Notas iniciais
FINALMENTE RETORNAMOS COM ESSE EPÍLOGO, HEIN? Genteeeee, mil desculpas pela demora, SÉRIO. Não foi desinteresse nem preguiça, é que quanto mais eu escrevia, ou ficava bloqueada ou esse cap CRESCIA, sério, cogitei até subdividir ele em mais caps, mas achei que ficaria muito nada a ver, então continuei batalhando pra terminar e aqui estamos com quase 20k de palavras. SORRY!

“Uma promessa que o Destino escolhe manter

Nem por quem a fez, poderá ser quebrada

Um broto de cerejeira

Sempre irá desabrochar, independentemente do quão longo é o inverno

Ninguém ousará manipular o futuro, se não o conhece

As linhas da vida, do tempo, dos fatos

São todas muito inconstantes, emaranham-se

E algumas partes somem, dando a impressão de que foram cortadas

Outras emergem, em seguida, ou demoradamente

Mas jamais se quebram, isso nunca

O Futuro, ninguém conhece

Alguns não entendem a balança, por isso ameaçam quebrá-la

Mas mesmo isso estava previsto, escrito

Por alguém que talvez nunca se conheça

Por algo que, talvez, nunca se meça”

¤

Muitas eras depois.

— Sakurakouji-sama! Sakurakouji-sama! – Ele se voltou para ela, perguntando-se como ela não perdia completamente o ar com toda essa corrida e tão apertada dentro de seus trajes.

Togame aproximou-se arquejando como se o mundo fosse acabar.

Sakurakouji-sama! Porque fugiu da aula de escrita?

— Ah, bem tive a impressão de que havia deixado algo passar... – Ele confessou coçando o queixo suavemente, Togame suspirou, pois reconhecia seus pequenos ardis de desde que era um pequeno bebê pedindo peito, ou um menininho querendo fugir para o mundo humano.

— Sakurakouji-sama, não faça mais isso! As aulas são importantes, não importa quão talentoso você é!

— Sim, sim.

— E por favor, não corteje as criadas para fugir, sim?

Ele a fitou surpreso, e então puxou-a pela cintura e segurou sua mão, sorrindo galantemente.

— Como pode achar que eu cortejaria outra dama além da senhora? Me fulmina o peito ao cogitar isso. – Togame estremeceu de encanto ante a linda face garbosa desta criança.

Sakurakouji cresceu conforme as bênçãos que recebera, era considerado o mais belo deus de Takamagahara, e nada do que saía de sua boca durante qualquer discussão séria poderia ser trivial.

Chegavam a dizer que a primavera vinha sempre uns dias mais cedo pois tinha saudade da sua beleza, que ele poderia curar qualquer enfermidade terrena, e tinha uma vasta sabedoria sobre ervas milagrosas, além de criar as mais belas flores.

Também poderia acalmar e estremecer as entranhas vulcânicas das montanhas, tal como seu pai, mas seu temperamento era muito mais raro de entornar.

O que a maioria achava uma grande vantagem, já Togame, que ajudara a criar e educar esta criança prodigiosa, sabia muito bem que não era necessário vê-lo irritado para saber quão caprichoso ele podia se tornar.

— Nã-não tente me enganar, menino! Pare de ficar brincando com as criadas, e volte para a sua aula, ou juro que o deixarei a cargo exclusivo de Kakashi!

Ele riu, soltando-a cuidadosamente e se afastou.

— Você nunca me abandonará, To-ga-me!

Togame ralhou para ele retornar a suas aulas, mas admitia que seria leal e zelosa para com ele o quanto fosse preciso, havia prometido isso a mãe dele, afinal.

Sakurakouji, aos poucos desfez seu sorriso enquanto caminhava através das pontes, os peixes o seguiam sob a água, ele parou, jogou seus olhos verde cinzentos para o céu.

— Ah... As noivas tem brilhado intensamente esses dias...

Uma kitsune saltou sobre o corrimão, e ele a reconheceu, sorrindo, estendendo os braços para pega-la, seguiu em frente.

— É você, meu velho amigo, achei que estava no mundo humano? E essa forma tão humilde?

— O mundo humano tem sido um porre nos últimos cinquenta anos. – Kurama bufou, espalhando-se de barriga para cima para receber devidamente os afagos. — E eu não quero ser incomodado pelo seu pai. Ele resolveu que fazer é melhor que ameaçar, agora tenta me transformar em uma bolsa sempre que me vê, humpf.

— Vocês nunca se dão bem...

— Você me ouviu, tonto? Ele quer me escalpelar! Você faria amizade com quem tentasse arrancar seus cabelos?!

— Hahaha. É bom argumento.

— Não zombe de mim! Tsc, você é como aquela tonta da sua mãe.

Sakurakouji parou, diante uma frondosa glicínia, e observou a brisa sacudir os cachos de flores lilases quase brancas. Kurama levantou a cabeça, fitando-o.

— Já fazem mesmo cinquenta anos que você veio do mundo humano...? O pai estava lá da última vez... – Kouji sentou-se entre as raízes da árvore e observou os galhos balançando, uma chuva suave de pétalas caindo sobre eles. — Significa que o pai vai para lá logo...- Suspirou, segurando uma pétala entre os dedos.

Ele poderia facilmente transformá-la numa pétala de sakura, ou numa rosa, até mesmo fazer outra grande árvore como aquela nascer apenas dessa pétala.

Mas não podia realizar o maior desejo seu e de seu pai. Era tão injusto, e o seu pai ainda nem o deixava ajudar.

— O mundo humano... Eu gostaria de ir lá.

Kurama bufou, se enrolando nas caudas e deitando para tirar um cochilo.

— Esqueça o mundo humano. Você sequer saberia se virar lá, além que nunca esteve lá, se pisasse um único pé na terra mortal, todo deus do outro lado, inclusive seu pai, saberia.

— Eu poderia ir com ele.

— Desde quando você pede isso? Ainda era remelento, sabe a resposta. Além do mais, ele não gosta mais da humanidade do que gostava antes, definitivamente não quer você próximo aos mortais.

— Hm... Eu adoraria conhecer um.

— Você está me ouvindo?!

¤

— Suas estrelas estão intensas ultimamente, Sasuke. – Shikamaru comentou, enquanto movia sua peça no tabuleiro de shogi.

Sasuke continuou encarando as peças, até por fim mover uma.

— Não tão intensas quanto sua princesa dos ventos... – Shikamau riu, admitindo.

Sasuke olhou para a janela, observando Bruma relinchar, alto e vigorosamente enquanto recebia afagos de seu filho. Sabia em que ponto do céu, seus olhos verde-cinzentos estavam pousados, e suspirou.

— Elas estão meio agitadas sim... Mas não só elas...

Isso sempre o fazia lembrar da época mais difícil que enfrentara, com um bebê cheio de poderes que ambos não sabiam como lidar, sem um calor de mãe para acalentá-lo, e um coração pesado de luto, Sasuke achou que não haveria tempo mais cruel.

Agora, no entanto, ao menos no que dizia respeito a lidar com Sakurakouji, ele sentia novas turbulências se aproximarem.

Ambos eram muito semelhantes, isso era claro. Mas Sasuke conhecia a si mesmo para saber que não era coisa tão boa. O pior mesmo, era que Kouji levava ainda a essência persuasivamente dócil por parte da mãe. Seus olhos esverdeados eram profundamente sensíveis e gentis, tinha ainda um forte senso de justiça, e uma lábia perigosa.

Togame e as outras criadas sabiam muito bem, pois foram as primeiras vítimas do charme e eloquência da sua criança. Que manhosamente, com o olhar mais humilde, era capaz de dobrar até mesmo o avô, ainda em tenra idade.

Agora um moçoilo indagador, Sasuke sabia que logo teria problemas para evitar questionamentos do filho. Protegê-lo e afasta-lo da dor – incluindo a do pai. Se tornaria tão mais complicado.

O Kagutsuchi não fazia ideia de como proceder, a seu ver, aprender a trocar as fraldas, banhar ou acalentar um frágil bebê, era muito mais fácil que lidar com o gênio formado de um deus quase adulto.

Ele próprio nunca havia podido contar com essa proteção familiar, também por esse motivo não queria que Kouji tivesse as mesmas dificuldades e falhas suas. E seu próprio coração de pai se recusava a pensar na ideia de deixá-lo partir para longe de sua supervisão.

Mas o que mais afligia era o velho remorso de saber que a mãe do seu menino, saberia lidar muito melhor com tudo isso.

Isso talvez o fizesse um pai ruim?

Era como havia dito a Sakura uma vez.

O pior castigo dos deusesera a eternidade.

— Você irá novamente? – Shikamaru indagou, embora já soubesse a resposta, Kagutsuchi suspirou, quase vencendo essa partida. — Não devia considerar levá-lo?

— Hm. – O movimento de Shikamaru foi eficiente.

— Bem, ao menos considere. Você sabe que não é o único que se sente culpado. E isso foi meio inevitável.

— Eu envenenar minha esposa?

— Não saber o que a fruta cobraria. Você sabe que isso está obscuro ainda. Se não soubesse, não vasculharia tudo por aí a cada cinquenta anos.

— Talvez eu só esteja ficando louco.

— Sim, tem essas suas “visões”.

Sasuke sentiu cheiro de flores outra vez, era como se fosse arquitetado. Ou talvez ele mesmo invocasse a lembrança dela forte demais.

O perfume de sua pele, o farfalhar de suas vestes soando suavemente atrás dele, ou mesmo a sensação de seus cabelos finos e claros como teias de aranha a roçar no rosto dele quando ventava.

Era essa a eternidade ao lado de Sakura?

Um fantasma o assombrando sempre que pensava nela, o impedindo de afundar na saudade e se voltar contra tudo com horror ao simples pensamento de perder até isso, ou seu único presente para ele?

Um fantasma que o impedia de se aproximar mais do filho, que apertava seu peito sempre que considerava falar um pouco mais dela para ele, o forçando a ouvir sobre ela pela boca de terceiros.

Por mais que quisesse livrar Kouji de qualquer culpa, levá-lo consigo para uma busca que incessantemente se mostrara ineficaz, conseguia soar pior.

Sasuke poderia ter se tornado um homem severamente apaixonado por um fantasma. Mas ainda era pai, e não podendo superar a dor da falha, ao menos não queria levar Kouji para o mesmo caminho, se possível.

Sasuke largou a pedra sobre o tabuleiro, e se levantou, Shikamaru o fitou, curioso.

— Podemos terminar isso depois.

— Se você diz, mas eu ia ganhar.

— Não, não ia.

— Continue mentido para si mesmo. – O Nara riu, retomando seu biwa e passando a dedilhar. Sasuke partiu dali, considerando que estava mais confortável mentido para si mesmo, obrigado.

¤

Yomi.

— Ah, ele foi outra vez. – Sakurakouji lamentou, sentindo a gentil carícia das falanges frias da avó.

Izanami sorriu carinhosamente, admirando com orgulho a beleza da sua criança da nova era. Ah, ainda havia tanto para ele, e os mais velhos, como seu pai e tios aprenderem.

Mas ela lamentava não poder exigir muito daqueles dois, pois sabia que seu papel na amargura deles fora fundamental.

Todos seguem o destino a partir das próprias escolhas. Tem quem ache que exista apenas um único caminho, do começo ao fim. Ou que o tecelão criava vários fios e os ia entremeando de acordo com nossas escolhas, nos levando para frente ou para trás, mas nunca nos livrando de enfrentar as consequências da escolha, cedo ou tarde.

Nesta ou na próxima vida, nesse ponto da eternidade, ou em outro.

Nem mesmo ela sabia afirmar como o tecelão trabalhava, mas tal como toda criatura racional e emocional, Izanami tinha a capacidade de ter fé.

Ela só poderia continuar tendo, já interferira o bastante, tal como seu marido avisou, e embora não fosse de acatar o que ele dizia – na verdade nunca o fazia. Ela preferiu manter-se quieta, evitar se indispor com seu filho, e alegrar-se com as visitas do neto, mesmo que fossem raras.

O Yomi era muito tóxico mesmo para os deuses, mas ás vezes Sakurakouji conseguia vir e passar um tempo com a avó, partindo antes de ser afetado.

— Será que sou um incômodo? – O rapaz indagou, amuado.

— Claro que não, meu bem. Seu papa somente tem um senso de responsabilidade muito forte. Ele sente muita falta da sua mãe, e muito mal por achar que o privou dela.

— Mas se ela puder estar por aí... Eu também quero encontra-la. Ela pode estar, não pode? Nem mesmo você deixou de acreditar...

— Sakurakouji. – Ela suspirou. — Vida eterna pode significar e ser vivida de muitas formas. Sua mãe comeu a fruta da vida eterna, mas não sabemos o preço que foi cobrado. Sua mãe estar morta realmente contraria o sentido do dom da fruta, é verdade. Mas ela ser imortal, provavelmente não significa que ela possa estar com você e seu pai.

Ele se levantou, fitando-a, ela se ergueu do tatame e caminhou para o terreno de pedras e areia.

— Como assim?

— Muitas coisas são eternas, sem necessariamente serem deuses, criança. As entranhas dessa montanha são eternas, as pedras, a lava, o ciclo das plantas, o nosso sol e a nossa lua, o espírito dos humanos e animais, os sentimentos mais fortes e a chuva que se torna rio, lago, mar, sereno ou tempestade... Tudo isso é eterno, pode se modificar, mas seguirá em frente...- Ela suspirou, tristemente. — O que sua mãe realmente se tornou, é um mistério que somente ela deve saber. Dependia do que ela desejava, do que desprezava, amava e odiava, temia ou idolatrava. Do que ela foi, do que deixou de ser, do que se tornou antes, do que abriu mão para ter ou ser, mesmo antes de estar com seu pai.

— Então... Quer dizer... Que nós nunca iremos encontrá-la?

— Ou que só não tenham encontrando-a no lugar certo. Talvez ela só os esteja esperando, talvez os observe agora mesmo, adormece ou tenha se afastado de tudo. Só o tempo dirá se será sempre uma busca em vão... Ou se só estamos no tempo antes da primavera certa chegar...

