The Big Four - As Legiões Colidem

33 |All| Temples, prophecies and revelations


Soluço POV

"Se eu berrar, você me veria?

Você deitaria

Em meus braços e me resgataria?

Porque somos

A mesma coisa

Você me salva" More Than This — One Direction

A paciência de Soluço estava curta. Curtíssima, na verdade.

Soluço percebera que depois do momento em que Merida havia se aproximado no dia em que ela chorara seus sentimentos por ela mudaram. Não era amor, ele insistia para si mesmo, apenas uma sensação de dever que não importasse as circunstâncias, ele deveria estar ajudando-a em todos os seus problemas.

Mas o momento em que Soluço viu Merida sendo beijada pelo garoto alto – pelo que entendera Soluço, seu nome era Elliot – seu coração se despedaçou. Ele não entendia por que, mas foi isso que ele sentiu.

Era difícil encará-la nos primeiros momentos, mas a raiva dele passara imediatamente quando Merida levantou-se da cama e decididamente disse: “Começaremos imediatamente”. O principal motivo de ele apreciar tanto ela era por sua determinação. Nada consegue abatê-la de verdade, ele pensou.

Durante toda a manhã, Soluço procurou sua oferenda. Cada um deles havia saído pelo meio da densa floresta a procura da oferenda correta. O de Soluço não estava fácil.

O que serviria de oferenda para o Ar? Ele pensou. Era uma missão quase impossível encontrar algo bom o suficiente para o deus Awel.

Por fim, seus olhos focaram de longe algo que serviria como uma oferenda. Ele nunca havia visto aquilo antes, mas era fascinante.

Era aquilo que ele iria usar.

Rapunzel POV

"Aqui é seguro

Aqui é um abrigo

Aqui as margaridas te protegem de todo o perigo

Aqui seus sonhos são doces e amanhã eles serão lei

Aqui é o lugar que sempre te amarei" Jogos Vorazes — Suzanne Collins

Rapunzel se sentia inútil. Era essa a palavra certa para descrever sua emoção: inútil.

Todos sabiam mais que ela. Entre os três, Rapunzel podia ter certeza de que era ela a mais perdida. A divisão entre sua obrigação diante da profecia e a vontade de sair correndo com Jack para um lugar em que ela pudesse amar em paz pesava sua cabeça. Mas ela não podia simplesmente desistir.

Enquanto se arrumavam para procurar suas oferendas, Rapunzel tentou testar seu chicote. Ele servia perfeitamente em sua mão e não era pesado, como se fosse feito sob medida para ela. Manuseá-lo não era verdadeiramente difícil– na verdade era bem fácil, mas o pensamento de que Rapunzel teria que usar algo tão brutal contra alguém a deixava enojada -.

Guardando de volta sua arma, Rapunzel escutou o plano orquestrado por Merida e Soluço: eles iriam para o lado da floresta de sua determinada Legião e procurariam a oferenda certa. Segundo Merida, você não encontra a oferenda, mas sim a oferenda encontra você. Isso não ajudou no otimismo de Rapunzel.

Despedindo-se rapidamente de cada um deles (bem, nem tão rápido assim de Jack), Rapunzel adentrou de vez na região leste da floresta a procura da flor ideal.

Merida POV

"Meu espírito. Isso é uma novidade. Não sei exatamente o que significa, mas indica que eu sou uma lutadora. De uma maneira mais ou menos corajosa. Não sou sempre antipática. Tudo bem, Não saio por aí amando todo mundo que encontro pelo caminho, meus sorrisos não aparecem com facilidade, mas me importo com as pessoas."Suzanne Collins — Jogos Vorazes

Merida acordara tão relaxada na cama de Stoico que levou alguns momentos para ela se lembrar do que havia acontecido na noite anterior. Segundos depois quando se lembrou, um choque passou por todo o seu corpo.

Seu pai estava bem? A guerra havia começado? O castelo fora muito destruído? Sua mãe e seus irmãos haviam conseguido fugir?

Elliot estaria cumprindo sua promessa?

Tudo viera tão rápido e misturado em sua mente que parecia mentira, um pesadelo horrível. Mas algo dentro dela dizia que sim, tudo fora mais que real.

