O brilho âmbar e opaco dos postes de luz filtrava-se fracamente através da janela empoeirada do ferro-velho de Bobby, projetando sombras fraturadas sobre as tábuas gastas do chão. O silêncio opressivo que pairava desde o retorno deles era quebrado apenas pelo clique quieto e deliberado da pergunta de Sam:

"Voltamos?"

Os olhos de Amelia demoraram-se na espada repousando em seu colo, seus antigos sigilos ainda levemente aquecidos sob a ponta de seus dedos. Sem levantar a cabeça, ela exalou lentamente, como se liberasse o último fio da energia antinatural que os havia levado até ali.

"Sim" murmurou, sua voz pesada de inevitabilidade. "Michael vai me matar por isso."

Dean sorriu, juvenil e imprudente, enquanto admirava a arma celestial como uma criança desembrulhando um brinquedo perigoso.

"Incrível!" exclamou.

Amelia lançou-lhe um olhar afiado e cansado.

"Faça-me um favor: não vá fatiar carne com essa coisa" seu tom se endureceu. "Ela serve a um único propósito: matar Michael. Nada mais."

A gravidade de suas palavras pairou no ar por um instante antes que ela inclinasse a cabeça em direção à saída.

"Vamos sair daqui antes que mais anjos apareçam."

Eles se moveram rapidamente, seus passos ecoando oco no armazém vazio enquanto seguiam até o carro esperando no pátio, o cheiro metálico de chuva espesso no ar.

Quando Castiel passou ao lado dela, sua presença silenciosa mas inconfundível, Amelia aproveitou o momento. Sua voz baixou, marcada por algo quase como desafio — mas havia uma nota quebradiça, como algo velho e gasto.

"Ainda acha que estou mentindo?"

Os olhos glaciais do anjo encontraram os dela por um segundo fugaz, indecifráveis como sempre. Mas, ao invés de responder, ele simplesmente desapareceu numa familiar rajada de ar deslocado.

Amelia soltou uma respiração baixa e amarga. Vai ser um longo caminho até que ele confie em mim, pensou, subindo no banco traseiro do Impala.

"Ele vai ser difícil" murmurou, enquanto os irmãos entravam no carro.

Sam riu suavemente enquanto Dean ligava o motor.

"É… Esse é o Cas… Só está emburrado porque sabe que você é mais forte que ele" disse Sam, lançando-lhe um olhar pelo retrovisor.

Ela não respondeu. O peso dos últimos dias esmagava-a de uma vez só. Mesmo uma Nefilim, com toda sua resistência antinatural, ainda estava presa à carne e aos ossos humanos — e, agora, cada centímetro de seu corpo gritava por descanso. Ela afundou contra o couro gasto do banco de trás, fechou os olhos e deixou o ritmo da estrada embalá-la em direção ao sono.


|•|


Dois dias depois, a espada estava empoleirada acima da lareira no escritório abarrotado de Bobby, seu brilho pálido um sentinela silencioso e ameaçador.

Dean abriu uma cerveja na cozinha, jogando uma para Sam, enquanto Bobby roncava suavemente no sofá, indiferente às conversas abafadas ao seu redor.

Do outro lado da sala, Castiel estava de pé junto à alta estante, passando os dedos pelas lombadas como se elas pudessem revelar alguma resposta escondida. Sem muita deliberação, puxou um volume gasto de capa branca, sua capa alisada pelo descuido de décadas. Abrindo-o, começou a ler em voz alta, sua voz tão medida e distante como sempre:

"Eu poderia me apresentar propriamente… mas isso é desnecessário. Você me conhecerá bem o bastante em breve, dependendo de uma variedade de fatores. Basta dizer que, em algum momento, estarei sobre você, com toda a cordialidade que puder reunir…"

Os dois irmãos Winchester se viraram ao som inesperado, trocando um olhar cauteloso.

"…e sua alma estará em meus braços. Uma cor repousará sobre meu ombro. E eu a carregarei… gentilmente."

A voz de Amelia terminou a passagem a partir da porta, sua figura apoiada casualmente no batente, embora houvesse um brilho conhecedor em seu olhar. Castiel enrijeceu instantaneamente, fechando o livro com um estalo deliberado antes de devolvê-lo à prateleira.

"Estranho" murmurou Dean para Sam.

"Nem me fale."

Amelia sorriu de leve e avançou mais para dentro da sala, sua voz tingida de humor seco:

"Sentiram minha falta?"

O comentário brincalhão fez Bobby despertar com um grunhido, piscando para o grupo reunido.

"Eu trouxe algumas notícias sobre o Flagelo de Fogo…"

Mas antes que pudesse terminar, um som violento e dissonante rasgou o próprio tecido da realidade — uma nota reverberante e desarmônica que atravessou a casa e seus corpos como lascas de vidro.

Amelia e Castiel caíram de joelhos no mesmo instante, as mãos voando até os ouvidos numa tentativa desesperada, mas inútil, de bloquear o som que nenhum humano podia ouvir. Seus rostos se contorceram em dor crua enquanto a ressonância celestial e penetrante vibrava em seus crânios, afogando todo o resto.

Para Sam e Dean, foi silêncio. Mas, para aqueles que carregavam a marca do Céu, era uma sinfonia profana — um eco do além.

