The Blood of a God
25 Capítulo XXV
Notas iniciais

POV Cora
FINALMENTE. Finalmente. Finalmente depois de milhares de milhas caminhadas, nadadas e voadas, estavámos próximos da porcaria do objetivo.
Acho que vou bater no Biel por nos ter feito atravessar meio mundo só pra lutarmos contra ele.
Acho que ainda estávamos no território da Grécia. Os pégasos nos adiantaram, mas ainda faltava bastante. A cidade em que estávamos simplesmente não se parecia com Atenas. Não estava gostando daquilo.
Claro, eu não gosto de quase nada, isso é verdade, mas era mais um mal pressentimento do que gosto pessoal. Se bem que ver a Isa feliz não era a melhor das visões, eu admito.
Michelle continuava a nos contar os detalhes do plano, sempre tendo que acrescentar alguma coisa quando alguém sugeria. Algumas vezes, olhava fixamente para mim sempre que dizia algo sobre entrar despercebido.
Aparentemente ela estava falando especificamente de mim adentrar no esconderijo. Mas nunca disse nada, menção, indireta, nada. Sempre calada. Provavelmente não sabe qual seria minha reação. Gente, hellou, eu não sou um campo minado!
Bella está achando tudo brincadeira, como se estivéssemos jogando paintball e fossemos atacar a base adversária. Estava morrendo de vontade de dar um tapa na cara dela pra ver se ela acorda pra vida. Ela estava sempre no mundo da lua, sempre perdida, não prestando atenção em nada, fazendo as coisas pela metade. Como quando ela foi montar a barraca, fez metade do serviço e a Isa teve que ir terminar. Mas ela também desistiu quando a barraca desmontou com um estrondo assim que ela abriu o zíper. Isa disse tantos xingamentos que quase tive orgulho dela. Quase.
Samu estava sempre calado, olhando pra frente. Algumas vezes, normal, sério ou relativamente feliz. Chegava a olhar de vez em quando para mim e sorria, me deixando meio sem jeito. Brincava com Luigi e voltava a ficar perdido em devaneios.
Em toda maldita cidade que passávamos, Luigi dava em cima de alguma garota bonita e levava um tapa na cara. Raramente, a garota saia as gargalhadas. Uma delas tentou jogar o milkshake, mas acabou acertando na garçonete que passava atrás dele.
Era sempre hilário. Isadora dava uma meia-bronca, pois simplesmente não conseguia parar de rir. Michelle pedia pra ele se focar e puxava a orelha de Luigi levemente.
Aqueles momentos de risos eram bons, especialmente na tensão em que estávamos.
Isa estava sempre perto de Michelle. Desde a outra cidade, pouco antes dos pégasos aparecerem, elas tem andado por mais tempo juntas. E daí? Nem sei por que me importo.
Passei a ficar mais atrás. Somente observando as pessoas, a paisagem e o cenário. Alguns moradores, quando passavam por mim, viravam a cabeça e a balançavam repetidamente em negação, enquanto voltavam a caminhar.
A cidade em si parecia bastante deserta. Algumas poucas pessoas passavam na calçada, no mínimo quatro carros na rua inteira, várias lojas fechadas. Uma música animada e alta vinha mais do centro da cidade, provavelmente uma festa de comemoração ou um festival.
Não iríamos passar pelo centro, o que eu achei bom, por causa da multidão. Embora tenha ficado levemente curiosa a respeito de toda a festança.
🎶Prodigia comploratus
( Maravilhas do luto )
Silens, oro
( silencioso oro )
Regnet exitium
( reine a destruição) 🎶
Assim que comecei a cantar essa parte da letra, um tremor fez com que nós perdêssemos o equilíbrio.
Michelle se agarrou a um poste, Isa trombou em uma árvore, Bella e Luigi caíram perto da fachada de uma loja, Samu e eu cambaleamos, ficando meio tontos.
– Mas que merda é essa? — Luigi ajudou Bella a se levantar, e ambos puxaram as armas. Fizemos o mesmo. Formamos um círculo, de costas um para os outros.
– Sabia que alguma coisa ia acontecer. Essa parte da cidade está calma demais. — Respondi.