Deixando a cabana para encontrar sua oferenda, Merida institivamente tocou em seus lábios. Era estranho pensar que na noite passada seus lábios foram tocados pelos lábios de Elliot. Um frio na barriga fez com que ela ficasse ligeiramente nervosa, lembrando-se das mãos de Elliot a sustentando e principalmente em como os movimentos da boca de Elliot envolveram ela.

Mesmo que ela quisesse, era impossível negar de que durante aqueles pouquíssimos minutos a Merida não se sentiu diferente. Durante aqueles minutos seu mundo havia parado, fazendo com que o fato dela estar no meio de um caos desaparecesse. Tarde demais.

Andando entre as árvores ela se lembrou de Soluço. Ele estava diferente com ela. Ele parecia distante e levemente grosso. Ele mal se despediu deles quando foi procurar pela sua oferenda, apenas dizendo um “tchau” sem graça e sumindo.

Merida armou sua flecha, que, por sorte deixara a arma na cabana de Soluço antes de da fuga do castelo, e esperou algo que pudesse abater para usar como oferenda.

O lugar que ela escolheu foi estratégico: perto de água. Em algum momento um animal surgiria para beber água e neste momento ela o abateria. Merida torcia para que fosse um animal forte, digno de oferenda, por mais que fosse cruel pensar em matar um animal saudável.

Em cima de uma árvore ela esperou. O dia estava claro e calmo, o que facilitava a visita dos animais. Vinte minutos depois um veado surgiu.

Era um animal belo, com pernas longas e finas e com galhos longos, o que mostrava ser um animal bem saudável. Merida com sua mira perfeita o abateu imediatamente bem entre os galhos, na cabeça.

O animal era bem pesado, fazendo com que Merida tivesse que arrastá-lo ao invés de carregar. O suor brotava de sua testa enquanto ela caminhava ofegante a caminho do templo.

Era fácil saber onde ficava. Ela sentia. A presença do fogo eterno era tão intensa para os Legionários de Fogo que mesmo cego você conseguiria achar o lugar.

Com mais uma hora de caminhada ela chegou. As árvores que sempre estavam contornando tudo na floresta deixavam um campo aberto em volta da caverna. O Soul-Patronus de Merida brilhava mais do que o habitual por conta da presença do templo.

A caverna era por fora, tão escura quanto carvão. Se havia alguma chama brilhando dentro da caverna, seria impossível acreditar. Era tudo tão escuro que só mesmo entrando para ter a confirmação. Um caminho de pedras levava o visitante com a oferenda até o templo. Merida respirou fundo e seguiu o caminho enquanto arrastava sua oferenda até chegar na boca da caverna. Era agora.

Merida olhou ao redor e notou que tudo continuava escuro. Estava quente dentro da caverna (tão quente que chegaria a ser insuportável para alguém de outra Legião. Para a Merida era normal e até reconfortante). Merida olhou para o fundo da caverna, mas não via nada por conta da escuridão. O estranho foi quando olhou para o mesmo lado que olhara a segundos atrás e notar que uma tocha acesa havia surgido na parede. Ela o pegou e iluminou o fundo da caverna. Por mais incrível que isso possa parecer, não mostrava o fundo, mas apenas mais e mais caminho a percorrer.

Arrastando o animal em seus pés Merida caminhou até o fim da caverna. Pelo tamanho exterior da caverna ela era pequena. Mas Merida andava e andava e o fim parecia nunca chegar de fato.

Merida chegou ao fim e notou que não havia nada. Ela se ajoelhou para ver se via algo mas não. Tudo havia acabado.

O estranho foi que na sua frente o chão rachou, mostrando um brilho forte vindo de baixo, rompendo a escuridão. Deveria ser o templo, pensou Merida, e corajosamente ela desceu as escadas que surgira do chão e chegou.

A fogueira era imensa; as chamas alcançavam dois metros e sua largura era de mais ou menos cinco metros. Os olhos de Merida brilhavam com o que via. As chamas entravam em seus ossos e sistema, fazendo com que ela se sentisse mais viva. Mais Fogo.

Merida fez uma reverencia em respeito ao deus Muspelheim e jogou o animal no alto das chamas. O veado imediatamente se desfez com a temperatura.

Merida olhou ao seu redor esperando algo. Talvez não fosse o suficiente, ela pensou. Talvez eu devesse falar algo.