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Grande Festival de Arranjos Florais do monte Fuji.

Ele encarou por talvez uma eternidade, a cena poderia ser perfeitamente gravada em uma bela tapeçaria. As pétalas das flores de cerejeira dançavam por todo o lugar içadas pelo vento, que sacudia as roupas das pessoas que transitavam pelo gramado, o cheiro das flores dispostas em diversos estilos de arranjos exuberantes e minuciosamente montados enchia os pulmões de todos. Um festival de cores, sorrisos e perfumes com o grandioso e temperamental Fuji ao fundo.

Kagutsuchi não olhava com tanta atenção para a humanidade há séculos, transitara por ali de cinquenta em cinquenta anos, mas as pessoas eram o menor de seus interesses.

Ele buscava, investigava sinais de divindade ou um grande espírito vagando por aí, quem sabe descansando sob uma cerejeira dessas. Ele só buscava uma única flor.

Esteve tão cego ao resto que só vagando atoa por aí acabou tendo essa terna visão e se dando conta de que talvez o mundo humano houvesse melhorado consideravelmente. As pessoas voltaram a se olhar mais nos olhos e não em telas de aparelhos, apreciavam o perfume e vista das flores, apreciavam uns aos outros.

Ele decidiu que não custaria nada ficar por ali um pouco e apreciar também, Sakura iria gostar disso.

¤

— Ainda tem certeza disso, meu bem? – A avó indagou, zelosa. — Todos saberão que estará lá, inclusive seu pai.

Sakurakouji afirmou, diante o portal.

— Mesmo que não resulte em nada... Ainda quero ver o mundo que a minha mãe viveu, talvez eu saiba um pouco do que ela sentiu ao abrir mão e vir para o nosso lar, ou entenda por que papai quer ir sozinho... De todo modo...

— Tem direito de querer usar seus próprios olhos, querido. Vá, mas tenha cuidado.

Ele assentiu, dando-a um olhar de agradecimento. Mesmo excitado para ir ao novo destino, ainda se compadecia de terminar a visita a avó, que tão pouco via e estava sempre tão solitária.

Inspirando profundamente, Sakurakouji deu um passo para dentro do mundo humano.

Mundo ao qual uma metade sua, sempre pertenceu, é verdade.

Mas todos os deuses e seres souberam, de forma consciente e inconsciente, que uma deidade havia descendido a terra pela primeira vez, naquele momento.

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— Céus, você vai sempre ser péssima nisso? – Naruto riu, não tinha jeito.

Se Kurama estivesse ali, certamente adoraria também.

— Ca-cale a boca! Estou quase terminando, ora! – Hinata ralhou, puxando as folhas secas das ameixeiras que cercavam o templo atrapalhadamente e lutando contra as que eram empurradas para fora da pilha pelo vento.

Fulminou o marido com o olhar.

— É você, não é?

— Já disse que não! – Naruto continuou rindo, deitado no galho da ameixeira.

Certo, às vezes ele atrapalhava um pouco a vida humana de Hinata, mas não por maldade, era apenas engraçado e distinto vê-la ralando nas duras tarefas humanas como sacerdotisa.

Embora fazê-la trabalhar como serviente a outros deuses não tivesse sido um plano traçado antecipadamente, ele achou que serviu muito para quebrar o orgulho da sua esposa e ensina-la a ser mais modesta.

Hinata bufou voltando a varrer, cheia de reclamações e dramas. Naruto sabia que ela ainda tinha muito a aprender, mas já não podia negar que a Hinata rabugenta e mimada era bem mais divertida que a dócil e refinada.

¤

Quando um deus cruzava a cortina entre o Takamagahara e o mundo humano pela primeira vez, este sentia de muitas formas. Antigamente as pessoas sabiam distinguir a presença divina com mais facilidade.

Apercebiam-se da mudança súbita do vento e do ritmo da maré, das flores desabrochando em cores e formas diferentes.

Mas, sendo um deus, Kagutsuchi sabia muito bem que a mudança repentina no clima significava a passagem de um deus forasteiro.

Olhou para o céu, antes limpo, que rapidamente escureceu, com uma ventania forte que sacudiu as tendas do festival e as flores dos arranjos.

— Nossa! Que droga! isso vai acabar com tudo!

— As flores! O que faremos com elas?!

— Temos que levar tudo para as tendas! – Duas moças esbarraram nele quando correram, Sasuke se afastou, escutando seu pedido de desculpas e olhando um relâmpago dourado cortar o céu por um curtíssimo segundo.

Estreitou os olhos, quase certo.

— Kouji....?

Um novo vendaval de pétalas de sakura sacudiu suas vestes, Sasuke sentiu o cheiro da pele acetinada de sua eterna escolhida, e nunca os murmúrios dela, de quando passeava pelos corredores do castelo ou bordava sossegadamente no quarto, o assombraram com tanta nitidez, muito menos no mundo humano.

Ele só se atormentava com rastros invisíveis de Sakura no castelo, em sua morada, nos lugares que ela amava estar.

Virou-se bruscamente, não conseguindo evitar ignorar, quando pessoas ao redor olharam naquela direção como se tivessem sido capazes de ver a fonte daquele cantarolar.

Havia uma colina logo a frente, no topo dela, uma frondosa glicínia, tão larga que seus galhos pareciam o teto de uma casa, e os cachos de flores lilases sacudiam com a brava ventania.

Subindo a colina, o espectro dela nunca foi tão real, mesmo o roçar das suas vestes naquela grama, os cabelos finos e brilhantes amarrados com uma fita vermelha.

A boca de Sasuke secou como um deserto, ele caminhou como um doente em busca da cura. Subiu a colina com pressa, era bem vertical e a grama lisa e escorregadia. Sua voz doce e rouca como quem acaba de acordar dissipou-se quando ela contornou a árvore e sumiu. Sasuke se apoiou no caule, a dor em seu peito o enfraqueceu as pernas e o ar.

Ele não sabia se suportaria outra tortura como aquela sem enlouquecer de dor e raiva, mesmo que a culpa fosse somente sua.

— Por favor, traga-a de volta. – Suplicou, ofegante á Glicínia, mesmo que ela não pudesse realizar, se sendo apenas condutora de seu pedido a algo maior...

Sasuke respirou fundo com grande amargura, esfregando a mão no peito, latejando em pontadas.

— Estou ficando louco. – Concluiu.

E então, do outro lado do largo caule uma cabeça surgiu, inclinada, o fitando com curiosidade e um sorriso amigável.

— Oh, não se preocupe com isso, todos temos dias assim. – Ela disse, com espantosa naturalidade, mas nenhuma familiaridade.

Sasuke se segurou no caule, incerto de que o que via não era outra louca visão ou sonho.

Sakura afastou-se da arvore, revelando sua figura inteira, seus longos cabelos completamente soltos emoldurando uma face madura, de trinta e poucos anos, que ainda transpirava ingenuidade e gentileza, usava um vestido de cetim branco estampado com pequenas flores silvestres e sandálias de salto médio, como qualquer outra mortal desta era.

Ela se distraiu olhando para baixo, estranhando as pessoas levarem as lindas flores para dentro das tendas, quando que, ao que se lembrava, ela veio ali somente para vê-las ao ar livre.

— Oh... O que estão fazendo...? Por que estão escondendo as flores..?

— Tempestade... – Sasuke balbuciou, aproximando-se, ela olhou para cima, notando as nuvens escuras, o princípio de chuva.

Ah, ela apreciava a chuva também, caminhou sob ela inúmeras vezes, mas agora, ela realmente queria ver o festival de flores como haviam prometido.

— Bem, bem. – Juntou as mãos, desejando, como sempre fazia, desde que se recordava, fechou os olhos e desejou um lindo dia de sol e flores.

Sasuke quase tocava sua pele quando percebeu a energia dela fluir em lufadas amistosas e poderosas, definitivamente alterando esta realidade, sua vibração fez as nuvens escuras recuarem agilmente, o sol apareceu reluzindo orgulhoso e a ventania se tornara uma agradável brisa primaveril.

— Oh, não tivemos sorte desta vez? – Ela o indagou, ele a encarou transtornado.

— Você... Fez isso. Você. – Ela piscou, surpresa, e pareceu pensar melhor nisso, e então concordou.

— Acho que está certo... Eu fiz... Àsvezes faço... Ou não...? Não tenho bem certeza... — Murmurou, mergulhada em pensamentos, começou a descer a colina. — Deve ter sido apenas outro sonho... É, outro sonho esquisito... Tantos sonhos...

Sasuke se agachou, e então sentou, e ficou ali, observando-a transitar entre os visitantes e membros da feira, que voltavam a por os arranjos nas bancadas e barracas dispostas.

Ficou observando e tentando entender o que quer que Sakura, sua Sakura, havia se tornado.

¤

Sakurakouji já imaginava que seria uma travessia complicada, mas não que seria tão exaustiva.

Era como se ele ainda precisasse se adaptar ao ar, parecia mais pesado, um gosto levemente amargo na boca, e sua força física parecia quase drenada. Era uma situação desagradável, e um pouco humilhante.

Ele se recostou numa parede de tijolos, e ofegou, procurando se orientar, era tudo muito diferente do que conhecia, a arquitetura ao redor, as ruas, os veículos que os humanos usavam, os humanos.

Ele sempre imaginou como seria estar tão perto de um, agora a situação era meio constrangedora.

Eles o olhavam com estranheza, desdém, até mesmo hostilidade.

Sakurakouji inspirou profundamente e se afastou do muro, não estava ali para turismo, afinal.

Tinha que encontrar a mãe, ou... O pai.

¤

— Ah... Tão bonitas...

— Você gosta delas? – Sasuke indagou-a, ela puxou um talo de peônia, e ofereceu a ele, ela a segurava com uma infinita delicadeza.

— Você não...?

— Não quis dizer isso, são belíssimas, não há como não respeitá-las.

Sakura olhou para a flor, e empurrou o nariz contra essa, aspirando.

— É a rainha das flores. – Disse.

— Sim...- Ele ciciou, emocionado. — Suas preferidas...?

— Preferidas? Eu não... Sei. – Sakura olhou em volta, um pouco aflita. — Eu... Gosto de todas... Acho...?

— Você não parece ter certeza.

— Não tenho?

— Não muito... – Ele observou, aproximando-se dela, olhou para sua face, espantando-se ao ver uma expressão nublada e melancólica.

— Eu não sei mesmo...? Eu acho que não sei, acho que... Não, eu nunca sei... Não é uma pena?

— Perdão, eu não quis chateá-la, Sakura, olhe para mim. – Sasuke tocou seu rosto, ela despertou da distração, o fitou de novo como se acabassem de esbarrar.

— Perdão..? Já nos conhecemos...?

— Impossível...

— Sim? Então er... Você está muito próximo, você é...?

— Sasuke, e você é?

— Hm? – Sakura sorriu, sem entender.

— Seu nome, diga-me seu nome, por favor. – Sasuke suplicou-a.

— Meu nome...? Ah, como fui me esquecer, que rude. Meu nome é Higan!

— Hi... gan...?

— Aa. – Ela puxou apenas um pouco a alça direta do vestido, apenas para que ele pudesse ver melhor a suave mancha avermelhada em sua pele, que ia de acima do vale dos seios até a clavícula direita. Um pouco disforme, como se fosse feito a pincel, uma flor aranha.

— Higan... Bana...?

A flor do deus do fogo, também o símbolo da morte.

Sakura sorriu, assentindo.

— Ah, apesar que não tenho certeza... meus pais devem ter me dado esse nome por causa dessa marca de nascença.

— Pais? Quem são seus pais?

— Eu...? Eu não sei. – Ela se afastou, cabisbaixa. — Eu não sei de muito... Eu sei o meu nome, pois tenho de saber algo, não...? Eu não sei de muito... Mas sei que vim pelas flores.... É, foi isso... As flores... Mas também há tanto mais para ver...

Ela se foi, vagando por aí, distraidamente.

Sasuke seguiu-a, certo de duas coisas.

Sakura havia se tornado uma deidade sem origem exata. Ela não renasceu, ela surgiu, como muitos deuses que surgiam de algo, de um sentimento, um objeto, uma forte oração ou maldição, um fantasma, ou mesmo um acontecimento de grande escala.

Sua Sakura era uma deusa, mas não tinha ciência disso, ela vagava sem rumo, sem memória, realizando apenas os próprios desejos, pois provavelmente não fora ensinada a realizar os dos mortais, surgiu talvez em meio a um campo de flores, ou num vendaval.

Surgiu sem propósito, pois não sabia o que era, e surgiu longe do acolhimento dos que lhe pudessem dar um.

Somente surgiu, sabe-se lá quando, a quanto tempo, e ele sequer pudera estar ao seu lado.

Agora ela era uma brisa passageira, que não se poderia capturar a não ser que soubesse quem era realmente.

Enquanto vagasse por aí, sem saber que era uma divindade, e fazendo qualquer coisa sem dar-se conta das consequências, ela poderia ser perigosa para todo o equilíbrio, e ainda julgada por isso.

Sasuke não fazia ideia do que estava bloqueando suas memórias e deixando sua mente avulsa até mesmo para perceber que estava ante outro deus.

Só sabia que tinha de segura-la consigo até descobrir como.

Sasuke a viu parar e olhar para o céu, onde algumas pipas bailavam contra a brisa. Ele podia ler em seu rosto, que ela estava se perguntando como seria voar com elas.

— Sakura, fique! – Ordenou, ela sorriu, como despedida.

— Talvez numa próxima vez...?

Ela desfez-se em mil pétalas de cerejeira, um vendaval fascinante que se deixou ser levado pela brisa.

— Maldição....

¤

O mundo humano era caótico, sem dúvida alguma, e cansativo, mas Sakurakouji descobriu que nem tudo nesse caos era negativo.

Ele passou por muitos lugares, perdeu-se por ruas e vielas, algumas enormes e lotadas de pessoas, cores sons e bizarros veículos, o que parecia ser o centro daquele formigueiro, era certamente o ambiente mais maçante onde esteve, mas ainda era fascinante.

