The Bride
3 O Dia do Casamento
No dia seguinte, Amy acordou com o seu celular vibrando de forma frenética sobre a penteadeira. Ainda exausta da noite anterior, ela foi molemente pegar o aparelho, até se dar conta que havia quase cinquenta ligações não atendidas de várias pessoas, inclusive de seu noivo, seus pais, seus amigos, as madrinhas e quase todo mundo se perguntando onde ela estaria. Notou a hora, estava muito atrasada. Levantou-se da cama de um pulo e foi calçando o seus sapatos enquanto se batia em uma cadeira. A movimentação acordou Nico.
— Que horas são? — A prostituta perguntou cansada.
— Tarde, eu estou morta se não chegar em dez minutos! — A ruiva falou desesperada. — Eu tinha que estar me arrumando há uma hora atrás!
Percebendo o drama da noiva, a stripper acabou se levantando também da cama e indo logo trocar de roupa e recolher os seus pertences.
— Eu posso te dar uma carona. Você me deu onde dormir, nada mais justo.
Essas palavras fizeram os olhos da noiva se acenderem de esperança. Logo estavam seguindo de volta para a casa da despedida de solteira da noite anterior, onde, no comecinho da tarde, se daria a cerimônia de casamento. Nico dirigiu o mais rápido que o seu carro aguentava, forçando-o a fazer um barulho como uma aeronave prestes a decolar. Estacionou próximo à casa, mas não imediatamente à sua frente, enquanto jogava uma bituca de cigarro no chão pela janela.
— Assim ninguém vai te ver chegando — ela disse.
— Muito obrigada.
Amy falou bastante agradecida e deixou o carro, porém, depois de dar menos de cinco passos, ela voltou e se apoiou na janela aberta:
— Você me ajudou muito ontem a noite e hoje também, mais do que muita gente faria por uma total estranha. Então, eu estava pensando…
Nico já erguia uma sobrancelha antes mesmo que a outra terminasse de falar, o que deixava a ruiva ainda mais constrangida de terminar, pois sua voz ia ficando mais lenta e baixa:
— … Eu tenho uns vestidos de festa e posso te emprestar algum pra você ficar — tomava maior coragem e sorria largamente. — O bolo está muito bom, você deveria provar.
— Olha… — A stripper tentava ser gentil. — Agradeço, mas isto aqui, isto não é para mim. Meus clientes me mandam embora no dia seguinte e você me pede para ficar? Não entende como isso é errado?
— Eu pago a hora.
As palavras deixaram os lábios da ruiva antes mesmo que ela fosse capaz de se conter. Já estava pensando nesta cartada havia alguns instantes, desde o momento em que percebera que iria receber uma recusa, então raciocinara na linha da única coisa que uma prostituta jamais iria recusar: dinheiro fácil. Nico puxou o freio de mão do carro e foi saindo:
— Melhor ser algo preto.
Amy nem acreditava que havia conseguido, ao que foi rápido como um foguete para dentro de casa. Passou por alguns fornecedores, garçons, até uma das madrinhas tentou pará-la, perguntando onde estivera, mas a ruiva só fazia correr para o quarto, pegar um vestido e sair novamente, ao que a amiga a seguiu ainda questionando o comportamento. Na porta da casa, as duas se encontravam com Nico e a madrinha pareceu entender por alto.
— Arranje um convite pra ela, ela fica — a noiva pediu indicando a stripper.
A outra garota, a mesma que havia recebido e pago a prostituta na noite anterior, não pareceu muito feliz com a ideia:
— Tem certeza?
— Tenho sim, Rachel.
A firmeza nas palavras de Amy não abriam margem para qualquer dúvida. Enquanto a ruiva deixava a entrada e retornava para o seu quarto, para se arrumar, a madrinha levava Nico para um dos banheiros da casa para que trocasse de roupa, assim podendo permanecer na festa, bem como providenciava um convite. O vestido preto ficou um tanto pequeno em seu corpo, ao que ressaltava até demais os seus seios turbinados, mas isto não era nada que a incomodasse.
No jardim, os convidados chegavam e iam tomando lugares entre as cadeiras que ladeavam o caminho até o altar. A stripper sentou mais ao fundo, não desejava ser vista ali.
Ficou durante toda a cerimônia e, precisava dizer, Amy estava realmente muito bonita em seu vestido branco e imaculado. O noivo, que descobriu se chamar Petter, também era um jovem belo, um garoto de sorte. Não demorou muito e a conversa do padre acabou, algo que Nico não prestou a menor atenção, pois a dava náuseas escutar sobre religião, mais ainda sobre coisas como amor eterno. Amor eterno não existia, ela sabia pela profissão, todo sentimento acaba em algum momento e resta para as prostitutas alimentar aos casamentos falidos. Mas não reclamaria de sua fonte de renda.
