The Boy Next Door
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Finn Hudson era meu vizinho desde que nascemos. Nossos pais sempre foram muito amigos, então convivíamos muito um com o outro. Pode-se dizer que ele era meu melhor amigo.
Todo dia, às duas horas da tarde, ele estava batendo na minha porta, me chamando pra brincar ou fazer algo do tipo. Para mim, como seria para qualquer criança, era a melhor parte do dia.
Tudo parecia que ia bem, não é?
Talvez sim, mas a resposta é não.
Quando Finn tinha oito anos de idade, seu pai conseguiu um emprego em outra parte da cidade e, para facilitar, mudou-se com sua família para outro bairro.
Finn não havia me avisado nada. Ele não havia me avisado sobre o novo emprego do pai dele, não havia me avisado sobre a mudança... O que me deixou com muita, muita raiva, mas, principalmente, magoada.
Desde aquele acontecimento, resolvi esquecer Finn, tirá-lo da minha cabeça, esquecer que um dia fomos melhores amigos, porque, afinal, eu estava muito triste.
O meu plano estava funcionando perfeitamente bem. Eu percebia, no fim do dia, que saudade era a última coisa que eu sentia dele.
Eu não tinha muitos amigos, porém. Quando eu era criança, Finn era meu único amigo e vice versa. Quando ele se foi, eu fiquei sem nenhum amigo.
As pessoas me chamavam de estranha, chata, inconveniente... Eu, é claro, não entendia porque elas achavam isso, mas depois ficou bastante claro para mim que isso era culpa de Finn e somente Finn.
Eu antes era muito animada, simpática e sorridente. Depois que ele foi embora, parecia que nada mais tinha muito graça, que não havia porque sorrir se não houvesse uma boa piada. Percebi que estava com mais raiva ainda.
E continuei a viver uma vida sem cores.
Era uma terça feira comum, nem um pouco diferente de todas as outras. Eu estava sentada na minha cama, ao lado da minha janela, lendo “O garoto da casa ao lado”, de novo, quando eu percebi um movimento do lado de fora que chamou minha atenção.
Desviei meu olhar de má vontade do meu livro para ver o que estava me impedindo de ler, quando percebo que é um carro acompanhado de um enorme caminhão de mudança, que parou em frente à casa ao lado da minha. A antiga casa de Finn.
Revirei os olhos e voltei minha atenção à leitura. Porque, afinal, não era nada de anormal alguém se mudar para a casa ao lado, já que havia alguns meses que a velha senhora que morava lá havia falecido e o imóvel estava à venda.
Na verdade, eu fiquei até um pouco surpresa que a casa demorou tanto tempo para ser ocupada. Ela ficava bastante próxima do centro de Lima, tinha parada de ônibus do outro lado da rua, o bairro era seguro, não tinha muito trânsito... Tudo o que uma cidade pequena podia oferecer.
Eu havia lido algumas palavras quando outro movimento do lado de fora me distraiu. Eu bufei e olhei o que era. Aparentemente, os novos moradores estavam saindo do carro. Era uma mulher adulta, um homem adulto, e dois adolescentes meninos.
Fiquei irritada com a minha desatenção e foquei-me novamente ao meu livro. Eu fui permitida a ler algumas sílabas, quando meu cérebro gritou para que eu olhasse para o lado. “Eu. Não. Quero. Olhar” disse comigo mesma. Mas eu olhei mesmo assim. Minha curiosidade gritava mais alto.
Agora que a família estava mais próxima da casa, era possível descrevê-los um pouco melhor. A mulher devia ter em torno de 40 anos, assim como o homem. Ela utilizava um chapéu e óculos de sol para proteger-se da forte luminosidade da tarde. Já ele usava um boné de algum time. O primeiro adolescente tinha os cabelos delicadamente penteados para cima com o auxílio de um pouco de gel e usava óculos escuros imensos. Sua roupa era um tanto incomum, não sei descrever como. O segundo adolescente utilizava uma camiseta gola V cinza e uma calça jeans. Seus cabelos castanhos escuro estavam espetados para todos os lados, como se estivesse acabado de acordar.
O de óculos escuros era ligeiramente familiar, mas ignorei. Deveria ser alguém inútil da minha escola. Observei-os até entrarem na casa antes de voltar ao livro. Meus pais provavelmente me convenceriam a acompanhá-los para dar boas-vindas aos novos vizinhos mais tarde, então eu chegaria de mau humor e seria bem grossa. Os novos moradores achariam que eu era uma drogada gótica (já que quase todas as minhas roupas eram pretas) e manteriam distância, inclusive os dois adolescentes. Os jovens por aqui faziam isso, quero dizer, me julgavam pela aparência. Mas eu já estava acostumada.
O resto da tarde passou normalmente até que ouvi alguém bater na minha porta. “Quem é?” perguntei, sem tirar os olhos da minha leitura.
