The Beast
1 Don't Get Too Close...
Notas iniciais
— Aomine-kun...
Sentiu o olhar preocupado de Satsuki em seu rosto, mas permaneceu impassível. Olhava para frente, para um ponto vazio no enorme estádio. Um senhor, que parecia ser o fundador do Interhigh, falava muito lentamente... Não me olhe assim, Satsuki...
Odiava o fato de ela poder ver sua alma. De, por trás daquela aparência prepotente, não haver parte alguma dentro de si que sentisse alguma satisfação. É só mais um prêmio.. Mais uma dolorosa felicitação do seu tão difamado poder. Ganharia, em poucos momentos, os títulos de melhor Ás e melhor pontuador da temporada de verão...
Seus companheiros de time, felizes, comemoravam. Mas, para Aomine, não importava, realmente. Não era como se tivesse treinado, suado e se acabado como todos os outros. Para ele, era muito simples. Era só jogar como sempre... A fraqueza dos outros times tornava os jogos fáceis. E a facilidade com que eles desistiam...
Porque o único que pode me vencer sou eu mesmo... Não tinha nenhum orgulho desse lema... Não sentia felicidade alguma em declarar algo tão triste. Porque, graças à sua habilidade, a única coisa que já amara um dia desaparecera. Porque ser melhor o separara da única pessoa que o amava... Ser chamado de Aomine, após tantos anos juntos, era simplesmente desprezível.
— Aomine-kun... – ela tentou sorrir, tocando gentilmente em sua coxa – Você é o próximo...
Desculpa, Satsuki... Há muito não a via sorrir. Há muito apenas ganhava tapas e lágrimas, palavras rudes e desculpas mal-contadas... Sentia falta dela. Do basquete com ela... Mas estava cansado de machucá-la com sua própria dor. Não suportava ver-se melhorando mesmo com uma brincadeira... Não suportava o olhar dela toda vez que saía da quadra.
Estava tão cansado...
— Como melhor Ás, Aomine Daiki de Touou Gakuen.
Levantou-se devagar, colocando as mãos nos bolsos do casaco e caminhando até o palco. As vozes, até o momento silenciosas, começaram um coro de pequenos sussurros... Já conhecia aquela sensação. Aqueles olhares de repulsa, aquelas mãos sobre a boca reproduzindo em tom comedido xingamentos de todos os tipos. Acontecia em quase todos os jogos… Mas, diferente das outras vezes, não havia mais ninguém ali. Nem seus companheiros de Teikou, nem de Touou. A ofensa era apenas a ele.
Monstro!
Não levantou a cabeça para procurar de onde vinha a voz. Simplesmente suspirou, conhecendo a resposta. Havia destruído sonhos de dezenas de jogadores, sem esforço, sem piedade. Eles tinham razão para odiá-lo... Porque era bom no que fazia. Porque era o melhor. Tinha essa dolorosa consciência de que nenhum daqueles, que secavam suas lágrimas e agora o aclamavam como monstro, teria condição – ou força, ou amor ao basquete – suficientes para derrotá-lo.
— Também recebe o prêmio por maior pontuação marcada na temporada, com 269 pontos em 12 jogos.
Era bom ter uma habilidade especial no basquete, era bom ter um estilo especial, sem limites, sem restrições… Mas não valia a pena. Estar longe dos amigos, dos companheiros de jogo, da garota que amava... Qual é a graça?! Era muito melhor ser fraco e poder jogar sempre que quisesse. Se esforçar para melhorar, correr atrás e, ao final, com muito esforço – e amor –, talvez sonhar com o prêmio de melhor posição... Ser normal parecia mais divertido. Estar eternamente no topo era solitário demais.
Pegou os dois prêmios sem muito prazer, sorrindo a pulso para a foto que veio a seguir. Não tinha graça saber que o segundo lugar tinha 1 jogo e 34 pontos a menos. Não havia festa quando se era inalcançável. Apenas xingamentos, vaias, protestos escandalosamente desesperados por uma vingança... Que, com certeza, jamais viria nas quadras.
Ouviu um primeiro soluço em meio ao barulho. Satsuki estava encolhida no escuro, à beira da escada. Estava pronta, segundos antes, para lhe oferecer um abraço... Mas agora tentava abafar as vaias com seus fones de ouvido. Sinto muito... Manteve a aparência arrogante, contendo-se profundamente para permanecer em silêncio.
Não se importava com nada. Com as vaias, com a vergonha, com a dor daqueles todos. Aquelas ofensas e ameaças vazias não o atingiam. Não me importo com vocês... Mas sua princesa de cabelos rosados se importava. Satsuki... Ela já tinha feridas demais. Já eram mais que suficientes as lágrimas que ele provocava... Não aceitava que os outros a machucassem. Agarrou, com grosseria, o microfone do senhor. Limpou a garganta, mostrando o menosprezo nos olhos e no tom.
— Calem a boca.
Jogou os dois prêmios no chão com força, destruindo-os em mil pedaços, e mostrou o dedo médio para a platéia. Fodam-se vocês todos... Segurava as lágrimas, demonstrando nos cruéis olhos azulados todo o ódio que sentia. Não vou deixar que vocês a machuquem. Se era para ser arrogante, seria. Se era para destruir mais sonhos, destruiria. Mesmo que ela me odeie. Seria, assim como todos desejavam, um monstro.
— Antes de me vaiar, me vençam.
Seu sorriso, entre a maldade e a arrogância, ecoou no estádio silencioso. Todos observavam, incrédulos, a cena de desrespeito… Mas, sem esperar por reclamações, desceu do palco. Tomou Satsuki nos braços, indo em direção aos vestiários.
— Desculpa.
Satsuki estava pronta para dissentir, dizer que não era culpa dele... Iria até reclamar, abraçá-lo talvez... Aquele era o primeiro contato físico deles em meses, devia comemorar. Mas, antes que pudesse dizer algo, fitou o rosto dele... E novas lágrimas começaram a cair. Para ela, não havia mais nada de Daiki ali. Apenas um olhar mortal e um sorriso duvidoso... Um monstro...
“Quero esconder a verdade, quero abrigar você,
mas, com a fera dentro, não há onde nos escondermos...
Quando você sentir o meu calor, olhe nos meu olhos;
É onde meus demônios se escondem...
Não chegue muito perto,
É frio aqui dentro...”
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