Através da visão turva e da ardência das lágrimas involuntárias, Amelia avistou Bobby ajoelhado ao seu lado, sua voz distante, como vinda debaixo d’água.

Quando o som finalmente se dissipou, como um grito distante engolido pelo horizonte, ela conseguiu ouvir a voz de Dean primeiro, aguda e preocupada:

"Cas! Você tá bem?"

Bobby voltou sua atenção para Amelia, firmando-a enquanto ela lutava para se levantar.

"Tá tudo bem, garota?"

Ela assentiu trêmula, procurando instintivamente o outro que ouvira o que ela ouviu. Seu olhar colidiu com o de Castiel do outro lado da sala — sua expressão era um espelho perturbador da dela: pálido, assombrado, fraturado.

"Que diabos acabou de acontecer?" — exigiu Dean. "Vocês dois caíram como se tivessem levado um tiro."

A voz de Amelia era fina, mas firme:

"Porque nós ouvimos."

Sam franziu a testa, incrédulo:

"Ouviram o quê? A gente não ouviu nada."

"Exatamente" ela disparou, limpando o sangue que escorria discretamente de uma narina. "Porque vocês não podem ouvir."

Castiel se endireitou, ainda visivelmente abalado, e fixou os olhos em Dean.

"Começou" disse solenemente. "A primeira trombeta… soou."

O coração de Amelia afundou com aquelas palavras.

"Sam. Liga a TV."

O Winchester mais jovem correu até a sala de estar, os outros logo atrás. A televisão ganhou vida, transmitindo um noticiário montado às pressas.

A voz da âncora estava tensa, com um pânico mal disfarçado:

"O míssil atingiu há menos de meia hora. Uma ogiva nuclear detonou sobre a capital da Coreia do Norte, nivelando toda a área metropolitana. As vítimas já são estimadas em milhões…"

Na tela, imagens surreais se sucediam: ruínas fumegantes, sobreviventes cambaleando por ruas sufocadas de cinzas, o horizonte reduzido a restos esqueléticos enegrecidos.

A voz da repórter continuava, distante e fria:

"Enquanto líderes mundiais ainda não responderam oficialmente, o parlamento norte-coreano acusou a Coreia do Sul de orquestrar o ataque, prometendo retaliação rápida e devastadora…"

Sem dizer uma palavra, Amelia estendeu a mão e desligou a TV, o silêncio que se seguiu muito mais pesado que a transmissão.

"O Apocalipse começou" declarou, a voz plana, mas carregando toda a solenidade de um sino fúnebre. "E vocês achavam que furacões e terremotos eram ruins." Ela balançou a cabeça, olhando para todos. "Aquilo… foi só o aperitivo."

Dean ergueu as mãos:


"Tá, tá... você já deixou claro, senhorita “Eu Sempre Tenho Razão”. Você disse que tinha notícias?"

Amelia inspirou lentamente, empurrando de volta o peso esmagador no peito.

"Sim… Acho que sei onde está a arma de Gabriel."

Dean se inclinou, os olhos se estreitando:

"Você encontrou?"

Ela deu um pequeno e sombrio sorriso:

"Não exatamente. Mas acho que sei onde está. Lembra da deusa Kali?"

Dean gemeu teatralmente:

"Gabriel tinha um caso com ela."

"Exatamente" Amelia arqueou a sobrancelha. "Por isso ele deixou a espada com ela."

"Tá de brincadeira" exclamou Dean. "Aquela mulher tem um temperamento pior que o seu!"

Amelia soltou um leve riso:

"Gosto dela tanto quanto você. Até hoje, não faço ideia do que Gabriel viu nela."

Dean arqueou a sobrancelha, apoiando-se casualmente na mesa:

"E o que você viu nele?"

Os lábios de Amelia se entreabriram, como se fosse responder imediatamente, mas as palavras ficaram presas na garganta. Por um segundo fugaz, algo cru cintilou em seus olhos — uma lembrança, talvez, ou o eco de uma perda profunda demais para ser expressa. Então se endireitou, escondendo aquilo atrás daquela familiar parede de desafio.

"Gabriel era como um irmão para mim" disse finalmente, sua voz quieta, mas resoluta.

Dean a estudou por mais um momento, como se pesasse a verdade sob a simplicidade das palavras, depois soltou um pequeno e conhecedor sorriso.

"Precisamos nos apressar" disse ela então, se recompondo. "Com a primeira trombeta soando, as outras não vão demorar."

Dean se inclinou para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos:

"Quando partimos?"

Ela balançou a cabeça:

"Vocês vão ficar aqui — com o Bobby."

"O quê? Por que diabos…?"

"Você já tem sua arma" lembrou, sorrindo de leve enquanto gesticulava para a espada sobre a lareira. "Sam, Castiel e eu vamos."

"E o que eu faço aqui? Tricô?"

Ela sorriu, completamente despreocupada:

"Tente não se meter em encrenca pelas próximas vinte e quatro horas. Acha que consegue?"

Antes que Dean pudesse retrucar, uma súbita rajada de ar e o som suave e inconfundível de asas sinalizaram a partida deles.

A sala de estar ficou em silêncio, o cheiro persistente de ozônio sendo a única evidência de que eles estiveram ali.