Capítulo 1 "Paris, 2013. Dia 1. Hoje acordei e me senti uma criança novamente por estar escrevendo um diário. Por que estou fazendo isso eu não sei, mas por algum motivo me deu vontade, então foda-se." Escrevi num pequeno caderno de capa roxa lisa, ainda de baixo do cobertor bagunçado, que cheirava a álcool. — Quer saber ? Pra que essa merda?! E joguei mais uma vez as consultas à psicóloga no lixo. Saí por meu apartamento e vi minhas roupas espalhadas ao longo dos corredores, algo que já era comum por sempre chegar em casa igual a um zumbi e não tinha paciência para arrumar tudo nesses dias... Na verdade não tinha paciência pra arrumar nada. Nunca. Eram quase 11 da manhã, mas parecia que não havia dormido nada; meu corpo estava mole, fraco, como nunca havia sentido antes. Só queria saber o que havia acontecido na noite passada. Como trabalhava numa pizzaria, meu turno só começava às 17h. Então tomei coragem, botei minha calça jeans, agarrei a vassoura e fui tentar limpar a casa. Ao menos esse ato de coragem de me aventurar pela selva de roupas sujas e caixas de cigarro e cerveja que estavam por toda parte. Me sentia uma camareira. Dobrando cobertores, juntando as caixinhas em sacolas, espanando minhas estatuetas das peças de xadrez. Pra ficar menos chato, peguei meu iPod e pus no volume máximo, e continuei minha arrumação sem camisa em meu apartamento. De repente, senti uma mão pesada agarrando meu ombro. Achei que era meu irmão, que morava junto comigo. Virei-me lentamente, já esperando a bronca que me daria pelas caixas de cigarro e de cerveja... -Não grite ou costuro sua boca. Não era meu irmão. Era um homem com um pano retorcido que cobria seu rosto. Ficamos nós entreolhando por alguns segundos, e ele lentamente tirou a mão enquanto mantinha o olhar frio. De alguma forma, aquele par de olhos mais escuros que o céu da noite parisiense me mantiveram estagnado. -Onde está seu irmão ? -C.. Como você sabe que tenho um irmão? -Isso não interessa, Ralph. Cadê o seu irmão?! — disse o homem enquanto me ergueu no ar pelo pescoço. -Olha, eu não sou babá dele, não sei aonde ele ta!! O estranho homem me soltou e saiu rápido e sorrateiro, assim como entrou. Pensei por alguns minutos como ele sabia tudo aquilo... E como ele havia entrado no prédio e subido até a cobertura sem ser barrado pelo porteiro ou os funcionários? Ah, isso não importa. Só vou ter que ter uma conversa séria com meu irmão pra ele me apresentar esses amigos dele. Capítulo 2 Me deu preguiça de levar o lixo, então simplesmente fiz ele pegar fogo. Sim, pegar fogo sozinho. Acha mesmo que um garçom de uma pizzaria viveria numa cobertura de luxo em Paris sem um pouco de magia negra? Apenas os tolos acreditam que as bruxas desapareceram na idade média; nós apenas aprendemos a ser mais discretos. Apenas um dos filhos de uma bruxa pode se tornar um feiticeiro ou uma bruxa, começando pelo primogênito. Após isto, existem diversos eventos do mundo mortal que podem transferir os dons para o próximo irmão. Geralmente são surtos psicóticos ou exposição dos poderes que causam o transferimento, dentre outras razões... Mamãe nunca me disse o que aconteceu com Keith. Mas enfim, o lado bom disso tudo é que adquiri a pirocinese do meu irmão, e meu dom natural da manipulação de riquezas proporcionou uma vida tranqüila pra mim e pro meu irmão depois que nossa mãe, Jena, foi assassinada aqui em Paris. Terminei de me arrumar e saí para almoçar depois de queimar o lixo. As ruas estavam normais, e o vento frio cortava por entre as roupas me fazendo tremer um pouco, mas ainda assim parei num restaurante no quarteirão seguinte. O dono do restaurante, Marconi, sempre foi um amigo da nossa família, e sempre gostava de fazer agrados para mim e pro Keith, que freqüentávamos o restaurante desde crianças. -Seu Marconi!!! Como vai? -Ralph meu pequeno — ele dizia com aquele sotaque aquele italiano — quanto