Então ela falou, usando as palavras que surgirão direto de seu coração:

Oh, deus Muspelheim, deus vermelho das chamas, deus que brilha no coração frio de um legionário sem esperança, peço-lhe apenas a orientação em minha missão, para que eu derrote o mal que espera com crueldades e ignorância.

Merida falara com intensidade, falando com toda sua força e fé, esperando que esse seu ato a ajudasse com suas maiores dúvidas.

E foi no momento em que ela estava quase desistindo que uma forma de rosto surgiu entre as chamas.

POV Rapunzel

"Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos."Antoine de Saint-Exupéry

As flores mais bonitas que Rapunzel encontrou foram hortênsias azuis que brotavam entre um tronco velho caído. O orvalho presente nas flores refrescaram a mão de Rapunzel quando ela delicadamente arrancou as flores do pé.

Rapunzel cheirou as flores e cuidadosamente levou-as para o templo.

Rapunzel não procurou exatamente a localidade do templo. Ela nem mesmo se orientou! Ela apenas foi andando de modo avoado com sempre e quando notou, ela já estava no templo.

Se Rapunzel fosse imaginar um jardim de fadas, ela imaginaria como o templo. As tulipas laranjas e roseadas serpenteavam todo o jardim, formando desenhos e padrões belíssimos, comprovando apenas como a natureza pode ser bela. A grande árvore que era um salgueiro (o que surpreendeu Rapunzel por sua beleza) tinha galhos longos que chegavam até o chão e um cheiro forte. Rapunzel não pôde deixar de imaginar ela e Jack sentados embaixo dessa árvore relaxando e podendo se amar em paz. Era esse seu maior desejo: amar em paz.

No meio do tronco grosso do salgueiro tinha um buraco esculpido. Rapunzel julgou que provavelmente seria ali que ela deveria por a oferenda e foi o que fez. Rapunzel caminhou lentamente entre as flores, certificando-se que não pisaria em nenhuma delas e com delicadeza, pousou as suas hortênsias azuis que tanto lembravam os olhos de Jack (e esse fora o maior motivo dela ter escolhido essas flores).

Imediatamente uma brisa refrescante bateu seu rosto. Seu cabelo que estava bem trançado de modo que ele não a atrapalhasse enquanto andava parecia ter por um momento perdido o peso. Abrindo os olhos lentamente após se relaxar com a brisa, ela notou que as longas folhas do salgueiro haviam se levantado e dançavam, mudando as cores das flores.

Todas as tulipas do jardim tornaram-se hortênsias azuis, como de sua oferenda. As folhas das árvores envolveram Rapunzel, levando-a para o meio do jardim, em frente a árvore para encará-la.

Foi quando ela percebeu que naquele momento os galhos compridos da árvore haviam se trançado, formando um rosto belo de uma deusa.

POV Soluço

"A verdade é uma coisa bela e terrível, por isso deve ser tratada com grande cautela." Harry Potter — J.K. Rowling

Soluço carregou sua oferenda entre os braços cuidadosamente para não quebrar (esse era seu dom maior: quebrar as coisas) e enquanto caminhava para o templo, Soluço podia sentir como o vento o guiava para o caminho certo.

Chegando bem à frente das montanhas rochosas, Soluço estremeceu. Era agora, ele pensou. Ele deveria subir até o pico da montanha.

Criando coragem e esquecendo-se da alta probabilidade dele se espatifar no chão, Soluço começou a subir pelo caminho usado pelos sacerdotes de sua Legião.

Ele tinha sorte de ter um caminho pré-definido – mas isso não significa que tornava mais fácil – e Soluço subia, apoiando-se no calcanhar e afirmando para si mesmo que em hipótese alguma ele deveria encarar o chão. Apenas o alto, ele pensou. Foque sempre no que vai vir e esqueça o que passou.

Sua oferenda fora complicada de achar, mas era aquilo, exatamente aquilo que ele gostaria de oferecer.

Não era exatamente algo relacionado ao Ar ou mesmo um descobrimento único: era só cata-vento. Soluço decidira que, se precisava oferecer algo de boa vontade, ele poderia criar a sua oferenda. Soluço como sempre teve mãos ágeis, criar um cata-vento feito com folhas grandes e galho não fora realmente difícil.

