The Bastard Heir

9 Capítulo 08 - Uma Boa Família


Notas iniciais
Boa leitura!

Mikkel Dupke

Fraqueza é dar ajuda ao mais potente” – Camões

Of Monsters and Men – King and Lionheart

O nascer do Sol era o momento que Mikkel mais gostava de presenciar no alto da colina. Nem mesmo quando ele se punha, ou quando a Lua Cheia surgia detrás das árvores além dos limites da propriedade Dupke. A casa era quieta na maior parte do tempo, mesmo com seus seis membros, pois ninguém ficava dentro dela, tendo dezoito hectares para se aventurar, e trabalho, também. Embora o título de condes, a Família Dupke não podia exagerar em seus consumos, tendo como prioridade o sustento e a manutenção da casa. Mikkel nunca se sentiu inferiorizado por ajudar a cuidar do lugar, na verdade adorava. Mas uma casa tão grande trazia também problemas aos montes. Não havia descanso em Whitesky, a casa da família. As cercas precisavam ser concertadas, os estábulos limpos, os cavalos esfregados, as plantas aguadas e colhidas. Mikkel balançou as pernas, enquanto se apoiava na cerca, sentado. O Sol anunciava um novo dia de trabalho, um novo dia para ele e sua família. Ouviu sobre o ombro a voz de Selma, tentando subir ao seu lado, para a cerca. Sorriu, colocando as mãos na cintura da garota e a ajudando.

– Obrigada. – ela disse e virou as tranças para o Sol, admirando.

Os raios já estavam alcançando a colina, onde o calor aumentava. Mas ainda sim sentia a brisa vinda da floresta, o cheiro das flores silvestres, dos pinheiros e acácias. O começo da Primavera. Quando finalmente foi abraçado pelo Sol, teve de fechar os olhos, pois o brilho era intenso demais e a sensação de se estar sendo mergulhado em calor era ótima. Também pelos ouvidos, soube que Jesaja estava suspirando e mastigando seu pão. Provavelmente os pais já haviam preparado o café e a manteiga. Abriu um sorriso, quando o cavalo de Dova relinchou.

Estavam todos ali, seus três irmãos. Quando abriu os olhos, constatou que hoje seria um dia ligeiramente frio, com nuvens bloqueando algumas partes do céu, o azul não estava em seu potencial e o vento dizia tudo o que faltava. Dova virou o cavalo.

– Vamos voltar. – disse, escondendo a animação de sua voz. Jesaja montou no cavalo da irmã e juntos saíram em disparada em direção a casa. Para trás, ficou ele e a caçula. Selma ainda encarava o Sol, com fascinação, tanta atenção que Mikkel não ousou atrapalhá-la.

– Kel, você irá à capital?

– Sim. – respondeu, sem dar mais explicações, pois Selma não entenderia de qualquer jeito.

– Para sempre?

– Talvez. – ruborizou, enquanto Abraçava a cintura da irmã, encostando o queixo em seu ombro ossudo. Ela era pequena para uma criança de sua idade e ainda por cima tremia de frio. Mas não reclamava. Ela era assim. – Você ficaria triste?

– Claro. – ela não olhou para ele, continuou a encarar o Sol.

O silêncio caiu confortavelmente na colina e assim permaneceram pelos próximos cinco minutos, até que Dova gritasse para eles se apressarem. O café da manhã na casa Dupke começava bem cedo, e o trabalho logo em seguida. Como o descanso era uma palavra desconhecida no vocabulário da família, Mikkel pensou em seu último dia ali, cuidando da casa, restaurando-a, consertando as telhas para as chuvas de primavera, exercitando os cavalos e trocando as rodas do coche. Hoje mamãe iria para o vilarejo comprar os objetos essenciais que eles não conseguiam produzir na propriedade, como sabão e linha, agulha e álcool.

Observou Selma saltitar enquanto voltavam para a casa. Na varanda, papai bebericava seu café, lendo o jornal que Hansel havia trazido do vilarejo antes de chegar para seu dia de trabalho. Ele era o único funcionário da propriedade e quem cuidava das cercas além dos alcances dos olhos, ele cuidava das árvores, dos animais. Caçava e montava arapucas. Era um ajudante atarefado e empregado por afeição que seu pai tinha por ele. Eram amigos de infância e Hansel precisava de trabalhar e conseguir comida para seus cinco filhos, com uma esposa enfermiça e debilitada. Às vezes os filhos de Hansel vinham ajudar, como na enchente do rio durante a primavera de quatro anos atrás, ou quando a neve subiu pelas paredes da casa, impedindo que se abrisse a porta.

