Notas iniciais
Só avisando que esse capítulo tem um pouco de angst, mas nada grave. Be prepared...

“O que?”. Ele se levantou e me encarou intensamente. “Rachel, preste bastante atenção no que eu vou lhe dizer agora, certo?”. Eu acenei com a cabeça. “Nenhum, nenhum sonho é impossível demais, entendeu? Nunca pare de sonhar porque o sonho parece ser impossível ou improvável demais.”

“Hm... Eu simplesmente não vejo porque ficar a espera de algo que nunca vai acontecer.”

“E como você sabe que nunca vai acontecer?”

“Porque eu simplesmente sei...”. Ele continuou a me encarar, exigindo algum tipo de resposta. “Porque eu não tenho mais vontade nenhuma de voltar a fazer coral ou qualquer coisa relacionada a música. Até pensei em ser crítica de livros, mas eu achei algo específico demais.”

“Rach, você nasceu pra ser uma estrela. Não. Você nasceu uma estrela. Um talento que nem o seu não pode ser ignorado desse jeito.”

“E posso saber como você sabe de todo esse meu ‘talento’?” eu perguntei, começando a me irritar.

“Kurt.”

Aquele boca grande. Um dia eu ainda acerto minhas contas com ele.

“E também porque você cantava quando era criança...”, ele completou.

Eu me forcei a rir. Mas espera aí. Desde quando que eu ria apenas para parecer simpática? Até onde eu sabia as pessoas me achavam antipática, estranha e antissocial. Me forcei a parar com a estranha risada forçada.

Finn já ia dizer alguma coisa quando o telefone tocou.

“Alô?”, ele disse, quando atendeu a ligação. “Ah, oi, baby... Não, não, agora eu posso falar”, ele falou. O garoto alto fez algum sinal com as mãos avisando que ia para o corredor. Eu respondi com um aceno e ele se retirou.

Eu estava começando a pensar se meus pais achariam ou não ruim eu chegar tarde em casa, já que eu estava saindo com Finn, um menino que eles conheciam muito bem, assim como seus pais.

Antes de eu começar a pensar em qualquer coisa, sem querer comecei a ouvir algo que vinha do outro lado da porta. Pareciam ser vozes- Não. Era uma voz. A voz de Finn. Era Finn no telefone. Mas por ele estar no corredor, eu só conseguia ouvir pedaços (não me olhe com essa cara. Isso não é espionar, até porque eu estava ouvindo -mais ou menos- contra a minha vontade).

“Mas por que [...], Quinn?” ele dizia para a namorada. Se eu observasse o que ele disse e do jeito que ele disse, poderia dizer que ela tinha feito alguma coisa que o tinha magoado. Ou até de novo algo que o magoou no passado.

“...faria isso comigo? Não, não faria”. A medida que a conversa avançava o tom de voz dele aumentava. Começou a ficar bastante óbvio que eles estavam discutindo. Mas, sobre o que?

“Você nem conhece ela!! Como pode dizer uma coisa tão horrível?”. Ok, sem dúvida eles estavam discutindo. E parecia ser grave.

“Quantas vezes eu tenho que repetir que ela não significa nada comparada a você??”. Não. Espera um pouco. De quem Finn estava falando? Quem quer que fosse, não foi muito legal.

“Eu já disse uma vez e digo de novo”, ele falou, com o tom de voz mais controlado, mas ainda assim muito sério. “Rachel. Não. Significa. Nada. Fui claro?”

Já chega, eu sussurrei comigo mesma. Me levantei da cama silenciosamente e sai pelo quarto, fazendo questão de fechar a porta fazendo o maior ruído. O barulho foi tanto que Kurt saiu do quarto com uma expressão confusa. Para a minha satisfação, Finn estava me olhando com uma cara de quem acaba de entender o que aconteceu.

“Mas o que...”, foi o que ele conseguiu dizer, antes de eu descer as escadas e sair pela porta da frente, em direção a noite.

. . . . . . . . . . .

Finn era um idiota. Um grande idiota. O maior idiota de todos. Eu acho que ele não tinha ideia de como eu tive um terrível conflito interno para desculpá-lo ou não. E, pelo visto, meus instintos estavam certos. Era óbvio que ele me magoaria de novo, afinal, ele continuava sendo um menino.