Segurando seu cata-vento próximo ao peito para não derrubá-lo, Soluço chegou no pico. A montanha não era exatamente montanha: estava mais para monte, mas era cansativo subir até o topo. Porém ao chegar lá em cima, o ar puro e a paisagem compensou a canseira. Tudo era tão lindo e puro!

E foi aí que o erro aconteceu: Soluço ao tentar se aproximar da beirada do topo para observar o chão lá embaixo, seu cata-vento voou para longe de suas mãos, deixando-o sem oferenda.

Soluço se desesperou com a ideia de que seus esforços não seriam recompensados. Por fim algo estranho aconteceu: seu Soul-Patronus queria se aproximar de algo que Soluço não via.

E estranhamente, naquele momento, Banguela começou a voar e um arco-íris passou em seu corpo espectro, tornando-o um refletor de luz maravilhoso no topo da montanha.

E bem na sombra do dragão, Soluço observou que ali formava um rosto. O rosto de deus Awel.

POV Jack

"Vocês certamente sabem que só existem duas emoções, amor e medo." A Culpa É Das Estrelas — John Green

Não era raiva o que ele sentia de Merida. Era algum tipo de birra, que talvez não viesse só da parte dele, mas também de seus ancestrais por odiarem tanto A Legião Fogo.

Ela sempre queria parecer... inquebrável e isso era irritante. Vê-la levantar da cama decidida que agora eles tinham que procurar seus templos o fez soar sangue. Que menina cabeça dura!

E o beijo também não ajudava em seus conceitos a favor de Merida. Jack percebeu o olhar de Soluço. Ele notou sim que os dois estavam tendo algo.

Antes de ir à procura de sua oferenda, Jack puxou Rapunzel para o canto, querendo conversar. Ele sabia que sua loirinha estava com saudades e ele deveria se desculpar. Algo a incomodava, ele notou, e por ela... ele mudaria.

– Se há algo que eu fiz e te magoei me diga, por favor. – Jack pediu, enquanto a olhava nos olhos dela, enquanto segurava seus ombros, pressionando-a contra a parede da cabana.

– Boa sorte – ela sussurrou e entrelaçou seus braços no pescoço de Jack e o beijou. – Boa sorte, boa sorte, boa sorte. Vá ao templo e faça o que deve fazer.

Jack a beijou de volta, tirando sua mão direita do ombro da garota e entrelaçando em seus dedos nos delas.

– Não te magoei mesmo?

– Se você quer se sentir melhor, eu o desculpo de ter sido tão incompreensível com Merida e o desculpo pelas suas manias irritantes de sarcasmo desnecessário. Na verdade, nada mais disso importa. Agora você me desculpe.

– Obrigada por me mostrar como sou idiota, Punzie-Punzie, mas se...

– É isso que o faz ser tão especial para mim, idiota da Punzie-Punzie? Okay, eu sou a Punzie-Punzie. Agora cale a boca e vem cá.

Jack sorriu com malícia e dessa vez a beijou com mais intensidade. O tempo não permitia, mas ele se esqueceu desse detalhe e a envolveu do modo que sempre desejou, sustentando-a e passando toda sua proteção nela, porque ele sentia a obrigação de cuidar de sua flor.

Quando Jack notou, ele já dentro de uma caverna procurando sua oferenda. Ele não consegue se lembrar exatamente como chegara ali, mas estava.

Um calafrio percorreu por toda a sua espinha. O lugar era frio e estalactites e estalagmites emolduravam a caverna escura e fria.

Jack envolveu sua mão em uma longa estalactite que pendia do teto em forma de cone pontudo e um choque elétrico passou em seu corpo. Era essa sua oferenda.

Jack quebrou a estalactite com sua espada. Ela era longa, quase do tamanho de seu braço e bem dura. Se Jack a transportasse rapidamente ele esperava que sua estalactite não quebrasse.

E naturalmente a brisa o transportou para o templo, o grande lago embrumado.

O céu era cinza naquela parte. A bruma não o deixava ver o fim do lago e nem mesmo ver a profundida dele. O clima era pesado e frio, fazendo com que saísse uma pequena nuvem de sua boca quando ele respirava.

Ele segurava a estalactite com delicadeza para que ela não derretesse tão rápido, mas o clima o ajudava. Estava bem frio nessa região.

