The Black Halo
6 Capítulo V - Merely this, and nothing more.
Notas iniciais
— Sebastian.
O menino chamou ao fim do entardecer, algum tempo após ter retornado a carruagem com o mordomo. Havia lhe ordenado pagar um cocheiro conhecido da família para que assim pudesse tratar de assuntos importantes com seu demônio particular durante a viagem de volta a mansão Phantomhive, nos confins de Londres.
O sol, que já sucumbia, projetava suas lanças luminosas através das janelas do luxuoso aposento móvel, tanto emoldurando os rostos do homem e do menino com sua claridade dourada quanto enegrecendo seus perfis. Ambos criaturas sombrias se esgueirando sob uma tênue camada de humanidade sublimada na forma do coercivo pulso da sociedade, limitações humanas e tudo o mais que apenas os homens eram capaz de impor friamente a seus semelhantes.
— Sim, jovem mestre? – respondeu enfim.
— Fale-me mais a respeito do demônio que Undertaker citou há pouco. Espero que tenha um bom motivo por ter ocultado esta informação de mim.
— Certamente. Não reportei ao Jovem Mestre apenas diante da incerteza. Indícios apontavam para que fosse realmente o que pensei, entretanto, o tipo de selo que vimos na abadia não é incomum. Ficaria surpreso se eu lhe dissesse que existem centenas de outros selados, mundo a fora. Perdoe-me, porém, seu humilde servo apenas aguardava provas concretas antes de se fazer ouvir.
— Entendo. Prossiga, Sebastian.
A cada instante passado, o grande astro que iluminava a esfera terrestre deixava de manter aceso o cotidiano de boa parte da “terra onde o sol nunca se põe”, dando espaço a um novo mundo, um mundo noturno, o submundo. Era a partir desta hora que diversos bailes tinham início, casas noturnas começavam o expediente, assassinatos aconteciam, medos infantis eram deflagrados e a verdade desfilava por certos cantos proibidos da sociedade.
— Absolutamente. O que se encontra selado nas profundezas de Londres é uma das criaturas mais vis e abomináveis entre nós, mesmo que até sua existência seja frequentemente negada. Seu poder estende-se além dos campos onde a vista o possa levar — A destruição da abadia e a chacina de centenas de pessoas são trabalho de rodapé perante o que poderia fazer após sua ascensão definitiva... Seu poder está, de fato , reduzido. Toda aquela cena grotesca foi provavelmente um truque para se fortalecer.
Em sincronia com o descanso solar, os olhos do mordomo revelaram seu verdadeiro aspecto para a criança não tão inocente. Na escuridão, o par de orbes cintilava com uma certeza fatal, a verdade esculpida mórbida em duas pupilas negras pulsantes que convidavam a mancha negra na alma do menino a pular e dançar a valsa do pesadelo que havia bailado durante o pesadelo que tivera mais cedo.
— Dominar a terra sagrada desta sua Majestade seria das tarefas mais simplórias para alguém como ele. – completou Sebastian – Deus salve a rainha...
O mordomo deixou escapar uma risada cujo som oco e tom cínico fazia calafrios travarem frenéticas corridas sobre a espinha do garoto. Este, por sua vez, inconscientemente revelou a natureza de seus olhos, afundando lentamente na sombra da noite e na sombra do corvo.
— Undertaker mencionou que shinigamis provavelmente estariam presentes na abadia. Existe alguma possibilidade de darem um fim nisso? –
— Quando sair de lá ainda estará longe da força total. Um contingente considerável de shinigamis de alto nível pode ter chance de pará-lo. Nada menos que isso resultará apenas em mais carnificina e acabará por fortalecê-lo. Entretanto, jovem mestre, temo que a situação seja precária, para dizer o mínimo. A única preocupação do alto escalão é a recuperação e a manutenção constante do ciclo das almas.
— Quer dizer que...?