“Sou eu” respondeu um dos meus pais. Eu o ignorei, mas ele ainda assim abriu a porta. “Você tem visitas, filha”. Eu continuei a ignorá-lo, percebendo uma figura entrando no meu quarto. “Vou deixar vocês em paz”. Meu pai sorriu e se retirou, fechando a porta ao sair.
Minha preguiça era tamanha que eu nem cumprimentei o estranho que estava dentro do ambiente.
“Rachel” disse a figura.
Eu finalmente tirei os olhos do livro para ver quem estava requisitando minha atenção. Percebo que é alguém que eu nunca vi na minha vida. Não. Na verdade, era um dos adolescentes que havia acabado de se mudar para a casa ao lado, o de cabelo bagunçado. Ele era anormalmente alto e tinha um pouco de músculos. Vendo-o mais de perto, eu percebi que ele tinha uma discreta cara de sono no rosto. É, ele estava dormindo antes de sair do carro.
“Quem é você?” eu respondi, começando a ficar apreensiva. Eu estava em um quarto, com um completo estranho e com a porta fechada.
Ele riu. Ele estava rindo da minha cara? No meu próprio quarto? “Visivelmente você não se lembra de mim.”
“Acredito que não” sorri com falsa tristeza, pronta para voltar a ignorá-lo e a ler meu livro.
“Acho que faz muito tempo...” ele disse, não muito alto. Com isso ele conseguiu minha atenção de volta.
Eu coloquei o marcador de páginas no livro e coloquei-o do meu lado, me sentando na cama, com o olhar fixo no desconhecido. “O que faz muito tempo?”
Ele sorriu delicadamente. “Sou Finn. Seu antigo vizinho.”
Por um segundo, eu senti meu corpo paralisar, meu coração parar de bater e meu queixo cair. Havia anos que eu não ouvia esse nome, muito menos dele próprio. No mesmo segundo, todos os dias que havia passado chorando depois que ele foi embora se passaram pela minha cabeça, todos os dias que eu passei do lado de fora da sua porta... Lembrei do porque que eu ainda sentia raiva.
Finn havia mudado muito, mas ainda era possível ver o rosto do menino de oito anos de idade nele. Os cabelos também continuavam com a mesma cor de antes. A pele continuava bastante branca e ainda tinha algumas poucas sardas, quase invisíveis, pelo rosto.
Peguei o objeto mais pesado ao meu alcance e atirei em cima dele, errando por poucos centímetros e atingindo a porta.
“Por que você fez isso?!” ele exclamou, chocado. Eu me recuperei do choque que senti quando ele me disse de sua real identidade e me levantei, apenas para começar a bater nele.
“Como... É... Que... Você... Se... Muda... Sem... Me... Avisar... Nada... E volta... Dez... Anos... Depois... E... Acha... Que está... Tudo... Bem??” eu perguntei, utilizando cada pausa para lhe bater. Ele de alguma forma conseguiu segurar meus braços e me impedir de fazer qualquer movimento. “Você sabe pelo que eu passei, Finn? Eu sofri! E não foi por pouco tempo! Ao contrário de você, que se mudou sem nem se dar ao trabalho de me avisar e ficou sete anos sem dar sinal de vida!”. Sem intenção alguma, eu senti meu rosto ser encharcado. Por que eu estava chorando? Eu não deveria estar chorando. Eu prometi a mim mesma que não choraria nunca mais.
“Rachel, eu sei que eu devia ter te avisado, mas na minha mente de criança de oito anos, se eu falasse pra você que ia me mudar, você não iria querer mais ser minha amiga.”
“Sua mente de oito anos estava completamente certa! É óbvio que eu iria arrumar novos amigos, até porque você não manteve contato algum, mesmo sabendo meu número e endereço”. Mais e mais lágrimas caíam enquanto eu falava.
“Eu sei, mas, Rachel, eu também fiquei chateado. Eu achei que se falasse com você de qualquer forma eu iria querer voltar, mas meu pai já havia deixado bastante claro que não havia volta”. Ele estava com um rosto tão magoado que quase me convenceu de que ele estava falando a verdade.
“Você é um completo idiota” eu sussurrei. Me livrei dos braços dele e fiquei encarando-o com ódio por alguns segundos, até que tomei coragem o suficiente para lhe dar um tapa na cara.
Ele gemeu de dor e imediatamente colocou a mão sobre o ponto atingido e ficou me olhado sem saber o que fazer. Eu olhei com satisfação –mas ainda com raiva- e sai do quarto, sem me importar de fechar a porta. Obviamente, ele me seguiu.
Passei pela porta da sala que dava na varanda de entrada da minha casa mas não parei. Finn continuou a me seguir até conseguir me alcançar e segurar meu braço, numa pracinha que ficava a alguns metros da minha casa.
