The Bride
5 Hora de Mudar
Nada mais foi dito e a ruiva pegou no sono ali. O mesmo não poderia ser dito da stripper, que custava sequer relaxar enquanto olhava do lustre para a janela a todo o tempo, calculando quanto faltava para o amanhecer. Não conseguiria dormir, não com tanto em sua mente. Ficava repetindo como Amy poderia ser tão estúpida. Que tipo de pessoa era insana o bastante parar querer dar uma chance a uma prostituta? Ela sabia mesmo no que estava se metendo? Era ingenuidade, era achar demais que tudo daria certo quando, na verdade, não daria. Nunca dava. Nico era tudo para ser abominado naquele mundo, era suja, vil, uma mulher da vida, uma pária da sociedade. Não, a garota não merecia nada disto para a sua vida.
Havia, no entanto, uma pequena pontinha em sua mente, num canto muito escondido, que lhe dizia apenas estar apavorada. Toda a racionalização que fazia visando proteger Amy dela mesma, do mal que representava, talvez não fosse mais do que medo de se entregar a alguém, de dar mais do que o seu corpo, oferecer sua alma a outro ser humano. Isso sim era aterrorizante, algo para o que não estava preparada, que nunca se imaginou estar preparada. Sempre se vira morrendo sozinha em um beco, depois de receber centavos por uma transa, tendo uma overdose ou fraca demais até para andar. Nunca lhe ocorreu que poderia ter um caminho diferente e ser feliz ao lado de outra pessoa, ter amor.
Quando o sol começava a surgir ao longe e penetrar com leves raios sob a cortina, Nico se aproveitou que a ruiva se movia na cama para levantar. Pegou as suas coisas e foi embora ainda nas primeiras horas da manhã, tudo para que não fosse descoberta.
Amy acordou assustada, notando já estar sozinha. Checou o relógio, não fazia ideia de que horas havia sido abandonada. Levantou-se da cama, colocando um robe do hotel, ao que viu a carteira aberta sobre a mesa. Todo o dinheiro que carregava consigo havia sido levado. Ela xingou, cheia de fúria, arremessando o objeto contra a parede. Aquilo havia sido demais, ou ao menos o bastante para desistir de procurar pela stripper. Deveria saber melhor do que procurar mulheres que cobram pela hora na cama.
Nos dias que se sucederam à fracassada tentativa de aproximação efetuada por Amy, a ruiva tentou de todas as formas se convencer o quanto fora idiota, o quanto sua ideia estivera fadada ao fracasso e como fora melhor assim. O problema era sua parca capacidade argumentativa diante da grande vontade de tornar a ver Nico, nem que para lhe dar uns tapas e uns sacolejos depois de ter roubado o seu dinheiro.
Foi assim que quase uma semana depois, chegando da rua, enquanto se aproximava da sua casa dirigindo, notou aquele mesmo veículo antigo e muito mal-tratado pelo tempo que pertencia à stripper. Depois de todo o seu esforço, parecia que o destino estava mesmo pregando uma peça de muito mal-gosto. Estacionou e saiu de seu carro, batendo com força a porta antes de deixar a garagem, tudo para descontar o que sentia antes de ser excessivamente grossa. Foi checar o carro da prostituta, porém não havia ninguém do lado de dentro. Então olhou em direção à sua casa e lá estava uma figura loira, sentada nos degraus de entrada, a cabeça baixa, apoiada nos joelhos, vestindo uma calça jeans velha com um tênis surrado.
A outra foi se aproximando e, quando já estava bem perto, disse com aspereza:
— É muita cara de pau sua aparecer aqui, assim, depois do que fez.
Lentamente, Nico ergueu o rosto e a única reação que Amy conseguiu ter foi de dar um passo para trás. Toda a raiva, todo o rancor que sentia pela forma como as coisas haviam acabado da última vez, a forma como se sentira enganada por ter sido levada a pensar que teriam uma chance, antes da prostituta fugir, tudo isso desapareceu ao ver aquele rosto. A stripper era menos do que um ser humano naquele instante, estava pálida e magra como se não se alimentasse desde a última vez que a vira, seus olhos fundos, escuros, os lábios partidos e sem qualquer maquiagem, parecia um retrato pintado da infelicidade. Ela pegou algo do bolso e estendeu para a ruiva, eram notas de dinheiro:
— Eu ia usar, ia comprar mais pó assim que deixei o hotel, mas não consegui. Eu não tenho usado mais nada desde aquele dia.
Amy não sabia como reagir, estava preparada para gritos, para brigas, para dizer muitas coisas das quais provavelmente se arrependeria depois, mas não foi nem de longe o caso. Aquilo era muito mais um pedido de desculpas e, atém disso, se não estivesse errada, uma demonstração de boa-fé e de desejo de mudar. Pegou o dinheiro e o guardou com uma mão enquanto com a outra segurava os dedos de Nico.
— Vamos entrar, você está horrível e precisa comer algo.
No que a puxou, a loira sequer se moveu do lugar, ao que foi falando com uma voz triste e fraca:
— Me desculpe. Eu sou uma bagunça, eu sou essa bagunça. Eu não valho nada que você faça.
A outra respirou fundo, pedindo que uma força maior a desse paciência para lidar com aquilo. Sabia que não era a stripper falando ali, eram as substâncias tóxicas que estavam faltando em seu organismo que a deixavam depressiva. Amy então se abaixou diante dela, ao que a loira recostou a cabeça em seu ombro, quase caindo molemente em seu colo, não fosse segurada em tempo e levantada para que a encarasse.
— Nico, você vai vir comigo — a ruiva era muito séria em suas palavras. — Eu não ligo que você esteja essa bagunça, você quer mudar, não quer? Então venha comigo.
Com esses dizeres, levantou-se, estendendo a mão para a prostituta. Nico a olhou de baixo e, como se o seu corpo pesasse toneladas e fosse o maior esforço já tomado em sua existência, aceitou, segurando-a e finalmente ficando em pé.
— Eu quero ser melhor.
— Eu tenho um quarto com banheira, roupas limpas e uma geladeira. Pode começar assim.
O comentário bem-humorado de Amy fez com que a outra finalmente sorrisse e falasse.
— É “Pamela".
A ruiva não compreendeu de que se tratava, nem lembrava de ter feito uma pergunta que levasse a esta resposta. Percebendo a confusão, a loira se explicou:
— Meu nome. Você disse que queria saber o meu nome.
Foi uma resposta tão simples e sincera, mas, ao mesmo tempo, demonstrava tamanha confiança que era depositada da parte da stripper que Amy só conseguiu sorrir enquanto colocava uma mão na cintura da outra. Então abriu a porta de casa e a conduziu para dentro, fechando a passagem logo em seguida. Talvez houvesse chance, talvez não, fosse para uma amizade ou algo a mais. A única certeza era que havia um longo caminho a ser percorrido para uma reabilitação, para curar-se de velhas feridas e estigmas, mas o primeiro passo estava dado.
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