That Kind of Girl

1 That Kind of Girl


Notas iniciais
Olá, pessoas lindas!!! ;D Bom, eu estava com essa one-shot há mais de uma semana no computador e com preguiça de revisá-la e postar, mas achei que hoje era um bom momento para isso. Espero que gostem! ♥

Há algo estranhamente cruel sobre ser uma garota. Ao menos, em uma sociedade patriarcal. Em um mundo de homens e feito para homens, mulheres são oprimidas desde o berço – até mesmo antes – e, desde a tenra infância, são ensinadas a odiar a si mesmas e a outras mulheres. Não é algo consciente, mas cresce dentro delas como um câncer, consumindo suas autoestimas e relações pessoais, transformando em inimiga monstruosa quem deveria ser aliada.

É difícil fugir dessa norma até mesmo para aquelas que tanto se orgulham de, bom, fugir da norma de um modo geral. Nymphadora Tonks – ops, acho que deveria ser apenas Tonks, certo? – era parte dessa equação. Ela não era uma garota convencional e se orgulhava bastante disso. Após ter anos de sua vida consumidos pela educação tóxica e misógina da Mui Antiga e Nobre Casa dos Black, Andrômeda decidira criar sua filha de um modo diferente. A mulher, afinal, não queria uma marionete bela, muda e obediente como um dia fora – como Narcissa ainda era –, sua menina deveria ser mais. Merecia ser mais.

Sendo assim, Tonks cresceu com a noção de que poderia ser quem quisesse ser e que seu gênero não deveria ser uma limitação. Com a rebeldia estampada em cada um de seus gestos, o senso de humor contagiante e uma energia vibrante e moleca, a garota conquistou seu lugar em um mundo de homens. Conquistou também o título de “garota legal”, aquela que corria entre os rapazes, falava palavrões e não tinha frescuras. Tonks era uma garota legal, era uma metamorfomaga, era uma auror e, apesar de sua tendência a causar desastres, tinha os pés bem fixos ao chão, sempre percebendo as injustiças e lutando contra elas.

E então havia Fleur Delacour. Pele de porcelana, bochechas coradas, cabelos prateados, sangue veela correndo por suas veias imaculadas. Feminina, no sentido mais imbecil da palavra, do fio de cabelo aos saltos altos nos pés. O tipo de garota que se adequava a todos os estúpidos padrões de gênero. O tipo de garota que Tonks não queria ser – ou Ginny, ou Hermione. Às vezes, Nymphadora até mesmo se questionava o que Bill, que ela conhecia desde sempre, havia visto naquela cabeça oca Bom, além de sua beleza sobrenatural, é claro.

Sendo assim, seria um eufemismo dizer que Tonks não gostara de Fleur quando a conhecera. Seus instintos equivocados e levemente preconceituosos, somadas às opiniões nada amáveis de Ginny e da senhora Weasley – duas mulheres que ela amava e admirava – sobre “a vaca superficial” que Bill trouxera para casa só poderiam resultar em desastre. Além disso, para ser honesta, a francesa também não gostara exatamente da metamorfomaga quando a conhecera e, como pessoa de uma sinceridade irritante, não fez qualquer tentativa de escondê-lo. Se a vida fizesse algum sentido, tudo isso só poderia resultar em calamidade.

No entanto, a vida não segue qualquer lógica e quando há uma guerra a caminho tudo se torna ainda mais estranho. Dessa forma, em algum ponto aquelas duas mulheres improváveis acabaram desenvolvendo uma amizade ainda mais improvável. Tonks lembrava-se do momento exato em que entendera que Fleur não era nada do que ela imaginara.

Fora uma noite estressante e dolorosa, uma batalha se estendera em Hogwarts, Dumbledore estava morto e Bill jazia desfigurado em uma cama, após ter sido atacado por Ferrir Greyback. A francesa estava parada na enfermaria de Hogwarts, furiosa, lágrimas marcando seu rosto bonito, enquanto gritava com a senhora Weasley:

— A senhor pensô qu eu non ia querer casarr com el’? U err’ esse a sua esperrance? Qu me importe a aparênce del? Ache qu sou bastante bonite porr nós dois! Todes esses marcas mostram qu me marride é corajose!