– Mortais. — Murmurou Isa. — Geralmente cobrem o cheiro de semideuses, mas não tem praticamente ninguém aqui.
– Fiquem atentos. — Sussurrou Samu. O chão tremeu de novo. Desta vez nos apoiamos um nos outros. Por sorte, ninguém caiu, ou todos iriam junto e formaríamos uma linda pilha de sanduíches para monstros.
– Recuem. Agora. — Disse, em tom mais sério.
– Espera, você acha que vai poder vencer essa coisa que nem sabemos o que é, sozinha?! — Disse Isa, me encarando, incrédula. — Ta louca mulher? Se quer morrer, tenta nadar na lava.
– Minecraft! — Disse Luigi, feliz.
– Cala a boca. Caiam fora daqui logo!
– Não! Estamos junto nessa, lembra? Essa missão é de todos nós e... — Começou Samuel, mas o cortei com um gesto antes que pudesse terminar.
– Pare de ser legal comigo. — Me virei para os outros. — Confiem em mim. — Todos concordaram, exceto Isa, que permanecia impassível. — Corram pra outro lugar. Pra Atenas, de preferencia.
– Faz logo a porra que tu tem que fazer. Não morra. Se morrer, eu te mato.
– Isa isso... — Disse Michelle, confusa.
– Não entenda minha lógica. — Isa se virou e desatou a correr, e todos a seguiram.
Toquei no meu bracelete, e ele se transformou na minha espada. O chão continuava a tremer. Entrei em um beco entre duas casas, com a espada empunhada, e me ocultei nas sombras atrás de uma lixeira.
O fedor de comida em decomposição adentrou no meu nariz. Quase vomitei, mas não seria muito heróico fazer isso. Ouvi passos, e me ocultei um pouco mais.
– Achou que tinha se livrado de mim né? — Disse uma voz. Me apertei ainda mais. — Sou eu, Samuel. Cora, eu sei que você está ai. Da pra ver seu tênis.
Saí relutante de trás da lixeira. Não era um truque. Era Samuel mesmo.
– Não vou te deixar aqui.
– Ah, você vai sim. — Criei uma rachadura no chão entre nós dois, a qual ele pulou com facilidade.
– Não. Isa e Mi estão cuidando do pessoal. Michelle sabia que você não daria conta de cuidar dessa... Coisa. Sozinha.
Assim que Samuel terminou a frase, uma respiração tão pesada quanto uma rocha cortou o ar. Samu se virou, e a nossa "coisa" estava bem ali.
Minotauro. Metade homem, metade touro. Com um machado de dois gumes com um ômega atado as costas. Tentei me lembrar da história.
O Minotauro era filho da rainha Pasifae, de Creta, e de um touro enviado por Poseidon, ao marido de Pasifae, o rei Minos. Minos havia suplicado a Poseidon por um touro especialmente refinado para servir de sacrifício para o próprio deus. Mas ficou tão encantado com o animal que decidiu ficar com ele. Poseidon fez a esposa de Minos se apaixonar pelo animal como vingança. (Vá entender)
Para tornar sua paixão indomável realidade, ela pediu a Dédalo que construísse uma vaca oca por dentro, onde ela se esconderia para "seduzir" o touro.
Desse relacionamento doido, surgiu o Minotauro. Minos ficou estarrecido com a feiura da criatura e mandou Dédalo construir um labirinto onde o homem-touro moraria, sendo alimentado por uma oferenda de sete homens e sete mulheres.
O quê? As vezes eu presto atenção nas aulas. Ou simplesmente sou obrigada a ouvir o papo-cabeça da Isa e da Mi.
– Uou. Ahn... Oi? — O Minotauro rugiu, enfurecido. — Droga.
– Ele é um monstro. Você quer tentar dialogar?
– Depende. Alguns são irracionais, mas alguns, como os ciclopes, são totalmente possíveis de se dialogar. — Samu franziu a testa. — Acho que tenho passado tempo demais com a Isa.
– Eu tenho certeza. — Murmurei. Samu puxou a espada e se posicionou ao meu lado. — Que você não tire esse machado das costas queridinho...
O Minotauro rugiu, bufou, bateu as mãos no peito como um gorila, abaixou a cabeça, e correu com os chifres imensos na nossa direção.