Durante a infância, Mikkel vivenciou um ambiente muito diferente. Quando seus pais moravam na Corte de Overath, servindo ao Rei, exigiam dele sempre o melhor, em grego, latim, genealogia e política, economia e estratégia, xadrez, poesia e ética. Estudou religião, geografia, oceanos e mares que nunca iria ver. Tudo para alcançar a excelência que seus pais tanto queriam. Mas acabou por não conseguir atingir o objetivo. Foi quando papai, Senhor Dutch Dupke, conde de Wolfdorf, lhe entregou um arco e uma flecha e disse: “Atire”. E Mikkel atirou.

Não havia outro estudo, profissão, hobbie ou obrigação que Mikkel gostasse mais que arco e flecha.

– O Sol estava bonito demais hoje? – perguntou ele, quando se aproximaram. Selma encolheu os ombros, constrangida, porém Mikkel concordou com um sorriso.

– Desculpe a demora.

– Apreciar a vista é sempre bom. – o velho tomou um gole do café. – Espero que possa ter a mesma calma para colocar as telhas novas.

Mikkel entendeu a dica: não quebre-as desta vez. Ele havia quebrado cinco telhas e seu pai não gostou nem um pouco. Mas fora um acidente envolvendo Selma, Dova e mamãe. Não havia como ele salvar as telhas e não salvar elas. Enquanto posicionava as novas telhas, algumas escorregaram. Haviam sacos de farinha no chão, assim Mikkel não se preocupou se caíssem lá, pois não quebrariam. Entretanto assim que ouviu a voz das mulheres de sua vida, saltou e escorregou junto das telhas, levando outras. As empurrou alguns segundos antes que elas caíssem sobre as cabeças de Dova, Selma e mamãe. Salvou-as. Mas acabou quebrando cinco malditas telhas.

Mikkel tomou seu café da manhã junto das irmãs e da mãe, que havia sentado em uma poltrona e costurava pacientemente um cachecol para ele levar a Overath. Diziam que a capital era muito mais fria que Wolfdorf. Ao terminar, foi imediatamente em direção ao galpão e limpou o carrinho-de-mão que usaria para levar as telhas. A escada e finalmente as telhas. Sabia que havia goteiras em seu quarto e no quarto dos pais, mas também tinha de trocar o lado do banheiro, onde já fazia tempo que não trocava. Assim, levou as telhas até a casa, colocou a escada contra a parede e com muita calma, colocou três telhas debaixo do braço e subiu. Levou-as até lá em cima e depois desceu. Repetiu a atividade até que todas as noventa telhas estivessem do lado de cima da casa. Caminhou com cuidado sobre o telhado, a procura de telhas quebradas. A parte mais difícil havia passado. Agora só precisava trocar as telhas e levar as antigas para baixo, para o galpão, onde Hansel as venderia no vilarejo.

Calmamente ele o fez. E quando ergueu os olhos para o céu, notou que o Sol estava no centro do azul claro, e o cheiro de carne cosida com cenoura e outros legumes exalava da janela da cozinha, subindo em espirais até ele. Sorriu. O suor escorria pelas costas, caía da testa e trazia um gosto salgado à boca.

– Mikkel! Venha comer! Termine isso depois. – gritou Edyte, a mulher que o trouxe ao mundo.

– Só faltam mais treze. – respondeu, porém ofegava e realmente queria descansar. Mas caso parasse agora, depois não teria a mesma disposição para continuar o trabalho, por isso persistiu. Até a última telha estar encaixada. Sorriu, admirando o trabalho. Caminhou com destreza, quase saltitando, observando a colina, o rio e o vilarejo, ao longe, onde suas construções erguiam fumaça branca e as pessoas eram pontinhos pretos, como formigas. Tão, tão longe. E mesmo assim seu pai era conde do lugar. Cuidava de lá como se fosse seu pequeno rei. Gostava de financiar os festivais, incentivar os jogos e trazer trupes para se apresentarem.