Certamente se ele estivesse se sentindo normal, a experiência seria mais proveitosa. O jovem deus sentia-se cada vez mais exaurido.

Resolvendo fugir da vista de tantas pessoas, Sakurakouji migrou em busca dos templos, se algum deus conhecido estivesse por lá, talvez pudesse ajudá-lo.

Era frustrante chegar assim, mas ele não tinha como ter certeza se tudo o que estava lhe passando era normal, nunca havia ouvido sobre nada assim.

Sakurakouji encontrou um grande templo no fim de uma quadra de residências mais tradicionais, no entanto, pareceu chegar ao limite das forças que dispunha, e sentou nos degraus, mal percebeu quando apagou.

¤

Naruto ria e Hinata passava raiva, era mais um dia naquele monótono mundo humano.

Irritada, ela já cogitava acertar a vassoura nele quando ambos notaram um burburinho ecoar pelos corredores do templo.

— Que droga está havendo aqui?! – Indagou rudemente, escancarando a porta da sala que limpava, Naruto gargalhou, mas como não podia ser visto ou ouvido pelas humanas a não ser que quisesse, estas apenas encararam Hinata muito eriçadas e assustadas.

— Pe-perdão, Hinata-sama!

— Posso saber o motivo desse burburinho todo?!

Hinata já estava servindo no templo de Inari em Tóquio a muito tempo, então gozava de alguma autoridade embora detestasse ser vista como mais velha.

Inari não se importou de recebê-la pois tinha muito apreço por seu marido, eram muito parecidos, afinal.

— É que tem um homem! Um rapaz desmaiou nas escadarias do templo!

— Tch, deve ser algum bêbado. – Ela resmungou, Naruto a seguiu, até a sala onde as mortais disseram que haviam abrigado o estranho.

Assim que as portas se abriram, ele sentiu a presença divina naquela sala, e em reflexo, segurou o ombro de Hinata.

— O que foi? – Ela ciciou, ele passou por ela, sério.

— Mande todas elas saírem.

— Huh? – Hinata contornou o futon que estava cercado de mikos.

— Eu lido com isso, você não é mais capaz de perceber, mas, esta pessoa é um deus.

Hinata olhou para o chão finalmente entendendo por que as mortais estavam tão empolgadas. Ela de fato não podia sentir a presença de outro deus que não fosse o marido e carcereiro, nem mesmo notar, era tão alheia a eles como os mortais, mas ela ainda era atenta, e claro que uma vez que um deus se pusesse a frente dela, saberia diferenciar.

Este, inclusive, era impossível não cogitar que era uma deidade, mesmo para as mortais. Era absolutamente formoso, mesmo com uma aparência doente, distinta e vestindo roupas tradicionais.

Suspirou, se perguntando que problema era esse, só esperava não ser prejudicada com isso.

— Vocês, saiam daqui, tragam água e algumas toalhas.

As jovenzinhas saíram, relutantes, mas não encarariam a Hyuuga, ela fechou as portas e Naruto se aproximou do jovem.

— O conhece?

— Estou preso aqui tanto quanto você, esqueceu?

— Arrependido? – Ela bufou, cruzando os braços. Naruto não deu atenção a seu pequeno ataque de drama, ela tinha melhorado bastante nisso, mas ele preferia manter-se firme.

Analisaram o jovem juntos, e se entreolharam, Hinata tocou a testa dele, e recuou como se tivesse tocado uma panela quente.

— Um deus ferreiro? Das cavernas termais? – Cogitou, soprando os dedos ardidos.

Naruto mexeu no yukata que ele vestia, até encontrar um pequeno leque uchiwa.

Hinata arregalou os olhos de modo que ele até riria se a situação não fosse crítica.

— É um deus do fogo. Esse menino é a prole de Kagutsuchi.

¤

— Mas nem pensar!

— Eu não vou demorar. – Naruto admoestou, vestindo um casaco. — Vou encontrar Sasuke, e trazê-lo até aqui, ele pode estar preocupado.

— Ele pode estar furioso e eu não quero encontra-lo nem ser encontrada por ele dessa forma!

Naruto não a culpava, certo, a culpava um pouco. Primeiramente foi ela quem criou toda a atmosfera de inimizade de Sasuke para consigo.

Mas era fato que Sasuke poderia estar mesmo irado em busca de sua criança, era tudo o que ele tinha, afinal.

No entanto, o chão ainda estava firme sob os pés deles, o que poderia indicar que Sasuke nem mesmo sabia que o menino estava na terra mortal.

Naruto também deveria ter dado mais atenção quando o vento avisou que uma deidade pisara nesta terra pela primeira vez.

De qualquer forma, precisava encontrar Kagutsuchi logo, o rapaz não estava muito bem, e nem era uma ideia inteligente tentar ocultar isso.

— Apenas vigie-o e seja cordial, certo? Sasuke pode estar zangado, mas não será irracional. O garoto correrá risco maior lá fora.

Hinata sacudiu a cabeça, inconformada.

Tudo finalmente estava indo bem, mesmo Naruto estava mais gentil com ela, e já começava a se dar esperanças de voltar para casa.

Mas, aquela criança tinha que aparecer justo agora?

Definitivamente era filho de quem era. Tinha certamente puxado o talento da mãe dele para atrapalhar Hinata.

— Volte logo. – Ralhou. — Ou farei um banimento nele!

— Isso só dá certo com corrupções, tola. – Naruto riu, e então partiu.

Para ela era tudo a mesma coisa, Sakura Haruno ou a cria dela, manchas que corroíam o caminho de Hinata.

¤

— Kagome, Kagome, o pássaro na gaiola...

As crianças cantarolavam, enquanto giravam numa roda.

Sakura estava no centro escondendo os olhos com as mãos, tão ansiosa quanto a criança mais boba.

— Quando você vai se libertar?

Sasuke contornou uma árvore, observando a distância, seguiu a essência de Sakura pelo vento, perguntou às pedras mais antigas e aos ayakashis que viviam na região.

Simplesmente não havia muito a coletar, Sakura nunca ficava muito em um lugar, era no máximo vista como uma pequena deusa que mais se manifestava na primavera, mas aparentemente alguns humanos já haviam se deparado com ela.

A que nível se deu essa interação e se ela marcou a memória mortal não havia como saber ainda.

— De madrugada, antes do amanhecer

O grou e a tartaruga escorregaram e caíram

Quem está atrás de você agora?!*

Como até as crianças já esperavam, ela errou a resposta. Elas riam e saíram correndo para brincar de outra coisa.

Sasuke se afastou da árvore indo em direção a ela, mas parou quando o ventou entornou a sua volta.

Sakura já desaparecia, caminhando sem rumo, desfazendo-se em flores novamente.

Sem que ele pudesse alcança-la.

— Espero que tenha bons motivos para me interromper. – Exigiu.

Naruto se empertigou atrás dele, quando viu flores surgirem no ar e uma presença divina se afastar e sumir.

— Não... Pode ser...?

Sasuke se voltou para ele, no rosto uma expressão de raiva e derrota inconformadas, cada vez mais obscura.

Naruto compreendeu porque ele não estivera tão atento a passagem do filho, e não o culpava.

Mas não podia somente recuar agora.

— Preciso que venha comigo.

— Talvez depois. – Ele rebateu, dando as costas.

— Seu filho, Sakurakouji, certo? Ele está aqui!

— Como suspeitei, mas ele veio sem permissão, lidará com as consequências...

— Ele já está lidando. – Naruto insistiu, segurando seu ombro. — Ele precisa de você agora. Sei que quer muito levar a mãe para ele mas... Sakura ficaria mesmo satisfeita se sua procura se interpusesse a seu filho?

Sasuke olhou para a frente, ciente de que se não fosse agora, talvez levasse anos para voltar a encontrar seu rastro. Ele não poderia suportar mais um dia sem olha-la novamente, nem sequer a tocou.

Inspirou duramente, e fitou Naruto por sobre o ombro.

— Leve-me até ele.

¤

— Com licença... Mas... Quem é a senhora?

Hinata esganou a toalha molhada entre as mãos ao ouvir aquela palavra.

Bufou, aborrecida e atirou o pano úmido na fuça bonita dele.

Sakurakouji ainda tonto, viu tudo escurecer, confuso, tateou o rosto, vendo a mulher se levantar, bufando.

— Pare de falar e descanse, até sua visão está ruim!

— Onde estou?

— No templo de Inari Taishô, então mantenha respeito.

— É...? Ah, Kurama ia gostar de estar aqui... – Ele comentou, deitando-se novamente, cansado.

Hinata o observou de soslaio.

— Humpf... Imagino que continua um rabugento...

Kouji dormiu logo, mas sua temperatura apenas parecia aumentar, ela teve de remover os ricos adereços de suas vestes antes que derretessem nele.

Talvez por estar com seus poderes lacrados, e numa forma humana vulnerável, estar perto de um deus de poder tão perigoso e ainda neste estado, a estava deixando mais assustada do que encarar o pai dele em pleno vigor.

No entanto, não podia negar que ao menos dormindo o garoto lembrava muito a face serena do pai. Havia puxado seu rosto em talhes um pouco mais suaves e delicados, e o tom de pele menos leitosa, corada ao tom de quem pegava os sóis da primavera com frequência.

Quando Naruto não estava por perto, Hinata sempre arriscava um feitiço ou outro para tentar ouvir os sussurros das tennyos no vento e ficar sabendo das novidades do outro lado.

Foi assim que soube do nascimento dessa criança. Num instante elas cantavam e regozijavam a beleza da honorável criança noutro, lamuriavam que cresceria sem mãe.

Os céus se converteram num caos tão profundo que ela quase ficou grata de estar longe e temeu por décadas que Sasuke viesse descontar sua tragédia nela. Hinata sabia qual parte teve nisso.

Se não houvesse tentado separar tanto o casal, talvez eles não tivessem ido tão longe para provarem sua união. Talvez este rapaz diante dela nem tivesse nascido ou ao menos tivesse tido a mãe por mais alguns anos de mortalidade.

Sentou sobre os joelhos, observando-o, percebendo que seus pecados haviam dado um jeito de encará-la novamente.

Hinata ainda detestava seu castigo e ainda tinha certo rancor daqueles que a confinaram nele. Mas aperceber-se de que atingira até mesmo a sorte de uma criança de forma tão profunda, e estar diante dela agora, a fez lamentar pela primeira vez o que havia causado sem ser por si mesma ou por sua relação com o marido.

Porém, descobriu que ainda havia muito orgulho dentro de si para desculpar-se nesse momento.

Um dia talvez. E talvez ela se desculpasse corretamente com mais gente além do menino mesmo que ainda só se compadecesse dele.

— Pode criança. – Suspirou.

— Seus lamentos são dispensáveis.

A voz cortante e ardente do senhor do fogo atrás dela a fez rastejar pelo tatame até a parede encarando a face obscura de Sasuke com pavor.

Tremeu dos pés aos cabelos só de pensar que estava diante ele sem a proteção de Naruto mas seu marido estava atrás de Sasuke, com um olhar cauteloso.

Sasuke deu um passo em direção ao filho ainda avaliando Hinata e torcendo o nariz.

Poderia ser somente por conta do desgosto que ela já o havia causado. Mas Hinata ainda era muito orgulhosa e vaidosa e se remoeu de humilhação ao se ver diante do grandioso Kagutsuchi em uma forma tão parca e modesta.

Escondeu o rosto, temendo mostrar as imperfeições da carne humana que habitava e correu para se esconder atrás de Naruto.

Sasuke norteou a atenção para o filho e se agachou, examinando-o.

— Já estava assim quando o encontrou?

Naruto não ignorou que ele estava realmente irritado por ver Hinata, mas sabia que não podia culpa-lo depois do que viu.

Sakura estava levitando sem rumo numa forma divina e sem propósito, o filho dele estava adoentado e deparar-se com Hinata certamente estava longe de ser um bálsamo para Sasuke.

— Sim, estava, as sacerdotisas o encontraram. Sabe do que se trata? Em minha primeira vez aqui, senti-me apenas um pouco indisposto...

— Ele foi tocado por impurezas. – Sasuke suspirou. — Estão crescendo dentro dele como uma infecção, ele precisa ser purificado ou vai ser devorado de dentro para fora.

Kouji virou para o lado, começando a tossir sangue negro.

— A passagem o deixou ainda mais vulnerável ás impurezas. – Sasuke se apressou a puxar o corpanzil do rapaz, não somente lamentando ele não ser mais um menino de como também por ter herdado sua constituição alta.

Naruto o segurou pelo outro ombro.

— Que tal a água dos poços daqui?

— Não sei se será forte o suficiente. Precisaremos de uma miko ou um sacerdote com dons de exorcismo.

— Va-vão acabar se infectando também! – Hinata avisou, alarmada.

Em seguida um rugido baixo, mas que reverberou pelas paredes do templo os pegou de surpresa.

— Isso foi...?

— Temos que fazer isso logo. – Sasuke declarou. — Ele está frágil mas emana muito poder, vai começar a atrair todas as corrupções dos arredores, os ayakashis malignos já estão cientes disso.

— Virão como moscas e Inari não está aqui para expurgar o templo!

— Esqueça Inari, mais um deus aqui e será um verdadeiro banquete. Vamos levá-lo ao poço, e o manter lá, mergulhado, enquanto procuramos um exorcista.

— Tudo bem... Hinata? – Naruto a fitou confuso ao vê-la vestir um casaco por cima das roupas de miko.

— Posso encontrar o exorcista, ponham o garoto no poço, inspirem as mikos a orar e protejam o templo.

Sem dar tempo para ser impedida, ela saiu da sala, eles se entreolharam, e levaram o rapaz para fora do templo, no pátio.

¤

— “Posso encontrar o exorcista” — Hinata repetiu, indignada, vagueando pelas ruas dentro de um casaco, sentiu-se a criatura mais tola do mundo. Havia esquecido que ninguém ofereceria a mão a ela por conta de seus crimes. E ainda teve que ouvir que era uma mentirosa quando tentou se explicar.