Jack se aproximou da beira do lago e olhou para seu reflexo. Seu rosto se movia com as pequenas ondas que balançavam a água.

A água em sua frente se moveu em sincronia, transformando sua forma em um redemoinho. Jack julgou que ele deveria por sua oferenda ali. Colocando sua estalactite dentro do redemoinho, ele se dissolveu e em seu lugar a água de todo o lago formou o rosto de uma lindíssima deusa.

Sya, a deusa da Água, encarou com doçura seu escolhido. Mas brutalmente seu olhar transformou em pena. Algo difícil estava por vim no caminho de Jack.

POV Soluço

"Posso ficar com a consciência limpa

Se sou diferente do resto

Tenho que fugir e me esconder?

Eu nunca disse que eu queria isso

Esse fardo veio até mim e fez sua casa em mim" Monster — Imagine Dragons

Não que Soluço soubesse como o grande deus Awel parecesse, mas ele sabia que era ele. Soluço o encarava assustado. Uma parte dele se sentia lisonjeado, outra parte sentia raiva.

Awel tinha uma barba espalhafatosa e acinzentada. Soluço não podia ver mais nada além do rosto, mas era perceptível que era um homem magro e alto, como uma agulha.

– Meu escolhido – disse Awel encarando Soluço.

– Desde que estou nessa eu me pergunto por que eu. – falou Soluço tentando reprimir o ódio de sua voz.

– Não poderia haver uma criança com tanta facilidade em contornar problemas como você, meu escolhido.

– Problemas? Hupf... – Soluço se sentia indigno em estar naquele lugar. – Eu perdi minha mãe. Esse é meu único problema.

– Você tem facilidade em inventar. – acrescentou Awel, com a mesma calma de sempre. – Você pode ser introspectivo, mas dentro de você guarda uma grande inteligência. Você é o complemento perfeito de cérebro para seus companheiros de profecia.

– Meu dragão... ele é tão...

– Poderoso. Exótico. Único. Ele é como você, Soluço. Ele é muitas vezes julgado como errado, mas... O que é certo? O que é errado? Ser diferente não é errado, Soluço. São as pessoas que isolam algo por acharem que é errado. Sinceramente, a única coisa errada é não aceitar que é diferente.

Então era isso que ele era, pensou Soluço, um dragão. Mas isso ainda não o ajudava. Ele não queria ser o dragão.

– O que devo fazer? – pergunto Soluço enquanto reprimia lágrimas de desespero.

– Seu caminho está trilhado para o ápice da missão. Você terá que sacrificar todos que ama para atingir e vencer o que te espera. O mal... ele está mais perto do que imaginamos.

– Ele está chegando para nós como? – perguntou Soluço com tremor.

– Ele já chegou para mim e meus irmãos. Estamos aprisionados a ele e estar conversando aqui com você requer tanta força! Há dezesseis anos estamos nos escondendo dele mas ele finalmente chegou e se vocês não ganharem não haverá chance. Sabe, Soluço, eu sou o deus do ar. O ar que nos faz vivermos, respirarmos. O ar que purifica nossos pulmões. O ar que leva o mal para longe com a brisa. Eu acredito, Soluço, que você entende o que estou dizendo. Você tem o poder do ar.

– O que eu preciso fazer?

A imagem do deus estava se dissolvendo lentamente. Pela expressão de Awel, Soluço pôde julgar que ele estava enfraquecendo.

– O símbolo do mal

Ressurgirá entre a Legião.

Entre o bem ou o mal

Lutará entre os irmãos...

Ele se dissolveu por completo, mas não precisou terminar. Soluço já sabia.

(...) Uma nova era surgirá

Se aquele não fracassar.

O maior terá que deter

Para não perder o poder.

Mas diferente do que Soluço sempre achara antes, o maior não era rei Luft. Estava nítido.

O maior era esse mal terrível que ele deveria deter.

POV Merida

"Quando você tem medo e faz mesmo assim, isso é coragem." Coraline — Neil Gaiman

Os olhos de Merida recusavam-se de acreditar que era o deus Muspelheim que brilhava nas chamas. Sua expressão era forte, como se alguém o contrariasse ele imediatamente mataria. Ele tinha longos cabelos e uma barba bagunçada e cheia, que se juntava com o cabelo. Rugas contornavam os olhos e testa, como se ele tivesse passado a vida inteira com careta. Dava para perceber que ele era forte e grande.