Desceu a escada, não se importando em deixá-la lá, enquanto limpava o suor com o braço (que também estava molhado, e não adiantou de nada), subiu a varanda, entrou na cozinha. Os pratos estavam a mesa, Dova e Selma já sentadas. Papai provavelmente estaria trazendo os cavalos para o estábulo e Jesaja junto dele, poderia estar aproveitando para perguntar sobre as filhas de Hansel.

– Kel, hoje eu aprendi francês. – sorriu Selma, enquanto desenhava um coração dentro do prato.

– Verdade? Mostre-me. – se sentou ao lado da pequena.

Vous messiê, pardon en ill... Illuminére? – ela engasgou.

– Isso é latim. – Dova revirou os olhos, entretanto Mikkel sabia que aquilo era simplesmente um monte de palavras que pareciam francesas mas vinha da imaginação de Selma. Sorriu para a irmã caçula.

– Perfeito. Onde leu isto?

– Em uma obra de Mitchel. Adoro ele, você sabe. E papai conseguiu comprar um livro em francês, então comecei a estudar sozinha.

Desde que eles se mudaram de casa, as aulas haviam ficado para trás, mas sempre que podiam, os pais traziam meios para que seus filhos adquirissem conhecimento. Selma adorava ler, principalmente ler em línguas que desconhecia. De algum modo, ela conseguia compreender facilmente. Dova não se importava com a leitura pois tinha um rosto encantador e um carisma natural que lhe garantia um bom esposo e o casamento dos sonhos. Mas ao contrário do que se esperaria, Selma não se retraiu, não quis fugir do mundo, indo para os livros. Ela era sociável e muito inteligente. Geniosa e inocente. Uma mistura de qualidades e defeitos que Mikkel achava invejável. Ao contrário de Dova.

Hansel bateu na porta da casa, sorrindo para a família. Ele era praticamente um membro, pois almoçava todos os dias com eles e tratava Selma, Jesaja, Mikkel e Dova como filhos. Mikkel gostava do criado e não conseguiria considerá-lo inferior a seus pais ou a ele, pois era humano e principalmente, uma pessoa boa.

– Senhorita Selma, sua encomenda chegou.

Selma saltou da cadeira.

– Quieto! – ela pediu, saindo em disparada pela porta. Hansel pediu licença e acompanhou a garota. Após um silêncio, Mikkel riu.

– Ela é sempre assim quando está animada. – mamãe comentou, sorrindo levemente. Como sempre, uma certa melancolia a rodeava, mesmo após anos, continuava traumatizada com a perda de dois bebês ainda dentro de seu ventre.

Mikkel odiava aquilo. Odiava a tristeza que brilhava nos olhos dela e sua incapacidade de afastar o sentimento. Não havia o que fazer, ele não podia simplesmente fazê-la esquecer do que acontecera, não podia impedir. Edyth sempre amou tanto seus filhos e sempre foi tão apegada à família que é injusto alguém como ela perder suas crianças após ter escolhido nomes e comprado berços.

“Mitchel é um bom nome, se for menino.” Ela sorria, sabendo que Selma adorava o escritor e que Mikkel se sentia honrado em ter seu nome como inspiração para o do irmão. “E caso for uma menina, Verônica”. O nome da avó de Mikkel, quem ele só viu uma vez, aos três anos, e não lembrava rosto, voz ou qualquer traço de personalidade.

– Coma sua comida, Mikkel. – ela disse, serenamente.

– Desculpe – ele piscou, enfiando uma colher goela abaixo, e mastigando pesarosamente. O que mais odiava, porém, era que não conseguia afastar a melancolia de sua mãe, mas ela conseguia contagiá-lo com a tristeza.

º º º

De ambos os lados, haviam garotos. Mikkel sentia-se sufocado, porém teria de agüentar até chegar a capital. O coche real tinha as bandeiras que permitiam que atravessassem vilarejos e estradas sem serem interrompidos por soldados ou alfândegas de foras-da-lei. Deixara a família há pouco mais de duas horas. Ainda ouvia os desejos de boa sorte dos pais, sentia o cheiro de camomila dos cabelos de Selma e acenava ligeiramente para Dova e Jesaja. Os demais rapazes não expressavam tristeza ou entusiasmo, apenas o silencio que reinava ali. O cocheiro estava escondido atrás de sua janela fechada e os cavalos às vezes relinchavam. Podia ouvir seus chiados e assobios, um homem simples, aparentemente.

