amiga diria.

— Eu... Ok.

— Ok? – arqueei a sobrancelha a encarando.

— Bom... Ei, Karine? Chuck? Vocês lembram daquele negócio que tínhamos que fazer juntos hoje? – Minho era um ator péssimo.

— Claro. Vamos Chuck? – disse.

Nós estávamos nos levantando, quando Kate, visivelmente envergonhada perguntou:

— Onde exatamente vão?

— Ahn... Na casa do Thomas. Ele ainda está com o pé machucado... – Chuck inventou.

— É isso aí. – Minho tirou de algum lugar a chave do carro e a balançou – Ele ainda diz que a culpa é minha, quando eu nem sabia que a Karine tinha chamado eles...

— Não vem jogar a culpa em cima de mim não... – olhei para ele fingindo raiva – Ele que caiu sozinho... Pior mesmo foi a Kate sendo chata me perguntando porquê não a chamei.

— Eu não fui chata! – ela retrucou.

— FOI SIM! – eu e Minho falamos juntos e rimos.

Ela revirou os olhos e antes que dissessem algo, puxei o asiático e Chuck pela mão.

— Uou... Você está bem ousada hoje. – o garoto rechonchudo disse quando fechou a porta.

— Eu não sei o que está acontecendo, mas, você tem razão, eu não estou no meu estado normal. – constatei.

Minho sussurrou algo e eu franzi o cenho.

— O que disse?

Ele respirou fundo e murmurou:

— Eu falei que adoro isso.

— Bom, claramente, eu tenho que deixar vocês sozinhos. – Chuck as mãos uma na outra.

— O quê? Não! Fique! – pedi.

Vi o menino olhar para algo, ou melhor, para Minho atrás de mim e dizer:

— Não... Eu tenho que ahn... Lavar roupa. Isso. Tchau, Karine. – ele beijou meu rosto e saiu correndo.

Um pouco nervosa virei para encarar o asiático e ele sorria.

— Vamos?

— Onde? Você vai deixar Newt e Kate sozinhos na sua casa?

— Eles já estão acostumados. – disse dando de ombro e eu só consegui pensar o quanto isso é falta de educação.

O vi andar até seu carro, em frente à garagem e entrar.

— Você não vem? – perguntou antes de fechar a porta.

— ONDE? – insisti.

— Podíamos ir vê o Thomas e depois tomar sorvete. – sugeriu.

— Ok.

***

— Eu sabia que não deveríamos ter ido! – Minho falou assim que estacionamos em frente a um restaurante.

— Como eu ia saber que Thomas e Teresa estavam... – corei ao lembrar.

— A mãe dele estava lá embaixo! – Minho parecia indignado – Sério! Nem eu beijei alguma menina com a minha mãe por perto.

— Eu sei que o beijo era do tipo traumatizante, mas dá um desconto... – falei.

— Queria vê quando a mãe dele avisar que fomos lá... Eles vão entender na hora o que vimos. – Minho abriu a porta do carro.

Saí rindo e assim que entramos no lugar – tínhamos desistido da sorveteria devido ao horário – e logo vi que um dos meus colegas da sala de química era garçom do lugar.

— Oi. – murmurei ao vê-lo.

— Tudo bem? – ele riu amigável.

— E aí, Caçarola? – Minho disse se sentando – Tudo bem com seu pai?

— Ele está melhor, mas, por enquanto, eu o estou cobrindo aqui. – falou – O que vão querer?

— O de sempre. – o asiático disse.

— Eu... Ahn... – olhei para o cardápio na mesa – Lasanha?

— É muito boa, garanto. – Caçarola disse – Eu mesmo a preparo.

Sorri e ele foi embora me deixando sozinha com Minho.

— Então... – ele parecia acanhado pela primeira vez na vida – Naquele dia... Na praia... Você disse que nunca tinha beijado ninguém.

— Eu não devia ter contado isso. – falei para mim mesma fechando meus olhos por três segundos.

— Não... Eu... Não se preocupe... Eu só queria entender como... – ele pegou o celular e digitou algo.

— Como o quê?

— Como você consegue... Digo, seu pai também morreu e...

— O que isso tem a ver com meu pai? – questionei franzindo o cenho.

— Esqueça... Eu sou um idiota.

— Minho... – sem entender porquê estendi minha mão sobre a mesa.

Ele viu aquilo, sorriu e a segurou de maneira terna.

— O que foi?

— Eu... Quando meu pai...

Na hora que ele ia contar, Caçarola apareceu com dois pratos.

— O que estava falando? – incentivei quando começamos a comer.

— Eu...

— Minho? – uma voz masculina surgiu.