Cansada de andar, sentou-se numa fonte, e encarou o próprio reflexo. Merecia mesmo tudo isso? Não havia sido o bastante? Só desejava voltar para casa, nem que fosse sozinha agora.

Até quando o carma de suas ações negativas pesaria sobre ela?

— Ora o que temos aqui? Uma deusa tão bela quanto orgulhosa. – Uma forma masculina sorriu para ela de dentro do reflexo da fonte.

Hinata bateu na água e se ergueu, partindo, ouvindo sua risada. Ele saltou da água e seguiu-a, risonho.

— Não deveria estar boiando no reino do seu senhor Susano’o?

— Lá é severamente entediante ás vezes, senhora. Mas diga-me por que choras? Talvez esse humilde deus possa auxilia-la?

— Qual seu nome?

— Depende de qual quer saber, hehe. — Hinata apertou os olhos irada e o encarou, então se espantou e quase desesperada, temendo ele se dissolver e sumir agarrou-o pelas roupas.

— Você é um deus da água!

— Isto é uma pergunta...? E-ei! – Exclamou ele, quando ela passou a arrastá-lo consigo.

— A água é o elemento mais purificador que existe, mais até que o fogo!

— Oe! Oe! Que conversa é essa?!

— Venha logo, seu palerma! O destino do mundo está em jogo!

— Hein?

Hinata seguiu o arrastando, exultante de alegria, vai que com sorte ela até conseguisse revogar sua pena junto a Izanagi. Afinal, estaria contribuindo para salvar seu honorável neto.

Andando apressada e ignorando as reclamações do pequeno deus, ela acabou tendo a impressão de ter quase trombado em alguém, chegou até a desviar um pouco mas foi como se de repente não houvesse nada além de fios de cabelo claros sacudindo ante sua vista e um rarefeito perfume de papoulas.

Hinata parou e olhou para trás, intrigada mas não havia ninguém perto o suficiente.

Ainda assim, jurou ter também ouvido uma canção baixinho na brisa.

Seriam as tenyos? Não, ela não era capaz de ouvi-las em sua atual forma. Hinata estava muito mais próxima aos humanos agora.

Cega e surda tal qual a maior parte dos humanos era para o outro lado, embora ainda houvessem alguns aqui e ali com habilidades para enxergar um pouco mais além e ouvir mais alto... O que para eles não seriam mais do que... Sussurros divinos.

¤

Sakurakouji abriu os olhos fracamente e fitou o céu claro que ardeu em sua visão.

— Quem... Quem está cantando...? — Balbuciou.

Naruto e Sasuke se aproximaram do poço, a água não se encontrava funda demais de modo que Kouji permanecia submerso até o peito. O pai se inclinou, tocando sua tez.

— Ainda muito quente, mas um pouco... – Explicou á Naruto.

— Papa...? – O jovem ciciou.

Aa, descanse.

— Argh, Hinata está demorando demais. – Naruto reclamou.

— Papa...- Kouji repetiu, Sasuke afagou seu cabelo, recordando da época em que o rapaz ainda era um menininho rechonchudo e manhoso que o seguia para todos os lados pedindo colo, doces ou simplesmente uma história, para em seguida o olhar cheio de admiração e orgulho por ser filho do deus do fogo.

Sim, sentia bastante falta dessa época, e ao lembrar-se de que estivera a centímetros de dar ao filho o que mais desejava, fazia a lembrança tornar-se agridoce.

— Estou aqui. – Avisou, suavemente.

— Papa... Quem está cantando...?

Sasuke apertou as sobrancelhas, sem entender e fitou Naruto que estreitou os ombros, também sem respostas. Ambos só ouviam o som baixo das mikos orando fervorosamente dentro do templo.

Apurando mais os ouvidos, ele levou um tempo, pois mesmo que traga somente pela brisa, a voz estava mais e mais distante. Tendo um flash de recordações, Sasuke se viu parado no campo de higanabanas que cercava seu castelo, o sol brilhava a tino, e as noivas também no alto céu anil do reino do fogo, ele junto ao canto dos pássaros, ele também ouvia a voz da sua jovem flor de vida curta, cantarolando enquanto passeava pelo campo à frente dele, sem noção de sua presença.

Instintivamente buscou olhar ao redor, mas a voz dela feneceu ao vento.

— Está aqui.

— Quem? — Naruto indagou.

— EEEEI! — Ouviram Hinata gritar, ela apareceu a entrada dos fundos do templo, acenando acima do muro baixo, tão esbaforida que estava vermelha e descabelada, puxou alguém pelas roupas e arrastou até poder atirá-lo aos pés dele e apontar, orgulhosamente.

— Aqui, o exorcista!

— Hein?! – O deus aquático resmungou enquanto se aprumava. Kagutsuchi o analisou–o. Inegavelmente levava traços semelhantes aos dos deuses da água e por isso evocou facilmente a habitual antipatia de Sasuke para com esta classe.

— O que a faz achar que ele seria adequado? – Dirigiu-se para Hinata.

— A água é o elemento purificador mais poderoso. – Ela rebateu, assinalando o argumento apontou a água onde Kouji estava imerso.

O deus da água olhou para ele, surpreso e se aproximou do poço com cautela.

— Nossa, isto está feio.

— Acha que pode tirar a mancha dele? Está crescendo mais á cada hora. – Naruto disse.

— Eu não tento fazer algo assim há séculos. A quanto tempo ele está infectado? Dias?

— Horas. Ele atravessou o véu para cá pela primeira vez, imprudentemente. – Kagutsuchi declarou, suspirando.

— Entendo...

— Pode ou não fazer algo?! – Hinata ralhou.

— Um por favor não mataria, sabe? Bem, tentarei, mas uma coisa é certa. Precisará de muito, muito mais água.

— De acordo. — Sasuke declarou. — Mas mais uma coisa. — Voltando-se para Naruto, ele estreitou os olhos com seriedade. — Pode contatar Gaara para mim?

¤

A água ferveu quando entrou em contato com Sakurakouji, ele afundou até praticamente desaparecer no fundo do rotenburo* artificial de um grande hotel de luxo de Tóquio, nunca os excessos dos mortais pareceram tão úteis como agora. Sasuke suspirou, um pouco mais relaxado agora que via as impurezas borbulharem para fora do corpo do filho em grandes bolhas escuras e fétidas.

Olhou ao redor, notando como o local fora construído para parecer completamente natural, com rochas e plantas postas estrategicamente numa sala fechada. Torceu o nariz para a arrogância humana ao tentar recriar obras como a dele e de seus pais.

Suigetsu entoava um cântico antigo, fazendo as impurezas partirem enquanto a conexão de Kouji com a água quente fazia o resto.

— Porque precisa de Gaara? Ele não é um dos que aprecia muito vir a esse lado. — Hinata perguntou, desconfiada.

— Preciso dele para uma tarefa.

— Tarefa?

— Aa, capturar um deus. — Hinata o encarou com os olhos arregalados.

— Yosh, parece que terminei por aqui! — Suigetsu gritou, esfregando as mãos, ambos olharam pra a água, Sakurakouji emergiu, parecendo acabar de acordar, encharcado e soltando vapor, caminhou para a beirada, olhando para as mãos, um pouco confuso.

— Eu... Onde estou? — Perguntou, olhando ao redor. Kagutsuchi se aproximou, e finalmente percebendo-o ali, o rapaz recuou um passo, temeroso.

O pai o puxou com um braço, envolvendo-o num abraço firme, inspirando profundamente.

— Que bom que está bem. Não sabia o que faria se não estivesse.

Kouji o abraçou com a mesma força de quando ainda era pequeno.

— Me desculpe. — Ciciou. Sasuke afagou seu cabelo e assentiu.

— Veremos sobre isso mais tarde. — Avisou, o rapaz não podia contestar isso. Sasuke olhou para os outros, e o rapaz notou que não estavam sozinhos mesmo.

— Ah, você é aquela tia de antes! — Apontou Hinata, esta inflou de ânsia de arrancar aquelas bochechas divinamente bonitas mas se conteve, forçando um sorriso.

— Yo, você se meteu numa boa, hein? Sorte que eu estava aqui. — Sui disse, Sakurakouji o fitou, instintivamente torcendo o nariz para a presença de um deus da água.

Sasuke se orgulhava da maior parte dos ensinamentos que passou ao filho, e sim, este era um deles.

— O que aconteceu enquanto estive dormindo? — Indagou, enquanto evaporava a água da roupa ao caminhar, deixando uma nuvem embaçada pra trás ao seguir o pai.

— Além de quase ter sido comido por impurezas?

— Ah... — Kouji riu, nervosamente, de fato seu pai ainda estava irritado por sua desobediência.

Agora restava saber como faria para não ser despachado de volta para casa antes que sequer tentasse encontrar a mãe.

Ao concluir este pensamento, sentiu uma vertigem e parou, abaixando-se, tocou as próprias têmporas e sentiu uma dor dilacerante atacar a cabeça.

Sasuke se virou, ao sentir a poderosa força obscura e suja que emergiu da fonte na forma de um golem negro.

Hinata se afastou, assustada, mesmo ela sentia perfeitamente do que aquela coisa era feita.

— Como isso foi ficar assim?!

— As impurezas nele, eram tantas que agora nem precisam devorá-lo para tomarem essa forma. — Sui disse, também recuando. O golem jogou um braço na direção de Kouji e Sasuke fez uma parede de fogo entre eles, a criatura recuou urrando de dor e ele usou esse tempo para puxar o filho em direção a saída.

— Não precisa, mas ainda o quer. Vamos.

Os quatro atravessam o hotel, Suigetsu apressadamente conjurou um feitiço fazendo água cair do teto e assim, dispersar as pessoas que se molharam. Uma sirene aborrecedora também ecoou, e mais gente fugiu para fora do complexo.

Parados no meio da rua, observaram o tumulto criado.

— O que vai acontecer com aquela coisa? E por que minha cabeça doeu tanto? — Kouji indagou, ainda atordoado.

— Foi criado a partir de uma parte de sua energia vital que foi sugada, então ele quer mais, e vocês estão ligados, quase como se fosse uma cria sua. — Sasuke explicou, e fitou Sui. — Não deveria ter dado um jeito nisso também?

Sui mostrou as mãos e encolheu os ombros.

— Eu disse que poderia retirar dele, nunca exorcizei um deus da sua estirpe, o problema é que vocês primordiais e suas crias são verdadeiras “sementes de criação”.

Sasuke suspirou, não podendo realmente discordar, mas este era um contratempo desagradável. Olhou para o céu, sem ver sinal de Naruto, tampouco.

— O que fazemos agora?

— Não podemos permitir que aquilo fique à solta, é uma ameaça ao equilíbrio desse lado. — Sasuke declarou, puxando uma espada de uma brecha no ar.

— Então é melhor correr, pois parece que mais alguém chegou para resolver sua bagunça. — Suigetsu alertou, apontando para o alto de um prédio.

Sasuke estreitou os olhos então os abrindo espantado.

— Não é um deus qualquer...- Jogou os olhos em direção ao filho, que o encarou, atônito. — É a sua mãe.

Sakurakouji recuou golpeado, ofegando, jogou os olhos na direção da silhueta de cabelos longos parada no topo do prédio e imediatamente saltou para o poste.

— Não vá ainda! Não com aquela coisa por perto, ela quer você. — Sasuke ordenou.

— Minha mãe também é parte de mim. — Kouji rebateu, saltando e apoiando os pés na parede pegou um impulso mais poderoso e alcançou o topo.

Kagutsuchi e Suigetsu o seguiram, chegando lá, uma brisa forte misturava o perfume de flores e podridão das impurezas, o golem parecia ainda maior.

— Sinceramente eu não sei mais se quero continuar aqui...- Sui comentou.

— Se começou vai terminar. — Sasuke avisou, vasculhando o local com os olhos.

— Ugh... Ela vai me matar..- Sui resmungou, puxando uma enorme espada.

O golem os atacou, puxando o filho para trás de si, o deus atingiu o braço da criatura com um golpe da espada flamejante.

O golem recuou para trás, tropeçando enquanto as chamas continuavam ardendo no corte e o consumindo aos poucos. Olhou para eles e ganiu tão alto que poderia ensurdecer tudo e Kouji sentiu como se ardesse e doesse no fundo do peito e da cabeça.

— Por que dói tanto?!

— Não tem outro jeito. — Sui lamentou. — Mas você deve sobreviver, certo?

— E pergunta a ele? — Sasuke se indignou, furioso. Daria fim nisso de uma vez por todas. Farto de ver os seus sofrendo.

— Aaah, pobrezinho. Por que o machucam assim? — A voz feminina ronronou, chateada. Um tornado de pétalas formando-se diante do golem e tomando a forma de Sakura.

Ela olhou para a criatura com muita pena, e tocou sua superfície corrompida, com carinho.

— Não faça isso! Vai corrompê-la também!

Ela continuou encarando a criatura, condoída, e esta ganiu ao seu toque como um filhote fragilizado e faminto de atenção.

— Pobrezinho, tudo o que você quer é uma mãe? Deixe-me cuidar disso para você... Todo esse abandono e dor...- Disse, literalmente abraçando-a. — Deixe-me tomar conta dela para você. — E desapareceu engolida pela massa pútrida.

O golem cresceu três vezes mais e antes que algo pudesse ser feito, tudo aquilo explodiu em milhões de pétalas que foram carregadas pela ventania, praticamente os cegando.

Sakura pousou mais a frente, em um vestido tradicional, uma espada na mão e uma bainha de couro e jade na outra.

— Dessa forma, não irá doer mais. — Disse com um suspiro.

Sasuke se aproximou dela, não sabendo se simplesmente a admirava ou observava melhor a espada em suas mãos.

— Que tipo de... Deusa você se tornou, afinal? — Ela o fitou, novamente como se buscasse puxar de memória se o conhecia, jogou os olhos na direção de Kouji, ele se aproximou nervoso e acanhado, ela pareceu sentir mais simpatia por ele, olhando para seus cabelos. Sorriu, e desapareceu noutra leva de flores.