tempo, ya? Aonde está Keith, aquele feioso? Hohoho! -Haha, quem dera eu soubesse... Então, qual o prato do dia? — Ya ya! Tenho algo especial para você ! Hohoho! Espere um instante ! E então ele adentrou na cozinha como de costume, ajeitando o cinto apertado na sua enorme barriga. Estava nas mesas do lado de fora, pois gosto de ficar observando as pessoas na rua e eventualmente me divertir um pouco, fazendo as coisas pegarem fogo, fazer outras perderem dinheiro... Poucos minutos depois, Marconi abriu a porta com um chute forte, que fez o sininho quase cair. Ele andava meio torto, mas imaginei que fosse por causa do prato coberto que carregava na mão esquerda. — Ya ya ya! Esse macarrão é uma receita de família, que não vendo aqui no restaurante, e é seu, por conta da casa — ele disse com um sorriso meio torto. Ele era um amigo muito antigo da família, não iria recusar só por que desconfiava de um sorriso. No final tava bom pra caralho. Continuei na mesa do restaurante, que estava vazio até mais ou menos 4:30, hora de ir pro trabalho. Minha mente continuava intrigada por aqueles olhos medonhos e sedutores que me prenderam como correntes. Peguei o metrô até a pizzaria, aonde provavelmente meu chefe iria me importunar mais uma vez e reclamar de como eu encaixotava as pizzas para entrega. -Ralph! Atrasado como sempre... — disse Marco, meu chefe filho da puta. -Chefe, eu já estou aqui e são 15 minutos antes do meu horário. Não estou com muita paciência hoje. Por uma vez na vida, aquele velho entendeu que realmente não queria que me enchessem o saco. Fiquei no caixa, sozinho, esperando as horas passarem. Como não tinha nenhum cliente, fui tentar ligar pro meu irmão novamente. Caixa postal. — Ei, preguiçoso, tem um pedido pra ser entregue. Pode levar lá ? Disse Marco, um pouco menos arrogante do que o usual. Enfim, peguei o capacete e fui fazer a entrega das pizzas. Era um endereço muito estranho, levei quase 40 minutos pra chegar no tal prédio, que por sinal não tinha porteiro nem nenhuma segurança. Subi tranqüilamente até o 6º andar, e toquei a campainha. -Quem é? -Pizzaria Montenello, entrega das pizzas, senhor. Enquanto o homem destravava as incontáveis fechaduras, eu me distraí e comecei a olhar pras pinturas que se encontravam logo na saída do elevador. Quando vi que a porta se abria, retornei a atenção à ela, mas antes que pudesse ver qualquer coisa, fui atingido na cabeça por alguma coisa de plástico e senti meu braço sendo puxado para dentro do apartamento. Capítulo 3 Não sei se se passaram somente algumas horas ou se foram dias; sei que acordei no meu apartamento, tudo impecavelmente limpo e organizado, como eu havia deixado. Levantei-me e percebi que estava nu e meio tonto, mas sai assim mesmo do quarto. Fui diretamente para a cozinha e tomei dois um três copos D'água e comecei a ouvir uns barulhos no quarto do Keith, e fui ver o que tinha lá. Abri a porta lentamente e encontrei meu irmão deitado de lado, todo coberto, e um outro cara com as costas descobertas e nuas, de bruços. -Haha, é uma vadia mesmo. Meu irmão nunca conseguia manter um relacionamento saudável com alguém. Tinham algumas semanas que um dia novo significava um cara novo lá em casa. E o pior é que ele não aprende. Desde que perdeu os poderes, já fomos roubados quatro vezes por causa desses troca-trocas dele. Como era sábado, preparei meu café da manhã e subi para a cobertura para aproveitar o vento fresco da manhã. Na verdade, não sei por que preparei meu café da manhã. Não comi mesmo. Só fiquei olhando a cidade, segurando meus óculos a alguns centímetros do rosto. Alguns passarinhos eventualmente pousavam na mesa pra beliscar meu sanduíche, até que empurrei um pouco o prato e dois ou três começaram a bicar e piar, como se estivessem agradecendo, até que ouvi alguns passos irregulares subindo as escadas

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.