Por que eu não ouvi a mim mesma? Por que eu tive que ouvir a “Velha Rachel”, que era melhor amiga de Finn e não tinha problemas e não precisava se preocupar com as consequências? Por que eu não ouvi a “Nova Rachel”, que pensava antes de fazer tudo e preferia não se aproximar de ninguém para proteger o próprio coração?

Bom, não havia mais volta. Eu ia ser enterrada me arrependendo disso.

Eu, que consegui ficar sete anos protegendo a mim mesma, só precisei de Finn de volta para estragar tudo que eu havia conseguido construir. Como eu pude ser tão fraca?

Não sei. Ele tinha esse poder, de me destruir. Mas, na verdade, nada disso importava. Durante aqueles segundos que eu demorei para chegar em casa, eu resolvi que trancaria meu coração e só abriria se a pessoa fizesse o mesmo. Talvez nem se ela fizesse o mesmo.

Se eu estava com raiva? Magoada? Triste? Cansada? Arrependida? Culpando a mim mesma? Sim. Tudo isso e mais um pouco.

Quando finalmente cheguei em casa, apenas avisei aos meus pais que eu estava na casa de Finn e falei que ia ficar no meu quarto.

“Feliz aniversário mais uma vez, filha!”

“A gente te ama muito!”

Eu parei no meio das escadas ao ouvir o que eles diziam. Eu já tinha até me esquecido! Além de tudo, Finn havia feito toda essa bagunça no dia do meu aniversário. De. Dezoito. Anos.

Eu percebi que precisava salvar o meu aniversário de qualquer forma. Se fosse uma situação comum eu nem me importaria de deixar a data passar em branco, mas eu não deixaria ser por causa de Finn. Ele não merecia.

Quando cheguei no meu quarto, fechei a porta e fui correndo para fechar a cortina da enorme janela do meu quarto. Mas, é claro, eu não pude fechar. Ele não me deixou fechar.

A janela do quarto dele ficava a apenas alguns metros da minha. Para a minha surpresa, a janela de Finn estava com um monte de papéis coloridos colados. E haviam coisas escritas neles. E eu simplesmente bufei.

A maioria deles dizia “Me desculpa”. Alguns tinham apenas carinhas tristes, como “:(”. Havia um que dizia “Eu falei aquilo sem pensar”, outro que dizia “Você sabe que eu só faço besteira” e ainda outro que dizia “Você não tem noção do quanto é importante para mim”.

Por incrível que pareça, ainda tinha alguns centímetros quadrados onde não havia papel algum, e eu conseguia ver um Finn triste olhando para mim. Eu levei um susto e rapidamente me joguei na direção do chão.

Sem eu me revelar para ele, consegui fechar a –como era pesada!- cortina. Me levantei, deixei minha respiração acalmar e me sentei na minha escrivaninha, depois de pegar uma enorme cartolina no escritório dos meus pais e uma caneta grossa permanente.

Eu me senti um pouco mal escrevendo aquilo no papel, principalmente depois de ver Finn derrotado daquele jeito. Eu fechei os olhos por alguns segundos e voltei a minha atenção para a cartolina.

Peguei o pedaço de papel e fui lentamente para a minha janela, onde fiquei por alguns segundos parada atrás. Hesitante, puxei a cortina e percebi que ele ainda estava lá, com a mesma cara triste olhando para mim.

Com muita força de vontade me obriguei a colar o papel no vidro, de um modo que Finn pudesse ver. Vendo que era algum tipo de resposta, pareceu que ele ficou com esperanças por um segundo, mas então, lendo o que estava escrito, apenas deu um sorriso de lado e fechou a própria cortina.

Não vou mentir. Eu não me arrependi do que eu escrevi. Era totalmente verdade e eu acho que ele ainda não tinha percebido isso. Eu só não queria que ele ficasse mal.

Com uma lágrima correndo pelo meu rosto, apaguei a luz do meu quarto, me arrumei para ir dormir e fechei a cortina, dando uma última olhada apenas para ver que a cortina de Finn continuava bem fechada.


Notas finais
Não me matem.....