— Ah! Aonde ela foi?!

Sasuke meneou a cabeça.

— Quem sabe, ela é inconstante.

— Como é? Ela nem reconheceu você?

— Não, algo afetou ou está afetando sua memória, talvez nem tenha. Estava tentando localizá-la quando você chegou, mas é complicado.

— Uma deusa errante? Faz tempo que não ouço falar. — Sui comentou.

— Não há como saber se é errante até que termos mais respostas e para isso, precisamos dela.

— Como fará isso se nem consegue evitar que ela fuja de você?! — Sasuke olhou para o filho.

— Por que acha que ela fugiu de mim? — Kouji cruzou os braços.

— De mim é que não foi.

Sasuke bufou e deu as costas.

— Sabia que deveria ter sido uma menina.

— Huh?!

— Vamos, precisamos encontrá-la.

— Ela pode estar por toda parte...- Suigetsu avisou.

— Então vamos pegar cada uma.

¤

Parecia uma espécie de conciliábulo de deuses, Hinata faria questão de evitar ser vista nesta forma desagradável, se pudesse, mas aparentemente, alguém tinha que servir o chá.

Chegou até a porta, inspirou profundamente e entrou na sala, tentando fazer o sorriso mais natural possível.

— Oooh, se não é Hinata-gami, que forma humilde, huh? — Gaara No Sabaku comentou, com a boca cheia de bolinho de arroz.

Hinata apertou a bandeja de madeira e quem estava perto poderia jurar que ouviu-a ranger.

Gaara era um deus da terra que não tinha a melhor fama em se tratando da forma de falar. Quando não estava tirando longos cochilos junto de seu amigo astuto e rabugento tanuki chamado Shukaku, estava sempre irritando alguém com sua falta de noção.

Kagutsuchi tampouco um dos que apreciava sua companhia ou língua solta, estava mais interessado em sua cabaça que diziam ser capaz de prender qualquer coisa, de qualquer tamanho dentro de si.

O que lhe parecia muito útil a seu propósito.

Hinata serviu o chá a todos, no fim, a irmã de Gaara, conhecida como princesa dos ventos acabou resolvendo meter o nariz também e veio junto e observava Hinata com um sorrisinho irritante.

Humilhação ardia no interior da deusa lunar, mas espernear não mudaria absolutamente nada agora.

— Ainda acho que o melhor a fazer é nos dividirmos e procurar. — Naruto insistiu.

— Ficar passeando entre os humanos assim é perigoso, hora ou outra eles vão notar, e aquela coisa de antes já remexeu o suficiente com o equilíbrio. — Sui disse.

— É verdade, até eu senti. Me tirou do cochilo da manhã. — Gaara afirmou, bocejando.

— Seu cochilo da manhã já durou manhãs o suficiente. — Temari ralhou.

— Se continuar assim, cedo ou tarde essa confusão pode se tornar irreversível. — Shikamaru afirmou. — A kitsune e o tanuki não foram farejar atrás dela?

— Se não estiverem muito ocupados brigando entre si, pode ser que encontrem uma pista. — Sasuke reclamou, aborrecido. Naruto coçou a cabeça, sem graça.

Kurama resolveu ser o primeiro a encontrar Sakura, mas Shukaku, seu velho rival, tinha que implicar que faria isso primeiro e ambos saíram em disparada. Não raro acabavam entrando em confronto, então só restava torcer para que não estivessem se engalfinhando pelas ruas de Tóquio e esquecido suas missões.

— Se ela se tornou mesmo uma deusa. — E Hinata ainda tinha suas dúvidas, por pura implicância, admitia. — Não seria mais fácil invocá-la?

— Como invocar um deus que não se conhece? — Temari rebateu.

— Mesmo um deus que surge acaba ganhando uma crença e por tanto, uma invocação. Talvez só não tenham descoberto qual. — Hinata mandou de volta e ambas se fulminaram com o olhar.

— Para saber qual, precisaríamos saber quem a invocaria. — Sasuke cortou. — E em se tratando de um deus errante, qualquer um pode ser um crente. Ela pode ter ajudado ou prejudicado qualquer um em nome de qualquer outro.

“— Pobrezinho, tudo o que você quer é uma mãe? Deixe-me cuidar disso para você... Todo esse abandono e dor... Deixe-me tomar conta dela para você.”

— Crianças. — Kouji se levantou espantando Hinata, que era muito baixinha perto dele. Kagutsuchi o fitou, sem entender.

— Crianças?

— Sua esposa morreu sem ser mãe. — Shikamaru lembrou-o, cuidadosamente. — As deusas são sempre muito sensíveis às crianças.

— Nem todas. — Temari comentou, empinando o nariz.

— Crianças...- Sasuke refletiu, condoído. Seria isso que sua Sakura estava buscando? Uma criança para acalentar, algo para preencher o vazio que acabou por levar para a morte?

— Mas se ela preferisse crianças, estaria onde estão as crianças e não solta por aí. — Hinata avisou.

— Não crianças vivas. — Gaara disse, olhando para o teto distraidamente, enquanto deitado no tatame, todos apenas torceram para ele ser capaz de completar o pensamento antes de cair no sono. — Crianças mortas, elas estão em todos os lugares...- Bocejou.

De repente, ouviram o som de grasnados e arranhões. Kurama e Shukaku atravessam a janela embolando-se e grunhindo furiosamente, pousaram no tatame e muito indignada, Hinata separou-os cada um para um lado com um bom chute.

— Pestes!

Shukaku correu para cima da cabeça de Gaara que se sentou, nitidamente após um cochilo de segundos e Kurama correu para escalar até o ombro de Naruto.

— Mulher louca! — Hinata ameaçou-o com a bandeja.

— Kurama! É bom terem encontrado alguma coisa! — Naruto reclamou.

— Claro que eu encontrei. — O tanuki gabou-se, Kurama rosnou para ele.

— Encontrou porcaria nenhuma! Eu peguei o cheiro primeiro! Ela ainda cheira à lótus depois do banho!

Depois do banho? — Sasuke indagou, ameaçador, e raposa encolheu as caudas, assegurando-se de não perdê-las.

— E onde ela está?! — Kouji interrompeu.

— Ela some facilmente, mas agora tenho o cheiro, o vento está indo muito para oeste é para onde ela se deixa seguir, ela para com frequência, sua essência está sempre misturada com...

— Essência de alma? — Shikamaru disse, Kurama o fitou, surpreendido, e ele encarou Sakurakouji. — Talvez tenha razão. Ela ajuda as almas a atravessarem, mas só as que mais simpatiza, as que a despertam a maternidade.

¤

— Oh, pobrezinho. — O garotinho pálido parado em frente à delegacia de polícia já a tanto tempo, achava que ninguém poderia mais enxergá-lo, até seus pais foram embora, como se não o vissem, ele ficou lá torcendo para eles voltarem, até dar-se conta de que não era capaz mais de sair.

A moça ofereceu-se uma mão gentil e calorosa, e ela própria brilhava e cheirava a primavera.

— Venha conosco, vamos todos a um lugar maravilhoso.

— Mas, otou-san, okaa-san...?

— Está tudo bem, eles vão ficar felizes se souberem onde estará, onde todos estarão.

Ele refletiu ainda receoso, mas recordando a visão dos pais chorando tanto ao entrarem no taxi, percebeu que isso poderia querer dizer que assim como ele não conseguia encontrá-los, eles também não poderiam ir até ele. Se era assim, se pudesse estar num lugar melhor, isso ao menos serviria de consolo, para ambos.

Pegou a mão dela que segurou no colo e se virou, caminhando pela rua em direção ao sol poente. Ele adorou o cheirinho e cor de seus cabelos, e olhou para trás, vendo dezenas de crianças pálidas os acompanhando alegremente, enquanto ela cantava.

— Kagome, Kagome, o pássaro na gaiola...

Quando você vai se libertar?

¤

Haviam muitos cemitérios em Tóquio, exatamente por isso era complicado adivinhar em qual Higan-gami poderia estar, e mais ainda, onde poderia haver o velório de uma criança.

Caminhando entre as ruelas de túmulos antigos, Kouji percebeu que a morte humana não era tão desagradável ou triste quanto os deuses faziam parecer. A morte era totalmente anti natural para um deus, mas assim como condenados a esta estabilidade que cedo ou tarde pode se converter em milhares de possibilidades, os humanos eram condenados a uma existência dupla, uma encarnação e uma morte, e o que faziam no tempo de um, podia influenciar na sua vida em outro.

A dualidade era curiosa para o jovem deus, os deuses podiam ser milhares de coisas e seres ao mesmo tempo, no entanto, essa limitação humana lhe parecia muito mais enigmática quando observava a quantidade de coisas que os humanos podiam fazer com ela, sem mencionar a limitação do tempo que era gigantesca se comparada a um deus.

Honestamente, Kouji não duvidava que muitas das pessoas enterradas aqui, juntas ou separadas, houvesse feito mais coisas em seus curtos tempos de vida do que alguns deuses enfadonhos que ele lidou.

Nem mesmo a dádiva da imortalidade parecia justa, nesse aspecto.

Seguindo entre os túmulos, ele parou notando uma lápide estreita e bastante nova, comparada as outras, o incenso ao pé dela estava apagado, talvez pela brisa, mas lamentou ver as flores tão murchas.

Abaixou-se, lendo a inscrição no mármore que indicava ser uma mulher de vida relativamente curta até para os humanos.

— Quem é você? — Olhando por cima do ombro, ele deparou-se com um garotinho de bochechas grandes, rosadas e cabelo escuro, segurando um vaso com flores relativamente pesado demais para ele.

Ignorando seu silêncio, o menino se aproximou da lápide e trocou os vasos, ajeitando as flores novas com esmero e tirando uma caixinha do bolso, usando palitos com os quais lutou para obter fogo até ficar frustrado.

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Quando percebeu o que ele queria, Kouji aproximou o dedo dos incensos, esfregando as pontas até seu calor reascendê-los, diante os olhos chocados do garotinho. Encolheu os ombros.

— Mágica.

— Quem te ensinou?!

— Hmm, meu pai?

— Legal! — Ele encolheu os ombros em seguida, cabisbaixo. — Meu pai não liga mais para mim. — Jogando um furtivo olhar para a lápide, deu a resposta para Kouji, que suspirou.

— Ele deve sentir falta da sua mãe, só isso. — Kouji se viu repetindo as palavras que sempre recebia das pessoas quando sentia o distanciamento do pai ou mesmo que era culpado por isso. E assim como não o consolaram, também não consolariam o menino.

Este pegou o vaso com as flores murchas e olhou para ela, suspirando.

— Preciso ir, fugi da escola e gastei todo o dinheiro do lanche nisso...

— Hm, boa sorte, o que vai fazer com as flores?

— Jogar fora? Se ao menos aquela canção que vivem cantando por aí desce certo...

— Canção?

— Não conhece? Toooodo mundo na escola fica usando para as flores não murcharem, nunca vi dar certo.

— Nunca ouvi falar, se bem que não sou daqui...

Um pouco mais empolgado, o garotinho pousou o vaso no chão.

— É bem assim! Você junta as mãos bem forte e pede com todo seu coração: Higan-sama! Higan-sama!

— Huh?

Onegai! Não deixe a primavera morrer até o que o outono possa chegar, não deixe que as flores encontrem suas folhas, ou os amantes irão separar! Higan-sama! Higan-sama! Onegai! — Quando terminou, ele olhou muito orgulhoso para Kouji, talvez por que havia conseguido se lembrar do poema todo, este se agachou novamente e o segurou pelos ombros, encarando-o afobado.

— Onde aprendeu isso?!

¤

— Isso é mais difícil do que parece, hein? — Shikamaru suspirou, quase invejando a capacidade de Gaara conseguir andar e dormir ao mesmo tempo.

— Eu disse que não havia nada por aqui, essa raposa velha perdeu o faro. — O tanuki comentou, debochado, do topo da cabeça sonolenta de Gaara.

Kurama se limitou a um rosnado e a continuar farejando o chão do cemitério. Então deveria ter certeza que estava numa pista quente.

Sasuke suspirou, olhando para a melancólica paisagem do cemitério, era tudo muito plácido, mas carregado de um ar de despedida que ele não era capaz de assimilar. Ele nunca esteve conformado com a morte, nem mesmo um único dia, desde que a conheceu.

— Estando certo ou não, ainda prefiro que nossa isca esteja preparada. — Disse, jogando um olhar para a forma infantil e rechonchuda de Naruto, acompanhando-os de braços cruzados e muito mau-humor.

— Por que diabos eu tenho que ser a isca?!

— Olhando bem, nem eu sei.

Aonde que essa forma poderia ser atraente para sua Sakura? Era desagradável cogitar isso.

— Tsc, ela vai me amar! Mas ainda acho que seria melhor usar Sakurakouji.

— Hm.

Kurama levantou a cabeça de uma vez, as orelhas eretas.

— Está por aqui! — Exclamou, e saiu correndo, saltando pelos túmulos.

— Oe! Kurama! Mais respeito! — Naruto gritou, fino como uma criança e tentou segui-lo. Algumas curvas mais a frente, avistaram três espíritos de crianças, pálidas e com expressões ainda um pouco perdidas olhando para cima.

Sakura os fitava com muita doçura no olhar, sorriu e acenou para eles, que concordaram, desaparecendo em seguida como orbes de luz que subiram para o céu.

Muito satisfeita ela deu as costas pronta para partir também.

— Droga, ela está indo! — Naruto reclamou. — Temos que fazer alguma coisa!

— Correção. — Disse Shikamaru.

Você tem. — Sasuke completou, ambos agarraram o menino deus e o atiraram no ar, fazendo-o cair no chão, rolar entre os túmulos até os pés de Sakura, que o fitou, surpresa.

— Hum? — Indagou, interessada.