Havia um rapaz que aparentemente estava muito desconfortável ali. Ele segurava seu livro com a ponta dos dedos firmemente, deixando-os brancos com toda a força. Mikkel jurava que o vira tremer e suspirar, tentando segurar a respirar ao máximo que podia. Como se todos ali fossem monstros e ele tivesse medo que o notassem. Havia também um rapaz de camisa branca-desbotada e calças bufantes, observando o ambiente do lado de fora, parecia em paz, por isso Mikkel deduziu que ele não estava com medo ou irritado. O terceiro, ao seu lado esquerdo, jogava os olhos azuis para todos os lados, parecendo fascinado com o coche e seus companheiros de estrada. O quarto, a direita, assim como ele, o menino encarava as próprias mãos, pensativo e anuviado. Mikkel se decidiu.

– Está um belo dia, não? – sorriu.

O rapaz ergueu os olhos, havia algo de desafiador, quase como navalha, no fundo de seus olhos azuis, cheios de traços escuros, como o fundo do oceano, o que contrastava com a pele indelicadamente branca e o rosto anguloso. Mikkel arrependeu-se imediatamente.

– Equinócio de Primavera, nuvens, frio, sem sinal de pássaros ou de flores. Realmente, é um belo dia. – ele riu fraco, e Mikkel notou que aquilo fora sarcasmo. Não costumava tratar de sarcasmo, sua família não fazia muitas piadas ácidas.

– Ao menos conseguimos o ar puro. – retrucou, sem se importar.

Como o rapaz não respondeu, Mikkel pensou em outra coisa para dizer, afinal não queria permanecer naquele silêncio desconfortável onde todos queriam sair mas não tomavam a iniciativa. O olhar dele estava perdido, talvez pensando a mesma coisa. Mikkel encheu os pulmões e soltou:

– Me chamo Mikkel Dupke. O senhor seria?

Ele ergueu os olhos e disse, simples.

– Nikolaus. De Ferdinand Heidelberg Lenz. – ele demorou um pouco – Prazer em conhecê-lo, Dupke.

– Igualmente, Heidelberg. – Mikkel gostou de ser chamado pelo segundo nome e por isso o fez com Nikolaus. Era um jeito respeitoso e amigável de começar uma conversa. Talvez o rapaz não fosse tão ruim quanto imaginou. Além de qualquer sarcasmo, ele não tinha sido frio ou mesmo mal-educado. Entretanto, o silêncio retornou e com ele veio também a fome.

– Talvez possamos parar para comer algo. – sugeriu. – Não como desde que deixei minha casa.

– Não discordo. – Nikolaus balançou os ombros, desinteressado. O restante do grupo se recusava a olhar para eles e fingiam que não tinham escutado. Mikkel mordeu os lábios. Eles estavam dificultando tudo. Passariam semanas, talvez meses, juntos no castelo. Não poderiam continuar se evitando deste modo. Quando recuperou a coragem e abriu a boca, surpreendeu-se com a voz que saiu de outra garganta: — Vocês são surdos ou mudos? Alguém aqui vota contra parar o coche para uma refeição de meio-dia?

Alguns olhos se ergueram e cabeças balançaram. Nikolaus suspirou.

– Francamente. Terei de conviver com pessoas como vocês. Deste jeito será fácil conquistar a princesa, se vocês continuarem se recusando a conversar. Ao menos socializem. Não sou um adepto da idéia, mas não machuca. – ele revirou os olhos e suspirou uma segunda vez, até se inclinar sobre o corpo de alguns rapazes, abrir a janela que dava para o cocheiro e dizer: — Por favor, podemos descansar em algum vilarejo próximo? Temos fome. Sim, temos dinheiro. Obrigado.

E voltou a se sentar.