— Sim. Podemos deduzir que um pequeno esquadrão deve ter sido despachado tão somente devido às almas terem sido devoradas, o contingente padrão para tal tipo de ocorrência. O resurgimento de uma criatura ancestral com poderes apocalípticos não é de sua conta até que se prove o contrário. Por outro lado, não fará bem algum entrarmos de penetra neste baile. Creio que nossa dança esteja agendada para um futuro próximo. E creio que é aqui nossa decida.
A carruagem freou repentinamente, dando uma guinada característica da direção velho cocheiro londrino. No passado o orgulhoso Ciel Phantomhive tomaria as dores do ocorrido, chegando a pagar menos pelo “trabalho mal feito”, mas este eu havia sido posto para dormir havia algum tempo. O dia havia soado como uma eternidade— nada mais era que as primeiras horas de uma eternidade.
O mordomo levantou-se primeiro, abrindo a porta e dirigindo-se ao homem que haviam contratado com uma pequena bolsa de moedas com uma quantidade mais do que razoável, como era habitual. Porém, a situação diferia dentre muitas. A carruagem usada era propriedade Phantomhive, a mansão se encontrava a uma distância impressionante de qualquer cidade e o sol já havia se posto completamente.
— Jovem Mestre. – Retornou o mordomo. – Temos um contratempo em mãos, por mais que imagino que o senhor já o tenha calculado.
— Sim, Sebastian. Prepare um dos quartos de hóspede para o homem, e pela manhã o escolte até Londres antes da execução da agenda diária.
— Yes, My Lord.
O homem respondeu, curvando-se até determinada altura enquanto abaixava levemente a cabeça. Após as formalidades, abriu o portão que delimitava o território Phantomhive, instruindo o cocheiro a estacionar a carruagem em frente a porta principal, para a saída do conde.
Sebastian o fez auxiliou Ciel a descer as escadas e por fim o deixou sob os cuidados de Tanaka. Do pátio principal, seguiu rumo aos estábulos, acompanhado do cocheiro empregado em casos de urgência.
O homem se chamava Julian Halley. Estava no auge da juventude — seu entusiasmo com cavalos se refletia na vivacidade de sua expressão. Seu sorriso se expandia, seus olhos brilhavam e sua voz era tomada por um entusiasmo que fazia sua voz soar mais juvenil que seus vinte e tantos anos. O cocheiro vinha de uma família londrina de certa expressão local e cursava a faculdade de direito. Apesar de ser uma situação controversa e contraditória, principalmente em relação às condições sociais da família, o emprego de cocheiro era uma espécie de bico secreto.
Mesmo não possuindo uma grande extensão de riqueza, Julian não precisava se preocupar em arrumar dinheiro rapidamente ou prezar por estabilidade financeira. Trabalhava como cocheiro escondido de seus pais, pois queria ficar próximo dos cavalos; estar em comunhão com o vento pulsante despenteando seus cabelos loiros que com frequencia estavam enfiados em algum chapéu ou touca para evitar que fosse reconhecido.
Era um homem educado, e Ciel tinha ciência de sua verdadeira identidade bem como o considerava um cocheiro de confiança. Apesar de ter visto o exterior da propriedade Phantomhive por diversas vezes, esta era a primeira vez de Julian dentro dos portões, e em pouco tempo, da mansão.
Em contraste ao silêncio entre o mordomo e o cocheiro, do lado de fora, o interior da mansão estava transbordando com a agitação concentrada no pequeno epicentro ambulante cor de rosa que irradiava felicidade de forma contagiante. Elizabeth Middleford havia feito uma longa viagem para ver seu noivo, aguardado pacientemente diversas horas com os servos, e agora que finalmente podia vê-lo, não poupava fôlego para abraçá-lo enquanto deslizava rodando pelo piso monocromático semelhante a um enorme tabuleiro de xadrez.
— CI-EEEEEEEEEEL!
Lizzy lançou-se em seus braços como um míssil cor-de-rosa preparado para espalhar uma carga de alta periculosidade de criaturas fofas, essência feminina e um estoque infinito de laços prendados que transformavam todos aqueles atingidos em convidadas de alto requinte de seu majestoso chá da tarde global com biscoitinhos sortidos de teor atmosfericamente alto de glicose.