— Rápido, acorde ele. — Sasuke ordenou para o tanuki, este assentiu, dando um tapa vigoroso na testa de Gaara, que ainda demorou um pouco para abrir os olhos.

— Hum? Quem é você, pequeno? — Sakura perguntou, gentilmente, Naruto se levantou, vermelho de indignação, olhou para trás, prometendo vingança e sorriu para ela, estendendo os braços.

— Estou perdido!

Sakura o avaliou, um menino de cabelos dourados como o sol, olhos azuis como o mar e lindas bochechas marcadas que a faziam lembrar lindas e fofas raposas.

Pegou-o no colo, decidida.

— Oh, tudo bem, será meu então.

E foi embora, para a indignação de Hinata que espiava tudo de atrás de alguns túmulos.

— Seu coisíssima nenh-! — Guinchou, mas Temari, calou-a antes que fossem notados.

Sasuke esfregou o rosto, decidindo que arrancaria um braço de Naruto mais tarde.

Naruto não fazia ideia do que fazer, pois parecia que o plano estava dando certo demais, lembrou de Gaara e acenou, freneticamente.

— Ande logo seu dorminhoco do...!

— Hum? — Sakura o fitou, curiosa.

— Mi-minha mamãe está aqui, pode me ajudar a encontrá-la?

— Oh, não se preocupe, aonde vamos, você nem sentirá falta dela.

— Huh?!

Ele se afligiu ainda mais quando um verdadeiro portal se abriu adiante, e havia uma paisagem atraente esperando do outro lado, algo como um plácido bosque, com um lado cristalino e muitas frutas aonde quer que olhasse.

Naruto conhecia esse tipo de dimensão, geralmente quem passasse para lá, não voltava facilmente pois era tudo domínio absoluto da consciência de quem a criava.

Debateu-se nos braços carinhosos e firmes dela.

— Pensando bem! Eu prefiro ir procurar ela sozinho!

— Não diga besteiras, é perigoso ficar sozinho nesse lugar.

— Eu posso me virar! ALGUÉM ME AJUDA AQUI!

Gaara parecia uma tartaruga quando finalmente puxava a cabaça das costas, Sasuke desistiu do plano e resolvendo interferir ele mesmo.

Higan-sama! Higan-sama!

Todos voltaram para Kouji, na sua antiga forma de quando criança, absolutamente nostálgica para Sasuke. Esbaforido, o menino seguiu até ela, em suas roupas tradicionais e pesadas.

Engolindo em seco, ao ver-se tão perto da mãe, ele juntou as mãozinhas e orou com todas as forças.

Higan-sama, Higan-sama, onegai!

Sakura soltou Naruto como se fosse um boneco velho, e o portal começou a se fechar devagar, enquanto sua atenção fixava-se na criança mais linda que se lembrava de já ter visto.

— O que ele está fazendo? — Shikamaru perguntou.

— Uma invocação. — Kagutsuchi declarou, com um misto de alívio e orgulho.

Onegai!

Não deixe a primavera morrer até o que o outono possa chegar

Não deixe que as flores encontrem suas folhas, ou os amantes irão separar!

Higan-sama! Higan-sama!

Onegai!

Sakura piscou as pestanas, parecendo ainda recordar de algo, de repente desapareceu no ar e então ressurgiu próxima ao menino, travestida num kimono majestoso, onde os bordados se moviam como se fossem flores, pássaros e nuvens vivas no tecido.

— Você me chamou? Então qual o seu pedido?

Kouji olhou-a completamente envolvido por sua glória, instintivamente, abriu os braços para ela.

— Não me deixe de novo.

Ela achou graça de suas palavras, mas acolheu-o carinhosamente, num abraço apertado que ele esperava desde muito antes de nascer.

— Ora, que bobagem, eu nunca o deixei. — Ele apertou os braços em torno dela, abarcando se calor e esplendor materno, desejou que ela nunca o houvesse deixado mesmo, mas talvez fosse somente emoção, pois no fundo sentiu, que ela havia falado a verdade.

— Sakurakouji! — Ouviu o pai chamar, abriu os olhos e viu-se distanciar cada vez mais.

— Hum?

Olhou para a frente e viu sua mãe dirigir-se alegremente até o portal que voltou a se expandir. Olhou para baixo e viu que Naruto era arrastando junto por uma ponta do hagoromo que ela trajava, como um tentáculo vivo.

— Eu não quero ir! Não querooooo! — Naruto esperneava, deixando as marcas dos dedos na grama.

— O que estão fazendo?! — Hinata gritou, agoniada.

Sasuke lamentou o que faria pois provavelmente Sakura não gostaria nada. Como temia, ela havia crescido e tomado uma personalidade bastante caprichosa.

Sakura parou quando viu seu portal ser partido ao meio, como um espelho, e virou-se, sentindo-se muito enfezada com essa grosseria, encarou feio as pessoas que de repente surgiram a frente dela.

— Sinto muito, mas não pode levá-los. — Kagutsuchi disse. — Este mundo que você criou, não é lugar para eles.

Sakura estreitou os olhos, ofendida. Como esse estranho ousava falar assim do lugar que ela carinhosamente criara para suas crianças?

Manteve Kouji bem firme num braço, o hagoromo enrolou-se em Naruto, o trazendo para debaixo de seu manto, e na outra mão dela, a espada surgiu.

— Não sei quem é você, mas já não gosto.

Shikamaru ficou com pena dele, provavelmente todos ficaram.

— Agora! — Gritou, atacando-a, ela puxou a arma em sua direção, mas ele não queria atingi-la, desviou e rolou pelo gramando puxando Naruto consigo. Lamentando, Sasuke apontou a mão para o solo, fazendo a terra se abrir aos pés de Sakura, ela se desequilibrou caindo, e Kurama e o Takuni roubaram Kouji dos braços dela.

Ela ficou vermelha de indignação e o vento sacudiu as folhas secas que passavam por eles como se fossem lâminas. Sasuke sentiu um corte no rosto, e em outra situação, ficaria até orgulhoso.

— Oops! Finalmente! — Gaara exultou, segurando a cabaça, a areia finalmente havia despertado e fugiu para fora do recipiente que também se desfez, avançando na direção de Sakura como uma enorme onda que a engoliu por inteiro.

A areia girou na forma de um enorme tornado, e começou a diminuir ligeiramente até uma parte tomar a forma da cabaça e a outra, ser engolida por ela.

O recipiente caiu no gramado, vibrando por um instante até rolar inerte para as patas de Kurama que a abocanhou, Shukaku avançou e puxou-a pela alça.

— Solte! O mestre a pegou!

— Vá se danar!

Temari puxou a cabaça de uma vez, encarando-os mortalmente. Fitou o objeto e atirou-o no ar para quem quisesse pegar.

— Humpf, esperava mais.

Kouji conseguiu pega-la, segurando firme entre as mãos e tomando cuidado. Tateou-a, ansioso e fitou o pai.

— E agora?

— Sim, e agora? – Naruto disse, ainda tonto com a confusão.

— Agora... – Sasuke pegou a cabaça. — Mostre-me. – Pediu, e uma parte do recipiente ficou transparente como vidro e lá dentro, podia ver Sakura, sentada lá no fundo, ainda atordoada com tanto movimento. Ela olhou para cima e os viu, e muito assustada, se arrastou para um canto e se encolheu.

— Oh. – Kouji lamentou, tomando sua forma adulta, Sasuke ofereceu-lhe a cabaça, suspirando.

Claro que o machucava ver que ela os temia, afinal era por que não os reconhecia.

— Agora, vamos voltar e encontrar uma forma de entender o que houve com a memória dela, e reverter.

— E se não houver como? – Hinata arriscou.

— Então será como tem de ser. – Declarou, dando as costas.

Sakurakouji desviou os olhos da cabaça até o pai. Sentiu vontade de protestar.

Como poderiam desistir depois de ir tão longe? Ela finalmente estava aqui, e nem podia se lembrar deles? Qual era o sentido então?

— É melhor do que nada. – Naruto afirmou, uma mão amiga em seu ombro, como se tivesse lido seus pensamentos.

Ele olhou para a cabaça, e finalmente entendeu, ela estava ali, como nunca esteve antes para ele e era mais do que seu pai teve desde muito tempo.

Sua mãe podia não se lembrar deles, mas agora tinham chance de construir uma nova relação com ela.

Isto é, se ela já não os detestasse a essa altura.

Seguiu atrás do pai, com pressa mas tomando cuidado para não agitar a cabaça.

— Por que tinha que ter sido tão rude?

— Hm?

— Podia tê-la machucado e se ela me odiar?!

— Não me faça desejar isso. – Sasuke resmungou. — Dê, eu levo a cabaça. Você é estabanado que nem ela.

— Nem pensar!

¤

Takamagahara, terra do sol.

Todos esperaram pacientemente enquanto Amaterasu analisava a cabaça com uma meticulosidade quase perturbadora.

Sakurakouji estava tão ansioso que poderia tomar o vasilhame a qualquer momento, e com um suspiro, Sasuke voltou-se para a irmã.

— Terminará isso ainda nesse século, Imōto?

— Você pediu minha ajuda, agora tenha paciência.

— Tsc.

— Po–pode não agitar tanto? Ela fica enjoada. — Kouji pediu, nervoso.

— Oh, perdão. — Amaterasu caminhou até uma grande janela, que foi aberta por suas fieis fiandeiras, a paisagem do reino dela era constituída basicamente por nuvens e torres erguendo-se acima delas.

Izumi ergueu a cabaça, que completamente transparente agora, deixou os raios de sol incidirem sobre Sakura, que escondeu a vista sob as mangas do quimono.

Izumi bateu de leve com a unha no vidro, chamando sua atenção, e jovem deusa antes morta, fitou-a de volta, receosa, e se assustou quando ela encarou-a mais perto.

— Ara, o que tem com meu rosto? — Amaterasu resmungou, suspirando. — Mas bem, acho que tenho uma ideia do que pode ter acontecido.

— Finalmente.

— Aproxime-se, irmão. — Kagutsuchi o fez, Sakura fitava Amaterasu com um pouco menos de medo, e quando o viu, escondeu o rosto, mostrando apenas os olhos que o encararam com desconfiança e mágoa. — Ora, quem diria...

— Fale logo. — Ele cortou, aborrecido.

Rindo, Izumi apontou para o vidro.

— Olhe a testa dela, o que você vê?

— Hm? Que continua grande?

Sakura deve ter ouvido e entendido muito bem, corando de indignação, ele nem teve tempo de dizer que também continuava sendo um defeito adorável, ela virou a cara para ele, muito chateada.

— Hahaha! Olhe direito, estúpido! — Izumi decidiu que adorava a cunhada ainda mais.

Impaciente, ele olhou para Sakura mais atentamente, piscou, revelando seu olho lilás, e foi quando encarou o cerne dela. Confirmar que sua essência era completamente imortal agora, era apaziguador, mas também notou com choque que em sua alma estava marcada por uma mancha exatamente na altura da testa.

— Que isso poderia...?

— Tem certeza que não sabe?

— É uma doença?

— Me parece mais com um encantamento...

Neste momento ele entendeu o que isto significava, ficou tão chocado ao mais uma vez perceber que era o culpado, que tudo o que conseguiu fazer por um longo momento foi olhar dolorosamente para ela.

— O quê? O que descobriram? — Sakurakouji indagou, agitado. Izumi olhou para o irmão, com pena.

Segurando a cabaça, ele voltou-se para o filho.

— Por sua mãe não se recordar de nada... A culpa é minha.

¤

Quando sua mãe veio para o reino do fogo, sua alma estava susceptível a sofrer a corrosão por conta do mistério da vida e morte, as contradições e os lamentos da vida humana. Por isso, bem como fiz com as outras novas antes dela, lhe dei um selo que impedia que as lamentações do outro lado chegassem até ela ou que se recordasse delas.

O selo ainda está aí? — Shikamaru disse, chocado.

Aa. Nunca achei que isso seria possível.

O selo foi feito para uma alma mortal. — Izumi disse. A princesa das lesmas o fez no tempo que precedeu os cultos que envolviam sacrifícios humanos, muito tempo atrás.

O que aconteceu então?

Me parece que quando ela comeu a fruta, em vez do selo se desfazer, ele fixou na essência dela, e assim como apagou as lembranças da vida mortal, acabou apagando as da segunda vida ao lado do Kagutsuchi quando ela ressurgiu para vida eterna.

E como desfazemos isso? Esta coisa precisa ser retirada, está danificando a memória dela, ela não consegue lembrar de muita coisa por muito tempo.

Sim, como o selo foi feito para um mortal é de se esperar que ele cause efeitos colaterais ao ser posto num deus. Eu não sei como retirar o selo, no entanto, se seu pai pudesse, já o teria feito.

Então como?

Eu não sei como. Mas sei quem pode saber. — Sasuke concluiu.”

— Que confusão. — Kouji, suspirou, olhando para a cabaça, o vento sacudia seus cabelos enquanto o barco flutuante navegava para muito mais longe de casa.

Sua pequenina mãe o fitou, curiosa, e ele sorriu para ela, numa tentativa de tranquilizá-la.

Ela olhou em volta, voltando a estranhar o lugar em que estava, mas desta vez pareceu conformada em esperar para descobrir e sorriu.

Ah, ele tinha tantas perguntas para ela, queria falar tanto, mas não era possível, talvez nunca fosse ser possível conhecê-la como ela era antigamente. Restava-o torcer para que ao menos pudessem remediar um pouco essa situação.

Sakurakouji não era tolo, ele sabia que se a memória da mãe não pudesse ser restituída, no atual estado dela, o melhor que poderiam fazer por sua felicidade era deixá-la em paz para continuar vagando por aí, abrigando os pequenos espíritos pelos quais simpatizava e revitalizando as flores murchas quando alguém pedisse com muita sinceridade.

Ele não estava pronto para aceitar isso, no entanto, mas sabia que teria, caso devesse.

Percebeu que era muito mais dolorosa a ideia de que seu pai teria que aceitar tal situação também. Logo ele que sofreu tanto, que agora sentia-se ainda mais culpado e por isso, não era capaz de olhar para sua mãe direito.

