A casa rangia com o peso familiar do tempo e da memória — o cheiro de óleo de motor, couro velho e a leve ardência de pólvora impregnados em cada tábua do assoalho. A chuva tamborilava contra as janelas em suspiros arrítmicos, desfocando o mundo além em sombras e vidro molhado.
Amelia sentava-se no escritório de Bobby Singer, um kit de primeiros socorros gasto aberto sobre a mesa ao seu lado, o conteúdo espalhado em fileiras organizadas como ferramentas para alguma guerra silenciosa.
À sua frente, Castiel jazia no sofá esfarrapado, o casaco descartado, a camisa rasgada e manchada com sangue seco. O fogo na lareira há muito havia se reduzido a brasas, deixando apenas um fraco brilho avermelhado a contornar os ângulos acentuados de seu rosto — o tipo de luz que fazia tudo parecer frágil, até mesmo um anjo.
Ela puxou a cadeira para mais perto, os pés raspando suavemente sobre as tábuas deformadas, então mergulhou o pano na tigela de água morna. Seus dedos pairaram por um momento acima das costelas dele antes de finalmente pressionar o tecido úmido contra o ferimento profundo ali.
Ele se mexeu ao toque — não plenamente consciente, mas também não mais alheio. Sua testa se contraiu, um leve esgar passou fantasmagoricamente por seus lábios, como se, mesmo meio desperto, resistisse à ajuda.
Amelia quase sorriu com a ironia, mas não o fez. Em vez disso, concentrou-se em retirar a velha bandagem encharcada de sangue. O ferimento estava inflamado, irregular — um castigo, não uma casualidade de batalha.
Ela se perguntou se ele soube, naqueles segundos finais antes de o atingirem, que aquilo havia sido uma armadilha.
A chuva engrossou lá fora, tamborilando mais forte agora contra o telhado de metal.
Outra mudança.
Amelia não vacilou. Mergulhou o pano novamente na tigela de água, torcendo-o lentamente, seus movimentos deliberados, controlados. O líquido quente escureceu com o sangue diluído, um lembrete de quanto dele já havia sido deixado em campos de batalha onde nunca deveria ter caminhado sozinho.
Ela pressionou o pano cuidadosamente contra o ferimento mais profundo primeiro — um corte feio rasgado ao longo de seu flanco, ainda inflamado e inchado, uma ruína de pele e músculo onde a garra do Hollowed o havia atingido. Castiel estremeceu, mas não se afastou, apenas apertou mais forte o tecido gasto do sofá sob ele.
Seus olhos se estreitaram enquanto ela se inclinava mais, trabalhando em silêncio, seus dedos ágeis, mas não indiferentes. Ao afastar o tecido rasgado da camisa dele, mais ferimentos se revelaram: cortes longos e superficiais ao longo das costelas, hematomas arroxeando o peito e os braços, uma marca descolorida logo abaixo da clavícula. Sangue antigo, parte já coagulado em linhas escuras.
Nem todos esses eram da luta ali.
Seu olhar pairou sobre uma marca irregular no ombro dele, as bordas queimadas e com bolhas de um modo que não combinava com as armas dos Hollowed. Amelia inspirou lenta e cuidadosamente, sua voz rompendo o pesado silêncio:
"Você deveria ter me ouvido."
Os olhos de Castiel se abriram, o azul pálido se aguçando contra a penumbra do cômodo. Seu olhar desceu brevemente para a bandagem que ela pressionava em seu lado, depois para as mãos dela — manchadas com seu sangue, firmes, sem hesitação.
"Eu precisava ir."
As palavras foram secas, frias como a chuva que corria em filetes pelas janelas atrás deles.
Amelia se moveu ligeiramente, preparando uma faixa nova de gaze, sua voz baixa, mas com algo como frustração:
"E eles sabiam que você iria."
Ela pressionou a gaze com mais firmeza contra o ferimento, observando enquanto o maxilar dele se contraía, mas desta vez não foi apenas pela dor.
Castiel expirou lentamente, e quando falou, havia um cansaço em sua voz que parecia mais antigo que o próprio ferimento.
"Estas… marcas" seus dedos roçaram fracamente os ferimentos mais antigos e esmaecidos ao longo das costelas "… estas foram de antes."
Amelia parou, seus olhos se estreitando enquanto traçava a borda queimada de um ferimento próximo ao ombro dele.
"A luta no Céu."
Não era uma pergunta.
Os olhos de Castiel desviaram dos dela, fixando-se no teto, no reboco rachado onde manchas de água se espalhavam como feridas antigas nos ossos da casa.
"Sim."
Ela esperou, mas o silêncio se estendeu entre eles, tenso e desgastado. E então, por fim, ele disse — a voz áspera, como se a própria confissão pudesse quebrar algo dentro dele:
"Eles me chamaram de traidor. Por não ter ficado ao lado de Michael."
As palavras pairaram no ar, mais pesadas que a tempestade pressionando contra as paredes da velha casa.