— Há quanto tempo não vejo meu noivo fofo, heeeein? Precisamos nos ver mais vezes, você tem que me visitar, Ci-eeeel!
Presa ao pescoço do conde, a menina permanecia abraçada e apertada como uma gravata, sem qualquer sinal de soltura iminente. Volta e meia apertava-lhe as bochechas num rodopio constante pelo salão.
— Li-lizzy! Pare, preciso respirar e... Vejo tudo rodando! – O menino exclamou.
— RESPIRE! – Elizabeth deixou de rodar prontamente num movimento brusco o suficiente para derrubar desatentos, despreparados, ou pessoas que não conheciam seus hábitos carinhosos. – Respire Ciel! Não quero perder meu noivo, tão jovem assim, por favoooor!
Ainda com a loira agarrada a si, Ciel procurou repouso, cambaleante, em um assento próximo, e ali se sentou. Por mais que estivesse parado, sua visão ainda bailava ao redor do enorme e luxuoso candelabro dourado da mansão num espetáculo de cores e clarões intensos que entorpecia a mente e embrulhava o estômago de qualquer um, num prelúdio silencioso a possíveis desmaios ou náuseas.
— Fique calma, Lizzy! Não planejo morrer tão cedo, tampouco fazê-la uma pré-viúva.
Consolou-a, acariciando seus cabelos loiros. A menina, por sua vez, acalmou-se e enrubesceu prontamente – fechava os olhos e provavelmente imaginava um magnífico casamento com seu noivo perfeito e o vestido que desenhado e costurado especialmente para a cerimônia por Nina Hopkins, a alfaiate que produzia as roupas de Ciel.
Por outro lado, o conde viajava através de outros pensamentos enquanto aninhava a noiva em seus braços. Suas palavras haviam sido tão mais reais que pairavam sobre si. Calafrios percorreram-lhe a nuca e secaram sua garganta como um deserto árido. As pessoas não deviam se preocupar com sua saúde ou sua vida – Elizabeth e todos jamais perderiam o Conde de suas vidas se dependesse da morte.
O mundo seria a viúva de Ciel Phantomhive – Um a um, veria seus amigos, seus empregados, seus amores e seus tesouros, perecerem numa luta incessante e inevitável contra o tempo. Elizabeth. Bard. Finnian. Maylene. Tanaka. Soma & Agni, e até mesmo Vossa Majestade, a Rainha da Inglaterra, que nada mais passava que uma dublê agora. O único que restaria para sempre ao seu lado era Sebastian Michaelis. A idéia de ser privado de envelhecer ao lado de seus entes queridos, ou sequer o direito do descanso mortal, passando a eternidade ao lado de um demônio como um igual o privava do pouco paladar que lhe restava.
— Ciel... Que roupas totalmente não fofas e escuras são essas?
A menina havia retornado de seu nirvana imaginativo, e seu olhar mostrava pura determinação tirou o menino das garras dos pensamentos que assolavam os cantos de seu coração. Ciel sabia o que vinha em seguida, Lizzy sempre buscava manter em ordem a beleza e o guarda roupa de seu noivo de acordo com seus singulares padrões estéticos.
— Um distinto conde a serviço de Vossa Majestade precisa usar algo mais sóbrio e adulto, não acha?
Mesmo que o tom de sua voz expressasse algum tipo de seriedade, pela primeira vez durante toda a sucessão de eventos e maquinações do mordomo Trancy, o menino sorria tímido. A expressão passou despercebida por todos, exceto Elizabeth. Ciel era grato pelo tratamento idêntico que recebia da menina não importava a situação, mesmo não sendo o mesmo menino de antes e talvez nunca mais podendo voltar a ser.
— CI-EEEEL, eu acho que Vossa Majestade também gostaria de algo fofo para você!
No exato momento em que Elizabeth bradava a respeito de roupas novas para seu noivo, as portas da mansão se abriram acompanhadas de um estrondo imperioso que parecia preencher e se agarrar a cada centímetro do salão, como se o som insistisse em permanecer de alguma forma, mesmo que inaudível. Sebastian e o cocheiro Julian haviam acomodado os cavalos e a carruagem nos estábulos, e o mordomo já retornava com o convidado.