Virei o rosto e atrás de mim se encontrava um garoto que uau...

Com a pele tão alva quanto uma folha de papel, cabelos tão negros como a noite mais escura, olhos tão azuis quando o céu e a boca tão vermelha como... Bem... Como o molho de tomate que manchou a minha roupa.

Definitivamente, ele era a versão masculina da Branca de Neve.

— Noah! – o asiático se levantou imensamente feliz e abraçou o garoto – Como? Quando? Que saudade!

O garoto riu e então me viu.

Não sei explicar direito, mas seus olhos brilharam e seu sorriso me fez ter uma reação estranha no corpo, algo como pele arrepiada e boca seca.

— Oi. – ele murmurou para mim.

— Oi. – respondi de volta me sentindo tão tímida quanto antes.

— Cara... Você... – Minho falou.

— Você não vai me apresentar sua namorada? – Noah perguntou para o amigo.

— Quê? – Minho olhou do Branca de Neve para mim – Ah. Noah, essa é a Karine, minha... Minha amiga.

— Amiga? – o sorriso do garoto aumentou sem motivo.

— Sim. – murmurei envergonhada.

Minho pareceu perceber e bufou se sentando.

— Você não quer me contar o que te trouxe de volta à Clareira?

Noah encarou o asiático e perguntou:

— Posso sentar?

— Claro. – disse.

O garoto riu para mim, pegou uma cadeira de outra mesa e sentou bem do meu lado.

— Assim... – o asiático coçou a nuca – Você não quer sentar mais para cá?

— Estou bem aqui, Minho. Obrigada.

Olhei para meu prato e comecei a comer enquanto ouvia os dois garotos conversando.

— O hospital precisava de um cirurgião, então chamaram meu pai de volta. – disse a forma mais simples possível – Aqui estou eu.

— E sua mãe? – perguntou o asiático.

— Ela está bem... Acabou de casar com o George, um cara legal...

— Sério? Então você vai voltar a estudar no CRUEL? – Minho olhou para ele.

— Sim. Já até me matriculei... – ele parecia animado – Você também estuda lá?

Demorei cinco segundos para entender que Noah falava comigo.

— Ah... Sim, sou novata. – sussurrei olhando para a mesa.

— Você é adorável. – ele murmurou.

— Sim. Muito. – Minho soou forçado – Foi bom te ver Noah.

O garoto demorou olhando de mim para o amigo.

— Desculpa... Você disse que ela era sua amiga e...

— E ela continua sendo. – Minho falou.

— Ok... Foi maravilhosos te vê. – o Branca de Neve levantou – Amanhã nos vemos na escola. Estou ansioso para encontrar o resto do pessoal.

— É claro. Vai ser maneiro. – Minho pareceu animado de verdade.

— Falou, então. – Noah disse e em seguida olhou para mim.

Engoli em seco e o vi se abaixar e plantar um beijo quente em minha bochecha.

Sorri e peguei em meu próprio rosto vendo ele pedir alguma coisa para Caçarola e sentar em uma mesa sozinho.

— Ei? Ele está sozinho! Por que não o chamamos pra cá? – sugeri para Minho.

— Pra quê? Ele ficar dando em cima de você?

— Isso são ciúmes? – arqueei a sobrancelha terminando meu prato de comida.

— Claro que não, Mértila! – ele bufou – Você acha que eu sentiria ciúmes de uma menina como você quando posso ter qualquer uma?

Processei o que ele disse e me levantei na hora.

— É claro... – disse seca – Sabe o porquê de eu querer chamar o Noah pra cá? Porque ele é tudo o que você não é!

— Você. Nem. O. Conhece. – disse baixinho pausadamente.

— Dane-se, Minho. Você acha que me machucou falando aquilo? Está enganado! Eu não levo a sério nada do que pessoas como você pensam sobre mim.

Fui até Caçarola e entreguei o valor do meu prato, ouvindo Minho resmungando atrás de mim que eu não devia pagar.

Ele foi até seu carro e abriu a porta do passageiro esperando que eu entrasse.

Oh! Como ele estava enganado.

Deus estava comigo, pois um táxi passou na hora e eu não exitei em entrar deixando um Minho surpreso e chateado para trás.

Dei o endereço para o motorista – já tinha aprendido – e peguei meu celular abrindo uma única mensagem de Kate.

“Eu sei o que eu falei antes, mas Minho está muito diferente e isso é por sua causa. Acho que ele está gostando de você, dê uma chance.”

Revirei os olhos percebendo o quanto Kate também é bipolar.

Ele continuava o mesmo.

Não seria possível que ele tenha falado aquilo por ciúmes. Ou seria?

[...]