Amelia sentiu o peito apertar, mas mascarou isso atrás de um movimento mecânico — enrolando uma bandagem nova lenta, cuidadosamente.
Claro que chamaram.
Seu olhar percorreu-o, tomando a constelação de ferimentos — a brutal honestidade da carne rasgada, a frágil elevação e queda de seu peito enquanto lutava contra a exaustão e, sob tudo isso, algo que ela não esperava encontrar em alguém como ele: dúvida.
Ela já vira homens quebrados pela guerra antes, soldados reduzidos a osso e medo, mas aquilo… aquilo era diferente.
Não apenas um corpo em ruína, mas algo mais profundo — um desfiar de convicções.
Castiel parecia como se carregasse o peso de mil anos e só agora percebesse o quão pesado realmente era.
Amelia engoliu em seco, seus dedos pausando acima do último corte que ainda não havia limpado. Ela podia sentir a dor de sua proximidade, o modo como, mesmo agora, ele se recusava a pedir ajuda, mas permitia que ela cuidasse dele, como se alguma parte não dita dele não acreditasse mais merecê-la.
Ela rompeu o silêncio, a voz mais suave, quase relutante em atravessar a quietude:
"Então você voltou…"
Castiel virou apenas levemente a cabeça em direção a ela, sua expressão ilegível, embora seus olhos — aqueles olhos penetrantes, antigos — estivessem cercados por algo como fadiga.
"Achei… que ainda havia algo a salvar."
Sua testa se franziu, não por confusão, mas por reconhecimento — aquele mesmo instinto teimoso de retornar a lugares que já viraram as costas para você, de acreditar que a lealdade poderia ser suficiente para mudar o inevitável.
Seus dedos roçaram levemente a borda crua de outro ferimento enquanto ela dizia, mais para si do que para ele:
"E, em vez disso, eles tentaram matar você."
Castiel não respondeu de imediato, mas o modo como seu maxilar se contraiu, o leve tremor no músculo ali, disse-lhe tudo.
Amelia soltou um suspiro lento e se recostou por um momento, estudando-o na penumbra, a tempestade lá fora abafando tudo, exceto o som de sua respiração irregular.
Ele parecia… ferido.
Não apenas ferido… destruído.
E, ainda assim, lá estava ele, recusando-se a desabar diante dela, mesmo enquanto as costuras já começavam a se desfazer.
Ela se inclinou novamente, perto o suficiente para sentir o calor de sua respiração contra sua bochecha enquanto enfaixava firmemente o torso dele.
Ele se mexeu — só um pouco — como se a proximidade o surpreendesse mais do que o próprio ferimento. Seu olhar saltou para o rosto dela, depois desviou, traindo um raro momento de… desconforto?
Amelia percebeu. Não o forçou.
Em vez disso, alisou a bandagem, seus dedos roçando levemente a borda dos sigilos enochianos marcados na pele dele. Marcas de lealdade, ou de servidão — ela já não tinha mais certeza.
"Você não deveria confiar em mim" disse ela baixinho, os olhos ainda fixos no nó que atava ao lado dele.
Castiel exalou lentamente, sua cabeça caindo de volta contra o apoio do braço. Não respondeu de imediato, mas quando o fez, sua voz estava mais firme:
"Eu não confio."
O canto da boca dela se curvou levemente, algo entre divertimento e resignação.
"Ótimo."
Outro longo silêncio. A chuva suavizou para um sussurro constante, como se até a tempestade tivesse se cansado de si mesma.
Finalmente, a voz de Castiel rompeu a quietude:
"Você poderia ter me deixado."
Os olhos de Amelia se moveram para os dele, firmes e indecifráveis.
"Eu não deixei."
O fôlego dele escapou lentamente, uma exalação frágil contra o murmúrio da chuva no telhado.
Lá fora, um dos velhos sinos de vento de Bobby tilintou no vento — um som fino, oco, contra a noite.
Castiel se moveu ligeiramente, o ombro roçando contra o joelho dela. O contato foi breve, incidental… mas ele não se afastou.
Amelia inclinou a cabeça, observando-o por um momento — o modo como seus olhos já começavam a se fechar novamente, a exaustão sobrepondo-se à suspeita.
Ela quase estendeu a mão, quase afastou o cabelo úmido de sua testa, mas pensou melhor.
Em vez disso, recostou-se na cadeira, cruzando os braços firmemente sobre o peito, como se se preparasse contra algo mais frio do que o ar no cômodo.
A voz de Castiel escapou pouco antes de o sono tomá-lo:
"Obrigado."
Amelia não respondeu.
Não precisava.
Ela o observou até que sua respiração se tornasse regular, a última tensão esvaindo-se de seu corpo conforme a inconsciência o reclamava por completo.
E então permaneceu ali — silenciosa, imóvel — de vigília, muito depois de o fogo se apagar, muito depois de a casa ser engolida pelo sussurro da chuva e da escuridão.
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