No mesmo segundo, fiz ele me largar e continuei andando pracinha adentro. Quando eu já estava em um ponto que não recebia mais iluminação da rua, apenas do luar, ele pegou meu braço mais uma vez, com a diferença que não me deixou sair.
“Rachel, me escuta” ele implorou.
“Eu já te escutei e as suas desculpas são ridículas, o que me faz não desejar ouvi-lo de novo” falei, sem olhar pra cara dele e parando de tentar se livrar dos seus braços.
“Desde quando você fala assim?” ele disse, parecendo que estava prestes a rir. A rir.
“Assim como?”. Finn havia ficado mais estranho ainda com o passar do tempo.
“Toda certinha. Parece que você tem 50 anos e não 15 e-”
“As pessoas dizem que eu fico assim quando eu tô com raiva”. Ele finalmente havia se tocado, não era mesmo?
“Rachel, hoje é seu aniversário. Hoje você tá fazendo 15 anos.”
“Mas que descoberta esplêndida! Mas olha só, eu tenho que ir porque eu tenho muitas coisas pra fazer” menti.
“Tipo o que? Ler? Que nem você ficou lendo a tarde inteira?”
Por essa eu não esperava. Será que isso significava que ele havia me observado a tarde toda?
“É porque é... um... livro pra... escola” respondi, com a primeira coisa que me veio a cabeça.
“Claro que sim”. Sua voz tinha tanto sarcasmo que eu podia sentir ele desviando os olhos. Mas ele não me soltou.
“Finn, eu tô falando sério. Me solta agora.”
“Senão o que?”
Eu fiquei sem saber o que responder, porque, afinal, estávamos em um campo escuro afastado na rua onde ninguém podia nos ouvir.
“Eu... não sei”. Eu ainda estava de costas para ele, encarando o chão.
“Ei” ele disse, virando meu rosto, obrigando-me a encará-lo. “Feliz aniversário.”
Sem querer, pela segunda vez naquele dia, meu rosto foi banhado por lágrimas e lá estava eu soluçando de novo.
“Shh... Não fica assim...” disse ele, envolvendo-me com seus grandes braços. Eu estava tão acabada que não tentei fugir, até porque eu não conseguiria.
Por algum tempo eu só fiquei ali, chorando nos braços de Finn, por causa de tudo. De seu abandono, de como eu não tinha amigos, de como eu havia me tornado uma pessoa tão “nublada”... Eu simplesmente chorei todas as lágrimas que eu havia guardado por sete anos. E não eram poucas.
“Sabe, isso é tudo culpa sua” eu disse em seu peito, quando consegui controlar meu choro a ponto de conseguir falar.
Ele riu. “Ah, é?”
“É. Se não fosse por você ter ido embora, minha vida não seria assim.”
“Eu tenho uma sugestão”. Eu fiquei calada, esperando ele continuar. “Como presente de aniversário, eu prometo que vou tentar fazer tudo dar certo. O que você acha?”. Pude sentir que, mesmo não podendo ver meu rosto, ele olhou para mim.
Eu pensei sobre aquilo por algum tempo. Eu não posso negar que a raiva que eu sentia dele não sumiria do dia pra noite. Porque eu fiquei bastante tempo mal. Bastante tempo mesmo. Deixei de fazer muita coisa por causa dele. E isso trouxe consequências, consequências que não sumiriam da noite pro dia, assim como a raiva que eu tinha. Mas, se eu aceitasse, talvez a minha vida poderia ficar decente. Eu pelo teria meu melhor amigo de volta e deixaria de ser tão... sem graça ou irritada com tudo.
“E-eu acho que sim”. Eu apertei meus braços em volta dele, porque eu havia sentido e muita saudade de Finn. Ele era meu melhor amigo, afinal. E amigos que nem ele não era alguém que poderia ser esquecido.
Ele beijou o topo da minha cabeça gentilmente. “Sabe, eu senti muito a sua falta. Todos os dias. Todas as horas. Não importa o que eu fizesse.”
Se era possível, nos abraçamos com ainda mais vontade. “Eu também...” eu disse, depois de um tempo. “Eu fiquei bastante mal quando você foi embora.”
“Você não foi a única.”
Eu senti algo vibrando no bolso dele. E uma música tocando também. Para ser mais específica, eu acho que era uma versão instrumental de “Hello, I Love You”. So like Finn.
Eu tirei meus braços dele para deixá-lo atender o celular. Ele também me soltou, tirando o aparelho do bolso.
“Alô?” ele falou. “Ah, oi. Olha só, posso te ligar mais tarde? Agora eu não posso falar” ele disse, depois de alguns segundos. “Ok, até mais tarde”. Ele guardou o aparelho de volta no bolso.
“Quem era?” eu perguntei, levemente curiosa.
“Ah, era Quinn.”
“Bom... Quem é Quinn?”
“Minha namorada.”
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