A recepção tinha o seu começo oficial enquanto os noivos tiravam fotos. A stripper então se afastou com uma taça de champanhe, indo fumar mais um dos seus cigarros vagabundos enquanto olhava para os sapatos de salto acrílico, aqueles do trabalho. Parecia algo como karma. Enquanto tragava a fumaça para os seus pulmões e depois a expelia, escutou uma voz um pouco mais elevada, não muito longe, que dizia:
— Ela é uma puta!
Imediatamente esta última palavra chamou a sua atenção. Nico se afastou e deu alguns passos, chegando na lateral da casa, próximo a um estacionamento, observando a uma distância segura o que se passava. Ali conseguia ver um rapaz, o noivo, discutindo com Amy, ainda em seu suntuoso vestido branco.
— Ela é minha convidada! — A noiva respondeu.
— Era a puta que tava aqui ontem, não é? — Ele perguntou de forma agressiva. — Os caras falaram que iam chamar a Nico e eu tava pirado com isso, mas achei que eles só iam comer e dispensar, não que essa porra ia ficar pra meu casamento! Metade dos homens aqui já devem ter visto ela!
— Eu honestamente duvido que tanta gente assim lembre de todas as atrizes pornô que assistem — Amy o enfrentava cruzando os braços.
— Foda-se, eu não quero você andando com vagabunda!
— Petter!
A esposa reclamou com ele pela forma como falava da mulher, ao que percebeu que havia alguém mais atrás, pois ele olhava além de sua interlocutora. A ruiva então se virou e ali estava Nico, saída de seu esconderijo, ainda com a taça de champanhe em mãos. Muito tranquilamente ela se aproximou da noiva e a entregou o objeto de vidro vazio.
— Foi uma bela festa, mas eu tenho que ir.
Sua calma impressionava à Amy, mas irritava profundamente a Petter, que deu um passo à frente, porém a esposa ergueu uma mão em seu peito e o impediu de avançar. Ela o olhou brevemente e depois para a stripper, ao que respondeu para esta:
— Eu entendo. Me espere no caro, já levo o seu dinheiro.
Nico nada mais disse ou quis ouvir, apenas dando as costas e seguindo para fora da propriedade, para o seu veículo. O noivo olhava para a esposa indignado:
— Você vai ainda pagar a ela?! Pagar mais pelo que?!
— Não é de sua conta! Deixa de ser insuportável!
A resposta foi rude, mas Amy não queria contar que pagara a outra para permanecer em sua festa. Assim, deixou o seu agora marido ali perto da garagem e seguiu para dentro da casa, voltando o mais rápido possível com algumas notas de cem, uma para cada hora passada desde que haviam retornado para lá, o que dava muitas notas. Encontrou-se com a prostituta mais uma vez na janela do carro, entregando o dinheiro para esta que mal a olhava direito enquanto contava as notas. A ruiva decidiu arriscar:
— Desculpe pelo que escutou, ele está sendo um idiota.
— Ele está certo, eu sou uma puta — a resposta foi fria.
— Mas isso não dá o direito.
Agora era Nico que se irritava, virando-se para Amy finalmente e falando:
— Pare aí mesmo. Não é porque transamos uma vez que somos melhores amigas ou namoradas, não preciso que me defenda. Você me contratou, eu vim. Pronto. Agora eu vou embora.
As palavras machucaram a noiva, ao que ela abaixou a cabeça por um instante, buscando o que mais poderia dizer:
— Gostaria que ficasse um pouco mais.
— Não quero arruinar sua festa com pessoas me pedindo autógrafos, obrigada — foi seca.
A stripper desejava acabar com aquele momento desconfortável o quanto antes, mas Amy não partilhava do pensamento. Abriu a porta do carro, porém não entrou, se abaixando para falar:
— Me leve com você. Eu não quero ficar aqui, você viu…
“Você viu como as coisas têm sido com Petter” era o que queria dizer, mas Nico gritou, se esticando para puxar a porta e fechar mais uma vez:
— Está louca?! Eu não vou te levar pra lugar nenhum! Você casou, agora lide com os seus problemas e não me meta em sua vida!
Bastante irritada, deu a partida no carro e saiu dirigindo pela rua. A noiva ficou parada, vendo o carro partir. Estava furiosa consigo mesma, tivera um impulso idiota e, no desejo de se proteger de sua própria vida, tomara uma atitude idiota. Seu marido era bom, era um excelente namorado, poderiam ser assim mais uma vez sem ter que ficar recorrendo ao apoio de uma prostituta. Respirou fundo e disse, mais para si mesma, enquanto seguia de volta para a sua festa:
— Fique com o vestido.
Enquanto isso, no carro, Nico acendia mais um cigarro e fumava cheia de ódio pela ousadia da outra. Sabia lidar com clientes problemáticos, mas era difícil quando eram apenas garotinhas pedindo um colo que as salvasse. Maldita vida, maldita garota que queria fugir de tudo e ficava procurando por ela. Fosse a ruiva e o marido para o inferno, ou não. No fundo, só queria que fossem felizes. Seguiu para o seu destino, pegando a via interestadual, indo para longe, onde o trabalho a levava.
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