Notas iniciais
Olá pessoal! Depois de muitos anos, resolvi revisitar essa história e editar ela da forma que eu queria ter feito quando primeiro a escrevi. É a mesma história já postada aqui, mas atualizada e com mais capítulos. Me incomodava muito a falta das descrições nos capítulos, principalmente nos primeiros, razão pela qual eu quis aprimorar essa fanfic! Vocês encontram ela em inglês e em português no site AO3. Não sei se as pessoas ainda costumam ler fanfics, mas é um ótimo exercício de escrita e também um hobby muito bom. Espero que gostem e deixem os seus comentários! Grande abraço!

O estalo agudo de uma garrafa de cerveja sendo aberta cortou o murmúrio baixo das vozes na sala abarrotada de Bobby Singer. Dean se encostou no batente da porta, garrafa na mão, os olhos desviando para os dois homens curvados sobre uma mesa enterrada sob papéis amarelados, livros gastos e fotografias meio queimadas.

“O que parece pra você?” perguntou Sam, apertando os olhos para uma foto chamuscada sob a luz do abajur. Uma mancha escura e oleosa ocultava quase toda a imagem, mas as bordas irregulares sugeriam que havia sido fotografada de algo maior — algo violento.

Bobby coçou a barba, o rangido da velha cadeira acompanhando o gesto. Seu rosto estava tenso, com linhas profundas sombreando sob o boné.

“Não sei, garoto. Mas do jeito que você descreveu aquela explosão de luz… me parece coisa de anjo.”

Sam franziu a testa. “Mas fenômenos angelicais não são incendiários. Eles são ofuscantes, sim, mas limpos — pura energia. Isso não foi assim. Houve fogo. Tem uma cratera no chão, como se um meteoro tivesse caído.”

Bobby suspirou, o olhar distante. “Não sei, garotos. Talvez seja hora de perguntar ao Castiel.”

Dean entrou na sala, as tábuas do chão gemendo sob as botas. “Ótimo. Mais anjos,” murmurou, erguendo os olhos para o teto como se esperasse ver algum espiando do céu. “Beleza, vou chamar o Cas.”

Ele respirou fundo, preparando o nome na língua, mas uma batida repentina na porta da frente o interrompeu.

Dean abaixou a mão. “Você tá esperando alguém?” perguntou, lançando a Bobby um olhar meio irritado, meio cauteloso.

Bobby balançou a cabeça lentamente. “Que eu saiba, não.”

Ele se levantou com um grunhido e caminhou até a porta. A tela rangeu levemente com a brisa da noite. Através do painel de vidro, ele pôde distinguir uma figura — feminina, parada, de costas para a porta. Cabelos ruivos caíam sobre o ombro, brilhando suavemente sob a luz da varanda.

Cauteloso, Bobby abriu a porta uma fresta. “Posso ajudar?”

A mulher se virou.

Parecia ter pouco mais de trinta anos, vestia jeans surrados de viagem e uma jaqueta ajustada. Seu rosto era marcante — delicado, mas firme, com uma estranha suavidade na expressão que parecia… ensaiada. Intencional. Mas foram os olhos — verdes, brilhantes, inabaláveis — que fizeram o peito de Bobby apertar. Como se algo pressionasse as bordas de sua mente.

“Tio Bobby!” disse ela, calorosamente — e avançou, envolvendo-o num abraço.

Bobby ficou rígido sob o abraço. Um calafrio subiu pela nuca e, por um momento, ele se sentiu… perdido. Como se seus pensamentos escorregassem de lado, fora de alcance.

Atrás dele, Dean ergueu uma sobrancelha. Sam parou no meio do passo, encarando a cena com surpresa escancarada.

“Tio?” repetiu Sam.

A mulher recuou, sorrindo radiante. “Você não mudou nada,” disse ela, como quem revive uma lembrança querida que mais ninguém poderia acessar.

Bobby piscou para ela. “Amelia?” O nome escapou antes que pudesse contê-lo. “Mas… como…?”

“Faz tanto tempo,” ela interrompeu suavemente. “Eu queria te ver. Só por um tempinho.”