— Bem vindo à mansão Phantomhive, senhor Halley. – Sebastian estendeu a mão ao interior da mansão, num gesto de boas vindas que apontava para o luxo do saguão e as acomodações em que dormiria naquela noite.
— N-nossa, senhor Sebastian...! Que incrível, Conde Phantomhi-hive!
Julian estava admirado com a beleza da propriedade, o luxo do saguão da alta sociedade e todo o requinte e austeridade que a atmosfera da casa emanava, como um brilho exótico e único de uma jóia rara recém lapidada no formato perfeito. O suposto cocheiro já tinha frequentado salões da alta sociedade e bailes importantes, entretanto, jamais havia posto os olhos numa mansão particular tão formidavelmente notável em Londres.
— Por favor, entre, senhor Halley. Seja bem vindo ao humilde lar dos Phantomhive.
Ciel pôs-se de pé num pulo, tomando a mão de Elizabeth discretamente e pondo-a junto a si, disfarçando o modo com que a permanecia agarrada a si. Tudo que o jovem cocheiro podia ver era o conde, formalmente segurando a mão de uma belíssima pequena dama, uma pérola radiante, como uma princesa.
— Esta é minha noiva, senhor Halley, Elizabeth Middleford. Lizzy, este é Julian Halley, inestimável cocheiro da família Halley, que cursa a faculdade de direito em Londres.
Elizabeth meneou levemente a cabeça, erguendo os lados da saia rosa prendada discretamente num sinal de reverência e boas vindas. Julian caminhou um pouco a frente, curvando-se respeitosamente.
— Prazer em conhecê-la, Senhorita Middleford... Conde, se me permite a pergunta... Como sabe da faculdade que curso...? Este emprego de cocheiro é mais como um passatempo, minha família...
— Oh, não se preocupe, Julian. Posso chamá-lo assim? É meu dever saber de meus empregados, mesmo aqueles que não trabalham na mansão, e prestam apenas alguns serviços.
— Claro, como quiser, Conde... Sei que um humilde serviçal como eu não tem direito, mas... Posso lhe pedir um favor? – Envergonhado, Julian abaixou a cabeça, apertando o chapéu com as mãos, que havia retirado antes de entrar no saguão, claro.
— Certamente. Deixe-me ver... Imagino que queira segredo a respeito de sua identidade verdadeira, e no que anda trabalhando, correto? – O menino tomou a bengala com a outra mão, caminhando lentamente para longe do banco com sua noiva, em direção a escada central do saguão.
— Sim, conde Phantomhive... Meus pais não aprovam meu amor pela... Profissão. Assim, peço humildemente pelo seu favor... Porém, se não for possível, entenderei.
— Repito — não se preocupe Julian. Durma tranquilo sabendo que seu segredo está seguro e enterrado no subsolo desta mansão! – Finalizou Ciel, batendo com a bengala no piso, produzindo um imponente som que ressoou pelo saguão como o martelo de um juiz dando seu veredicto.
— M-muitíssimo obrigado, Conde!
O homem se ajoelhou, colocando a mão sobre o peito e abaixando a cabeça. Por mais que na realidade não fosse um serviçal propriamente dito, ou que não fosse de uma classe tão baixa para precisar abaixar-se tanto, Julian era um homem bom e humildade que reconhecia suas dívidas e era incapaz de negá-las.
— Sebastian, prepare o quarto de hóspedes, e o jantar, afinal, temos dois convidados especiais hoje à noite. – Sorriu para sua noiva e para o hóspede.
— Certamente, Jovem Mestre. Se me derem licença, Lady Elizabeth, Senhor Halley.
O mordomo se curvou diante do mestre, pondo a mão direita no peito num gesto solene. Logo depois disso, levantou-se, e desempenhou uma leve reverência para com os convidados, tanto a noiva de seu senhor quanto o cocheiro aspirante a advogado e jóquei e caminhou em direção aos quartos, e depois, a cozinha.