Conseguimos desviar, mas aparentemente, ele não sabia parar. Acabou partindo a lixeira onde eu estava ao meio. Agradeci por ter saído dali.
Aproveitei a oportunidade que um dos chifres estava preso na tampa da lixeira, e o cortei. O Minotauro rugiu, se erguendo. Samu e eu nos afastamos.
O homem touro ficou rodando em círculos, procurando o chifre que não existia. Por fim, bufou novamente e voltou as nos atacar, com a cabeça pendendo para o lado.
Escapamos novamente, e ele deu de cara numa árvore. Samu fez um corte em suas costas, mas aquilo só o fez ficar mais bravo.
O Minotauro voltou a partir para cima de nós, mas no meio do caminho, um raio caiu em sua cabeça, fazendo com que ele caísse de cara no asfalto.
Olhei em volta, e vi Isa voando a uma distância relativamente boa de nós. Ah ótimo, agora ela virou um passarinho que solta raios. Daqui a pouco ela vira um Zapdos, do Pokemon.
– Achei que precisavam de uma pequena mãozinha! — Ela gritou.
– Não preciso da sua caridade! — Bradei.
– Que pena. Então não morra!
Isa saiu voando de volta ao lugar onde haviam se escondido. Provavelmente voltaria mais tarde pra vir nos buscar.
O Minotauro já havia se erguido novamente, e o único chifre havia se partido ao meio. O focinho de touro estava quase espumando raiva. Ele retirou o machado das costas e o ergueu acima da cabeça, em posição de ataque.
– Merda. — Disse Samu.
– Merda. — Repeti. Uma idéia surgiu. — Distráia-o.
– Como assim, distraia-o?!
Antes que ele pudesse indagar novamente, mergulhei nas sombras de uma árvore, e surgi alguns poucos metros atrás do Minotauro.
Ele estava confuso e olhou em volta, me procurando. A cauda ricocheteava de um lado para o outro, e permaneci escondida atrás dele.
O homem touro desistiu, e bradou novamente, um grito mugido. Samu impedia os golpes do machado com a espada, mas não iria aguentar por muito tempo.
Não podia errar. Simplesmente não podia.
– Cora… — Disse Samu, entre um gemido de esforço quando parou a lâmina gigante.
Abri uma fenda atrás do Minotauro, que ergueu o machado novamente, dando um passo para trás, escorregando e caindo na escuridão do submundo.
Durante um tempo, ouvi um mugido, como de uma vaca sendo abatida. Fechei a fenda, e uma tontura e cansaço intensos me tomaram de supetão.
Cambaleei, e Samu me obrigou a se apoiar nele. Me esforcei para não corar. Isa apareceu pouco tempo depois.
– Parabéns Little Shadow. — Abri a boca para responder, mas ela me cortou. — A batalha era sua, não minha. — Ela deu de ombros. — Venham, vamos cair fora daqui.
Mesmo quando eu disse que estava bem e que não precisava de apoio, Samu continuou ao meu lado, me lançando olhares nervosos.
Isa algumas vezes olhava para trás e mordia o lábio, como se quisesse dizer algo mas não tivesse coragem. Por fim, dava um sorriso pretensioso e voltava-se para a frente.
– Eu disse que não precisava que vocês estivessem aqui. — Murmurei, cansada.
– Você nem sabia que era o Minotauro até ele aparecer no meio da rua. — Disse Isa, por cima do ombro.
– E precisava saber?
– Sim, precisava. — Ela sorriu. Mesmo não se virando, sabia.
– Cala a boca. — Aquilo só fez com que ela risse mais.
Continuamos andando em silêncio. Apenas nossos passos cortavam o silêncio. Uma dor de cabeça se juntou a tontura e cansaço.
“Eu não preciso deles. Não preciso de ninguém além de mim mesma. Além do mais, eles...”
Meu pensamento foi cortado, e meu cérebro parou de funcionar. Não me lembrava de como se andava. Como se respirava. Como se mantinha em pé. O mundo passou a girar mais rápido do que o costume. Em instantes, o chão de asfalto se tornou mais perto. Um galo surgiu na minha testa, mas não o senti. Apaguei.
Fale com o autor