Era tão triste, de repente eles eram como Manjue Saka*.

— Com licença, com licença? — Ele ouviu um sussurro baixo vindo da cabaça, ergueu-a na altura dos olhos e olhou lá dentro outra vez, sua mãe batia de leve no vidro, como se fosse uma porta, espantou-se novamente ao vê-lo ou ao notar que era tão pequena no momento. — Oh, olá, poderia me ajudar?

— Ajudar?

— Sabe como eu poderia sair daqui? É um pouco pequeno, eu não me recordo de ser tão pequena, sabe? E tem cheiro de areia, não é muito agradável, sabe?

— Ah, eu sinto muito, precisamos que fique aí mais um pouquinho, sim? Prometo que não lhe faremos mal algum.

Ela inclinou a cabeça, refletindo e por fim sorriu gentilmente e voltou a se sentar.

— Se é assim, acho que não me custa esperar. Deixou-me um pouco curiosa, na verdade.

— Prometo que não vai se arrepender.

— Obrigada! A propósito, não nos apresentamos, ou sim?

— Sou Sakurakouji, do caminho das cerejeiras, e também do fogo e da forja do mundo.

— Oh! Isso parece muito ilustre! — Ela se inclinou, cumprimentando. — É um nome muito bonito!

— Sim. — Os olhos dele se apertaram, emocionados. — Minha mãe quem escolheu.

— Sim? Que adorável! Ela deve amar muito você.

— Você acha?

— Sim, sim. — Declarou, professoralmente. — Flores de cerejeira fenecem muito rápido, é verdade, mas é no auge da sua beleza que elas brilham como um verdadeiro primeiro amor, seu nome é “Caminho das flores de cerejeiras”, sua mãe o ama tanto que não escolheu apenas uma para simbolizar seu amor, um caminho inteiro delas, entende? Onde você possa sempre caminhar à sombra do primeiro amor da primavera. — Sakura bateu palmas, empolgada. — Sakurakouji-kun! Você é tão amado!

Ele sentiu os olhos arderem, não um ardor qualquer, um ardor que enchia a vista e também o coração, Sakura o fitou, surpresa e preocupada.

— Oh, alguma coisa errada? — Ele negou, enxugando os olhos com a manga ligeiramente.

— Não! Nada, eu só... Eu estou bem, obrigada. Eu finalmente compreendi agora.

Ela concordou, embora não entendesse bem ainda, um pouco cansada, voltou a se sentar e se recostar.

— Terra à vista! — Kurama gritou, empoleirada na ponta do barco.

Sakurakouji se virou, deixando a cabaça pousada num canto seguro, e se aproximou da proa. O navio suavemente iniciou uma decida, cortando as nuvens onde eles já podiam divisar os picos de algumas montanhas, quando haviam ultrapassado as cortinas fumacentas, revelou-se uma pequena ilha, com várias montanhas, de onde várias serpentes de água desciam por cachoeiras, recoberta por florestas e delimitada por faixas de areia muito brancas.

Já navegando acima das copas das árvores, eles foram chegando cada vez mais perto do que pareciam ser ruínas de um grandioso templo, havia muita vegetação recobrindo seus muros e paredes, e definitivamente haviam habitantes nele.

— Le-lesmas?! — Sakurakouji exclamou, extremamente desconfortável com aquelas criaturas. Eram gigantescas, lentas e gosmentas.

— A pessoa que procuramos é a princesa das lesmas, o que esperava encontrar? Gafanhotos? — Retrucou Shukaku, petulante.

O navio pousou no meio do pátio, a rampa foi descida enquanto as lesmas lentamente se aproximavam para observá-los com ar de curiosidade.

— Ora, se não é Kagutsuchi-sama.

— Continua arrebatadoramente belo, Kagutsuchi-sama. — Ambas ecoaram com vozes meio femininas, meio masculinas, não dava para diferenciar bem.

Sasuke ignorou as lisonjas e se aproximou dos degraus da entrada.

— Sua senhora, onde se encontra?

— Tsunade-sama! Tsunade-sama!

Sakurakouji desceu, segurando a cabaça protetoramente, e se mantendo distante das criaturas. Nada contra, só não eram o tipo dele.

Elas ficaram comentando sobre sua beleza também, e foi a primeira vez que o filho do primeiro filho dos primeiros deuses se sentiu desconfortável com lisonjas.

— Tão lindos! Tão lindos!

As portas do templo se abriram, mais uma lesma apareceu, desta vez menor, quase o comprimento de um cavalo e altura de um cão grande. Arrastou-se devagar ao lado da mulher de extrema beleza, jovialidade e busto assustadoramente farto, ela tinha olhos castanhos afiados e meio grogues ao mesmo tempo, seu kimono parecia todo amassado e seu kiseruainda estava aceso. Um cheiro forte de saquê veio de lá de dentro, e eles entenderam porque ela parecia transitar entre um estado de alerta e de puro sono.

— Meninas, por favor, sejam mais cautelosas, estão diante de figuras muito importantes. — A lesma menor disse, professoralmente, a voz assumidamente feminina e dócil, tinha uma mancha azul cobrindo o dorso e antenas bastante alertas.

A mulher bocejou, caminhando devagar, piscou tentando manter os olhos abertos, em sua testa, um losango roxo brilhava como se fosse uma verdadeira joia.

— Katsuyo. Você era bem maior, da última vez que a vi. — Sasuke apontou.

Sakurakouji podia jurar que a lesma branca e azul ficou ligeiramente rosada.

— Er, hum, é que não estou na minha forma total...- Ela ciciou, muito encabulada.

— Entendo.

— Ah, o moleque do fogo. — A mulher disse, como se lembrasse agora.

— Tsunade. Perdão por incomodá-la em seu oásis, mas preciso da sua ajuda.

Mesmo Shikamaru ficou surpreso com os modos cuidadosos de Sasuke. Se bem que, até onde sabia, Tsunade era uma mulher tão antiga que não tinha data ou origem, o curioso disso era que tampouco se sabia se ela era uma nascida deusa ou uma humana que descobriu a imortalidade sozinha enquanto uma grande bruxa.

Uns diziam que ela havia sido uma bruxa tão poderosa que os deuses primordiais acharam justo imortalizar seus talentos, outros que ela havia sido aceita entre os deuses pois seria uma inimiga muito perigosa, se rejeitada. Também se dizia que ela havia sido o primeiro sacrifício humano, e por isso sabia os segredos de como se trazer uma alma mortal ao Takamagahara sem deixá-la se corromper. Fazia sentido, se considerando que era a ela que recorriam agora para tentar solucionar o problema do selo defeituoso.

Chamavam-no de selo da princesa das lesmas, mas não se sabia ao certo, também, se Tsunade que havia criado ou se era uma herdeira dele.

Cada selo era feito de forma individual e específica para cada deus, constituído de uma magia de dois passos, o primeiro, a base, criado pela mulher a sua frente, o segundo passo, o feitiço criado pelo próprio deus, cujas palavras somente ele conhece e somente ele saberá para sempre.

O segundo maior segredo dos deuses, sendo o primeiro, o terceiro nome deles, claro.

— Andou brincando demais com seu selo, garoto? — Tsunade disse, depois de uma tragada cínica. Soprou a fumaça e suspirou. — Dê-me aqui. — Estendeu a mão.

Kagutsuchi sabia ao que ela se referia, e se aproximou, subiu os degraus, e segurou sua mão sobre a própria, assim curvando-se, sussurrou sua parte do feitiço contra a palma dela, baixinho, ofereceu as palavras a ela, como um alguém que oferece juras de amor no ouvido do seu amante.

Suas palavras afundaram na palma dela atirando uma cálida luz esverdeada contra seu rosto. Tsunade fechou a palma, segurando o feitiço e então guardou o kiseru no obi e estendeu a outra mão livre na direção de Sakurakouji.

— Dê-me a oferenda. — Ele recuou, não gostando nada da ideia de simplesmente entregar a mãe para uma estranha, ainda por cima bêbada.

Sasuke o fitou, sério.

— Sakurakouji.

Relutante, ele se aproximou e entregou a cabaça. Tsunade pegou-a e espiou o vidro semi transparente. Lá dentro, Sakura cochilava pacificamente.

— Interessante. — Sorriu quase um tanto maldosa, ou talvez apenas ébria ainda. Deu as costas e seguiu de volta para dentro, onde as portas se fecharam com força.

— Por que não podemos entrar? — Kurama disse, indignado.

— A casa de um deus deve ser respeitada, assim como suas regras. Tsunade não recebe homens em sua casa. — Disse Shukaku.

— Por quê? — Indagou Naruto.

— Ela foi a primeira oferenda, não foi? — O tanuki falou, sombriamente. — Ela não gosta dos deuses, mesmo que os “ajude”, assim como não gosta dos humanos, e os torne oferendas.

— Pai? — Kouji chamou, enervado, Sasuke suspirou.

— Não sei nada sobre essa coisa de primeira oferenda. — Avisou. — Sim, é um fato que ela não é confiável. Mas só podemos recorrer a ela.

— Mas...

— Agora, temos que esperar.

¤

— Tsunade-sama, acha que pode fazer alguma coisa mesma? — Katsuyo interpelou.

Tsunade afastou os olhos da mesa repleta de pergaminhos e papiros antigos, e encarou a mulher sentada no banco, contida por correntes tão poderosas quanto raras. A jovem deusa a fitou, calada, com uma expressão absolutamente inofensiva e boba.

Ainda assim, parecia capaz de lidar com essa contenção como qualquer deus conseguiria.

Tsunade chegou à conclusão de que de fato o fruto da vida eterna concedia esse dom de forma bem completa.

Achou que o que havia diante de si era um tipo de imitação da vida eterna. Uma alma humana torna-se divina apenas pela força do “desejo” ou de uma fruta – ainda que criada pela própria mãe da mãe do mundo, era ridículo de se cogitar.

A senhora das lesmas não sabia o que era um humano há muito tempo, porém não se admirava de ainda carregarem consigo a ambição de alcançarem os deuses.

Higan se preparou para dizer algo, Tsunade notou que havia uma diferença considerável entre a flor que ela foi como mortal e a que se tornara como imortal, porém ambas conciliavam seus significados de forma quase irônica.

Tsunade gostava de ironias, apesar de tudo.

— Diga-me, porque se chama Higan?

Ela piscou pensativa. Tsunade puxou para o lado o ombro de sua roupa e percebeu a marca em sua pele.

— Entendo.

— É apenas Higan. — Ela afirmou, Tsunade piscou, momentaneamente confusa. E Sakura prosseguiu. — Sou Higan como o oposto a Shigan*, não em consideração às flores.

Tsunade meneou a cabeça, um tanto surpresa, admitia.

Então não se tratava de uma deusa da estação, ao menos não a estação dos vivos.

Uma combinação bastante estranha para com o deus do fogo, no entanto, a fruta da vida eterna estava sob a guarda da deusa dos mortos...

— Hm. Interessante. — Talvez as coisas ficassem mais divertidas daqui em diante. Se aproximando de Higan, ela segurou seu queixo e examinou melhor o selo defeituoso em sua testa.

Era como um pedaço de cristal quebrado, com sujos pedacinhos menores, que haviam criado suas próprias raízes.

— Isso vai ser cansativo e demorado...- Resmungou. — Katsuyo, encontre Shizune e mande-a trazer-me mais saquê!

— T-Tsunade-sama, não acho que é um bom momento para beber...

— E quem disse que é para mim? — Tsunade segurou o queixo da jovem deusa com mais firmeza e sorriu maleficamente. — Ela é quem vai precisar.

¤

— Deu certo? — Hinata perguntou. Dias haviam se passado, ela sabia que muito mais tempo do outro lado, mas estranhou a expressão de Naruto. Apesar da demora, achou que ele retornaria com a energia de quem havia chego de um grande casamento.

Naruto suspirou, um tanto exasperado, deitou-se no tatame e se acomodou.

— Não sei, ainda não terminou.

Ela piscou, surpreendida. Será se havia perdido a noção do tempo de lá? Talvez, estava ali a tanto tempo.

Sentou-se, suspirando em lamento. Quanto tempo mais passaria até que ela não soubesse mais como os dias passavam lá em cima, como era a verdadeira cor da lua, das flores de prata que cresciam em seu jardim, dos jantares opulentos, mesmo das companhias mais enfadonhas?

De reconhecer a si mesma, no espelho, de reconhecer sua própria natureza.

— Cansada? O que tem feito? — Naruto perguntou, estranhando sua expressão cabisbaixa, ela geralmente mostrava mais irritação pelas coisas, até o fazia lembrar das manhas que fazia antigamente, no entanto, o aborrecimento em seu rosto parecia mais profundo.

Hinata suspirou, jogando o olhar para a janela, era início da noite, uma lua minguante no céu, exatamente dividida ao meio, e quase apagada entre as nuvens. Era assim que ela se sentia.

— Casa. — Sussurrou.

— Hm?

— Sinto falta. De casa.

¤

Tsunade se afastou abruptamente, seu corpo inteiro suado e os músculos tremendo pelo esforço de longas noites e cansativos dias.

Ergueu a pinça que segurava com um furor de triunfo que a tempos não sentia.

— Ah-ha! — Gritou, apontando alto a pedrinha de cristal suja de sangue que havia conseguido arrancar. — Você tem uma testa e tanto.

— T-Tsunade–sama! — Shizune exclamou, apertando um lenço contra o rosto da moça.

Tsunade deixou a pinça com o cristal sobre a bancada e pegando outro lenço, enxugou o rosto molhado de suor.

— Bem, agora resta esperar os efeitos...

Empurrando Shizune bruscamente, a jovem deusa fugiu da sala, escondendo o rosto. Shizune se sentou, atordoada.

— Ah, espere!

— Deixe-a ir, talvez isso ajude a agitar as coisas aqui. — Tsunade disse, apontando a cabeça, a memória.

¤

Havia uma floresta de glicínias aos fundos do templo. Sasuke segurou um longo cacho das flores entre os dedos, avaliando sua beleza singela e lilás.

