The Cassandra Curse [cancelada]
4 – Capítulo 3 –
Notas iniciais

Quando o sinal para o fim da aula finalmente tocou, corri para o vestiário trocar de roupa e dar o fora daqui de uma vez. Quando saí no pátio da escola, avistei o carro de tia Jane imediatamente e estava me encaminhando até o veículo quando algo ultrapassou a minha frente.
– Oi, e aí? – era Kim. – O que aconteceu com você no intervalo?
Ah, então ela não vira o pequeno incidente.
– Hã, me desculpa... Eu acabei me enrolando.
Ela sorriu, aliviada.
– Ah, tudo bem. Sem problemas. – nós começamos a caminhar em direção ao carro. – Como foi o restante das suas aulas?
– Foram legais. – eu disse meio alheia. Tia Jane estava saindo do carro e vindo para cá. – Hmm, minha tia está vindo ali. Eu já vou...
– Ah, não. Espera! – ela disse, lembrando-se de algo. – A gente vai ir até a praia daqui hoje. Você está a fim de ir?
Não sei por que, mas tia Jane vindo para cá e o convite de Kim estavam me apavorando. Eu não queria ir, de jeito nenhum. Não era nada contra Kim, só que ter uma vida social estava fora de questão. Fingir estar bem na escola era uma coisa. Agora, ter que fingir o resto do dia também já era extrapolar. Kim ainda esperava uma resposta quando tia Jane nos alcançou.
– Oi Cassandra. – ela sorriu, os olhos brilhando ao ver que eu estava acompanhada. – Que bom que já fez amigos.
Fazendo força para não revirar os olhos, eu apresentei as duas. Kim, parecendo um pouco constrangida agora que estávamos na presença de uma adulta, disse:
– Hmm, então... Você vem para a praia, Cass?
Oh não. Era isso mesmo que eu estava tentando evitar. Tia Jane, como eu previ, agiu com extremo entusiasmo.
– Ah, claro que sim. Ela vai adorar!
– Tia, por favor. – murmurei. – Ela perguntou a mim.
Kim tentou não rir. Tia Jane piscou os olhos e fez um gesto com a mão, como se o fato fosse irrelevante.
– Não importa. Você precisa sair um pouco, Cass. Não se preocupe com o horário, é só ligar que eu te busco, ok?
Eu mal tive tempo de abrir a boca para protestar, e tia Jane já estava se despedindo.
– Kim, foi um prazer conhecê-la. Até mais Cass.
Então ela me deu um beijo na bochecha e foi embora, me deixando completamente aturdida em relação a como sobreviver às próximas horas sem aulas e matérias para me distraírem.
Nós ficamos no pátio da escola, esperando pelas amigas de Kim. As duas – Faith e Beatrice –, com mais ou menos a mesma aparência de todos por aqui, foram extremamente legais comigo; e eu consegui escapar da maior parte da conversa sorrindo e dando ocasionais comentários. Devo admitir, foi mais fácil do que pensei. Talvez fosse a personalidade alegre e contagiante do povoado, que fizesse tudo ficar com outra atmosfera. Como se a personalidade calorosa deles compensasse a falta de sol. Eles se aqueciam sozinhos, e eu ainda tentava entender como isso era possível. Mesmo antes da morte dos meus pais, eu nunca me senti confortável como eles se sentiam. Talvez fosse assim, por que eles não eram uma aberração como eu. Porém, de alguma forma, eu sentia que aqui eu não precisava me preocupar com minha habilidade incomum.
A praia de La Push não era como as outras praias lá da Califórnia. Essa tinha uma atmosfera calma e pacifica, ao contrário do caótico movimento das praias californianas. As ondas quebravam na margem, ao passo que o vento batia em nossos rostos incansavelmente. Nós nos sentamos em um tronco branco, mais ou menos no topo da praia e ficamos observando as ondas. As garotas me contaram tudo sobre La Push, sobre os habitantes, sobre a escola, quem era bonito e quem não era. Acabei descobrindo que Kim tinha um amor platônico por um garoto chamado Jared. Dessa vez, não participei muito do assunto. Nem poderia se quisesse. Eu nunca gostei de ninguém. As garotas da minha antiga escola viviam correndo atrás dos caras do futebol, mas para mim eles eram todos uns idiotas. E os que não eram – como meu amigo Gabe – simplesmente serviam apenas como amigos. Nunca consegui ver nada mais além de amizade neles.