Naquele instante, todos os pré-conceitos de Tonks caíram por terra e tudo o que ela conseguia enxergar era uma mulher corajosa que lutaria até o fim do mundo pelo homem que amava e pelo amor dos dois. Uma mulher mais corajosa do que ela. De algum modo, aquilo a inspirou, fez seu sangue ferver, a tomou de fúria e paixão a ponto de se ver dizendo em completa exaustão:

— Está vendo! Ela ainda quer casar com Bill, mesmo que ele tenha sido mordido! Ela não se importa!

— É diferente — respondeu Lupin, quase sem mover os lábios, parecendo subitamente tenso. — Bill não será um lobisomem típico. Os casos são completamente diferentes...

— Mas eu também não me importo, nem um pouco! — retrucou, agarrando Remus pela frente das vestes e sacudindo-o. — Já lhe disse isso um milhão de vezes.

O homem continuou a lhe dar justificativas estapafúrdias e enumerar razões patéticas para que não pudessem ficar juntos, a enfurecendo ainda mais. Eles estavam oficialmente em guerra, poderiam morrer a qualquer instante e se amavam. Deveriam, portanto, ficar juntos enquanto podiam, qualquer outra coisa era completa e total insanidade.

Como se conseguisse ler seus pensamentos, Fleur, que na virada mais bizarra do destino soluçava nos ombros da sogra, ergueu brevemente o rosto manchado por lágrimas e lhe enviou o mais sincero dos sorrisos tristes. Um sorriso que dizia que entendia, que ela estava certa e que homens eram mesmo idiotas, mas que tudo ficaria bem. Um sorriso que dizia “eu me vejo em você”. E Tonks sorriu de volta.

Não poderia imaginar, entretanto, que aquilo seria o começo de alguma coisa, porque, bom, ser mordido por um lobisomem acabou tornando Bill e Remus extremamente próximos, o que evidentemente forçou as duas mulheres a conviverem com certa frequência. Diferentemente do que a metamorfomaga poderia ter imaginado em algum outro momento, não foi uma experiência ruim.

Fleur era, de fato, uma pessoa difícil, mas possuía uma série de qualidades escondidas e poderia ser uma amiga incrível. Além disso, Tonks acabou percebendo que as duas tinham bastante em comum. Ambas compartilhavam um senso muito forte de lealdade, a personalidade forte e a tendência a se rebelar, afinal, em um nível ou outro, fora algo que as duas tinham feito durante toda sua vida.

Porque Tonks havia ido contra qualquer ideia que lhe parecia absurda, arcaica ou opressora desde que se conhecia por gente e Fleur, apesar da aparência de flor delicada, havia sido a representante de sua escola em um torneio mortal, havia deixado o conforto do seu lar – e do seu país! – para se mudar para uma Inglaterra em guerra, havia entrado para Ordem da Fênix, havia se comportado, desde muito cedo, como bem queria sem se preocupar com as opiniões alheias. E, no fim, tudo aquilo exigia uma grande dose de coragem e de descontentamento com os padrões que lhe foram socialmente impostos.

Sendo assim, uma combinação de tempos de trevas, licantropia e rebeldia feminina as levara àquele ponto. O ponto em que se diziam amigas, o ponto em que confiavam uma na outra, o ponto em que sabiam que havia um ombro disponível caso precisassem.

Então, não, Nymphadora Tonks nunca havia imaginado que alguém como Fleur Delacour se tonaria sua amiga, mas enquanto a francesa lhe oferecia consolo e ouvia seus lamentos, ela só conseguia sentir-se grata por todos seus pré-julgamentos estarem completamente equivocados .

Notas finais
Eu realmente acho que Fleur e Tonks acabaram amigas e esse é um dos meus headcanons favoritos. Espero que tenham gostado! ♥ Beijinhos... Thaís
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!