– Minha jovem legionária. – pronunciou o deus com uma voz grave. – Quanta coragem eu vejo.

Merida estava confusa. Durante toda a missão ela estava com medo. A todo o tempo ela queria fugir e sair gritando. Ela não se sentia corajosa. Coragem era algo tão genérico de dizer.

“Coragem é um modo delicado de dizer que a pessoa é louca ou imbecil”. Merida se lembrava dessa frase e nada poderia fazer muda-la de ideia.

– Eu não me sinto corajosa. – disse Merida, olhando para os olhos de fogo do deus.

– Mas você é. Sabe, minha jovem, a coragem não é você sair por aí gritando: “Eu não tenho medo!” Ou então: “Eu sou tão corajoso a ponto de engolir um escorpião ou pular de uma montanha.”. Isso está longe de ser coragem. Isso é chamar atenção, imbecilidade. Sabe o que é coragem, minha jovem? Coragem é quando você está com medo, mas mesmo assim não desiste. Coragem apenas surge quando precisamos ser corajosos e você é. Eu sei que eu posso confiar em você porque você é corajosa o suficiente para nunca desistir, por mais tortuoso que seja seu caminho.

E Merida refletiu rapidamente as palavras. Ela estava com medo, mas antes ela não se orgulhava disso. Mas agora... Isso se transformara em poder.

– Qual é minha parte na missão? – Merida perguntou, deixando sua postura mais ereta e confiante.

– Você tem a personalidade forte do Fogo. Sabe, o fogo é perigoso. Se não soubermos lidar de modo certo com ele, ele nos queima. Você é assim: explosiva. Mas sua missão é ser a tocha que orienta. Você é a força do time, a que os mantém unido pela sua persistência. No final, minha jovem, uma escolha você terá que fazer e eu sei que estará preparada.

Merida limpava as mãos no vestido, pois elas soavam. Por fim, o deus disse:

– Você tem uma profecia, se me permite recitar:

“Como o fogo você iluminará

E o caminho tortuoso guiará

Entre as nuvens negras de desespero manterá

A sanidade de todos e governará.

Uma escolha difícil terá que fazer

Mas a força sempre estará com você

Lembre-se sempre de onde veio

Pois é lá que concentra o seu poder”

Com um sorriso determinado o deus desapareceu junto com as chamas. O fogo apagou e deixou a caverna escura.

Enquanto Merida saía da caverna, um único pensamento tilintava:

– Eu sou corajosa

POV Rapunzel

"As piores coisas da vida vêm de graça para nós" The A Team — Ed Sheeran

A bela deusa Evy a olhava com doçura. Os galhos longos formavam seu longo cabelo e sua expressão carinhosa e delicada era fácil de julgar que Evy era uma deusa linda. Rapunzel estava encantada.

Rapunzel fez uma leve reverência, pois sentiu na obrigação. Evy quando notou a proibiu:

– Não, minha bela escolhida! Você não precisa fazer isso diante de mim, eu já sei que me respeita.

Rapunzel a encarou com um sorriso de gratidão. Ela era tão amável, Rapunzel pensou.

– Sabe, minha escolhida, vendo como você está lidando tão bem com as dificuldades apenas me mostra em como escolhi bem. Não deve estar sendo fácil.

– Não é, deusa, mas eu fui agraciada com bons compreensíveis companheiros e a natureza me faz sentir confortável.

– Mas mesmo assim é complicado... Isso não deveria ter acontecido com você.

– O quê? – perguntou Rapunzel confusa. Qual seria o erro?

– Te manter presa, sem treino. Desde que o mal me aprisionou com meus irmãos, eu não posso fazer nada para proteger meus legionários e minha escolhida.

– O que isso significa? Minha mãe me manteve na torre, pois o mundo estava cruel demais para mim...

– Não, Rapunzel. Infelizmente se eu te contar isso resultará em problemas para mim e para você. Pode não parecer, mas o mal nos persegue. Ele a qualquer momento pode me pegar fazendo esse contato e isso seria um desastre! Mas se você quer uma dica: foi o mal que a aprisionou.