A noite havia avançado – Sebastian havia preparado um perfeito jantar: Como prato principal, um belo e dourado peru assado despontava ao centro da mesa, acompanhado elegantemente de lagosta japonesa frita com sua casca reluzente protegendo o interior macio e suculento, disposta em uma espécie de torre de travessas onde cada uma de suas partes era acompanhada por diversas outras iguarias, além do tradicional salmão assado com salada de menta, cujas laterais eram adornadas por torradas cortadas finas. Como suporte à refeição, um pote com uma bela salada de batatas desposava ao lado de uma cesta de pães frescos e a uma segunda torre, desta vez com pequenas fatias de sanduíche, fatias de bolos diversos, e doces. As sobremesas nas extremidades da mesa eram grandes e vistosas gelatinas translúcidas, jarras repletas de frutas maduras recém colhidas, e uma fabulosa torta Foret Noire.
Após o jantar, o Conde se retirou à sala de jogos com sua noiva e o cocheiro, e ali permaneceram até o horário habitual em que o menino se recolhia para seus aposentos para dormir. Sebastian levou ambas as visitas aos seus respectivos quartos de hóspedes, prosseguindo com as cotidianas preparações para o dia seguinte, onde deveriam seguir a agenda até dado ponto, partindo para investigar uma vez mais a abadia de Westminster e quaisquer resquícios de uma batalha entre a criatura e o esquadrão de shinigamis que havia sido despachado.
Seguindo uma ordem dada por Ciel num momento oportuno, o mordomo dirigiu-se ao quarto do menino faltando apenas alguns instantes para a meia noite, o silencioso e discreto início de um novo dia. Com um castiçal aceso em mãos, Sebastian bateu na superfície dura da porta de mogno três vezes, até ter consentimento para entrar. Na verdade, o menino não havia pregado os olhos ou desbravado qualquer terra desconhecida do reino do sono.
O homem de preto havia se intrigado em muito, mais cedo naquele mesmo dia, pois testemunhara um real pesadelo transcorrendo para seu mestre, e demônios não eram criaturas com bilhete de entrada livre pelas planícies de Morpheus, estavam fadados a ficarem acordados para o fim dos tempos. O fato do jovem Phantomhive não ter dormido sequer por algumas horas aquela noite, comprovava a teoria do senhor dos corvos.
Por mais que estivesse manchada de alguma forma com a natureza demoníaca que lhe fora forçada de forma proibida, a pureza, nobreza e perfeição da alma do garoto faziam com que uma transformação completa fosse impossibilitada até que tal perfeição fosse dilacerada e profanada. O menino poderia vivenciar sonhos ou pesadelos humanos, dada a urgência de seus pensamentos e influências externas, mas não dormir como forma de descanso.
O mordomo entrou pensativo e sério no quarto, rasgando a escuridão do aposento com a luz das velas. Rolou os olhos até seu mestre sentado na cama, com o olho descoberto pela ausência do tapa-olho, e a expressão severa e concisa marcada pela ausência de sono. Como ordenado, faltavam dois minutos para a meia noite.
Sem que uma palavra fosse necessária entre ambos, o homem de fraque negro buscou o bolso direito do paletó. Tomou o relógio de bolso de prata em mãos, abrindo-o e revelando seus diversos mostradores, sempre correndo, e sempre tão precisos, estes que caminhavam para meia noite.
Os olhos vermelhos do homem transmutavam-se em orbes róseas e flamejantes, assim como as do menino, ambos travados e concentrados no som monótono e mecânico do relógio. Sebastian fitava fixamente a superfície polida de vidro que encasulava os ponteiros, aguardando o horário; Ciel por sua vez, ainda que distante do relógio observava-o vidrado, como se de fato pudesse ver as horas por de trás da carapaça de prata.