Mikkel seguiu Nikolaus até que ele voltasse para seu estado de concentração nas mãos. Sorriu. Ele disse para conversarem, mas estava quieto. Por fim, acabou cutucando o garoto ao seu lado e começou um diálogo sobre o norte e o sul de Overath, envolvendo economia e política. Como Mikkel havia estudado desde pequeno sobre os assuntos, obrigado pelos pais, foi fácil debater e até empolgante. Alguns garotos às vezes diziam frases sobre o assunto, comentários oportunos ou concordavam com algo. Assim, o coche parou no vilarejo mais próximo e o homem que os conduzia abriu a porta. Usava uma boina preta sobre os cabelos ruivos, a pele era torrada pelo Sol e os olhos fundos, sem que pudesse distinguir a cor em toda a sombra que as feições angulosas do cocheiro formavam. Mikkel desceu junto com os demais rapazes. Eles estavam mais relaxados, sem o clima de tensão. Graças a Nikolaus, agora tinham um empurrão para iniciar diálogos, mesmo curtos. Mikkel conheceu Lieg, Boesh e Belshoff. Todos nobres, todos com títulos, terras e riquezas.

Nikolaus não disse mais nada desde seu sermão. Mas também não era preciso. Ele já estava tecnicamente dentro da afeição de todos, mesmo enquanto caminhava com a cabeça erguida e o semblante intangível. Mikkel soube que demorariam mais meio-dia para chegar a capital, por isso teriam de viajar durante a noite, porém o cocheiro não se recusou e todos estavam dispostos a dormir dentro do coche, mesmo apertados. Agora que tinham uma relação próxima a amizade, não precisariam se importar com ser deselegante. Embora para condes e duques, barões e príncipes não fosse exatamente elegante dormir sobre o ombro de um companheiro de viagem. “Mas estamos no mesmo barco”, pensou.

– Quero uma sopa, por favor. – pediu o cocheiro. Em seguida Mikkel pôde escolher o que queria, e decidiu que tomaria a sopa que tanto elogiavam. Os demais pediram petiscos e vinho. Na mesa, a conversa rolava facilmente, desde assuntos triviais até sobre o reino e sobre suas idéias para ele, caso se tornassem reis um dia.

–...Mas ouvi dizer que ela é bonita. Vale a pena lutar por uma mulher só por seu cargo? Quer dizer, ela é arrogante de querer escolher. – Mikkel disse. – Normalmente são as mulheres que têm de pensar com qual marido casarão e correr atrás dele.

– Tecnicamente, ela está correndo. Mas ao invés de buscar o marido, ela está esperando por ele. – Lieg disse.

– Acho arrogância também. É como se ela dissesse que temos de provar que somos dignos. – Boesh assentiu.

– Mas pense por outro lado. Quando é que você teria a chance de se casar com uma princesa? Nós homens só podemos sonhar com conseguir postos mais altos e outros títulos com nosso próprio trabalho. Apenas as mulheres sobem na hierarquia se casando. É uma chance única. – Nikolaus soltou. Os demais pensaram e tiveram de concordar.

– Mas ainda assim. Não estou seguro. E se ela for... Irritante? Esnobe?

– Convivemos com pessoas assim o tempo todo. – Mikkel rebateu. – Acho que precisamos dar uma chance. Afinal ela pode estar apenas querendo ter a escolha de um “marido perfeito”, ao invés de ser entregue a qualquer um.

– Quem não quer? – Lieg e Boesh riram.

A filha do taverneiro os alcançou.

– Aqui estão, rapazes. Suas bebidas e as sopas. – ela se inclinou, deixando o decote abaixar até que Mikkel corasse. Desviou o olhar, embora o cocheiro ao seu lado tenha ficado petrificado, olhando-a descaradamente. A moça não se importou, talvez fizesse de propósito. – Boa refeição. Caso precisar é só chamar.

Quando se afastou o suficiente, Lieg e Boesh suspiraram.

– Eu adoro o sotaque camponês. – Lieg olhou de soslaio para a moça, que, embora vestisse roupas surradas, tinha lindas maçãs rosadas e lábios grossos, naturalmente avermelhados, e os cabelos louros escorridos como ouro derretido, contornando seu rosto em formato de coração.

– Seria muito bonita, se estivesse em um vestido descente, com os cabelos presos e as espinhas escondidas. – Boesh concordou, embora não estivesse olhando para a garota, mas sim para sua bebida. – Vamos apostar quem bebe mais rápido?

Lieg o olhou.

– Não. Eu nunca bebo. Não normalmente.

– Também não bebo. Mas é a primeira vez que tenho a oportunidade. Quer desperdiçá-la?

