The Big Four - A Nova Geração

29 Nunca Entre sem ser Convidado


No mundo dos mortos muitas coisas tem explicação, enquanto outras permanecem ocultas, no esquecimento. Mas embora cada segredo seja fielmente guardado pelos primeiros Guardiões, a única coisa que eu sabia, era que todos mentiam em algum momento.

Sempre me contentei em ser a vilã. Afinal, essa foi a missão que me incumbiram, e eu nunca reclamei. Mesmo com tantas coisas sem sentido acontecendo, a única coisa que eu queria saber era o motivo de ter um ônibus virado no meio da maior avenida de Toronto.

O número de almas gritando perdidas era enorme, isso me irritava. Soltei um rosnado baixo e peguei minha foice, a segurando firme e esperando que os espíritos fossem sugados. Ter uma perda nessa magnitude era uma pena, mas eu não podia devolver as almas. Só a Morte sabe o caos que isso causaria.

Minha arma deu uma de aspirador de fantasmas gigante, e assim que terminei, fiz meu caminho ao redor do ônibus parcialmente destruído.

Ele estava tombado de lado, e muitas coisas, como bolsas e corpos estavam saindo pelas janelas quebradas. Que bela vista. Entrei por um buraco no vidro e observei o lado de dentro. Tinha um senhor respirando perto da porta, duas crianças vivas, mas inconscientes no fundo, e uma mulher com quase todos os ossos quebrados.

Só mais uma noite de quarta-feira normal.

Suspirei e arrumei minha foice no ombro. Foi quando os sussurros das almas presas na foice começaram a falar em coro, e eu tive que bater a foice no chão para calá-las. Bando de exageradas. Porém, algo estranhamente sem sentido aconteceu, elas realmente calaram a boca.

Dei uma olhada desconfiada na lâmina, mas ela permaneceu lá, silenciosa e fria. Acabei dando de ombros e saí do ônibus destruído. Assim que coloquei os pés no asfalto, escutei ao longe as sirenes da ambulância e das viaturas de polícia chegando. Humanos estão sempre atrasados ou adiantados, nunca na hora.

Eu estava prestes a voltar para o submundo porém Meia-Noite, meu cão infernal, deu a maior mordida na minha perna.

— Nem tinha o visto, pulguento. — Resmunguei o afastando com o pé e soltando uma risada pelo nariz.

Não contente com a minha provocação, ele agarrou minha calça com os dentes e me puxou para a esquerda, de volta para o ônibus.

— Não tem mais nada lá, seu perturbadinho. — Reclamei tendo que me segurar num pedaço de metal para não ser arrastada.

Quando já tinha minha atenção, o cão cutucou com o focinho um dos corpos, o fazendo cair da janela e estatelar no chão. As pessoas perto tomaram um susto, e pegaram os telefones, esperando algum acontecimento sobrenatural.

— Meia-Noite, não é hora de brincar com os corpos, anda, vamos. — Falei apoiando a foice no ombro e literalmente agarrando o animal, que se recusou a vir comigo e mordeu o pé do difunto.

Vi a expressão de terror das pessoas, e não pude conter uma risada. Humanos e suas bobagens. Meu olhar logo caiu de volta para o chão, onde a sombra do ônibus cobria quase tudo, até o espaço que deveria estar a minha sombra.

Franzi as sobrancelhas e sacudi o cachorro, o que acabou sacudindo a perna do cara morto também. Não havia sombras, tirando a do ônibus.

Soltei imediatamente Meia-Noite, e levei uma não até a cabeça. Esse tipo de prática era considerada proibida, e por causa dela que as armas das Serventias foram feitas.

Dizem que não há nada mais cruel do que tirar a sombra de seres vivos. Isso faz com que a alma fique tão perdida, que simplesmente se afasta do corpo, e acaba com a vida.

Isso explica o desespero dos espíritos, eles se viram o limbo, perdidos entre o mundo espiritual e o físico. O ônibus não virou e matou as pessoas, as pessoas morram, inclusive o motorista, e então o veículo tombou.

A pergunta que fica é, quem teria poder e maldade o suficiente para fazer isso?

Essa prática é tão antiga, que acabou se perdendo no tempo. Dei umas batidinhas na cabeça do cão infernal e me preparei para descer para o Mundo Inferior.

Sacudi o pote cheio de espíritos e não consegui segurar uma risada, eles pareciam vagalumes irritados.

Era estranho andar entre os vivos e ser vista. Era estranho andar no mundo dos vivos e ser tocada. E principalmente, era estranho andar no mundo dos vivos com calças tão apertadas.