– Não pode ser! Eu digo...

– Rapunzel, o mal foi tão cruel com vocês! Cada um dos quatro têm problemas recorrentes do mal. Ele sempre os perseguiu para que vocês fossem incapazes de concluir a missão. Vocês apenas não foram mortos porque a força do mal ainda não está concluída. Vocês tem que ser rápidos!

– Mas o que isso tem haver com o fato da torre?

– É complicado, mas a sua força é muito grande. Você entende a natureza, entende os conceitos da Terra e mesmo assim nunca a viveu! Se você tivesse tido a oportunidade de ter vivido com a Legião seu poder seria imbatível...

– Imbatível?

– A Terra, minha escolhida, é o que nos mantém vivos. Nela nós vivemos, nela nós encontramos a água, o fogo e o ar. Eu nunca digo isso, mas somos tão importantes! Você compreende tão bem isso que não poderia ser outra escolhida. Tantas coisas, mas não posso falar...

Rapunzel encarou o chão, refletindo as palavras. Seu coração apertava.

– E quanto a profecia? – ela perguntou.

– Sua profecia. Sim, eu não posso esquecer! Sua profecia é:

“Dentre as flores você é a escolhida

E seu passado terá que enfrentar

Duras revelações serão encaradas

Mas isso apenas a ajudará.

Uma dor renascerá entre a alegria

Mas por um tempo terá que aceitar

Se ganhar sua missão será única

De seu poder de cura poder ajudar.”

– Eu tenho uma pergunta. – disse Rapunzel, depois de um devaneio. – Apenas eu tenho o poder de cura?

– Apenas você. Não deixe que ninguém tire isso de você, minha escolhida. O poder de cura só viverá enquanto você amar.

E as tranças das árvores se dissolveram, voltando ao normal e deixando Rapunzel entre seus pensamentos que tornavam-se tormentas.

POV Jack

"O amor é um grito no vácuo."A Culpa é das Estrelas de John Green

– Meu jovem escolhido. – pronunciou a deusa Sya com uma voz potente. Seus cabelos eram escuros e seus olhos eram da cor da água. Ela era forte e visivelmente decidida. – Sabe, por mais que eu esteja aprisionada há dezesseis anos, eu sempre soube que esse dia chegaria.

– Não foi fácil chegar até aqui, acredite.

– Eu sei. Os problemas sempre o procuraram e o mal que sempre soube seu potencial nçao deixou o preço barato: ele tirou sua memória. Infelizmente eu estou em refém do mal e nada pude fazer. Ah, como eu queria! Mas o mal não deixaria os nossos escolhidos passarem imunes a ele.

– Então como a senhora fala comigo?

– Minha força só funciona no templo. Eu falo com você as escondidas, pois se o mal me vesse... Eu não posso pronunciar seu nome, ele sentiria. Enfim, ele quer se levantar e você terá que proibir.

– Eu sinceramente não gosto disso. Sabe, se eu pudesse ter escolhido se era essa vida que eu teria, eu recusaria. Não ter memória é tão horrível! Eu queria saber mais sobre mim, sobre minha família. Tudo o que eu tinha foi tirado de mim tão bruscamente que eu queria respostas.

– E eu adoraria te dar, meu jovem escolhido, mas não posso. Tenho que ser breve. Sabe por que eu te escolhi? Porque você é fiel. A dor amargurou tanto seu coração, você tenta não sentir os sentimentos, mas... você é o que sente com mais intensidade. Não tente esconder, Jack, não é vergonha sentir! Deveríamos nos orgulhar da capacidade de chorar, de sentir raiva e principalmente: de amar. Isso que nos torna vivo. O mal não sente, por isso que ele é tão cruel, Jack, não tente se aproximar do mal.

Jack tentava ouvir com indiferença, mas era impossível. Seu coração se apertava ao ouvir essas palavras. Ele tentava mesmo não sentir. Sentimentos só trazem dor. Tudo bem que todos amam o prazer de sentir, mas Jack prefere não se arriscar para depois se machucar. Esquecer seu passado tanto o atormenta. Ele apenas gostaria descansar em paz, porque era isso que ele procurava: paz.