Lieg pensou e por fim sorriu.

Entretanto, antes de virarem os copos, a mesa explodiu pelos ares, a taverna silenciou e o cheiro de vinho cresceu pelas roupas de Mikkel. Notou que estava ensopado, com legumes grudados no cabelo e caindo da cadeira. No chão, olhou para cima, para quem havia derrubado tudo. Os olhos se voltavam para Belshoff, o silencioso rapaz com o livro, o que parecia apavorado com a idéia de estar em um coche com desconhecidos. Belshoff estava vermelho. Em suas mãos, o copo de vinho derramava a bebida, o mel escorrendo lentamente. Ele ofegava, veias soltavam de seu pescoço e testa, estava em frenesi.

Alguém tentou detê-lo, porém Belshoff notou e atirou o punho fechado para a direção de suas costas, fazendo o taverneiro desmaiar imediatamente, caído atrás do balcão. A moça gritou e foi em direção a seu pai, desesperada, entretanto Belshoff não permitiu, saltando o balcão e se colocando a sua frente.

– Ousam me tocar? – gargalhou, maléfico. – Ousam me tocar?

A garota recuou.

No mesmo instante, o cocheiro se jogou sobre o balcão e colocou os braços ao redor da garganta de Belshoff, impedindo-o de falar ou respirar. O rapaz se debateu, tentando jogar os cotovelos contra o homem, porém ele era magro e se esquivava com facilidade. Quando Belshoff já estava por conseguir se livrar, a moça explodiu uma garrafa contra sua cabeça e ele apagou no ato. Ela ofegava e a taverna estava vazia, com exceção deles. Mikkel não notou quando todos haviam fugido, mas fizeram bem.

– Pai! Oh, pai... – a donzela se ajoelhou ao lado do corpo inerte do homem.

O cocheiro soltou Belshoff e respirou fundo, ajoelhando-se também. Tocou a garganta do homem desmaiado e sorriu levemente.

– Está bem. Somente inconsciente. Logo ele acordará.

A garota assentiu, grata.

– Nunca tivemos uma briga tão feia antes. – ela suspirou – Meu pai cuida dos negócios desde que era um bebê. Eu nunca o vi tão calmo diante de uma confusão.

– Com o tempo, se aprende a cuidar de bêbados. – o cocheiro olhou para seu encarregado. Bufou, erguendo-o por cima do balcão. – Vocês, garotos, me ajudem a levá-lo para o coche. Devemos partir imediatamente. Antes que ele acorde e cause mais confusão. Nos perdoe pelos danos sofridos, o castelo e a família real irão pagar por tudo.

A moça assentiu, e continuou a cuidar de seu pai, enquanto Mikkel e os demais cada um segurou um membro de Belshoff e o levavam até o coche. Por fim, tiveram de colocá-lo deitado no chão, onde poderia dormir inconsciente de sua condição. Nikolaus não demonstrou surpresa, entretanto os outros estavam eufóricos e juntos comentaram os efeitos do álcool.

– Por isso meu pai nunca me permitiu beber mais do que ele mesmo podia agüentar. – Mikkel disse. – Um homem deve conhecer seu limite.

– Estranho, pois era o primeiro copo e ele nem mesmo parecia ter bebido.

– Talvez o cheiro do álcool o afetou – Lieg deu de ombros.

Por fim, o silencio caiu, mais suave e confortável que o primeiro. Mikkel conseguiu dormir, encostado contra a janela. Nikolaus também não tardou a adormecer e assim, a noite passou e chegaram ao castelo de Overath, quase duas horas da manhã. Mikkel foi acordado pelo toque suave de Boesh. Entregaram as bagagens aos servos e conheceram seus quartos. Quando pôde finalmente tomar banho, Mikkel agradeceu por se livrar do cheiro de vinho e da sensação grudenta na pele. Pela manhã, conheceriam a princesa, por quem lutariam. Talvez Lieg e Boesh tivessem razão e ela fosse insuportável. Ou Nikolaus poderia estar certo e tudo o que tinham de fazer era dar uma chance a ela. Em sua intriga, Mikkel adormeceu e não sonhou.

Notas finais
Não deu para fazer o banner do Mikkel, mas já estou terminando o próximo capítulo, ou seja, hoje ou amanhã eu posto para vocês! ^^ Beijos.