De repente, o rosto do garoto que quase me derrubara mais cedo apareceu em minha mente. Ele era mesmo bonito, mas não fora isso que me chamara atenção. Agora, parando para pensar, ele parecia triste. Ele sorriu várias vezes para mim, no entanto, eu não vi alegria em seus olhos. Por um momento, pensei em perguntar às meninas se elas conheciam o tal cara, porém me segurei no último segundo; não queria que elas pensassem que minhas perguntas tinham segundas intenções.
A tarde passou como um flash, e, logo eu me vi indo embora. Liguei para minha tia, e nós caminhamos até a estrada que levava direto a Forks para esperá-la. Tia Jane não cabia em si de felicidade ao ver-me com três amigas, e, no caminho de volta, me encheu de perguntas sobre elas. Tentei não me aborrecer, por que, afinal, eu realmente gostara de ter saído. O problema era a deixar saber que gostei. Por mais que soubesse que minha família queria que eu seguisse em frente, eu ficava pensando: “será que não é errado ser feliz depois do que aconteceu?”.
Meus pais morreram. Eu sabia e não consegui impedir. Isso não fazia de mim a culpada?
Perguntas como essas me perturbavam até o limite. Subitamente, os cortes em meu pulso começaram a arder, como um lembrete do acontecia quando a culpa me atravessava desse jeito. Chegamos à nossa casa, e eu percebi o quanto estava cansada. Dei um rápido oi para Lucas e fui para o quarto. Adormeci assim que minha cabeça tocou o travesseiro.
A neve se acumulava no chão criando uma atmosfera etérea e quase mágica. O vento agitava a copa das árvores, enquanto raios de sol tentavam despontar no céu. O frio era congelante, paralisante... Ou será que essa sensação era causada pelo medo? Ms por que haveria razão para medo, afinal de contas? A paisagem estonteante não poderia conter nenhum elemento perigoso... Ou poderia?
Ao longe, um uivo agoniado soou fazendo Cassandra acordar sobressaltada.
Acordei com a terrível sensação de que tinha acabado de sair de um lago congelado. Tateei pela cama procurando meu celular para ver a hora. Eram sete e meia da noite. Respirei fundo, afastando os cabelos que estavam grudados em meu pescoço por causa do suor. Eu não sabia o que essa premonição significava e também nem queria saber. O único fato com possível relevância era que pelo menos esse sonho não conteve nenhum tipo de ser mítico das trevas. Era só o frio, as árvores e o uivo do lobo.
Lobo?
Eu quis dizer cachorro; como eu poderia saber que era um lobo se eu apenas o ouvi?
Confusa, sai da cama e me dirigi à sala, onde Lucas estava assistindo à TV. Sentei no sofá ao seu lado.
– E aí como foi seu primeiro dia? – ele perguntou.
Dei de ombros.
– Não posso reclamar. – respondi de olhos fixos na TV, que passava o noticiário. – E o seu?
– É, foi ok. Mas escuta só, tem um pessoal muito estranho lá. – ele disse com a testa franzida. – Eu ouvi todo tipo de histórias sobre eles, são tipo irmãos adotados ou coisa assim.
– E o que tem de estranho nisso?
– Sei lá, ninguém falou nada com nada... Pra falar a verdade, a maioria só queria saber de falar o quanto eles são perfeitos em tudo: são inteligentes, bonitos, essas coisas. – Lucas revirou os olhos. – E as meninas só sabiam dizer o quanto o mais novo dos irmãos é bonito. Caramba, pra mim parece que o cara está constipado. – ele riu. – Não que eu queira opinar muito na beleza de um cara.
Eu ri.
– Pois é, Lucas, se você me dissesse que achou o cara bonito, eu iria começar a te estranhar.
– Haha, engraçadinha.
A notícia seguinte era sobre a possível gangue que estava causando várias mortes e desaparecimentos em Seattle. A repórter seguia dizendo a lista de pessoas que estavam sumidas há semanas, e, depois, informava o número que devíamos ligar, caso tivéssemos alguma pista sobre os casos.
Quando ela disse o nome Riley Biers, de repente, senti a conhecida, porém rara, sensação de que algo estava sendo ligado em minha mente. Era como dejà vu, só que mais forte. A sensação corria desde a cabeça até os pés. Como se eu soubesse de algo sem exatamente saber. Intuição.
