The Apocalypse
6 Don't You Forget About Me
Notas iniciais
6
Não estava conseguindo dormir. A discussão entre mim e Carl não saia da minha cabeça. Ele tinha agido como um babaca. Virei a cabeça no travesseiro e tentei dormir, não obtivendo sucesso.
Desisti e acabei decidindo dar uma volta pela prisão, fora do bloco de celas. Antes de ir, fui até onde Rick guardava as armas e peguei uma pistola, só por precaução.
Sai do bloco de celas e sentei no gramado, admirando como tudo parecia mais silencioso e calmo durante a noite, mesmo com os mortos. Encarei a cerca e os mortos. Pensava em como teria sido suas vidas se tivessem sobrevivido a isso. Se esse apocalipse não existisse.
Ouvi passos atrás de mim e sem hesitar, puxei a arma, me levantei da grama e apontei para a figura envolta pela noite atrás de mim. O garoto com o chapéu me olhava com cara de descrença, como se não acreditasse que poderia puxar o gatilho.
— Você vai atirar em mim ?- perguntou ele, arqueando uma sombrancelha.
Ignorei – o e voltei a encarar a cerca em silêncio. Ele sentou ao meu lado e encarou a cerca também.
— Me desculpe por hoje. Acho que eu exagerei. – falou ele, dando um fim no silêncio.
— Eu tenho certeza. – falei, deixando meus pensamentos ganharem voz. – Me desculpe, também agi errado.
Ficamos em silêncio mais um pouco.
— O que seu pai disse quando você contou sobre Carol ?
— Como sabe que eu contei pra ele ?
— Do jeito que você discutiu comigo, até parece que não contaria.
— Disse que iria conversar com ela. – falou. – Sabe acho que não fiquei tão irritado por ela não ter contado ao meu pai, mas sim por você não ter concordado comigo. Você é muito cabeça dura.
— Você nem sabe o quanto. – falei, me deitando na grama e admirando as estrelas. Consegui identificar o Órion, mirando seu arco e flecha no céu estrelado.
— Gosta de admirar as estrelas ? – perguntou ele, também deitando – se.
— Adoro. – falei. – Quando era pequena, quando meu pai voltava para casa, sempre me ensinava sobre as estrelas e sobre como me guiar por elas. No meu aniversário de oito anos ele me deu um telescópio.
Mais silêncio.
— Ele me contou uma história. Era sobre Ártemis, a deusa da lua, e Órion. Eles eram apaixonados. Mas o deus do sol e irmão gêmeo de Ártemis, Apolo, tinha ciúmes de seu amor. Um dia, Apolo transformou Órion em um cervo e desafiou Ártemis a acertá – lo de longe. Ela tinha matado – o, sem saber que era o seu amor.
— É uma história triste.
— Sim. Mas gostaria de viver um amor tão intenso.
— Um dia você vai viver.
— As opções no apocalipse são limitadas. – falei. – Mas de qualquer jeito, gostaria de viver amor, saber como é.
Mais uma vez em silêncio, olhei para Carl. Ele se virou para mim, com seu rosto banhado de luz da lua. Seus olhos azuis intensos brilhavam. Ele se aproximou de mim de novo e colocou a mão em meu rosto. Senti seu toque quente e não percebi o que estava fazendo até acontecer. Carl tinha me beijado. Seus lábios eram macios e viciantes. Parecia que dentro de mim, uma chama ia se acendendo, iluminando e aquecendo todo o meu corpo, de dentro pra fora.
Separamos nossos lábios, pela falta de ar. Nossas testas ainda estavam coladas e pude sentir sua respiração ofegante.
— Boa noite, Carl. – sussurei e voltei para o bloco de celas, me sentindo mais feliz do que nunca.
(…)
Acordei cedo e parecia que o dia estava sorrindo pra mim. Fui direto para o bloco da administração, para cuidar das crianças. Cheguei lá e dei de cara com Mika.
— Oi. – disse ela sorrindo. – Minha irmã está bem ?
— Não pude vê – la hoje. Mas tenho certeza de que ela está. Mas, o que você quer fazer ? Posso fazer um penteado no seu cabelo se quiser.
— Seria legal. – falou ela, animada.
Passei o dia fazendo penteados em Mika e Molly e lendo o livro ‘A Invenção de Hugo Cabret’ para entreter as crianças. Na hora do jantar, todas foram comer e eu voltei para minha cela para pegar meu Ipod.
Entrei na cela e Carl estava lá, vendo as músicas nele. Percebi que o fone não estava conectado e ele achava que estava. O esperto não descobriu isso até ouvir o começo da música 21 Guns do Green Day tocar a todo volume. Ele tentou desligá – lo e, depois de algumas tentativas, conseguiu.
Tentei segurar a risada, mas ele conseguiu me ouvir.
— Está se divertindo ? – perguntou ele, com uma falsa irritação.
— Muito. – falei rindo. Adentrei na cela. – O que está fazendo ?
— Ouvindo música.
— Eu quis dizer na minha cela.
— Uh… Eu precisava te ver. – falou ele, olhando para o chão.
— Pode falar.
— Não vou falar. – disse ele, se aproximando de mim.
— Então o que é ?
— Isso.
Ele mostrou uma sacola branca com algo dentro. Abri – a e tinha um colar com pingente de uma granada, o símbolo do Green Day. Minha boca formou um completo ‘O’ e um grande sorriso estampou minha cara.
— Como você descobriu que eu gosto dessa banda ?
— Seu Ipod. – falou ele. – Há uma semana tinha fuçado nele e vi que tinha várias músicas da banda e eu tinha ganhado isso da Michonne já faz um tempo e achei que talvez…
Ele foi cortado pois o abraço que planejei dar o derrubou. Ele caiu no chão e eu cai em cima dele, a centímetros de seu rosto. Num movimento involuntário, dei um selinho rápido nele, me surpreendendo com isso
— Desculpa, eu não queria fazer isso. – falei, me levantando. Limpei minhas roupas, que estavam sujas de pó, com minhas mãos. Sabia que meu rosto estava corado e olhava para o chão, tentando achar maneiras disfarçadas de abrir um buraco para me esconder. – Olha sobre outro dia, nós podemos esquecer, se você quiser.
— Emily, eu não quero esquecer.
Ele colocou a mão em meu queixo, me fazendo olhar para ele. Seus lábios vieram de encontro aos meus e diferente do último beijo, era desesperador. Eu precisava dele e parecia que não existia zumbis ou doença, somente nós dois.
Até ouvirmos tiros.
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