– Você é fiel, meu escolhido. Por mais que você sinta a vontade de fugir, desistir, eu sei que nunca abandonaria seus amigos. Você é tão necessário no conjunto. Eu sei também que não se orgulha da sua Legião, mas nunca esqueça de onde veio. Ela pode ser ingrata com você, mas se soubesse seu passado...

– Mas eu não sei, não é? Eu gostaria de saber, eu gostaria que alguém me contasse! Por que a senhora não me conta agora, hein? Isso me perturba tanto que pelo menos eu teria um peso a menos em minhas costas.

– Eu não posso, meu escolhido. Eu realmente gostaria, mas não posso. O mal descobriria e na hora certa você terá suas respostas. Não desista.

– Então eu vim aqui para não ter nenhuma resposta, é isso?

A deusa Sya o olhou com calma, por mais que Jack estivesse faltando com respeito. Ela o respondeu:

– Tenho sua profecia, se quiser ouví-la:

“A dor que te ensinou a ser inflexível

Terá que ser encarada

Como ondas você terá que enfrentar o mal

E as respostas você receberá

Grandes provações passarão por sua trajetória

E com força terá que ceder

Se com humildade concluir suas dificuldades

A paz procurada finalmente irá surgir”

Mas as ondas tremeram quando ela terminou de falar. Ela virou a cabeça para observar algo que Jack não sabia o que. Deveria ser algo que estava em sua sala que fica refém ou algo do tipo, mas isso a apavorara. Seu rosto foi absorvido pelas ondas e eu seu lugar Jack ouviu apenas uma voz grossa e cruel falando:

– Jack Frost, se você julga tão corajoso como diz, olhe para o céu. Eu estou chegando e duvido que consiga me derrotar. Foi um erro a deusinha ter entrado em contato com você! Seriamente, ela acha que vocês terão sucesso? Mas nem todo o mal é inteiramente mal, o qual irônico isso pode soar. Se quer uma resposta, eu te darei uma: Fique avisado que quem vocês amam eu arrancarei. Que se quiserem eles de volta, que me enfrentem! Eu os derrotarei e tudo será mais rápido. Poupe você e seus companheiros da dor emitente e se entreguem. Caso o contrário, eu os arrancarei quem você mais amam. Você vem? Ou prefere que eu tire a vida de quem você ama? Não seja tão egoísta, Jack Frost.

Jack recuou do lago ao notar que a voz era do tal mal. Quem quer que fosse ele passava calafrios em toda a pele de Jack. ele não sabia o que fazer.

Mas foi então que ele se lembrou das palavras da deusa que acabara de ser arrebatada: “Não desista”.

– Eu não vou me entregar e entregar os meus amigos a você, que fique bem claro! As legiões estão em nossas mãos e nós as salvaremos. Qual seja a sua vontade, ela não será cumprida. Nós te derrotaremos.

– Então você é egoísta a ponto de deixar as pessoas que você e seus companheiros mais amam comigo? Você deixará que eu aprisione em meu mal quem vocês amam? Jack Frost, isso é bem típico de você.

– Eu sou egoísta então. Saia daqui.

– Eu já estava mesmo de saída. Mas olhe atentamente para o céu Jack Frost. Na verdade, eu apenas cheguei.

A voz sumiu das ondas, o lago voltando a calmaria normal.

Enquanto Jack recobrava seus sentidos ele notou como errara: a única pessoa que amava era Rapunzel.

Rapunzel morreria.

A ideia era terrível. Uma aflição percorreu por todo o corpo de Jack. Durante toda sua vida após perder a memória Jack tentara não se aproximar das pessoas porque a dor de perdê-las seria insuportável. Ele estava cansado de perder quem ele mais amava e agora a pessoa mais importante de sua vida... morreria.

Jack se perguntou se ela já estaria morta a essa altura. O absurdo da ideia apertou tanto seu coração que ele começou a correr para voltar à cabana e protege-la.

O único modo de protegê-la era simples, mas terrível. Ou era isso ou nada.

É inevitável amar sem dor, amar sem decepções, amar sem inseguranças. E desta vez Jack desejou com todas as suas forças não ter amado, pois se não tivesse se submetido a tal sensação, não teria para sempre em si que a morte de seu maior amor fora por sua culpa.

Uma ideia desesperada passou por sua cabeça então: ele teria que parar de amá-la se quiser a salvar.