A casa a minha frente era de uma velha senhora que teve seu filho morto no acidente de ônibus. Tirando toda a ação, meu trabalho às vezes se transformava em transporte para bons espíritos.

As almas consideradas boas, cujo peso era menor que uma pluma, poderiam visitar seus entes queridos, e aparecer em sonhos, com a minha supervisão.

Pulei a pequena cerca de madeira da casa e me direcionei para a porta dos fundos. Estupidamente, estava aberta.

Do lado de dentro as luzes estavam apagadas, e um cheiro de queimado tomava conta do lugar. Um bolo repousava sobre a mesa da cozinha, já frio, mas visivelmente carbonizado.

Atravessei o cômodo e logo dei de cara com a escada para o segundo andar. Ela era de madeira e tinha um tom acinzentado estranho, com certeza tão velha quanto a dona da residência. Pelo estado da casa, ela já devia estar dormindo.

Destampei o pote e enfiei a mão lá dentro, pegando a última luz que não tinha saído e a jogando para fora. Imediatamente seu sussurrante barulho tomou conta da sala, e ele retornou para o recipiente.

Soltei uma risada baixa e o pesquei de novo. Só faltava um, e eu queria muito mesmo ir pra casa. Tinha sido um dia longo.

Novamente ele foi arremessado, e voltou para o pote sussurrando mais alto.

— Morte Morte Morte Morte. — Era o que ele repetia sem parar. Franzi a testa e encarei o pote de vidro séria. O levantei até a altura dos olhos e quando abaixei, dei também um passo para trás.

Uma senhora baixa, de cabelos grisalhos e pijama florido me encarava do topo da escada. Me mexi desconfortável, não era pra ela estar acordada.

— Oi. — Falei sem saber muito bem o que dizer. Não era comum eu estar visível.

Ela manteve seus olhos desfocadas atrás dos óculos de grau, e levou as mãos até o pescoço, soltando um grito agudo e cheio de terror.

Umedeci os lábios e encarei a cena chocada, sem entender o que estava vendo. No segundo seguinte, ela havia desaparecido.

Engoli em seco e subi as escadas rápido, e quando virei a esquerda, dei de cara com a velha de novo. Ela me encarou, e disse uma única palavra antes de desaparecer.

" Fuja "

Senti um arrepio percorrer minha espinha, mas mesmo assim segui meu caminho até o fim do corredor. A porta que deveria ser o quarto dela estava aberta, e quando acendi a luz, deixei o pote de vidro cair e se espatifar.

Presa no ventilador de teto, com um cinto, a velha estava enforcada. Eu literalmente soltei um grito, tentando ir para trás, mas bati na porta que não tinha fechado.

— Entregue. — A voz da mulher soou alta, como se várias pessoas estivessem falando ao mesmo tempo. Seus olhos estavam abertos, sem cor e desfocados.

— NÃO. — Gritei me virando e sacudindo a porta, agradecendo por não ter trazido a foice.

As paredes e o chão da sala começaram a tremer, e de suas frestas sombras escorregavam e borbulhavam. Nunca pensei que ia sentir falta dos planos não tão sinistros de Pitch Black.

— Entregue Entregue Entregue Entregue Entregue. — Ela repetiu, cada vez com uma voz diferente.

Eu apertei o pote em minha mão e arremessei no corpo pendurado, porém, imediatamente lembrei que ele tinha se espatifado aos meus pés. Olhei para baixo e só vi o assoalho, com tentáculos escuros abrindo caminho entre as tábuas.

Tampei os ouvidos quando o quarto chacoalhou mais ainda, e meu nome foi chamado ao longe. Senti braços me segurando, e com um soco, me desvencilhei deles, abrindo os olhos.

— Porra, que direita forte você tem. — Carcereiro reclamou, segurando o queixo e o colocando no lugar.

Olhei em volta e senti meu estômago embrulhar. Meu corpo todo tremia e queimava, definitivamente algo estava errado. Eu me encontrava em uma cama, mas o ambiente a minha volta ainda rodava.

— O que está acontecendo? — As palavras soaram da minha boca, e minha garganta rangeu, seca.

— A epidemia está se espalhando. — Ele disse pegando um pano gelado e colocando na minha testa.

— Quanto tempo tô aqui? — Perguntei fechando os olhos e resmungando.

— Três dias, e as notícias não são as melhores. — Carcereiro disse, segurando minha mão. — Alguém andou roubando bonecas russas, e as que foram achadas, tiveram seus Centros modificados. A sua foi uma delas.