Era uma das árvores prediletas dos deuses, embora ele preferisse particularmente preferisse as de bordo. Segurando o pêndulo de flores próximo ao nariz, ele procurou sentir o perfume, uma essência sutil e delicada que emanava das pequenas pétalas.

Soltou-as bruscamente quando sentiu uma presença e caminhou mais a frente, empurrando a cortina de cachos de flores e se aproximando do rio, agachou-se puxando Sakura nos braços, semi inconsciente e pálida.

Ela entreabriu os olhos tremulamente, e ele olhou ao redor, perguntando-se onde estava Tsunade o que poderia ter acontecido. Sentiu seus dedos tocarem seu rosto, e fitou-a, atônito, Sakura o encarou voltando a procurar reconhecê-lo e ele suspirou, abatido.

— Sas... — Ela balbuciou, seus olhos brilharam com um sorriso cheiro de ternura, estendeu as mãos e puxou seu rosto para si, num abraço apertado.

— Lembra-se... De mim? — Ele ciciou, ainda incrédulo. Se levantou, trazendo-a junto, e segurou seus ombros.

— Como não lembraria? Você continua o mesmo. — Sakura garantiu, mas ainda sentia a cabeça latejar e pontadas de memórias misturadas a impediam de entender ou mensurar quanto tempo parecia fazer que não o via.

Era como se houvesse dormido por tanto tempo, e tido tantos sonhos misturados e muito reais que já não tinha certeza do que era a realidade.

Sasuke continuou fitando-a com expectativa e ceticismo.

— Prove. — Declarou.

Havia ansiado tanto por isso, desde que a encontrou, mas agora não tinha certeza de como poderia acreditar que era real, ela ainda parecia bastante avoada como Higan era.

— Prove que não é Higan, ou que não é apenas algum feitiço de Tsunade.

Sakura piscou, muito confusa.

— Tsunade...? Higan...?

A pele de Sakura arrepiou com esse segundo nome, um arrepio de distinto reconhecimento. Auto reconhecimento. Ela nunca tivera apelidos em sua vida humana, ao menos não apelidos agradáveis.

Higan...

— Eu sou...? Eu sou... Higan. — Reconheceu isso, para o infortúnio dele. Sasuke deixou os ombros caírem, pesaroso. Ela o fitou, sem entender.

— Mas não era isso que queria?

— Como? Eu nunca...!

— Claro sim. — Ela reafirmou, pisando em sua direção. — Quando trouxe a fruta até mim, quando decidimos que eu a comeria. Era isso que desejava, não?

Ele sacudiu o rosto, atordoado, mas então refletiu.

— Você realmente lembra?

Sakura encarou-o, rememorando mais um bocado de coisas, até que instintivamente seus olhos se encheram de lágrimas.

— Onde está... Nosso, bebê?

— Diga meu nome.

— Onde está nosso bebê, Sasuke?

Kagutsuchi negou, puxando-a pelos ombros.

— Diga meu nome, o nome que só você sabe, por favor, Sakura.

Ela sacudiu o rosto, negando, aflita, agarrando-se as roupas dele.

— Onde está o meu bebê?

— Diga me nome, Sakura.

Sakura se desvencilhou dele, transtornada, e deu as costas, a cabeça cheia de emoções conflituosas e lembranças.

Quanto tempo havia se passado?

— Se eu comê-la agora... Então não vou perder nenhum dia com você, e nem um dia com nosso bebê, nunca? Eu posso mesmo... Receber esse milagre?

— Sim, pode.

Quanto tempo ela havia perdido?

Chorou, esfregando os olhos, desconsolada.

— Vo-você mentiu, mentiu. — Lamuriou.

Sasuke se aproximou, fitando seu rosto, com um olhar doloroso.

— Eu... Eu não sabia...?

Sakura soluçou, porque nada mudaria o tempo que havia perdido, mesmo os deuses provavelmente não podiam simplesmente voltar atrás.

Será que era ela mesmo? Ele não conseguia se convencer totalmente, havia chegado longe demais, e sofrido o suficiente para abominar a ideia de ser enganado.

— Qual o meu nome, Sakura?

Sakura o encarou, com o rosto molhado.

— Não. Diga o meu nome.

Ambos se viraram, dando com Sakurakouji, ele empurrou a cortina de flores da frente e se aproximou, encarando-a.

— Diga o meu nome. O nome que só eu, só eu e quem me fez sabe.

— Sakurakouji. — Sasuke repreendeu, era absolutamente imprudente a ideia de dizer tal nome em voz alta, mesmo numa situação com essa.

Ele não dava a mínima para a própria segurança, mas a de Kouji era tão preciosa quanto a de Sakura.

Mas havia algo mais se considerar... O terceiro nome de Kouji, era um segredo que somente Sasuke e Sakura deveriam saber, no entanto, ela morreu muito cedo. Sasuke sabia, ele naturalmente sabia, pois o nome veio como um sopro em seus ouvidos no momento em que segurou seu filho nos braços pela primeira vez.

Já Sakura, ela não teve a chance de decretar que esse seria o nome, junto de Sasuke.

— Sakurakouji, como o caminho das cerejeiras, assim céu e terra irão por ti clamar. — Sakura de repente disse. — Hinoko...

Ambos ofegaram, em espanto, Sakura encarava a água do córrego fixamente.

— Como filho do Fogo, para aqueles a quem você permitir chamar...

Kouji a abraçou, e ela também o envolveu, apertado e carinhosamente, como se quisesse que ele novamente fosse parte dela.

Ela podia não saber seu terceiro nome, mas a ele não se importava mais.

— Yuu... — Sakura soluçou, e segurou seu rosto. — Yuugure, como...

— Como o Crepúsculo, e assim, somente quem o concebeu ou cativou irá nomear.

Sasuke disse, observando-os, Sakura o fitou e por fim sorriu, ternamente, estendendo a mão para ele.

Ele a puxou, abraçando-a. Sakura se apegou a seu tronco, sentindo aquele generoso calor que sua pele emanava sob as roupas.

Sakurakouji se afastou ligeiramente, sentindo que precisava respeitar esse momento, pois crescera vendo a dor do pai e sua solidão. Ele merecia tanto qualquer um, mas então, o pai o puxou juntou, envolvendo os braços em torno dos dois como se ele ainda pudesse ser uma criança a proteger.

Isso não importava agora.

Eles finalmente tinham consigo o que sempre almejaram, de agora em diante, por toda a eternidade.

¤

— Ah, não é maravilhoso quando tudo acaba bem? — Suspirou Katsuyo, Shizune concordou, efusiva.

Tsunade se limitou a um sorriso ladino.

— Acabar é? Só está começando... — Murmurou, consigo, e suspirando se afastou da janela e rumou de volta para o quarto. — Tragam meu saquê!

— T-Tsunade-sama!

¤

Takamagahara, Terra do Fogo.

O imenso pássaro de fogo finalmente pousou sobre uma colina entre os campos carmesim da paisagem, desfazendo-se em flamas, Sasuke abriu os braços, liberando somente o filho que tropeçou para a frente, e se virou, indignado.

— Ei! Não precisava vir tão rá-...- Calou-se, em espanto, não reconhecendo de primeira mão essa forma do pai, a mesma das estátuas do templo.

Kagutsuchi encarava o palácio do fogo ao fim da campina, os olhos lilás-rubro, relaxou o braço em torno da esposa, ligeiramente, e ela se afastou um pouco, repousando os olhos na paisagem.

Sakura encarou o céu, a campina, as flores vermelhas dançando contra a brisa fria, os pilares e paredes do distante palácio pelo qual correu, andou, aprendeu e amou.

O vento pinicou seu rosto com a frieza, não trazendo somente o perfume das higanbanas ou mesmo de cinzas de vulcão, mas o cheiro que ela jamais achou que voltaria a sentir desde que era apenas uma garotinha mortal, em uma vida já tão distante, o cheiro de lar.

— Estou em casa...? — Disse, comovida.

— Bem-vinda. — Sasuke afirmou, Sakura se voltou para ele, com os olhos molhados, sua imagem não a surpreendeu, do contrário, trouxe à tona ainda mais lembranças, e uma enorme sensação de saudade e medo.

Aproximou-se dele, segurando seu rosto entre os dedos.

— Meu senhor, pode me perdoar?

— Não há nada a ser perdoado, não você. Eu fui o único a desafiar uma força que não era capaz de compreender, e por isso, você e Sakurakouji pagaram. Eu sou o único que deve pedir perdão.

— Se ao menos eu soubesse, se ao menos tivesse tido como saber... — Sakura balbuciou, condoída.

E se na primavera de seu surgimento, houvesse sido capaz de saber como voltar para casa, talvez não houvesse feito seu marido sofrer tanto, ou perdido tanto tempo com sua criança. Mas ela mal se recordava da primeira vez em que pôs os pés na terra na forma de um ser divino.

Ainda assim, mesmo agora, sentia esse poder, essa essência dentro de si, em cada veia, em cada fio de cabelo, a fluidez de uma energia que parecia capaz de se tornar qualquer coisa, como se fosse para sempre um botão, capaz de florescer as mais diversas e exóticas flores, dar frutos bons e ruins, emergir tanto na terra fértil quanto na estéril.

Isto era ser um deus...?

Quantos homens e mulheres almejaram, lutaram e morreram desejando essa existência?

Sakura olhou para as próprias mãos, e só conseguiu sentir frustração.

De que adiantava todo esse poder e privilégio? Havia perdido em troca, coisas muito mais importante.

Talvez houvesse se deixado levar pela ambição de tantos humanos, talvez tivesse valido muito mais a pena uma curta vida mortal, ao lado de Sasuke e sua criança, tê-lo visto nascer, crescer ao máximo, e o ensinado tudo o que sabia, aprender outro monte de coisas ao seu lado, e ter partido cedo, porém em paz e deixando Sasuke livre de qualquer peso.

Ele segurou suas mãos, firmemente.

— Eu sei o que está pensando. — Declarou, ela o fitou e ele apontou a cabeça na direção da campina, olhando para mais abaixo, Sakura viu o rapaz agora muito alto, belo e composto comparado ao frágil bebê que ela havia dado à luz e mal conseguido conhecer o rosto. Sakurakouji desceu a colina, acenando para a mancha alaranjada que vinha em grande velocidade até eles, e que Sakura sentia que já conhecia. — Sei que acha que perdeu coisas muito importante, e sinto muito por não ser capaz de fazer o tempo voltar atrás para que possa vivê-las. — Sasuke continuou, beijando seus dedos. — Mas por favor, chegamos até aqui, finalmente, e acredite, há tanto que podemos viver e comemorar ainda, Sakura. — Abrindo os olhos, ele a encarou fervorosamente certo. — Por favor, acredite nisto.

Sakura nunca o vira dessa forma tão, desesperado, e doía infligir lhe isso, mas não havia como não acreditar nele, ou pensar em culpá-lo.

Não importando quantas eras houvessem se passado, ele continuava o mesmo homem de grande poder, sabedoria e um toque de soturnidade que ela amava profundamente.

— É claro que eu acredito, meu senhor.

Sasuke expirou, em total alívio, abraçou-a outra vez, e desta, era como se suas essências pudessem se amalgamar de maneira inigualável e ele soube que, mais do que reconectando seu amor, eles estavam fundindo-o finalmente eternizando-o tal qual sua própria existência.

Beijou-a, um beijo que esperou mil eras ou mais, um sentimento que atravessou o tempo e poderia até quebrar suas linhas, mas até o Destino sabia que a força de certas coisas, era melhor não desafiar.

Ao menos, não tanto assim...

Mas não tinha problema, desde que tudo corresse exatamente para onde deve correr para um...

Eterno...

...Fim.

Cheio de começos.

Fuji = Glicínia, significa Imortalidade e Longevidade.

Shion = Áster, significa "Não vou te esquecer".

Kagome Kagome*

É uma famosa cantiga/brincadeira de roda japonesa.

Onde uma das crianças é escolhida para ficar vendada no centro da roda, as crianças giram em torno dela e quando a música acaba, a criança no centro deve dizer o nome da criança que ficou atrás dela.

Rotenburo*

Onsen (fontes termais) ao ar livre.

Imōto*

Irmã mais nova.

Manju e Saka*

Uma lenda chinesa sobre dois duendes, Manju que guardava as flores e Saka que guardava as folhas, eles nunca se encontravam porquê a planta (Higanabana ou Manjusaka) nunca dá flores e folhas ao mesmo tempo.

Como estavam curiosos para conhecer um ao outro, eles desafiaram as ordens dos deuses e marcaram um encontro. Por essa desobediência os dois foram castigados a ficarem separados por toda a eternidade.

Shigan*

Sendo Higan o mundo dos mortos, o Shigané o nosso mundo, dos vivos, segundo a crença budista.

Notas finais
AIN GENTE FINALMENTE ACABOU KKKKKKKKKKL Pior que tem TANTA coisa que ainda poderia entrar aí (Tipo hentai e salada, tipo mais peripécias de Hinata-mortal-como-a-gente, a festança do reino do fogo quando a senhora retornar e mais SasuSakuraKouji pq amei essa família) mas é isso, eu não podia terminar deixando Sakurita morta, e espero que essas 51 PÁGINAS e 16.939 PALAVRAS compensem a sacanagem do último cap e a demora! MUITO obrigada pelos comentários e favoritos até aqui, estarei respondendo todos assim que puder e é isso! Fãs de Vingador e JDA, eu juro que to tentando trabalhar nos caps, juro juradinho viu? É isso Cabou Uma fic. BORA ABRIR AQUELA CHAMPANHE VELHA QUE SOBROU DO ANO NOVO PQ ISSO É COISA RARA DE ACONTECER COMIGO, NÉ? SENPAAAAI FINALMENTE TERMINEI TEU PRESENTE (E vamos esquecer a ironia de que terminei de dar um presente do ano passado já em cima do aniversário desse ano............) CLYRA amor, agora você enfim pode se libertar! VOE MINHA QUERIDA GALINHA!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!