Além das premonições, eu tinha isso às vezes. Palpites sobre coisas que eu nem tinha conhecimento. O nome Riley, por alguma razão, tinha um significado forte, porém desconhecido. Algo me dizia também, que esse rapaz desaparecido tinha algo a ver com meu sonho da noite passada. Mas... Qual poderia ser a ligação? Sim, eu vi uma garota sendo atacada e poderia muito bem ser uma das vítimas da tal gangue, se – e eu repito se, com toda a incredulidade do mundo –, o perseguidor do meu sonho não fosse claramente algo que não era humano...
Minhas especulações duraram pelo resto do dia. Tia Jane teve que estalar os dedos na minha cara pra me fazer prestar atenção à conversa do jantar. Tudo bem que ela fazia isso com frequência, por que não tinha nada mais do mundo que eu quisesse além de me desligar da realidade, mas hoje isso aconteceu por razões muito diferentes das que eu costumava ter.
Quando tio Gary comentou algo sobre os ataques de Seattle, um adjetivo que ele usou para caracterizar as pessoas que eram capazes de praticar tais atos prendeu minha atenção: monstros.
Seria possível mesmo que todas essas mortes, todos esses desaparecimentos estivessem sendo causados por algo fora do conhecimento humano?
Monstros...
***
Dois jovens, que aparentavam ter idade de veteranos, conversavam intensamente em uma cozinha pequena, porém confortável. A menina, de cabelos castanhos e olhos expressivos, demonstrava estar sofrendo de algum tipo de conflito interior. O rapaz, muito branco e de cabelos dourados, observava seu rosto parecendo sentir o mesmo conflito que ela sentia. A atmosfera entre os dois sugeria que eles eram um casal.
– Bella – o rapaz murmurou, sua voz suave. – Não tem pressa. Eu não vou deixar ninguém te machucar. Você pode usar todo o tempo que precisar.
– Eu quero me apressar. – respondeu a garota chamada Bella, com um sorriso enviesado. – Eu quero ser um monstro também.
O rapaz pareceu não gostar do que Bella disse; trincou os dentes, de modo que sua voz saiu abafada quando ele disse:
– Você não faz ideia do que está dizendo. – e então ele pegou o jornal que estava sobre a mesma e apontou a manchete que dizia:
CRESCE O ÍNDICE DE MORTE. POLÍCIA TEME ATIVIDADE DE GANGUE.
– O que isso tem a ver com alguma coisa? – ela perguntou.
– Monstros não são uma piada, Bella.
Bella expressou temor.
– Um... vampiro está fazendo isso?
Ele sorriu, um humor negro.
– Você ficaria surpresa, Bella, por saber o quão frequentemente a minha espécie está envolvida nessas horrorosas manchetes humanas. É fácil reconhecer, quando você sabe o que procurar. A informação aqui indica que há um vampiro recém nascido em Seattle. Sedento por sangue, selvagem, fora de controle. Do jeito que todos nós somos.
Quando acordei, senti como se tivesse acabado de sair de uma montanha russa. Sentindo-me enjoada além do limite, pulei da cama e corri para o banheiro para jogar fora tudo o que havia ingerido no jantar. Tossindo e engasgando lavei a boca e o rosto, numa tentativa de me acalmar. Meus dedos tremiam, sentia o suor frio empapuçando meu pijama. Olhei-me no espelho tentando entender o que havia acabado de presenciar. Meus olhos azuis ameaçavam sair fora das órbitas.
A garota de cabelos castanhos... Bella, esse era o nome dela? Era a garota do meu sonho, a que ia ser atacada... E o outro... ele falava sobre os ataques, sobre monstros, sobre...
Vampiros?
Não. Isso é impossível, pensei enquanto apagava a luz do banheiro e voltava para o quarto. Isso é ridículo. Isso não pode ter sido real, dessa vez foi um sonho. Só um sonho. Mas enquanto trocava de pijama, outra coisa sobre o sonho me veio à cabeça.
Sedento por sangue, selvagem, fora de controle. Do jeito que todos nós somos.
O rapaz. O namorado dela... Ele também é... Mas não pode ser. Mesmo que existissem vampiros – e eu me sentia totalmente idiota até mesmo de pensar nisso –, então eles seriam apavorantes e perigosos. Não como o garoto bonito do sonho, não um cara normal... E ela... Ela queria ser um... um monstro também?
Sentei-me na cama, me sentindo mais confusa do que nunca.
O que estava acontecendo nessa cidade?
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