Bobby ficou parado, encarando. O coração batia descompassado. Algo na presença dela arranhava as bordas de seus instintos, disparando alarmes que ele não conseguia identificar. Mas as palavras não vinham. Como se uma névoa tivesse se assentado sobre seus pensamentos — densa, desorientadora.

Amelia hesitou. Só por um instante. O olhar dela desceu até o chão, depois voltou para ele, brilhante e apologético. Havia algo no sorriso dela que não chegava aos olhos.

“Vai me convidar pra entrar?” perguntou.

Ele piscou, assentindo distraidamente. “Claro. Entra.”

Ela entrou, puxando uma mala com rodinhas atrás de si; o som do salto dos sapatos no chão soou estridente no silêncio da sala. Ela se movia com uma elegância que parecia… errada. Como se pertencesse a outro lugar completamente.

“Esses são Sam e Dean Winchester,” disse Bobby, num tom neutro, gesticulando para os dois homens atrás dele.

Ela se virou, o sorriso cortês. “Prazer em conhecê-los.”

Sam apertou a mão dela. Dean fez um leve aceno, os braços cruzados.

“A gente não sabia que o Bobby tinha uma sobrinha,” disse Sam, cauteloso.

Bobby abriu a boca, mas a voz de Amelia deslizou primeiro, como água encontrando uma fenda na pedra.

“É uma longa história,” disse ela. “Minha mãe, irmã do Bobby, cortou relações quando ele sumiu. Nunca mais tivemos notícias dele. Eu nem sabia se ele ainda estava vivo… até recentemente.”

Dean estreitou os olhos, observando-a atentamente.

“E a mala?” perguntou Bobby, com a voz seca.

Amelia se virou para ele, a expressão suavizando em algo vulnerável. “Eu estava esperando poder ficar uns dias. Só até decidir meu próximo passo.”

Ele hesitou. Os olhos verdes dela encontraram os dele mais uma vez, e aquela estranha pressão voltou. Ele se viu assentindo antes que o cérebro pudesse acompanhar.

Acabou apenas acenando com a cabeça. “Tá bom. Beleza.” Ele alcançou a mala. “Vem, vou te mostrar o quarto de hóspedes.”

As escadas rangiam sob seus pés enquanto subiam, Amelia um passo atrás dele, os olhos seguindo o papel de parede antigo, os sigilos entalhados sob a tinta, as ervas secas acima dos batentes.

Aquele lugar exalava proteção. E medo.

Lá embaixo, Dean ficou olhando as escadas por um longo momento, depois se virou para Sam. “Isso foi estranho.”

“Nem me fala,” respondeu Sam. “Mais estranho ainda é o Bobby nunca ter mencionado ela.”

“Você acha que ela sabe?”

“Que ele é caçador? Duvido. Do jeito que ela falou que ele sumiu da família… parece que não faz ideia.”

Dean bebeu um gole generoso da cerveja, ainda fitando as escadas. “Você acha que o Bobby vai contar o que tá acontecendo de verdade?”

Sam suspirou. “Talvez amanhã.”

Dean bufou. “Ou nunca.”

Lá em cima, Amelia parou à porta do quarto de hóspedes, os dedos roçando o batente de madeira envelhecida. Sua expressão mudou enquanto ela olhava por cima do ombro, pelo corredor sombrio atrás de si.

A névoa que ela lançara sobre os pensamentos deles ainda pairava — suave, discreta, só o bastante para suavizar as pontas da suspeita.

Ela não tinha feito aquilo para machucá-los. Tinha feito para protegê-los.

Respirando suavemente, entrou, deixando a porta se fechar delicadamente atrás de si. O quarto era simples, intocado pelo tempo. Partículas de poeira flutuavam na luz pálida que entrava pela janela, e o ar carregava um leve cheiro de madeira velha e ferro.

Ela sentou na beirada da cama, as mãos repousando quietas no colo.

Havia tanta coisa que eles ainda não sabiam.

E, quando chegasse a hora… eles entenderiam por que ela tinha vindo.

Notas finais
Deixem o seu comentário! Isso ajuda muito e acalenta o coração!