Um minuto para meia noite. Uma chuva fraca começou a molhar e tamborilar contra o vidro das janelas da mansão e a espalhar o cheiro de terra molhada por todo o ambiente, além de um clima mais ameno, como a preparação para uma cena dramática de algum romance popular. Ao longe, no horizonte, Ciel podia ver através de um nevoeiro uma luz verde de tom doentio que crescia a cada segundo em intensidade.
Trinta segundos para a meia noite. A fraca chuva eclodia dramaticamente numa tempestade, fortes relâmpagos e trovões ressoando através dos céus, pintados num fundo onde um pilar verde tornava-se cada vez mais semelhante a um tornado espectral que ocupava uma parcela impossivelmente larga do céu. Era irônico como apenas os dois – além de shinigamis e adjacentes – dentre milhões viam aquilo.
Dois segundos para meia noite. Os olhares de mestre e mordomo se cruzaram, encontrando-se e transpassando claramente a tensão do momento.
Um segundo para meia noite.
— É agora.
O quarto onde estavam transfigurou-se completamente, assumindo a forma do quarto de hóspedes onde Julian Halley repousava. Num canto sombrio, o jovem cocheiro jazia sentado numa poltrona aconchegante próxima ao batente da janela janela, enquanto Sebastian e Ciel se viam de pé, juntos a cama.
—... Você atende por Sebastian Michaelis agora, não é? Então sejamos condizentes com a atuação, afinal, educação e classe são tudo! É bom vê-lo, Sebastian. Alguns milênios se passaram, hein, e você não envelheceu na-di-nha. Que bastardo sortudo. -Julian disse.
— Quem é você? Decerto não é Julian Halley. – Ciel perguntou.
— Oh my, oh my! Primeiramente, deixe-me trocar de roupa para poder me apresentar propriamente, Ciel! Este pijama aqui é apenas uma coisinha para a hora de dormir, sabe... Para vocês dois, tenho que estar impecável! Tratemos disso, sim?
O homem estalou os dedos. O som ressoou por todo o quarto assim como no pesadelo do menino, emitindo vibrações até o interior do seu cérebro. Depois do breve momento em que um zumbido perfurara os ouvidos do menino e de seu mordomo, as sombras do quarto começaram a se estender em direção a paltrona com movimentos vagos e ameaçadores que lembravam o balanço hipnótico de uma serpente antes do abate e então, como lanças, empalaram o corpo do cocheiro, enterrando-se em sua carne de maneira atroz e produzindo o som mais vil que Ciel jamais ouvira.
Um zumbido surdo crescia em seus tímpanos enquanto o corpo do homem se manchava de escuridão e de sangue, como uma esponja que absorvia toda a podridão do mundo. Ao fim do processo, perceberam por fim como o quarto havia se tornado negro, e o homem, uma figura vermelha.
— Ops. Estou sujo, que desastrado sou. Que tal assim?
O sangue começou a deixar a superfície de seu corpo, e subir insidiosamente em direção ao teto como se a gravidade já não existisse ou se aplicasse a realidade. Conforme o sangue deixava sua pele e roupa e se fixava ao teto, criando uma poça de gravidade inversa de aparência absolutamente repugnante, ficava evidente a transformação de seu corpo e suas roupas.
O homem vestia um dos mais luxuosos fraques negros que poderia se imaginar, repleto de detalhes e adornos característicos da mais alta nobreza, até da majestade. Seu corpo havia se tornado mais alto e sua pele muito mais alva, cadavérica. Seu cabelo que uma vez fora loiro, agora crescia e escurecia totalmente despenteado e jogado para trás despojadamente. Seus olhos eram escuros – Na realidade, não havia sequer distinção do que era pupila ou íris, apenas um lago repleto da mais profunda escuridão. E por fim, seu sorriso cresceu como o de um palhaço infernal, deleitando-se da tragédia ao invés da comédia. A cada relâmpago estrondoso que clareava todo o ambiente, uma expressão de grande insanidade e maldade, com olhos muito maiores e vorazes era vista por frações de segundos.
— Sou Mephistopheles, Ciel. Perdoe-me por fazê-lo esperar. Espero que não tenha se esquecido de mim, Sebastian Michaelis.
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