The Chain

2 Acceptance


Chapter 1 — Acceptance

Eu estou deitada, apreciando um dos célebres momentos felizes da minha vida. Minhas costas sentem os grãos de areia da praia deserta. Ouço o vento soprar e o sol nascer. Eu lembro de seu rosto e sorrio; nunca tive coragem de abordá-lo ou ao menos saber seu nome. Sempre vejo-o ao mesmo horário aqui, na praia, correndo nos braços das árvores, seu riso contaminando meus ouvidos, em suas sombras acolhedoras, seus olhos vêem minha alma nesses encontros calorosos de mistério que duram apenas segundos, mas dizem muito sem uma sequer palavra. Vejo seu caminho sendo traçado mais uma vez em minha memória.

A onda fria que toca meus pés com um choque de realidade me tiram dos devaneios. Preciso voltar para casa e tentar ser normal por mais um dia.

Chego à porta, ouço o barulho da manhã chegando mais uma vez. Giro a chave uma, duas, três vezes e o cheiro de sol invade o primeiro cômodo, a sala. Corro e ponho minhas vestes longas cor bordô, volto ao jardim e vejo-o mais uma vez, em seu retorno; nossos olhares se cruzam como de praxe e ele segue seu rumo. Coço os olhos em uma tentativa nula de afastar o sono. Puxo meus vestes acima do tornozelo para que a terra não os suje. Pego meu casaco e um copo de café, que tomo ao admirar a floresta por mais uma vez e corro até a cidade.

Atraio o olhar medroso de algumas pessoas, compro algumas ervas e chás diversos, pelo menos os mercantes do reino não me olhavam tão torto desse modo; meu passado não é o mais bonito mas eu nunca tive vergonha dele, tive minhas razões para ser quem eu sou. Ando nas ruas, sem rumo até que eu o vejo. Olho dentro de seus olhos, paralisada por alguns segundos e retomo a minha lucidez. Ele, por sorte, não me viu mas eu consegui ver seu rosto completo, seus olhos cheios de alegria e seu sorriso único, nunca vi um ser vivo tão encantador quanto. Tento me esconder dentro de mim mesma, caminhando em círculos até que vejo seu olhar pairar em mim, sua expressão relaxa e aquilo me surpreende. Saio em súbito aos tropeços de volta ao campo, de volta à casa.

Entro correndo, derrubo tudo a minha volta, tranco todas portas, entradas e saídas, janelas e frestas. Subo até o sótão e pela pequena janela vejo o mundo lá fora.

Eu sabia, mas havia de ter certeza de que ele me seguia; e lá estava a minha certeza, em cores, pele, ossos, tecidos, células, sangue e éter. Em passos largos e rápidos, parou no meu capacho com seus olhos grandes e negros. Me senti viva, eu borbulhava por dentro, sorria largamente para os céus de amor que me cobriam. Seus dedos tocaram a porta de madeira, clamando por mim, corri ao seu encontro mas hesitei. Meu nariz encostava na porta, minha respiração era forte, tenho quase certeza que ele ouvia a minha como eu ouvia a sua. Vi seus passos irem para longe de mim, meu corpo entrou em choque e abri a porta em súbito.

Eu não acreditara ainda. Minhas pupilas dilataram, meus olhos focaram naquele borrão que se tornou cada vez mais nítido, firme e real. Seus punhos fecharam, sorri de canto enquanto ele se virava.

Ele se virou totalmente e meu rosto tornou-se pêssego. Seus olhos refletiam o sol daquela manhã, fazendo-os terem tonalidade de heras. Suas palavras ecoam na minha mente, e por um segundo meu coração para e se acalma.

— Eh...oi. — ele diz, sem graça mas com um sorriso encantador que seus lábios formam; retribuo seu sorriso por uma última vez, até voltar a lucidez de que ainda estou agitada com sua presença.

— Oi...— digo e olho para os lados, tento desviar o olhar inevitável que insiste em focar em seus olhos.

— Não sei se lembra mas...

— De você? — interrompo, ele assente com a cabeça e eu procuro palavras que me faltam, minha língua parece estar enfeitiçada — Lembro sim...você estava na praia, certo? — ele assente novamente. Ele olha para dentro da casa sobre meu ombro, consigo perceber suas intenções então tomo partida — Quer entrar?

— Eu... volto mais tarde. — ele sai às pressas. Isso faz-me confundir a mim mesma; vejo-o novamente desaparecer na floresta e sinto uma aflição, uma coisa como se meu coração estivesse sendo empurrado pela gravidade, um beliscão e algo em meu estômago; não é fome, é algo a mais. Talvez seja amor.

As horas correm e o relógio de madeira não costuma cooperar, escuto o miado de meus gatos e parecem estar em sincronia comigo, seu desespero é o que sinto.

— Eu sei, eu sei...— jogo as palavras aos gatos que se juntam a mim no sofá, seus pelos voam e a noite cai, então eu sinto sua presença.

Eu escuto suas botas tocarem as pedras do jardim e corro, me apronto diante do olho-mágico da porta. Ele não bate, e leva alguns instantes até que me chame.

— Aysel? — não lembro de ter me apresentado formalmente ao rapaz, mas presumo que houvera escutado algo ao meu respeito, ele havia? A minha preocupação aumenta rapidamente.

Enfim abro a porta com meu melhor sorriso e o convido para entrar, preparo um chá e um café, que diz ser de sua preferência.

— Venha — digo-me, convido para sentar no grande sofá que estava carente por outra pessoa, além de mim. — Você...sabe meu nome? — ele assente, dando um gole no café — Como?

— Ouvi algumas coisas ao seu respeito na cidade — meu coração dispara — mas acredito que sejam apenas mentiras. — me alivio por instantes e respondo-o mentalmente, "não são mentiras, infelizmente". — O que foi? — olhei para ele fixamente perdida em meus pensamentos.

— Nada não, me desculpe...— ele sorri — ainda não perguntei seu nome, como devo te chamar?

— Julian.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.